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Rio de Janeiro: Gryphus, 2005

Capa: Studio Ormus

As faces

da

Palavra

 

Sônia van Dijck

 

 

gryphus@gryphus.com.br

 

Ávidas paixões, áridos amores (poemas de Arriete Vilela)

“as palavras têm canto e plumagem” (João Guimarães Rosa)
"mas, às vezes, além disso, são Lãs ao vento" (Arriete Vilela)
.

Dona de uma obra que tematiza a Palavra e, em conseqüência, a escritura (suas possibilidades, conseqüências e responsabilidades), Arriete Vilela abre seu novo livro com João Cabral de Melo Neto: “Escrever é estar no extremo de si mesmo”, anunciando o que se vai experimentar até alcançar o ponto final indicado na epígrafe: a luta com, na e pela Palavra, para dar corpo a realidades, que, em última instância, são mesmo lãs ao vento:
“Palavra: um modo metonímico de me fazer legar uma escritura de esfacelamentos, de recortes da realidade, de bordejos e de desesperanças.”, diz o texto, e dispensa explicações sobre esse “metonímico” que não pôde ser evitado.
O texto está convencionado como uma longa carta ou uma demorada conversa com a Senhora Editora, a quem a narradora começa informando: “nunca a palavra me causou tanta estranheza como agora.”
Podia ter dito “tanto encantamento” ou “encantamento e estranheza”. Seja em decorrência da estranheza ou do encantamento, Arriete desenvolve seu texto em demanda das possibilidades da Palavra.
A Senhora Editora bem pode ser vista como uma lembrança rosiana, e não foi em vão que comecei a falar do livro de Arriete lembrando o criador de Riobaldo. Porém, a personagem de Arriete que se dirige à Senhora Editora sabe que tem um pacto: com a Palavra, tanto quanto sabe que não ficará livre desse compromisso, pois é dele que se alimenta seu exercício de construção.
Começa retornando à infância, na lembrança do homem que pode ter-se afogado ou não (a narradora nunca ficou sabendo o que aconteceu), como metáfora de sua própria experiência na escritura que está começando, naturalmente, na perspectiva de não perecer no mar de palavras.
Tive o privilégio de ler os originais de uma fase do final de composição de Lãs ao vento: cópia impressa em computador, com algumas poucas emendas. É que a autora, antes de me entregar, ainda fez uma rápida leitura e, aqui e ali, sentiu-se desafiada pela Palavra. Conversamos sobre o processo de criação desse texto e sobre sua experiência poética já revelada em tantas publicações. Rigor, disciplina, trabalho, memória (principalmente da infância), observação do cotidiano, ouvidos atentos a depoimentos, casos e histórias de vida fazem a matéria de Lãs ao vento. Meses depois, voltou-me aquela mesma cópia impressa, enriquecida por emendas, substituições, acréscimos. A autora-crítica do texto. A escritura como discussão do escrito, como procura do melhor texto, que continua sempre sendo um dos possíveis. E isso a própria Arriete explica, quando se apropria do dito popular, dizendo que “quem conta um conto aumenta um sonho”, para confirmar, páginas adiante, a sabedoria tão antiga: “quem conta um conto aumenta um ponto”.
Evidentemente, isso não explica o texto de Arriete. Apenas oferece uma pista para o entendimento de sua escritura e de seu projeto poético.
Em um universo feminino, no qual a narradora se dirige à Senhora Editora, de tempos em tempos, usando a função fática da linguagem, para que sua personagem leitora/ouvinte continue acompanhando seu processo de elaboração do texto e, em contrapartida, para que o leitor/a se mantenha preso/a a sua palavra, além de assegurar o caráter verossímil de seu discurso, Arriete constrói um espaço que existe apenas como verbo, pois a voz narrativa e sua leitora/ouvinte não estão em qualquer lugar, apenas estão na enunciação e no enunciado. O tempo, portanto, é aquele do desenvolvimento dessa falação dirigida aos olhos ou aos ouvidos da Senhora Editora. Ou seja: a narradora instaura-se como autora do longo texto destinado a sua silenciosa companheira, numa aparente discussão entre quem cria o texto/a obra e quem cria o livro. O silêncio da Senhora Editora pode traduzir seu limite enquanto produtora do livro, invertendo a batalha travada com as palavras daquela que cria o texto e dele fala, senhora de seu ofício.
