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FRANCÊS

Sônia Maria van Dijck Lima - Université Paris Ouest Nanterre La Défense - 2008

B R A S I L
travessia para o século XX e propostas para este milênio

Resumo

FRANCÊS

BLPLIB05 TD L3 - Travaux de littérature brésilienne

BRASIL – da colônia à modernidade

Coordenadas históricas:

1500 – chegada dos portugueses
1822 – independência do Brasil (Primeiro Reinado: 1822 – 1831)
1831 – 1840 – período regencial (o segundo imperador não tinha idade para assumir o trono)
1840 – início do Segundo Reinado
1888 – abolição da escravidão
1889 – fim do Segundo Reinado - proclamação da República
1922 – Centenário da Independência. Semana de Arte Moderna

Com marcantes diferenças regionais e graves questões sociais, o Brasil entrou no século XX, sem resolver seus problemas históricos vindos da colonização portuguesa e do período da escravidão, buscando afirmação na civilização do século: iluminação elétrica da capital federal, inauguração da radiotelegrafia, construção de ferrovias, instalação de indústrias, desenvolvimento urbano (principalmente do Rio de Janeiro e de São Paulo – pólos político e econômico).

São Paulo – colocação dos trilhos da Estação da Luz – 1902

Rio de Janeiro - 1920

São Paulo - 1920

No campo político, a República adotou um programa centralizador, em defesa dos interesses dos grandes proprietários, cujas representações se revezavam no poder.

O Brasil via a Europa entrar no apogeu da época industrial e técnica, com a consolidação do capitalismo e o desenvolvimento da política armamentista.

Recebia as notícias de novas propostas estéticas (futurismo, 1909 – cujas notícias chegaram ao Brasil, com a publicação do manifesto no jornal A REPÚBLICA – Natal, RN, em 5 de junho, e, em 30 de dezembro, no JORNAL DE NOTÍCIAS – Salvador, BA do mesmo ano (TELES, 1983, p. 14); e, em 1912, através de Oswald de Andrade); como também as da vitória da revolução bolchevique, em 1917; da formulação da plataforma política preparadora do fascismo, em 1919 (Mussolini); da fundação do Partido Nacional Socialista dos Operários Alemães, em 1919 (um dos fundadores: Adolf Hitler), fatos que repercutiam em algumas camadas da sociedade brasileira, na qual a presença dos imigrantes era marcante.

Edifício Martinelli (construído entre 1925 e 1929), na Avenida São João, foi o primeiro arranha-céu da cidade de São Paulo (30 andares – 130m de altura), além de ter sido o prédio mais alto da América Latina no final da década de 20 do século passado. O seu proprietário chamava-se Giuseppe Martinelli, imigrante italiano que fez fortuna no Brasil.
BRASIL – ambiente cultural conservador

Saliente-se que, no Brasil do início do século XX, havia um ambiente cultural conservador (por ser econômica e politicamente conservador na defesa da grande propriedade privada – o latifúndio – e dos princípios morais e sociais decorrentes dessa estrutura sócio-econômica).

As elites sociais brasileiras cultivavam, nos primeiros anos do século XX, uma arte de gosto academicista, ainda ecoando um passado cultural europeu (colonizador), que, na literatura, reside na estética parnasiana, cujo contraponto é encontrado no simbolismo de atmosfera decadentista, longe das ousadas composições de Rimbaud, por exemplo:

L' Étoile a pleuré rose au coeur de tes oreilles,
L' infini roulé blanc de ta nuque à tes reins
La mer a perlé rousse à tes mammes vermeilles
Et l' Homme saigné noir à ton flanc souverains.

(Arthur Rimbaud)

como se pode verificar nos poemas em seguida:

A um poeta

Olavo Bilac

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha e teima, e lima , e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço: e trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua
Rica mas sóbria, como um templo grego

Não se mostre na fábrica o suplicio
Do mestre. E natural, o efeito agrade
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.

Lésbia

Cruz e Souza

Cróton selvagem, tinhorão lascivo,
Planta mortal, carnívora, sangrenta,
Da tua carne báquica rebenta
A vermelha explosão de um sangue vivo.

