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Madalena, uma falsa baiana:

impressões sobre a lavagem parisiense

Alexandra Dumas*
Universidade Federal da Bahia

Num domingo, sete de setembro, movida por uma grande curiosidade, fui passear nas ruas de Paris para encontrar a tal Madalena, ela, a que chamo aqui de “falsa baiana”.
A Lavage de la Madeleine é uma tentativa de reprodução da tradicional e centenária Lavagem do Senhor do Bonfim, esta que acontece anualmente na cidade de Salvador-Bahia-Brasil. Madalena fez a sua sétima lavagem neste ano de 2008.

Depuis l'an 2000, les Parisiens ont pris l'habitude de voir défiler dans les rues, une joyeuse procession composée de Bahianaises en longue robe de dentelle blanche traditionnelle et de musiciens vêtus de blanc tous munis de fleurs et d'eau parfumée, à laquelle se joignent les badauds. Au son des chants et des percussions, le cortège se rend jusqu'à la Madeleine pour procéder au lavage des marches de l'église dans un geste de purification. Lavagem de la Madeleine", célébration à Paris du cérémonial séculaire brésilien avec le chanteur Robertinho Chaves et la fille de l'ex-ministre de la culture, Preta Gil pour un grand défilé dans les rues de Paris derrière un trio elétrico avec fête de clôture en musique autour d'une feijoada. (Trecho de um texto de divulgação da festa)

A festa francesa é uma arriscada tentativa de reproduzir a festa do Bonfim, digo arriscada pelo fato da verdadeira baiana ser tradicional e atual, repleta de nuances religiosas, musicais. Então, imagine o que deve ser a reprodução de tal complexidade.
É organizado por um santo-amarense, Roberto Chaves, que mora em Paris já há muito tempo. Para o dia da festa, o monsieur Roberto convida todos a se vestirem de branco, a trazer suas flores e água-de-cheiro. Os anúncios da festa vêm com a forte e literal referência baiana: a imagem de uma negra mulher com traje típico, uma quartinha com água-de-cheiro na cabeça e um sugestivo remelexo...
Até aí, um grande conforto e reconhecimento da familiar pátria-mãe-bahia.
Fui construindo com estas imagens o que seria o Bonfim em Paris. Acionada pela minha experiência de pesquisadora, até me preocupei antecipadamente com a frustração...
Por isso, adverti a minha percepção para evitar comparações severas com o baiano Bonfim... Logo eu, uma freqüentadora assídua do cortejo soteropolitano, baiana na típica religiosidade melangée de axés e améns, pesquisadora-completamente-participante e apaixonada por festas de ruas, barulhos, requebros e batuques do bom.
Enfim, advertências acionadas, e nacionalismo carregado fui para o “esquenta”, o Rendez-vous na Place de la Bourse. O caminho do cortejo já traz um pouco de baianidade incrustada: o cortejo do Bonfim passa em grande parte pelas ruas do bairro Comércio, a de Paris se inicia na Praça da Bolsa... Bons começos... O randevu no dicionário baianês remete ao significado de uma muvuquinha, encontro com possibilidades de diversão, bebidas e quem sabe... otras cositas más... A palavra francesa, no seu lugar de origem evoca o encontro, mas destituído deste sentido que foi impregnado nos encontros mais calorosos dos brasileiros.
Mas voilá, ou vá lá!!!
Obedeci ao comando colocado nos anúncios, e lá cheguei vestida de branco. É um pouco difícil manter a tradição no traje diante de uma temperatura mais fria. O short foi substituído por uma saia mais comprida e a camiseta pelo pulôver e, para manter a tradição, no pescoço os colares coloridos.

