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- Travessia - Uma mesa perto da arrebentação

B A N H O

T U R C O

Sônia van Dijck

- Alguém quer mais café?
A criada anunciava o fim do intervalo para o lanche. As mulheres dirigiram-se, com risos e cochichos, para a grande sala da piscina aquecida.
O grupo tinha certa heterogeneidade. Casadas, separadas, outras à espera de casamento (ou da mágica passagem de sapo a príncipe) e algumas que não pretendiam ter marido. Adultas e profissionais, gostavam de sentir-se independentes e antenadas com o mundo contemporâneo. Com ou sem celulite, freqüentavam aquele espaço de cumplicidade, em exercícios e conversas, em busca de respostas que, às vezes, nem tinham as perguntas formuladas com muita clareza. Sentiam-se amigas, apesar de umas tantas pequenas intrigas ou ligeiras incompreensões, sempre contornadas pela coordenadora.

Lúcia, jogando a toalha em cima de uma cadeira, sentou-se para colocar os pés na água.
- Uma gostosura! Mas, vamos ao final do grande mico de Regina.
Leda, a coordenadora do grupo, ainda abrindo o biombo diante da passagem, fez um sinal de contenção e mostrou a porta que o segurança parecia ter dificuldade em fechar.
- Amigas, já pedi que aguardem a porta ser trancada e o resguardo ser aberto. Essa apressadinha aí foi logo tirando a toalha. Bem... Quer continuar falando, Regina?
- Foi tudo uma grande merda... complicou a situação... Não brinca, Lúcia! Fiquei chateada... não conta minha paixão?!...
- Claro! Quem não ficaria chateada com uma baixaria, com ou sem paixão?... – interferiu uma das mulheres. – Agora, você vai ter que descomplicar... começar tudo de novo...
Na outra sala, Glória, que acabava de chegar, entregou a pasta e o casaco à criada. Pegou uma toalha na entrada do vestiário e, minutos depois, saiu enrolada e com os cabelos presos:
- O senhor pode me abrir a porta?
- Pena que a senhora, hoje, perdeu a hora do intervalo. – disse o segurança – e suspirou, lembrando aquele grupo de mulheres, enroladas em toalhas e sem sandálias. Enquanto elas riam e conversavam segredando-se, ele ia e vinha, repondo bebidas, copos e xícaras, no salão da piscina; a criada servia salgados e doces tipo diet às amigas, água e refrigerantes.
Glória não respondeu.
Antes que ele destrancasse a porta, a criada fez soar a campanhia. Glória passou pelo pequeno vão deixado pelo anteparo, e o segurança suspirou novamente ao voltar a fechar a porta, sob o olhar da criada.
- Melhor o senhor ir para seu posto na porta da frente. Logo as clientes da massagem e da aula de dança vão estar chegando. Diga aos seguranças do portão que fiquem de olho aberto: aqui tem gente muito importante. – disse a criada.
- Gente, boa noite. Estou saindo de uma Banca. Estudo do “Ulisses”. Tive um trabalho do cão para preparar a argüição. Vai ter jantar de comemoração. Só passei para dar um “alô” e nem vou cair na piscina. Mas, quem é que estava contando a história da semana?
- Está mesmo por fora... depois de quase um mês... – alfinetou uma das mulheres.
Glória dirigiu-se à mesa com as bebidas.
- Estava metida na tese. Mas... contem logo essa história que interrompi, com certeza!
- Lembra que contei sobre aquele meu colega, o Marcelo?
- Sei... Você sempre disse que ele é uma tesão... eu não acho... até meio sem graça...
Glória já estava jogada em uma cadeira e bebelinguava um café.
- Conta logo, Regina! – gritou Lúcia entre risos.
- Vamos deixar Regina à vontade, meninas. – disse Leda.
- Fui pro motel...
- Com Marcelo?!...
- Não!... com seu avô. Não me interrompa! Assim não conto.
A sala encheu-se de risos, e uma gritou:
- Regina pagou o maior mico!...
- Pára com isso! É que o cara resolveu me fazer uma surpresa.
Uma das amigas tirou a toalha e sentou-se no chão, recostada nas pernas de Glória, que se estirou mais na cadeira, para saborear o relato. A história era curta, mas os risos e os comentários interrompiam Regina, que, provavelmente, omitia alguns detalhes sobre seu próprio desempenho na aventura. Outra, recostada em almofadas, com cara de mortificada, engolia a gargalhada... com uns goles de chá... até que explodiu; engasgou-se.
- Logo com Regina, a mais exigente, a sofisticada... – disse alguém.
