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SÔNIA van DIJCK

Este é um espaço dedicado à Literatura

O FEMININO e o MASCULINO na Literatura

NO VALE DAS BONECAS

Ana Adelaide Peixoto

“Vamos tomar chá das cinco e eu te conto minha grande história passional, que guardei a sete chaves, e meu coração bate incompassado entre guafrettes. Conta mais essa história, me aconselhas como um marechal-do-ar fazendo alegoria. Estou tocada pelo fogo. Mais um roman à clé?...

(poema “Sete chaves” de Ana Cristina Cesar)

 

 

 

Esta semana, no bate papo diário de uma lista de discussão feita só de mulheres, espontaneamente surgiu o assunto relativo à infância. Uma verdadeira viagem ao vale da subjetividade feminina, onde durante alguns dias, rememoramos o nosso tempo das brincadeiras com as bonecas.

Alguns homens talvez se perguntem: mas essas mulheres só conversam isso (sic)? Puro engano. A conversa flui sobre os mais variados assuntos. Desde a violência local, os filmes do Oscar, o calor escaldante da cidade, os cartões corporativos da ministra Matilde Ribeiro e tantas outras pautas. Mas de quando em vez, alguns assuntos lancinantes e de igual importância política, nos tomam de jeito. As bonecas, por exemplo. Bonecas de louça, de pano, Beijocas, as que faziam xixi, choravam...

Algumas mulheres tiveram experiências riquíssimas com essas criaturinhas: cuidavam, alimentavam, costuravam para elas, e aprendiam a ser mães ou simplesmente exerciam uma maternidade infantil, que talvez mais tarde quisessem ou não exercê-la. Foram tantos relatos com as “amiguinhas, moranguinhos” da vida... e ao ler as estórias, me dei conta do quanto essa experiência faz parte do nosso imaginário, e como brincamos de ser adultos nas nossas experiências de menina. Claro que muitas dessas brincadeiras nos submetiam a certos padrões de comportamento, armadilhas, ou estereótipos, que nem sempre tínhamos consciência. Mas outras tantas vezes era o lúdico, os espaços enoooooooormes da nossa imaginação ou dos alpendres, que nos brindavam com dias felizes de um passado longínquo. E como foi dito na lista: “Que felicidade a de termos sido aquinhoadas (adorei essa palavra!) com a possibilidade de sermos urbanas, mas com ricas experiências rurais”. Sim, pois sempre tinha uma granja, um sítio, uma fazenda , ou simplesmente um quintal com um pé de manga.

Não falarei da peça de Ibsen – The Doll´s House (Uma casa de bonecas) porque nunca li, sei no entanto da importância desse texto para o teatro moderno e da sua significação para a libertação das mulheres. Em 2005, por ocasião do Seminário Mulher & Literatura, assisti à uma palestra com a teórica feminista Toril Moi, leia-se “Sexual Textual Politics” (1985), na qual ela se reportava ao clássico da literatura Norueguesa, afirmando não só que a peça era um “chamado à transformação das mulheres”, como também reiterava uma das reivindicações de Simone de Beauvoir no seu Segundo sexo: “As mulheres deviam ter acesso ao universal”, uma vez que esse universal, pelo menos no que dizia respeito ao trabalho artístico, era masculino.

No entanto, em se falando de literatura, gosto muito de um conto da escritora Neozelandesa/Inglesa Katherine Mansfield, chamado também de “The Dolls House” ("A casa de bonecas"), onde através de uma linda casa de vidro de bonecas, temos um retrato nem tão feliz assim de uma infância, marcada por preconceitos, competições, e antecipações das crueldades do mundo adulto. Sei que a infância, como todas as outras fases da vida, não é feita só de mel, e para algumas, trata-se de um período doloroso, ou sem grandes nem pequenas bonecas.

 

Particularmente, não gostava muito de brincar de bonecas, nem tinha tanto apreço assim pelos cuidados para com elas. Freud explica! Era daquelas que gostava de desmontá-las, pernas pra cá, cabeças pra lá..., um quebra cabeça – um mosaico! Quem sabe já me antecipando aos estudos dessa subjetividade que hoje me move e me estimula ao abismo de não ser devorada, mas o de decifrar esse espaço vertiginoso que é a nossa subjetividade. Ironias à parte, não é à toa que o psiquiatra Luiz Cuschnir, no seu livro recém-lançado A mulher e seus segredos, compara a teia intrincada da complexidade da identidade feminina às bonecas russas, em que uma vem dentro da outra...

Mas quando minha mãe costurava umas roupinhas de bonecas, aí sim! O meu lado “modista” surgia e me perdia nas horas a trocar aquelas criaturinhas, as poucas que ainda permaneciam inteiras. Tudo sempre com lanchinhos de ki-suco, bolachas cream-craker e goiabada de lata.

E de conversa em conversa, muito me atrai esse mundo, se não exclusivamente feminino, um mundo onde são permitidos pedaços de brincadeiras e de vida, onde tais conversas se transformam em matérias para trocas e reflexões e por que não, matérias da própria existência.

João Pessoa, 1 de abril de 2007

Texto atualizado em março 2008, para esta página

© Copyright by Ana Adelaide Peixoto, 2007

Fotos: Sônia van Dijck

LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998

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