Nesse lábio mordente e convulsivo,
Rir, ri risadas de expressão violenta
O Amor, trágico e triste, e passa, lenta,
A morte, o espasmo gélido, aflitivo...

Lésbia nervosa, fascinante e doente,
Cruel e demoníaca serpente
Das flamejantes atrações do gozo.

Dos teus seios acídulos, amargos,
Fluem capros aromas e os tetargos,
Os ópios de um luar tuberculoso...

Soneto

Alphonsus de Guimarães

Cantem outros a clara cor virente
Do bosque em flor e a luz do dia eterno...
Envoltos nos clarões fulvos do oriente,
Cantem a primavera: eu canto o inverno.

Para muitos o imoto céu clemente
É um manto de carinho suave e terno:
Cantam a vida, e nenhum deles sente
Que decantado vai o próprio inferno.

Cantem esta mansão, onde entre prantos
Cada um espera o sepulcral punhado
De úmido pó que há de abafar-lhe os cantos...

Cada um de nós é bússola sem norte.
Sempre o presente pior do que o passado.
Cantem outros a vida: eu canto a morte...

No Brasil do início do século XX, ainda se cultivava uma poética da erudição, com imagens do passado do Velho Mundo (“Prometeus”), numa concepção do fazer poético como distância do mundo cotidiano e do poeta como um ser afastado do mundo real (“Longe do estéril turbilhão da rua, Beneditino escreve!” – “aconchego do claustro”).

Parnasianos e simbolistas cultivavam formas de linguagem da norma erudita (“frígidos espaços” - ” – “dor virente” - “o imoto céu clemente” – “lésbia”), instaurando uma atmosfera penumbrista (“Cantem a primavera: eu canto o inverno.” - “Cantem outros a vida: eu canto a morte...”).

Olavo Bilac

Cruz e Souza

Buscava-se, muitas vezes, eloqüência na inversão da ordem sintática (“Cruel e demoníaca serpente”).
Da mulher intocada (romantismo), à mulher devorada em taças, jóias, de perfil grego e porte romano (parnasianismo), a poesia simbolista contemplava a mulher fatal, numa compreensão do princípio do prazer como pulsão de morte (Eros – Tanatos: “O Amor, trágico e triste, e passa, lenta,/ A morte, o espasmo gélido, aflitivo...” ), remetendo à lembrança da falta original (“Cruel e demoníaca serpente”).

Alphonsus de Guimarães

O advento das vanguardas estéticas

Do fim do século XIX até o fim da I Guerra Mundial, a Europa atravessou uma crise de valores (econômicos, políticos, sociais, morais e estéticos), marcada pelo avanço científico e tecnológico, alimentador da política armamentista.
Essa atmosfera de mudança conduziu a um esgotamento das soluções estéticas e técnicas, e os artistas e intelectuais buscavam novas expressões mais adequadas à nova realidade que se configurava, na qual, “tudo que é sólido desmancha no ar” (Karl Marx. Cf. Marshall Berman).

Salvador Dali. A persistência da memória, 1931

Apesar de as experiências de Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé, Verlaine, Poe, Withman, serem ainda cultuadas, a inquietação intelectual e artística se traduziu em novas estéticas: fauvismo, futurismo, espiritonovismo, expressionismo, cubismo, dadaísmo, surrealismo e outros movimentos que marcaram a primeira metade do século XX.

Giacomo Balla. Luz da rua, 1909

Giacomo Balla. Dinamismo de um cão pela trela, 1912

Pierre Chareau. Lampadaire. La religieuse, 1923

Na demanda de uma linguagem capaz de aproximar as diversas expressões artísticas (literatura, artes plásticas, música, dança, arquitetura, artes decorativas), não estava ausente a proposta de Baudelaire em

Correspondances

Charles Baudelaire

La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L'homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l'observent avec des regards familiers.

Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.

II est des parfums frais comme des chairs d'enfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
- Et d'autres, corrompus, riches et triomphants,

Ayant l'expansion des choses infinies,
Comme l'ambre, le musc, le benjoin et l'encens,
Qui chantent les transports de l'esprit et des sens.

