Artigos
Contos
Entrevistas
Opiniões
Pesquisa
Poemas
Mapa do site
 

 

APLAUDINDO A GRANDE MESTRA

 

Adylla Rabello*

Falar sobre uma amiga torna-se difícil por dois motivos. Primeiramente, pelo afeto, corre-se o risco de construir um discurso panegírico e, segundo, por conta desse sentimento, até omitir dados importantes de valor pessoal e intelectual. Contudo, consigo descartar esses vieses e descrever, livremente, a amiga, a mestra rigorosa e intelectual de renome: Sônia van Dijck.
Conheci-a no Curso de Letras da Universidade Federal da Paraíba no começo dos anos 80. Uma baiana que aqui chegara e exercia a cátedra, na área de literatura brasileira, com competência e rigor. Apreciava suas aulas e, mesmo sem fazer parte da turma, quando tinha oportunidade, detinha-me na sala onde ela distribuía conhecimentos de forma singular.
Comecei ouvindo-a falar de um escritor de Palmares-PE, que se tornara grande na literatura e dramaturgia brasileira: Hermilo Borba Filho. Seu entusiasmo crescente em torno da obra hermiliana levou-a a adotá-la como corpus de seus estudos nos cursos de Mestrado (UFPB) e Doutorado (USP), ambos à luz da gênese da escritura. Os resultados, atingindo a nota máxima, mereceram ser transformados em livros.
O primeiro, intitulado Um Cavalheiro da Segunda Decadência (1980) e, no outro decênio, lançou Gênese de uma poética da transtextualidade (1993), ambos merecendo os aplausos da crítica especializada. Longe de abandonar a maiúscula paixão, a professora ainda escreveu outros textos, de menor porte, sobre Hermilo e se compraz falando sobre o ilustre pernambucano.
Adotando a Paraíba no seu passaporte, com experiência profissional e brilhante currículo, além de enriquecer o corpo docente da UFPB, dedicou-se ao estudo de autores paraibanos.
Preocupada com a riqueza do arquivo do patrono da FUNESC, criou o projeto "Ateliê de José Lins do Rego", em que, com o auxílio do CNPq, passou a organizar o acervo, ao lado de alguns estudantes e professores criou o arquivo à luz da Crítica Genética - a mais nova linha de pesquisa, aqui trazida por ela - conseguiu compor a edição genética de Meus verdes anos, em que Zélins, em tom memorialístico, conta sua história.
Mas o que motivou este discurso sobre a professora? É que na última sexta-feira (22), com sucesso pleno, lançou um novo estudo. Desta feita, sem diminuir o carinho com os antecessores, adentrou nas veredas de Guimarães Rosa e transformou em livro, uma conferência que pronunciara na Universidade Federal de Minas Gerais (2002), sob o título Escritura de Sagarana. Acompanhado de um CD que permite uma visão mais completa da obra, nos moldes atuais, promove, além de uma leitura de prazer o ensinamento de um autor que, embora em breve trânsito pela vida, ousou apostar no efêmero das palavras.
Construindo narrativas encantatórias, Guimarães Rosa, desprovido do medo da rigidez vocabular, assinou uma obra que continua florescendo nos interesse de pesquisadores e leitores. Além da farta matéria prima nos manuscritos, que permitem desvendar certos mistérios da criação, como bem fez Sônia esmerilhando os secretos caminhos de Sagarana, sem perder de vista a superfície poética.

 

Publicado in: A semana, João Pessoa, ano 5. n. 218, 23-29 ago. 2003, p. 21.

 

* Adylla Rocha Rabello tem mestrado em Letras, é pesquisadora, tem livros, trabalhos em Anais de eventos e artigos em periódicos e é membro da Academia Paraibana de Letras.

VOLTAR OPINIÕES

© Copyright by Adylla Rocha Rabello, 2003

Midi: Chopin

Artigos
Contos
Entrevistas
Opiniões
Pesquisa
Poemas
HOME