Tudo pronto: expectativas, figurino, amigos...
Pego o metrô, sigo e já estou bem perto!
Na saída do metrô uma madame nos alerta: Vocês vão pra festa do Brasil? Depechez- vous, o desfile acabou de sair. E como ela sabe que somos brasileiros?Ah, deixa isso pra lá, afinal a festa já começou.
A empolgação subiu alguns graus e aceleramos o passo. Eu, Daniela Amoroso, sambista e pesquisadora e Daniel Lopes, companheiros de festa e aprendizados em solo francês.
Uma corridinha e já ouvíamos os primeiros ruídos de festa.
Mais um pouco e...
Chegamos, cheguei!!!!
A curiosidade estava em seu grau máximo de intensidade. Chegamos pelo fim do cortejo. A vontade imediata era de percorrer tudo para fazer o panorama geral. Mas no caminho já fui encontrando algumas pessoas e o trio elétrico. Parei. Huuuuum... Mesmo advertida por mim mesma, a comparação foi inevitável e logo seguida de uma pequena frustração. Eu não esperava nenhum Madeirada, o trio potente e high tec de Ivete Sangalo. Mas o anunciado trio elétrico mais parecia as carroças que marcham no Bonfim. O som baixo, a estética super pobre e pouco criativa e uma micro banda (um baixista, um percussionista, um bateirista, um guitarrista) com os crooners Roberto Chaves, o organizador, e Preta Gil, a filha oficial da cultura brasileira. Preta, ainda apostando nas suas ambições artísticas, até tentava reproduzir a sua performance 2222 de carnaval baiano, mas o seu micro-vestido em sua voz sofrível revelava que ela deveria se contentar em ser capa de CDs ou de calendários de borracharia... E ainda ousava reclamar pelo microfone: “Esse maestro nunca foi à Bahia!” E o pobre maestro tentando acompanhar os desafinados chamados da moçoila, correndo com seu instrumento atrás dos gritos “chupa toda” da petite noire.
Nesta hora eu já me sentia no Farol, com a turminha golden da vitória à procura de um isopor. Mas o comércio cervejístico da festa ainda não tem o know-how baiano. Não se vende bebida na rua e tampouco se cata latinhas. Essa tecnologia de venda e reciclagem pode ser pensada para as próximas festas. Quem sabe eu implanto este serviço por aqui? Vamos ver...
No crescente da imaginação Paris- Salvador, Bonfim- Madalena me deparei com um Gandhi. Imaginação? Delírio? Não! Era o amigo sotero, Papel. Músico, baianésimo e, assim como eu, morador da Maison du Brésil. A minha baianidade saudosista chegou ao nível máximo de realização. Papel trouxe a roupa de Ghandi para a sua temporada francesa. Muito apropriada a caracterização. Ainda não tinha achado a cerveja, mas já me sentia totalmente ambientada entre o Bonfim e a Barra, entre a Lavagem e o Carnaval... O suficiente até pra dar aquela voltinha pra ver o resto do cortejo.
E lá fui... Nesta hora já havia me perdido de Daniela, mas seguia com Daniel, baiano típico dos festejos baianos, conhecedor de um lado do carnaval baiano, o do lado de dentro da corda. De cima do trio, Preta reconheceu os movimentos braus da dupla que andava e dançava no chão e nos soltou um comentário. Nos sentimos à vontade e Daniel já mandou: Preta, toda boa! Ela se achou e começou os versinhos “ela é toda boa”, mas o seu maestro ainda estava no “chupa toda” e a nossa homenagem foi meio desastrosa.
Atendendo ao chamado do slogan que circula em grande escala em Salvador, seguimos com todo o nosso “orgulho de ser baiano”. No decorrer da caminhada, a nossa baianidade foi brochando. Encontramos um grupo de maracatu, com banda e personagens e mais um grupo de bumba-meu-boi, o Boi da Madá... Andamos mais um pouco e acabou. Primeiro, a Bahia que ficou lá no trio de Preta, e depois veio Recife e por fim o Maranhão... E aí, acabou o Brasil.