- Melhor: a que nunca pergunta preço de nada: vê, gosta, leva ao caixa... depois chega a fatura do cartão... – arrematou Yara, que tinha conta conjunta com o marido, apesar da opinião contrária das demais.
Esse era o grupo das quintas, no fim da tarde, no “Clube Eva”, para a sessão de hidro-relaxamento. A cada dia, o dia inteiro, Leda trabalhava com mulheres diferentes, mas de relatos bem parecidos. Todas buscavam respostas ou alguma coisa ou apenas os exercícios dentro d’água. Aos sábados, jantava com alguma amiga ou ia ao cinema. Aos domingos, ficava em casa, fazia faxina no apartamento, lia alguma revista, assistia ao “Fantástico”, enquanto fazia as unhas, e ia dormir cedo. Na segunda-feira, recomeçava seu exercício de ouvir histórias e sabia que seu emprego estava garantido. Às vezes, pensava em falar de sua própria solidão, mas desistia da idéia. Conhecia as respostas e os comentários. Era paga para ser coordenadora, centrada, resolvida e feliz. E, no domingo seguinte, ia dormir cedo e sonhava com uma vida diferente.
- Tenho, cá, meus micos históricos. Mas, hoje não dá pra falar sobre isso. Tenho o tal jantar de comemoração.
Glória já estava de saída; precisava renovar o visual para o jantar. Desapareceu atrás do biombo e fechou a porta com um ruído seco.
Sílvia recostou-se em Vera - eram sócias em um escritório de arquitetura.
Leda trocou o cd, serviu-se de mais chá.
- O pior é que esses homens pensam que entendem tudo de mulher... nota zero em fisiologia... os mais sabidos só chegam mesmo à média cinco... e com uma certa orientação do percurso...
- Mas, a gente, até por necessidade de sobrevivência..., bem que entende do pepino... – Yara completou o comentário de Lúcia e estirou-se na beira da piscina.
Os cheiros de café e chá misturavam-se ao fumo. Elas mudavam de posição e, às vezes, reuniam-se em grupos de duas ou três, confidenciavam alguma coisa e separavam-se entre risos e gestos. Os pés descalços ou o deslizar serpenteante sob o piso molhado não provocavam barulho, que interrompesse a conversa das demais ou o depoimento de quem estava com a palavra. O rumor da água, se alguma resolvia molhar-se ou exercitar as pernas em batidas compassadas, fazia contraponto à música do cd, às falas e às risadas. A tepidez da atmosfera transpirava intimidade, favorecida pela fraca iluminação da sala.
O gesto de Vera, acendendo o cigarro de Sílvia, provocou Regina:
- Depois da primeira, já não acendem o cigarro da gente, não abrem a porta do carro, desgentilizam-se. O tempo só dá para uma rapidinha... parece até casamento velho. Mas, também não desgrudam... não sabem se querem ou não... morrendo de medo de alterar a vida, quando se sentem envolvidos afetivamente.
- Se estão transando com uma inteligente e bem sucedida, começam a ser os heróis mais sabidos do mundo... com a melhor opinião sobre todos os fatos... e tudo com voz empostada de orgasmo verbal... – teatralizou Sílvia, segurando o riso.
- Não faz meu gênero, mas... no fundo, Sílvia e Vera fizeram uma boa escolha.
- Não precisa escolher o “gênero”, Regina. Mas, saiba que cada uma continua se perfumando para a outra. Torço para que encontre um cara que seja inteligente na cama... – Vera usou um ar enigmático e ganhou de Sílvia um afago nos cabelos.
Leda bateu palmas:
- Pessoal, se nenhuma tem alguma outra história para contar, vamos passar para a próxima fase. Vamos entrar na piscina e tentar apreender as sugestões da música. Tentem fazer movimentos de acordo com o ritmo. Na próxima música, vocês podem escolher movimentarem-se dentro ou fora d’água. Quando eu colocar a última, podem escolher movimentarem-se ou não, dentro ou fora d’água; ou seja: quem quiser, pode sair da piscina.
Sílvia ainda perguntou a Regina: - E, agora, que vai fazer?
- Não sei. Talvez partir pra outro.
Yara resolveu mergulhar de cabeça, mas, antes do pulo, voltou-se para Regina:
- Boa sorte. Se for melhor que a minha, já estará no lucro.

Publicado in: Augusto, Paraíba, ano 2, n. 18, 23 abr. 2006, p. 8. Suplemento cultural do Jornal da Paraíba.

Imagem: Ingres, Banho turco, 1862

Midi: Concerto de Aranjuez - trecho (Joaquín Rodrigo)

© Copyright by Sônia van Dijck, abr. 2006

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