Première édition de Les Fleurs du mal. Paris: Poulet-Malassis et de Broise, 1857.

Baudelaire. Foto: Nadar, 1855

Baudelaire, em “Correspondances”, anuncia novos rumos estéticos, interpretando a existência de uma rede de relações transcendentais entre as várias linguagens artísticas, uma linguagem mágica, através da qual a experiência de um dos sentidos é transmitida e experimentada pelos outros, em um processo de vivência sensorial (sinestésica – imagens acústicas, visuais, táteis, olfativas), na qual as analogias conduzem a revelações e a uma visão de mundo como floresta de símbolos, traduzidos na e pela linguagem estética.

O mundo mudou e se descobriu diferente ao terminar a I Guerra Mundial (Apollinaire, que já havia entendido a necessidade de um Esprit nouveau, morreu em 1918, mas suas idéias chegaram a Mário de Andrade).

Assim, o século XX vê surgir:
- um novo homem
- um novo canto
- uma nova arte
- novas temáticas
- novas linguagens

O HOMEM MODERNO anunciado por Whitman:

Walt Whitman
Foto: Mathew Brady, 1860 (Library of Congress, Washington, D.C.)

One's-Self I sing

Walt Whitman

One's-Self I sing, a simple separate person,
Yet utter the word Democratic, the word En-Masse.
Of physiology from top to toe I sing,
Not physiognomy alone nor brain alone is worthy for the Muse,
/ I say the Form complete is worthier far,
The Female equaly with the Male I sing.
Of Life immense in passion, pulse, and power,
Cheerful, for freest action form'd under the laws divine,
The Modern Man I sing.

Leaves of grass, 1. ed. 1855

 

 

 

 

 

O próprio ser eu canto

Walt Withman

O próprio ser eu canto;
canto a pessoa em si, em separado
- embora use a palavra Democracia
e a expressão Massa.
Eu canto o Corpo
da cabeça aos pés:
nem só o cérebro
nem só a fisionomia
tem valor para a Musa
- digo que a Forma completa
é muito mais valiosa,
e tanto a Fêmea quanto o Macho
eu canto.
A Vida plena de paixão,
força e pulsão, preparada para as ações mais livres
com suas leis divinas
- o Homem Moderno
eu canto.

Trad. Geir Campos

BRASIL – as notícias das vanguardas da modernidade

O desenvolvimento da vida urbana, a chegada das notícias sobre a efervescência vanguardista européia (futurismo, expressionismo, cubismo, por exemplo), proporcionada pelo intercâmbio

- visita de europeus (Paul Claudel, em missão diplomática – de 1917 a 1918; Lasar Segall [expressionismo] – 1913 e 1925, quando se naturalizou brasileiro, fixando residência em São Paulo, por exemplo),

- ida de brasileiros para temporadas de estudos no exterior (Anita Mafaltti [expressionismo] – 1910, na Alemanha, e em 1915, nos Estados Unidos [cubismo]; Victor Brecheret [marcado pela estética de Rodin] – 1910, recebendo lições do construtivismo, do cubismo e do expressionismo – com bolsas de estudo concedidas pelo governo,

- fortuna das famílias endinheiradas (Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade - 1912), que permitiam longas temporadas em Paris,

- participação na representação diplomática brasileira na Europa (Graça Aranha – de 1900 a 1920),

- acesso a livros e revistas européias (Mário de Andrade),

provocaram o surgimento de uma nova atitude estética – e, na literatura, de novas propostas poéticas.

Vale salientar que os intelectuais brasileiros não podiam ficar indiferentes às grandes mudanças geradas pela I Guerra Mundial (nem culturalmente, nem científica e tecnologicamente).

As notícias das mudanças na Europa repercutiram fortemente no Brasil, gerando novas propostas estéticas, contestadoras do academicismo, do parnasianismo e do simbolismo conservador.