A narradora traz, para esse universo, figuras emblemáticas, cujos nomes traem um certo gosto aristocrático: D. Anna Joaquina, a aquarelista, e Theonila Cândida, a avó.
D. Anna Joaquina tem olhos de ver, coragem de participar e inteligência para não aceitar o avesso do sonho. Theonila Cândida é capaz de guardar clandestinamente seu sonho, defendendo sua capacidade de criação, a despeito da proibição do marido. D. Anna Joaquina pertence ao tempo de adulta da narradora e é responsável por lhe abrir os olhos para a realidade da vida. Theonila Cândida, resgatada da infância, é exemplo de submissão e de rebeldia camuflada como instrumento de defesa de sua integridade; é a matriz da vocação narrativa da personagem autora; de suas histórias, a narradora pôde tirar lições de sonho e de resistência, de encantamento e de solidão. Se não herdou o talento para o desenho, sabe traçar perfis e corpos inteiros, montar paisagens, refazer emoções e sentimentos com as palavras.
Figuras femininas em um mundo de água, plantas, bichos, crianças, cantos, muitas histórias e os meninos e meninas de rua. O interior e a cidade grande, em qualquer lugar do Brasil. Tudo isso interiorizado pela personagem autora, que tenta explicar à Senhora Editora sua escritura como busca da Palavra, que traduza ou apenas ilumine tantas vivências. E seu discurso, que concede espaço a outras vozes narrativas trazidas do baú de lembranças, é adoçada por refrescos e pela lembrança de frutas como ingá e guabiraba. Cheiros, cores e gostos guardados por essa personagem que se reencontra menina nas histórias fantásticas, nas menções à caipora, nas cantigas de roda e outros cantos populares, que ficaram lá longe e que só a Palavra pode trazer de volta, tanto quanto seus sentimentos em relação a Joana Leonor e a João Hercílio, o avô.
Cabe, justamente, a João Hercílio o papel de contraponto às figuras femininas. Ele inverte as narrativas de Theonila Cândida, fazendo da figura da avó uma espécie de madrasta a ser punida de algum modo. Sua palavra é dura, rude, vingativa, grosseira e estéril. Contribui, metaforicamente, para revelar o outro lado da Palavra, que nem sempre é doce e criativa, nem sempre é rebelde e amante da liberdade. João Hercílio usa a palavra para ferir, como instrumento de mando e poder. Nos recursos usados pelos netos para matar as avós de suas histórias, pode-se interpretar a presença do falo, vingador, vencedor, ainda que amargue a solidão e o abandono.
Texto que se constrói de textos, Lãs ao vento acumula significados e desafios aos/às leitores/as. Não se explica apenas enquanto hipertextualidade. Discute a escritura, mas não se limita a ser metalinguagem. Alimenta-se da cultura popular, mas discute a realidade da cidade grande, cujos meninos e meninas de rua nunca ouviram falar da Fulozinha, perderão seus sonhos, e suas memórias não guardarão cantigas de roda. Mergulha no universo feminino, marcado pela fertilidade, pela criatividade e pela rebeldia, mas que tem a submissão e a impotência como normas. Tratado poético, que questiona o fazer poético. Confissão da personagem autora-narradora, que descobre, no final: “Exorcizei de mim o avô João Hercílio”, sentindo-se metaforicamente livre da negatividade que a Palavra pode conter. Some-se tudo isso e muito mais, e eis Lãs ao vento.
No próximo livro, Arriete Vilela encontrará outras faces da Palavra para colocar em debate e não nos deixar esquecer de seu canto e plumagem.

© Copyright by Sônia van Dijck, 2005

Publicado in: VILELA, Arriete. Lãs ao vento. Rio de Janeiro: Gryphus, 2005, p. 7-10.

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PRÊMIO LÚCIA AIZIM (Ficção e Poesia de Mulheres), concedido pela União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro a Lãs ao vento (Rio de Janeiro: Gryphus, 2005) - 27 de outubro de 2006 - na Academia Brasileira de Letras (Rio de Janeiro - Brasil)

Midi: Valse (Schubert)

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