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A escolhida - Banho turco - Canção para lembrar de mim - Da Cartilha para os livros de gente grande - Fotografias -

O tempo perdido - Poderia ter acontecido em Dublin - Quasímodo perdeu a ternura - Shopping dos Milagres -Travessia - Uma mesa perto da arrebentação

 

O Á L B U M

SÔNIA van DIJCK

Levou enorme susto ao abrir a porta e encontrar a sala completamente em desordem. Gavetas no chão. Uma cadeira virada. Um abat-jour dentro de uma caixa sobre a mesinha de centro. Outra caixa fechada em cima do tapete. A cara assustada da empregada tranqüilizou-a por uma fração de segundo: pelo menos, não eram ladrões.
- Não pude fazer nada, dona Solange... Ele foi entrando...
- De que diabo você está falando? O que está acontecendo?
- É o doutor Carlos. Agora, está lá no quarto.
- Mas que diabo está havendo? – pensou, entre dois passos até a porta do quarto.
A cena era inacreditável: Carlos em mangas de camisa, pois jogara o paletó em cima da cama, estava na escadinha de serviço, revirando o maleiro do guarda-roupa. Toalhas, lençóis, fronhas, espalhados pelo chão, enquanto ele atirava algumas peças dentro de uma mala aberta junto da escada. De olhos arregalados, Solange ouviu:
- Está pensando o quê?... toda essa roupa de cama não vai ficar pra qualquer um se deitar com ela... ah! isso não vai, não! Levo o que comprei de melhor nesses anos todos; não vou deixar pro primeiro descarado aproveitador que aparecer.
Os olhos de Solange passaram da mala para o caos instaurado no chão.
- É mesmo uma merda! Ele está tirando peças dos conjuntos como se fossem independentes. É muita burrice! Vou gastar uma nota preta para refazer a roupa de cama e de banho. – pensou, enquanto recuava em direção à copa, onde a empregada já estava refugiada.
Não haveria segurança se desafiasse a fúria confiscatória de Carlos. Teria mesmo que comprar tudo outra vez; daria as peças descasadas para a empregada. Por que não trocara a chave do apartamento? Logo após terem assinado a separação, quando Carlos apareceu para pegar suas últimas coisas que lá ficaram esperando que ele saísse do hotel para seu próprio apartamento, deveria ter trocado a fechadura. Pedir a chave da porta de entrada... nem pensar - alguma coisa no jeito de Carlos informava que ele jamais aceitaria de bom grado aquele pedido. Já havia sido difícil ele aceitar a separação. Via-se agora como uma estúpida displicente; pensara na história de trocar a fechadura um milhão de vezes nesses últimos seis meses; uma coisa hoje, outra amanhã...
- Na próxima semana, chamo um homem para fazer o serviço. – planejava sempre.
E o tempo foi passando. E, agora, esse desmantelo, que lhe daria uma despesa não pensada, para organizar tudo outra vez: novo abat-jour para o canto da sala, novos conjuntos de cama e de banho. Em direção à copa, notou que o armário de copos e taças estava aberto; só então se deu conta de que estava desfalcado; voltou-se para a caixa fechada no meio da sala de jantar, em cima do tapete:
- Tomara que tudo se quebre. – pensou, quase que em forma de oração.
Ele deve ter escutado alguma fofoca. Alguém contou sobre Eduardo, que, aliás, ainda nem dormiu no apartamento – concluiu, em rápida avaliação.
Ela vinha preferindo, graças às suítes incrementadas dos motéis, adiar a noite seguida do café da manhã em casa.
Desfigurado, suado, descabelado, Carlos assomou à porta da copa. Queria mandar a empregada pedir, pelo interfone, algum funcionário da segurança para ajudar com a mala e as caixas. Quando viu Solange sentada à mesa, deixou a ordem para depois; preferiu, primeiro, vomitar meia dúzia de impropérios, do tipo “Está pensando o quê? que seu amante vai se espojar nos lençóis que eu comprei? que vai se enxugar, depois da trepada, nas melhores toalhas? Está pensando que ele vai tomar vinho nas taças que me custaram uma fortuna? Pois você que compre um abat-jour barato, para iluminar a descaração lá na sala, e lençóis finos pra quando for trepar com ele.” E mais um monte de coisas, cuja maior significação Solange encontrava no reconhecimento da distância entre esse homem tão inutilmente colérico e Eduardo, sempre racional, comedido, gentil e tolerante diante de suas fraquezas e adiamentos.
Foram três anos de medos e dúvidas antes da separação. Eduardo, pacientemente, havia esperado. Ela havia dito a Carlos apenas que a relação deles não fazia mais sentido; que ambos haviam mudado; eram, então, dois desconhecidos; que ele vinha preferindo cada vez mais seus compromissos profissionais a uma vida pessoal e afetiva. E ainda conseguiu engendrar mais alguns ressentimentos, sem dar qualquer pista de que havia outro que a encantava com versos, lua, canções e muito carinho. Mas, parece que ele, agora, já sabia qualquer coisa. Teve vontade de dizer que ele podia fazer a mudança completa, levar tudo. Estava plena da certeza de uma grande paixão, de muito carinho. O apartamento poderia ficar vazio; compraria tudo outra vez. Bem que podia comprar tudo novo. Mas, antes, até que poderiam fazer amor no chão, e Eduardo faria alguma piada acerca do banho sem toalha, e os dois dariam boas risadas, enquanto se secassem com algum pano de prato não confiscado por ter custado quase nada.