BRASIL – a vanguarda modernista

Lasar Segall. Ancião com muleta, 1910

Anita Malfatti. A boba, 1917

Cartaz da SAM. Por Di Cavalcanti, 1922

O divisor de águas – o fato que marcou a mudança de atitude estética - foi a Semana de Arte Moderna, em São Paulo, em 1922, que reuniu intelectuais e artistas em contato com as idéias das vanguardas européias e insatisfeitos com o clima cultural conservador e passadista reinante no Brasil.

A Semana teve participação e patrocínio de nomes do capitalismo paulista, como Paulo Prado, que conseguiu até mesmo o apoio do prefeito de São Paulo, Firmiano de Morais Pinto, e do presidente do Estado, Washington Luís.

A partir da Semana, duas tendências do Modernismo desenvolveram-se e complementaram-se: uma atitude internacionalista, voltada para as novas proposições estéticas das vanguardas européias; e, ao mesmo tempo, uma tendência nacionalista, que pretendia melhor conhecer a realidade da diversidade brasileira e investigar seu passado histórico.

São Paulo! comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América.

(Mário de Andrade, “Inspiração”)

Tarsila do Amaral. Carnaval em Madureira, 1924

Tarsila do Amaral. A gare, 1924

Lasar Segall. Mário de Andrade, 1927

Inspiração

Mário de Andrade

“Onde até na força do verão havia tempestades de ventos e frios de crudelíssimos invernos.”
Fr. Luís de Sousa

São Paulo! comoção de minha vida...
Os meus amores são flores feitas de original!...
Arlequinal!... Trajes de losangos... Cinza e ouro...
Luz e bruma... Forno e inverno morno...
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de Paris... Arys!
Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!...

São Paulo! comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América.

Assim, a cidade, o homem comum e anônimo, as criaturas da vida urbana, sem tinturas de nobreza ou de heroicidade, entraram na temática da literatura brasileira:

Os homens passam encharcados...
Os reflexos dos vultos curtos
Mancham o petit-pavé...
As rolas da Normal
Esvoaçam entre os dedos da garoa...

(Mário de Andrade, “Paisagem N. 3”.)

LEVEZA RAPIDEZ EXATIDÃO VISIBILIDADE MULTIPLICIDADE

Estes homens de São Paulo,
todos iguais e desiguais,
quando vivem dentro dos meus olhos tão ricos,
parecem-me uns macacos, uns macacos.

(Mário de Andrade, “Os cortejos”)

Em Seis propostas para o próximo milênio*, Italo Calvino, na abertura, diz:

Quero pois dedicar estas conferências a alguns valores ou qualidades ou especificidades da literatura que me são particularmente caros, buscando situá-los na perspectiva do novo milênio. (CALVINO, p. 11)

LEVEZA RAPIDEZ EXATIDÃO VISIBILIDADE MULTIPLICIDADE CONSISTENCY

* Trad. Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

Passemos, então, a verificar em alguns poemas do Modernismo brasileiro, a realização desses valores ou qualidades ou especificidades, conforme Calvino, sem perder de vista outros elementos que tenham sido experimentados pela vanguarda brasileira.

O transatlântico mesclado
Dlendlena e esguicha luz
Prostretutas e famias sacolejam

(Oswald de Andrade, “Bonde”)

Bananeiras
O sol
O cansaço da ilusão
Igrejas
O ouro na serra de pedra
A decadência

(Oswald de Andrade, “São João Del Rei”)

Tarsila do Amaral. Oswald de Andrade, 1922

LEVEZA RAPIDEZ EXATIDÃO VISIBILIDADE MULTIPLICIDADE

VERSOS LIVRES E BRANCOS, LINGUAGEM COLOQUIAL, INVENÇÃO DE PALAVRAS, IMAGENS SONORAS E VISUAIS, PAISAGEM BRASILEIRA, VISÃO CRÍTICA DO PASSADO

L e v e z a

Servi-me de Cavalcanti para exemplificar a leveza em pelo menos três acepções distintas:
1) Um despojamento da linguagem por meio do qual os significados são canalizados por um tecido verbal quase imponderável até assumirem essa mesma rarefeita consistência.

