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SÔNIA van DIJCK

Este é um espaço dedicado à Literatura

O FEMININO e o MASCULINO na Literatura

A MOÇA DO VESTIDO DE BOLAS


Para Claude

Ana Adelaide Peixoto

A primeira vez que a vi, já passei à admirá-la. Estava num bar com amigas e lá passou ela com o passo de determinação de quem sabe o que quer. E o que queria era tirar para dançar aquele homem já maduro, com os cabelos grisalhos. Quando chegou no salão, abraçou-o com gosto, como quem conhece aquele corpo. Um abraço de reconhecimento e prazer. Dançaram agarradinhos ao som do piano e da sanfona de Waltinho, com a brisa do Cabo Branco lhe embalando os passos. Fiquei sabendo depois que não eram desconhecidos. Tinham uma estória. Quem sabe uma estória de amor.

Na semana seguinte, voltei ao bar. De repente lá entra a mulher do passo determinado. Sentou-se numa mesa, pediu sua cerveja, acendeu o cigarro, e permaneceu pelo desfrute da noite. Na mesa junto à minha, dois senhores da velha guarda da sociedade Pessoense, não muito “acostumbrados” às andorinhas.... e possuidores de todo o ranço que homens dessa geração por vezes têm, comentavam à presença dessa mulher num bar, sozinha, bebendo e fumando.Claro que pelo tom de voz, atiravam pedra na Geni. De repente lá vem o seu homem maduro, chega na mesa, abraçam-se. Passam a noite conversando, bebericando uma estúpida gelada, comendo petiscos. A música estava divina: bossa nova, jazz, e “Águas de Março” em pleno mês de novembro, mas dessa vez eles não dançaram. Os dois senhores da velha guarda não paravam de comentar com um certo escárnio à presença do senhor elegante ao lado daquela mulher solitária. Falavam com desrespeito: “Olha, o velhinho está se dando bem! Mata o velho!” E é porque o Senhor nem era tão velho assim, nem a mulher tão jovem. Mas o que mais incomodava a esses senhores era a disponibilidade dos dois, e a prontidão para o encontro e para o prazer.E eu a ouvir tudo aquilo pelas costas, e a fazer um esforço para não estragar a minha noite igualmente maravilhosa à daquela mulher.

Enquanto usufruía daquela atmosfera de verão e noite estrelada, fiquei a imaginar a vida daquela dama: o que fazia e os seus programas das sextas feiras. Sempre a encontrar seu par naquele local e à mesma hora. Fiquei pensando que numa outra noite ela teria uma festa para ir. Comprou um lindo vestido branco de bolas pretas; um vestido tipo bonequinha-de-luxo, para que se sentisse Audrey Hepburn cantarolando Moon River. De repente, se fez mais linda ainda com seu vestido vaporoso, levantou os longos cabelos e prendeu-os com presilhas de strass, uma sandália alta tipo Chanel, daquelas que o salto alto desliza melhor na hora que a orquestra desse seus primeiros acordes, e uma bolsinha fashion cor de rosa choque-fúcsia que tinha pedido emprestado à uma vizinha, para quebrar a aparente monotonia das bolas pretas e brancas. Na minha imaginação, fiquei fazendo o filme inteiro: a moça do vestido de bolas atravessando o salão lotado, para enfim chegar ao seu destino: o homem dos cabelos grisalhos, que naquela noite estava com um semblante todo especial, como que numa mistura de Paul Newman e Richard Gere dançando um tango para lá de caliente. O senhor tomou a moça do vestido de bolas pela cintura com aquela pegada de quem sabe das coisas, e juntos e leves, começaram a rodopiar pelo salão. Tudo no ritmo. Tudo sonhado. Tudo certo. Tenho a impressão de que é justamente essa capacidade de viajar no espaço da dança, e do encontro amoroso, que aqueles dois senhores da velha guarda não têm o privilégio de sentir. Daí o infortúnio. Pior para eles. E a moça do vestido de bolas, assim como Carolina de Chico Buarque, nem viu, pois ela só tinha olhos para aquele Senhor tão distinto e que só tinha olhos e pés de valsa para ela. Moon River.............................!

19/11/2007

Mais Ana Adelaide Peixoto

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Foto: Sônia van Dijck

Midi: Chopin

LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998

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