Advertida pelo barulho da porta, levantou-se para conferir o saque. Mandaria mudar a fechadura imediatamente; não adiaria mais um dia. Mas, antes era preciso ver o que restara no quarto.
O álbum de casamento estava no chão, ao lado da mesa de cabeceira que fora dele. As imagens congeladas estavam num passado que, de tão distante, lhe parecia estranho.
- Para que guardar isso? Vou dar um fim. Na lixeira do prédio, pode dar falatório.
Antes de fechar o guarda-roupa, que Carlos deixara aberto, olhou-se no espelho da porta: estava em ordem. Pegou o álbum, grande, pesado, capa de muito luxo (Carlos sempre gostava de aparência grandiosa) para colocar na mala do carro. A caminho do chaveiro, jogaria numa caçamba de recolher lixo na rua.
Não reparou em nenhuma caçamba no caminho. Estava distraída? Bobagem. Jogaria fora amanhã. Agora, era hora de resolver a questão da chave, para evitar outros ataques. Nem queria pensar se, um dia desses, Eduardo estivesse lá e Carlos abrisse a porta... Precisava avisar à administração que Carlos não morava mais no apartamento - e lá ia sua vida particular para a boca dos funcionários do condomínio - fazer o quê?... Já deviam ter notado que o Dr. Carlos não entrava mais na garagem no fim do dia e nem nas madrugadas.

E lá foi ficando o álbum na mala do carro, porque estava com pressa, porque não podia parar no cruzamento, porque estava esquecida daquela bagagem do passado.

Eduardo queria uma lua-de-mel em grande estilo. Veneza, Roma, Paris, Lisboa, Coimbra, Amsterdam, Londres... Foi tirar o passaporte. Ao sair do carro, no estacionamento da Polícia Federal, viu, do outro lado, o container, e o álbum foi fazer companhia àquela variedade de copinhos, restos de comida, guardanapos, papéis amarrotados, sacos plásticos embalando lixos impensáveis... ou impronunciáveis...

O Velho Mundo lhe pareceu renovado e descobriu passeios e bares românticos. Nada como uma paixão! muito carinho! E os vinhos, com mil votos de namorados... E os molhos afrodisíacos, com certeza, pois a volta ao hotel sempre era apressada...