2) A narração de um raciocínio ou de um processo psicológico no qual interferem elementos sutis e imperceptíveis, ou qualquer descrição que comporte um alto grau de abstração.

3) Uma imagem figurativa da leveza que assume um valor emblemático, como, na história de Boccaccio, Cavalcanti volteando com suas pernas esguias por sobre a pedra tumular. (CALVINO, p. 28, p. 29 e p. 30)

Eu vi o Génio da Raça!!!

(Aposto como vocês estão pensando que eu vou falar de Rui Barbosa.)

Qual!
O Gênio da Raça que eu vi
foi aquela mulatinha chocolate
fazendo o passo do siricongado
na terça-feira de carnaval!

(Ascenso Ferreira, “O gênio da raça”)

Linguagem coloquial, presença da cultura popular (passo do siricongado, carnaval), presença do mestiço (mulatinha), humor.


O poema ganha contornos de sensualidade, na ruptura com o “bom mocismo” cultivado pelos parnasianos e na irreverência em relação com os ícones da tradição brasileira.

Ascenso Ferreira (FJN)

R a p i d e z

A narrativa é um cavalo, um meio de transporte cujo tipo de andadura, trote ou galope, depende do percurso a ser executado, embora a velocidade de que se fala aqui seja uma velocidade mental. (CALVINO, p.53)

 

As embarcações singravam rumo do abismal! Descaminho...
Arroubos... Lutas... Setas... Cantigas... Povoar!
Ritmos de Brecheret!... E a santificação da morte!
Foram-se os ouros!... E o hoje das turmalinas!...

(Mário de Andrade, “Tietê”)

E x a t i d ã o

Para mim, exatidão quer dizer principalmente três coisas: 1) um projeto de obra bem definido e calculado; 2) a evocação de imagens visuais nítidas, incisivas, memoráveis: 3) uma linguagem que seja a mais precisa possível como léxico e em sua capacidade de traduzir as nuanças do pensamento e da imaginação. (CALVINO, p.71 e 72 )

Folha verde! - Deliciosa meninice das gentes de minha terra,
que eu tanto amei e senti...
Os sinos sonoros que falam do Céu!
A feira, o mercado, bananas, cajus!
Inbaúbas macias como veludo,
ingás mais macios do que veludo!

(Ascenso Ferreira, “Folha verde”)

Leveza, rapidez, exatidão, visibilidade.
Imagens visuais, sonoras, gustativas, táteis, presença do cotidiano e de elementos nacionais, o popular como temática poética, sensualidade
.

V i s i b i l i d a d e

Se incluí a visibilidade em minha lista de valores a preservar foi para advertir que estamos correndo o perigo de perder uma faculdade humana fundamental: a capacidade de pôr em foco visões de olhos fechados, de fazer brotar cores e formas de um alinhamento de caracteres alfabéticos negros sobre uma página branca, de pensar por imagens. (CALVINO, p.107 e 108)


A Verônica estende os braços
E canta
O pálio parou
Todos escutam
A voz da noite
Cheia de ladeiras acesas

(Oswald de Andrade, "Procissão do Enterro")

Um perfume de rosas no ar trescala:
- São as rosas de carne que há na sala.
(...)
Com seus deliciosos braços nus,
as rosas fazem o sinal-da-cruz...
Amém...

(Ascenso Ferreira, “Mês de maio”)

M u l t i p l i c i d a d e

Alguém poderia objetar que quanto mais a obra tende para a multiplicidade dos possíveis mais se distancia daquele unicum que é o self de quem escreve, a sinceridade interior, a descoberta de sua própria verdade. Ao contrário, respondo, quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente mexido, reordenado de todas as maneiras possíveis. (CALVINO, p.138)

Minha Londres das neblinas finas...
Pleno verão. Os dez mil milhões de rosas paulistanas.
Há neves de perfumes no ar.
Faz frio, muito frio...
E a ironia das pernas das costureirinhas
Parecidas com bailarinas....

(Mário de Andrade, “Paisagem N. 1”)

Leveza Rapidez Exatidão Visibilidade Multiplicidade

Versos livres e brancos. Acento lúdico.
Lirismo e irreverência. Metalinguagem.