Gelei. A temperatura estava mais fria mesmo. Momento adequado para acionar mais uma vez o botão pesquisadora, deixar a emoção do reconhecimento e do saudosismo de lado e analisar a festa, senti-la em sua dimensão francesa.
Pausa na festa pessoal. Hora de registrar. Fazer fotos. Daniela estava lá na frente com a filmadora e eu Daniel com a máquina fotográfica. O trio, não o elétrico, o de amigos, se reencontrou. Na cara de Daniela o retrato explícito do desgosto. Eu relativizava, Daniela resmungava e Daniel acompanhava a discussão. Eu podia até concordar com ela: de fato, era a festa para gringo ver.
Mas, convenhamos o que é o Brasil? Um trio elétrico, um maracatu e um boi? O que é que a baiana tem? O que é que a baiana tem a ver com isso? Uma Lavagem? Um carnaval?
Era a Bahia, era a Lavagem e virou um samba-do-crioulo-doido, um chiclete-com-banana, Miami com copacabana feito pelos e para os próprios brasileiros. Mas o que é o Brasil senão essa mistura de confusão e de delícias... Sim, mas foi anunciada como uma festa baiana, isso não é um Brazilian Day... E por aí foi a discussão.
A lavagem baiana, anunciado elemento detonador da festa, parecia ser só um pretexto forjado para a realização do encontro de um estranho Brasil. Um encontro da saudade. Para quem está fora de casa, fora da pátria, vivendo fora do seu habitat, existe a necessidade de um dia reunir seus pares para se encontrar. Desta necessidade vi que o imenso e diverso país se reduziu a um só. Salvador virou todo Brasil, Recife se transformou num só carnaval e um único Boi era “Caprichoso” e “Vermelho”.
Confesso: brochei total!!!
Um sentimento de estranhamento e rejeição da caricatura Brasil me fez sentir uma daquelas gringas desengonçadas que procuram o ritmo em movimentos corporais descompassados no ensaio do Olodum. Senti-me completamente fora daquele Brasil. Eu estava mais para o Cancan e para Piaf do que para aquele acarajé com catchup, feijoada com croissant, vinho com gelo, caipirinha de framboesa... uma verdadeira salada interessante e quem sabe indigesta de brasilidade. Era todo um exibicionismo de brasilidade assistida pelas máquinas fotográficas dos franceses...
Mas o desfile anda e o tempo rouge!
O caminho da Bolsa até a Madalena não é tão longo. Chegamos na Igreja da Madalena.
Na escadaria da igreja começou o ritual da lavagem. Umas seis baianas lavaram os degraus. Roberto, o mestre de cerimônias, fez um breve discurso em francês para em seguida rezar um pai-nosso em português, este feito por uma das baianas que, penso eu, por emoção ou por esquecimento, ou mesmo por morar em Paris há tanto tempo, trocou a ordem da familiar oração. Em seguida uma outra brasileira residente em Paris rezou em francês a mesma oração. Roberto pediu que um senhor, este com ares de pai-de-santo, rezasse em ioruba. Este pegou o microfone proferiu com vigor uma oração que não compreendi. Eu estava bem no meio da cúpula, atenta, registrando e acompanhando todo o desenrolar. No Bonfim eu jamais conseguiria ficar tão perto dos mais importantes da festa. Para finalizar o falatório Preta Gil, a madrinha da festa, resolveu cantar, antes Roberto pediu no bom portucês-frantuguês: “s’agachez, s’il vous plaît”. E Preta soltou: “Isso aqui é um pouquinho de Brasil!” E eu: ai, ai...
Neste momento, dei uma voltinha neste mesmo espaço e encontrei, meio escondida, Dunduna. De imediato, chamou a minha atenção. Era uma negona, daquelas que dá vontade de se jogar no colo, que estava sentada numa cadeira- de- rodas. Ela já foi uma figura quase folclórica nas rodas baianas de Paris. Cantava e inventava histórias. Hoje, adoentada, ainda consegue mostrar toda elegância e onipotência. Dunduna cantou ali pra Madalena alguns cânticos de umbanda. Sua voz mesmo que trêmula aproximou Madalena de Bonfim. Para mim, foi o momento de maior emoção. Uma emoção muito particular, pois foi aí que encontrei um elo, uma possibilidade do encontro da fé com a festa, de Madá com Bonfim.

