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SÔNIA van DIJCK

Este é um espaço dedicado à Literatura

O FEMININO e o MASCULINO na Literatura

BONECA de PANO

Sônia van Dijck

MUITO me foi dito, outro tanto explicado, e tudo para me encorajar, como se eu pudesse escapar inteira. Providências básicas, para deixar a vida em ordem, e ainda uma lâmpada queimada para ser trocada.
Estava tudo certo – ou tudo errado, melhor dizendo, de meu ponto de vista.
Fui levada para um apartamento.
- A pressão está ótima. O maqueiro já vem pegar a senhora. Precisa vestir a bata.
Só mais alguns minutos de eu mesma. No banheiro, olhei-me, no espelho, pela última vez. Estava ali. Era eu ainda. Podia fotografar – por que não pensei nisso? Ali, parada, olhando-me... Apenas algumas horas, e vou deixar de ser...
- Está pronta, senhora? A maca já está aqui.
A enfermeira, o maqueiro, pessoas queridas do outro lado da porta esperavam. Eu me deliciava diante do pequeno espelho. Virei à esquerda e à direita, fiquei na ponta dos pés... de frente... Eu. Pronta? Pronta para quê? Uma mulher pode estar pronta para não ser?
Um domingo, em um hotel em algum lugar feliz:
- Você é bela. Como você é bela.
- Bobagem. Você fala a língua dos sedutores... Já não tenho idade para ser bela.
- Não. Seu corpo não parece ter sua idade. Você é bela. Veja!
E levou-me da cama para o espelho de corpo inteiro que estava ao lado da porta.
- Veja! Como uma nova Eva! Minha Eva!
Não disse, mas aquela foi a primeira vez que me vi nua em um espelho. Aprendi no colégio das freiras mil restrições sobre a nudez. Também me ensinaram que um deus, no qual já não acredito, habita meu corpo. Nunca tive espelho de corpo inteiro em minha casa e sempre me penteei no espelho do quarto, que fica acima da cômoda, ou no do armário do banheiro, apenas capazes de mostrar cabeça e tronco.
Não disse, mas aquela estava sendo a primeira vez, desde muito tempo, em que me sentia plena...
E, agora, eu, ali, no espelho do banheiro do hospital, buscando uma imagem. Aquela Eva do espelho do hotel... Magra, sempre fui magra. Seios pequenos. Como diria o poeta, uma hipótese de barriga. Coxas bem torneadas, sem celulite. Um amigo, que só conhece minhas pernas quando estou de saia, diz que tenho belas pernas – fiz sempre charme ao cruzá-las para meu amigo notar. O espelho não me mostra coxas e pernas... Apenas lembro...
E ele sorria: - Veja!
Olhei-me surpresa. Meu corpo esguio, ainda parecia guardar certa juventude.
As mãos dele cobriram meus seios...
No espelho do banheiro do hospital, vi refletido seu rosto sorrindo, atrás de meu corpo:
- Eu te amo.
Virei à esquerda e à direita, fiquei na ponta dos pés... de frente... Ainda eu.
(...)
- Está pronta, senhora? A maca já está aqui.
Eu. Pronta? Pronta para quê? Pronta para deixar de ser?
Enquanto a maca rolava pelo corredor, pude ainda me lembrar de meu corpo inteiro. Depois, a sala fria. Eu entrava no passado. Dormi.
(...)
De Eva, sou grotesca lembrança. O espelho mostra o vazio. De mim, guardo difusa memória.
Nenhum deus pode habitar este corpo de boneca de pano.

Publicado in: O conto brasileiro hoje. São Paulo: RG Editores, 2009, v. 11, p. 145-148.

© Copyright by Sônia van Dijck, 2009

Foto: Sônia van Dijck

Midi: Chopin

LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998

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