Pão de Açúcar (Rio de Janeiro)

Formas pão-de-açúcar

Forma e pão-de-açúcar

Pães de açúcar

HIPERTEXTO – construído com outros textos; estabelece relações com outros textos - densidade

Escapulário

Oswald de Andrade

No Pão de Açúcar
De Cada Dia
Dai-nos Senhor
A Poesia
De Cada Dia

História (colonização, engenhos de açúcar)
Tradição (escapulário, oração)
Culinária (pão, pão doce)
Geografia (paisagem, monte do Rio de Janeiro)

Brasilidade: Pão de Açúcar >> “cartão postal” do Rio de Janeiro >> Brasil

Para uma sétima proposta

Italo Calvino não chegou a escrever a sexta conferência da série que deveria ter proferido na Universidade de Harvard.

Conforme testemunho de Esther Calvino, essa conferência trataria da Consistency.

É impossível saber o que Calvino diria.


Porém, tomando o poema de Oswald de Andrade, “Escapulário”, aos seis valores ou qualidades ou especificidades da literatura formulados por Calvino, acrescento a

Concisão: capacidade de o texto falar sobre vários assuntos e remeter a outros textos ou a diversos elementos culturais, em um exercício realizado no espaço hipertextual, cultivando ou não a rapidez da expressão, com o objetivo de nova significação. (LIMA, 2008)

Italo Calvino

A concisão decorre da reunião de textos diversos ou de uma variedade de elementos culturais, que não são reescritos e nem discutidos, em obediência à economia da literatura. O significado do texto (hipertexto) é novo, e ao mesmo tempo guarda todos os significados de que se alimenta, o que lhe confere densidade.

Seus constituintes só podem ser identificados analiticamente, pois se ocultam na opacidade hipertextual, pretendendo oferecer ao leitor um significado a ser apreendido – recebido - metaforicamente.

Portanto, a comparação não resulta em concisão. A concisão identifica-se com a metáfora.

“Escapulário”, de Oswald de Andrade, é bom exemplo de concisão.

Calvino, concentrado em leveza, rapidez, exactidão, visibilidade, multiplicidade, consistency, considerou a concisão como um aspecto da rapidez e desejou um texto de uma linha:

gostaria de organizar uma coleção de histórias de uma só frase, ou de uma linha apenas, se possível.” (CALVINO, p. 63),

interpretando a concisão como um constituinte da rapidez.

A concisão é um dos valores da literatura, que se afirma como desafio para os criadores, nas trilhas da hipertextualidade, e que deve ser preservado.

Concisão: sétima proposta para a literatura deste milênio.

LEIA MAIS EM

Capa: Rubenal Hermano

São Paulo: Navegar, 2008

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REFERÊNCIAS

ANDRADE, Mário de (1987). Poesias completas. Ed. Crítica de Diléa Zanotto Manfio. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo.

ANDRADE, Oswald de (1982). Cadernos de poesia do aluno Oswald. Poesias reunidas. São Paulo: Círculo do Livro.

BERMAN, Marshall (2005). Tudo que é sólido desmancha no ar. Trad. Carlos Felipe Moisés e Ana Maria L. Ioratti. São Paulo: Companhia das Letras.

BOSI, Alfredo (1995). História concisa da literatura brasileira, 3e ed. São Paulo: Cultrix.

BRITO, Mário da Silva (1971). Antecedentes da Semana de Arte Moderna, 3e ed. , rev. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

CALVINO, Italo (1990). Seis propostas para o próximo milênio. Lições americanas. Trad. Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras.

FERREIRA, Ascenso (1988). Catimbó, 7e ed. Recife: FUNDARPE.

GENETTE, Gérard (1982). Palimpsestes: la littérature au second degré. Paris: Seuil (Coll. Poétique).

LIMA, Sônia Maria van Dijck (2008). Concisão: sétima proposta para este milênio. São Paulo: Navegar.

Imagens: 1) Capturadas na internet. 2) Foto: Sônia van Dijck

Página para uso didático. Reprodução proibida.

Criação da página: Sônia van Dijck

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