Depois deste momento, houve uma dispersão: conversas pessoais, encontros, fotografias e cada um foi procurar seu canto. Muitos que pagaram 30 euros pela camisa foram para o bar brasileiro Favela Chic comer feijoada. Outros foram para um café próximo da Madalena cantar, tomar caipirinha, cervejas, conversar, dançar... Segui a segunda opção. Fiquei lá um tempo. Prá ser mais Brasil tomei caipirinha, cantamos uns sambas...
Depois desta etapa, eu já estava bem cansada e com frio. Resolvi ir embora. Fizemos a rota de volta: da Madalena para a Casa do Brasil. Cheguei em casa e queria conversar com algum baiano sobre isso. Tinha que ser com um conhecedor da festa baiana. Fui pro skype, pro MSN e ninguém...
Tá. Então resolvi, informalmente, escrever. Quem sabe daí sai mais uma prosa.
Sei que saí da festa mais frustrada que encantada.
A minha maior frustração foi por que eu fazia a maior torcida para que esta festa tivesse, mesmo com toda a simplicidade, um caráter para além da folclorização. Uma vontade de que a crença e a festa, de fato, se efetivassem para além da Bahia. Talvez, apostando no que o velho Caetano escreveu pra Gal cantar:
“Bahia, fonte mítica, encantada! Expande o teu axé, não esconde nada. Teu canto de alegria ecoa longe, tempo e espaço”.
Mas a Bahia, no que ela tem de forte na sua representatividade não é fácil de se reproduzir. A Lavagem do Bonfim, mesmo composta também de falsas baianas, é mais do que água e escada, mais do que festa e fé. É história, é tempo, é coletivo, é um diferente todo-junto. E reproduzir esta subjetividade acima do Equador, resumir o Brasil à Bahia, pode ser um risco, um acerto, um erro, uma sorte, um destino, uma festa, uma farsa.
Madalena, a parisiense que a cada ano entra em beco e sai em beco, vai assim fazendo caminho... Estranha, interessante, bizarra. Uma novidade que se transforma a cada ano em tradição. Corteja a Bahia, experimenta esses Brasis para quando debutar os seus centenários, lembrar que um dia foi menina e que com seus braços fortes abraçava multidões estrangeiras que também fariam a lei em vossos lares! Madalena, branca-baiana, mãe- mulher, que seus seios fartos de Igualdade e de Fraternidade irradiem Liberdade na fulgente e fria Paris.
Bonfim, baiano, homem velho, preto- forte, fincado na colina sagrada. Tradição sempre renovada. Você que almeja expansão, quer ser Brasil em Paris... Aceite Madalena, a mulher de Jesus, como sua legítima esposa. Lembre que um dia você foi menino, hoje Oxalá- rei. Atotô babá, venha nos valer! Valer de fé, valer de festa, Valer de reza...
O teu presente espelha esta certeza.
O nosso futuro espera essa grandeza!
Glória a vós!

Leia também Ingrid Bueno PERUCHI, A lavagem pra francês ver

Sônia VAN DIJCK, Candomblé, uma cultura milenar

* Alexandra Gouvêa DUMAS é baiana, atriz e pesquisadora das Artes Cênicas. Graduada em Teatro e em Educação Física com especialização em Estudos do Lazer e Mestrado em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia. Atualmente é doutoranda em Artes Cênicas pela UFBA. Tem experiência na área de Artes em ensino, pesquisa e interpretação (atriz), atuando principalmente nos seguintes temas: teatro e cultura popular, teatro-educação e produção cultural.

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Igreja do Bonfim - Salvador - BA - Brasil

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Fotos: Alexandra Dumas e Daniel Lopes

Midi: "Sous le ciel de Paris" (Jean Brun e Hubert Giraud)

Criação da página: Sônia van Dijck