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PORTUGAIS

Sônia Maria van Dijck Lima - Université Paris Ouest Nanterre La Défense - 2008

BRÉSIL

traversée vers le XXe siècle et propositions pour ce millénaire

Resumé des leçons

BLPLIB05 TD L3 - Travaux de littérature brésilienne

PETITE ANTHOLOGIE

L' étoile a pleuré rose au coeur de tes oreilles,
L' infini roulé blanc de ta nuque à tes reins
La mer a perlé rousse à tes mammes vermeilles
Et l' Homme saigné noir à ton flanc souverains.

(Arthur Rimbaud)

 

Correspondances

Charles Baudelaire

La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L'homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l'observent avec des regards familiers.

Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.

II est des parfums frais comme des chairs d'enfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
— Et d'autres, corrompus, riches et triomphants,

Ayant l'expansion des choses infinies,
Comme l'ambre, le musc, le benjoin et l'encens,
Qui chantent les transports de l'esprit et des sens.

One's-Self I sing

Walt Whitman

One’s-Self I sing, a simple separate person,
Yet utter the word Democratic, the word En-Masse.

Of physiology from top to toe I sing,
Not physiognomy alone nor brain alone is worthy for the Muse,
/ I say the Form complete is worthier far,
The Female equaly with the Male I sing.

Of Life immense in passion, pulse, and power,
Cheerful, for freest action form’d under the laws divine,
The Modern Man I sing.

Leaves of Grass, 1. ed. 1855

Je chante le soi-même

Walt Whitman

Je chante le soi-même, une simple personne séparée,
Pourtant je prononce le mot démocratique, le mot En Masse,
C'est de la physiologie du haut en bas, que je chante,
La physionomie seule, le cerveau seul, ce n'est pas digne de la Muse ; je dis que l'Ëtre
complet en est bien plus digne.
C'est le féminin à l'égal du mâle que je chante,
C'est la vie, incommensurable en passion, ressort et puissance,
Pleine de joie, mise en œuvre par des lois divines pour la plus libre action,
C'est l'Homme Moderne que je chante.

 

(Trad. Jules Laforgue)

POÈTES BRÉSILIENS

A um poeta

Olavo Bilac

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha e teima, e lima , e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço: e trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua
Rica mas sóbria, como um templo grego

Não se mostre na fábrica o suplicio
Do mestre. E natural, o efeito agrade
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.

Lésbia

Cruz e Souza

Cróton selvagem, tinhorão lascivo,
Planta mortal, carnívora, sangrenta,
Da tua carne báquica rebenta
A vermelha explosão de um sangue vivo.

Nesse lábio mordente e convulsivo,
Rir, ri risadas de expressão violenta
O Amor, trágico e triste, e passa, lenta,
A morte, o espasmo gélido, aflitivo...

Lésbia nervosa, fascinante e doente,
Cruel e demoníaca serpente
Das flamejantes atrações do gozo.

Dos teus seios acídulos, amargos,
Fluem capros aromas e os tetargos,
Os ópios de um luar tuberculoso...

Soneto

Alphonsus de Guimarães

Cantem outros a clara cor virente
Do bosque em flor e a luz do dia eterno...
Envoltos nos clarões fulvos do oriente,
Cantem a primavera: eu canto o inverno.

Para muitos o imoto céu clemente
É um manto de carinho suave e terno:
Cantam a vida, e nenhum deles sente
Que decantado vai o próprio inferno.

Cantem esta mansão, onde entre prantos
Cada um espera o sepulcral punhado
De úmido pó que há de abafar-lhe os cantos...

Cada um de nós é bússola sem norte.
Sempre o presente pior do que o passado.
Cantem outros a vida: eu canto a morte...

Folha Verde

Ascenso Ferreira

Folha verde - meninice,
deliciosa meninice das gentes de minha terra,
que eu tanto amei e senti...

Cavalos correndo,
engenhos moendo,
Japarandubas, Trombetas, Pirangi...

Banhos no rio!
Lavandeiras!
Jangadas de bananeiras!
Pescarias de côvo e de jequi...

Folha verde! - Deliciosa meninice das gentes de minha terra,
que eu tanto amei e senti...

Os sinos sonoros que falam do Céu!
A feira, o mercado, bananas, cajus!
Inbaúbas macias como veludo,
ingás mais macios do que veludo!


Babá-do-Arroz-Doce, Sá-Biu-dos-Cuscuz,
"o nome dos caranguejo e dos siri!"
Folha verde! - Deliciosa meninice das gentes de minha terra,
que eu tanto amei e senti...

Lua cheia! Lua-pôr-Sol!
desfazendo-se em luar...
- Manja Real!
- Saltar e pegar!
- Boca de forno!
- Forno!
- Pai do Poço!

- Olha a cobra, que te morde!
- Sai do caminho, deixa eu passar!
- Vamos brincar de esconder!
- Pronto, já me escondi...

