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NOS BASTIDORES DA CRIAÇÃO

 

Sônia van Dijck

CRIAÇÃO EM PROCESSO
ENSAIOS DE CRÍTICA GENÉTICA

ROBERTO ZULAR (org.)
São Paulo: Iluminuras, 2002

 
A primeira antologia de crítica genética no Brasil reúne formulações metodológicas, sedimentadas na prática da pesquisa, e consolida conceitos e princípios de investigação. Participam pesquisadores do ITEM-CNRS, matriz da proposta da crítica genética, e de dois centros brasileiros: USP e PUCSP; a única contribuição de fora é a tradução do texto de Louis Hay, feita por integrantes do projeto “Ateliê de José Lins do Rego”, da UFPB. Portanto, o livro apresenta os rumos da pesquisa em crítica genética na França e em São Paulo: ITEM, USP e PUCSP.

De início, em “O texto não existe”, Louis Hay adverte que, na investigação da gênese do discurso, “talvez seja preciso tentar pensar o texto como um possível necessário, como uma das realizações de um processo que permanece sempre virtualmente presente em segundo plano e constitui uma terceira dimensão do escrito.” (p. 44)
Telê Ancona Lopez, íntima do acervo de Mário de Andrade, mostra como a marginália de uma biblioteca particular e anotações várias, em um arquivo privado, guardam traços da origem de um discurso. Isso me leva a falar de Almuth Grésillon, que ressalta a paciência, como atitude fundamental do pesquisador. Acrescento a argúcia: paciência para garimpar no acervo do autor que se estuda; e argúcia para reconhecer, no caos de informações, que teimam em ficar em silêncio, esperando desvendamento, os documentos que iluminem esta ou aquela fase de composição. Investido de paciência e de argúcia Philippe Willemart reconheceu, entre anotações de Flaubert, uma escrita da história do povo judeu, que, embora afastada da obra, esclarece comportamentos das personagens do conto “Hérodias”, auxiliando a interpretação crítica.
Disciplina relativamente nova, se comparada com outras de nossa área de formação, a crítica genética tem suas linhas históricas traçadas por Grésillon e por Jean-Louis Lebrave, guiando o leitor nas relações entre os estudos genéticos e os estudos filológicos, marcando a diferença entre escritos públicos e privados. Em sintonia com a lição de Hay, lembra Grésillon que “a importância atribuída aos prototextos vem minar a auctoritas do texto, já que ele se encontra relegado ao estatuto de um estado entre outros.” (p. 161). Para Lebrave, a filologia, “enquanto disciplina de erudição, ela não dispõe das ferramentas conceituais que lhe permitiriam desenvolver um ramo como a ‘crítica genética’.” (p. 143) ; e acrescenta: “A filologia é ciência de textos, isto é, de escritos públicos, manuscritos ou não, e enquanto tal não pode ser a ciência dos documentos de gênese, que são escritos não-públicos.” (p. 143-144). Possivelmente, a observação de Lebrave não vai silenciar o debate entre filólogos e geneticistas; e mesmo entre geneticistas e estudiosos que conservam práticas da crítica literária e querem ver na metalinguagem de obras publicadas traços da gênese do discurso, esquecendo-se de que importa investigar a construção da própria expressão metalingüística, conservada nos documentos privados.
A crítica genética não se afasta de outras áreas de estudos. Pierre-Marc de Biasi e Daniel Ferrer demonstram seu caráter transdiciplinar, enquanto Cecilia Almeida Salles desenvolve pesquisas que percorrem as veredas da criação em várias manifestações; por isso, Salles prefere falar em documentos de processo, ampliando as noções de manuscrito e de prototexto.
Os ensaios confirmam o estudo do provisório, do inacabado, da hesitação, do discurso não-linear. E aí está a especificidade da crítica genética, como diz De Biasi: “A abordagem genética caracteriza-se por uma valorização dos modos de elaboração do texto em detrimento, e mesmo estabelecendo um questionamento, da autoridade do texto.” (p. 221)
Marginália, anotações arquivadas, diários pessoais, manuscritos - prototexto, documentos de processo: objetos de interesse da crítica genética, que, a princípio, não estavam destinados ao olhar público. A crítica genética abre os baús de guardados, entra nos bastidores da criação artística (literária ou que use outro código) e científica. A criação é vista como movimento, processo, demanda da otimização do texto a ser dado a público. Criação como trabalho e busca; para Ferrer, é “uma série de sacrifícios custosos, de compromisso, de reequilibro e de transações compensatórias.” (p. 216).
Importante esclarecimento vem de Grésillon: “A crítica genética não fornece automaticamente parâmetros de literariedade, critérios de avaliação: até o presente ela não revelou obra-prima desconhecida, não contestou o que a instituição literária havia consagrado ou rejeitado...” (p. 165) Formulando sua metodologia, estabelecendo seus conceitos e aprofundando seus princípios, a crítica genética não se confunde com a filologia e nem com a crítica literária, embora os manuscritos sejam, como se mostra no livro, “um terreno em que a crítica literária encontra com o que afiar seus instrumentos, experimentar seus conceitos e até criar novos.” (Grésillon, p. 173) Willemart lembra: “Precisamos de outros conceitos para entender a constituição da escritura literária e tornar inteligíveis esses processos que estão na origem de qualquer criação.” (p. 73)
Porém, é justo observar que Roberto Zular quebra uma certa “ortodoxia” da crítica genética, pois não se limita a ser geneticista e contribuir para com a crítica literária, a filologia ou até para com a história da literatura, tal como os outros pretendem; quer reassumir seu olhar de crítico literário, ao penetrar nos bastidores da criação: “é preciso não perder de vista a necessidade de estudar autores marginais ou ainda não consagrados e saber em que medida a crítica genética pode ajudar na sua compreensão ou na aquilatação de sua importância.” (p. 23). Zular deve ter razões teóricas e metodológicas que expliquem o que pretende com a crítica genética, formulando a proposta acima.
Relativizando o conceito de texto e de obra acabada, esta corrente de estudo “quer principalmente ‘mapear’ o percurso da escritura, com suas variantes, rasuras, emendas e toda sorte de modificações que configuram a ‘gênese’ do texto como o espaço onde o escritor testa as muitas alternativas que o processo criativo, tanto como experiência pessoal quanto como prática histórica e social da escritura, vai pondo diante de si.” (p. 9), conforme Roberto Brandão. Criação em processo vem mostrar que a crítica genética instaura-se como estética do rascunho, dos bastidores, ou, simplesmente, estética da gênese dos processos criativos. Oferece o resultado de suas investigações a estudiosos de outras especialidades.

© Copyright by Sônia van Dijck, 2003

Publicado in D. O. Leitura, São Paulo, IMESP, 2003

Midi: Chopin

LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998

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