- É dona Solange de Castro?
- Sim! quem está falando?
- Aqui é o agente Figueiredo, da Polícia Federal. É que foi encontrado em um container um álbum de casamento que pertence à senhora.
Um frio percorreu a espinha de Solange. Quando voltou da Europa, foi jantar na casa de sua mãe; ficou sabendo que recebera a visita de um enxerido. Pensou que o assunto estivesse esquecido, com a Polícia Federal tendo tantos casos para investigar, e tendo sua mãe explicado que ela não tinha interesse em recuperar o tal álbum, mas preferindo silenciar sobre seu novo casamento.
- E daí? Por que o senhor está me ligando?
- Para devolver o álbum à senhora. Conseguimos identificar o fotógrafo pelo adesivo colado na última capa. Daí para o atual endereço dele foi fácil, através da investigação dos alvarás desse tipo de empresa. Ele se lembrou do casamento da senhora, quando viu o álbum; parece que era ou é amigo de sua família, porque nos deu imediatamente o endereço de sua mãe, que é, aliás, uma senhora muito simpática e até me serviu cafezinho. Pois então, dona Solange, foi a mãe da senhora quem me deu seu telefone. Já liguei várias vezes; depois, verificamos que a senhora estava no estrangeiro. Ontem, ficamos sabendo que havia voltado na semana passada. Por isso, estou ligando hoje.
Difícil explicar para o eficiente araponga que não queria mais relação com aquele passado. Melhor ser direta:
- E daí? Eu não quero esse álbum. Fui eu que joguei no lixo. O casamento que está nesse álbum já se acabou faz um bom tempo.
- Nesse caso, dona Solange, a senhora poderia me fornecer o telefone de seu ex-esposo? Poderíamos entregar o álbum a ele; talvez queira guardar.
Grande merda! Como fazer aquele cretino conservador e intrometido entender que seu ex-marido havia abandonado o bendito álbum, quando lhe saqueara o apartamento?
- Lamento, mas não sei o número de meu ex-marido. Mas, o senhor poderá descobrir. Ele não tem interesse nesse álbum.
- E a senhora não tem mesmo interesse em recuperar o álbum?...
- ..................
Vontade enorme de dizer um palavrão... mas, se o imbecil interpretasse como desacato à autoridade? seria confinada numa cela com aquele álbum sobre o cimento, como se fosse a lembrança de seu hediondo crime contra os valores cristãos.
Nada de devaneios. O cara é um pulha, não entende nada. E por que diabos este sacana não vai investigar onde mora aquele saqueador de roupa de cama e banho?
- De qualquer modo, vamos deixar seu álbum guardado durante os próximos quinze dias. A senhora pode procurar no endereço que vou passar. Depois desse prazo, o material será encaminhado para incineração. Anote, por favor:
... Pra quê? Além do mais, Eduardo sairia do banho de um minuto para outro, e nem papel e lápis costumava ter na mesinha de cabeceira. Aquele agente parecia cumprir uma missão transcendental, metafísica, fenomenológica, escatológica... - Que saco!...
- Pode dizer. – E acendeu um cigarro.
............................................................
- Boa noite, senhora. Passar bem.

- Quem era? – Eduardo perguntou, com uma toalha nova enrolada na cintura.
- Era engano. Precisei explicar ao sujeito que ele havia discado o número errado, pois o assunto não tinha nada em relação a mim. Acho que não acreditou.
E começou a contar os quinze dias para o fim anunciado. Gentileza da Polícia Federal. Riu por dentro. Entregou-se ao abraço...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

© Copyright by Sônia van Dijck, 2005

Texto registrado em cartório

Publicado in: Preá. Revista de cultura, Natal, n. 10, jan.-fev. 2005, p. 47-50.

O conto brasileiro hoje. Vários autores. São Paulo: RG Editores, 2005, p. 121-128.

Midi: Bach

Imagem fundo de Stationary dreams (capturada na internet)