Folha verde! - Deliciosa meninice das gentes de minha terra
que eu tanto amei e senti...

Misticismo

Ascenso Ferreira

Na paisagem da rua calma,
tu vinhas vindo... vinhas vindo...
e o teu vestido era tão lindo
que parece que tu vinhas envolvida na tu'alma...

Alma encantada;
alma lavada
e como que posta ao sol para corar...

E que mãos misteriosas terão feito o teu vestido,
que até parece o de Maria Borralheira,
quando foi se casar!...

- Certamente foi tecido
pelas mãos de uma estrela fiandeira,
com fios de luz, no tear do luar...
no tear do luar...

O teu vestido que parece o de Maria Borralheira
quando foi se casar...

- "Cor do mar com todos os peixinhos!
- Cor do céu com todas as estrelas!"
E vinhas vindo... vinhas vindo...
na paisagem da rua calma,
e o teu vestido era tão lindo
que parece que tu vinhas envolvida na tu'alma...

 

Arco-íris

Ascenso Ferreira

- Como é bonito! Como é bonito!
Cheio de cores... cheio de cores...

- Viva o Arco-íris! - ecoa um grito.
- Oh! Como é belo! Tem sete cores...
- Está bebendo água no riacho!
- Vamos cercá-lo... Vamos cercá-lo...
- Vamos passar nele por baixo!
- Vamos passá-lo... vamos passá-lo...
- Fugiu do riacho... - Subiu o monte..
- Vamos pegá-lo... vamos pegá-lo...
O monte é no alto... Só o horizonte
vazio resta... Onde encontrá-lo?

Fugiu...
A chuva fina tem carícias de morte...
Fugiu...
Para o Sul? Para o Norte?
- Quem sabe! Desapareceu...
Além...

VIDA - Arco-íris também...

 

 

 

 

 

 

 

 

Mês de Maio

Ascenso Ferreira

O altar de gazes adornado,
parece um ninho de noivado...

E a gente chega a interrogar
se Nossa Senhora vai casar...

Um perfume de rosas no ar trescala:
- São as rosas de carne que há na sala.

Rosas morenas,
rosas louras como espigas maduras.
- Ó perfumosas
e puras
rosas pálidas como açucenas!
Súbito, ecoa no espaço um som:
Kirie eleison... Kirie eleison...

E as bocas carminadas rezam baixinho...
baixinho:

"Ó Mãe castíssima!
Ó Vaso espiritual!
Ó Espelho da Justiça!
Ó Rainha concebida sem pecado original!
Ó Consolação dos aflitos!
Ó Senhora dos Infinitos!
Ó Torre de Davi!
Ó Estrela da Manhã!
Ó Escada de Jacó!
Ó Rosa de Sião!
Ó Lírio de Jericó!
Ó Rainha Cristã!
Ó!...
Rogai por nós
que recorremos a vós..."

Um perfume de rosas no ar trescala.
- São as rosas de carne que há na sala.

O incenso queima diante do altar;
o mês de maio vai terminar...

Com seus deliciosos braços nus,
as rosas fazem o sinal-da-cruz...

Amém...

A Cavalhada

Ascenso Ferreira

Fitas e fitas...
Fitas e fitas...
Fitas e fitas...
.....Roxas,
..........verdes,
..............brancas,
....................azuis...

Alegria nervosa de bandeirinhas trémulas!
Bandeirinhas de papel bulindo no vento!...

Foguetes do ar...
- "De ordem do Rei dos Cavaleiros,
a cavalhada vai começar!"

Fitas e fitas...
Fitas e fitas...
Fitas e fitas...
.........Roxas,
..............verdes,
..................brancas,
.........................azuis...

- Lá vem Papa-Légua em toda carreira
e vem com os arreios luzindo no sol!
- Danou-se! Vai tirar a argolinha!
- Pra quem será?
- Lá vem Pé-de-Vento!
- Lá vem Tira-Teima!
- Lá vem Fura-Mundo!
- Lá vem Sararál

- Passou lambendo!
- Se tivesse cabelo, tirava!...
- Andou beirando!...
- Tirou!!!
- Música, seu mestre!
- Foguetes, moleque!
- Palmas, negrada!
- Tiraram a argolinha!
- Foi Sarará!

Fitas e fitas...
Fitas e fitas...
Fitas e fitas...
..........Roxas,
...............verdes,
...................brancas,
.........................azuis...

- Viva a cavalhada!
- Vivôôü!

- "De ordem do Rei dos Cavaleiros,
a cavalhada vai terminar!"

Ascenso Ferreira - Arc. FJN

O Gênio da Raça

Ascenso Ferreira

Eu vi o Génio da Raça!!!

(Aposto como vocês estão pensando que eu vou falar
de Rui Barbosa.)

Qual!
O Gênio da Raça que eu vi
foi aquela mulatinha chocolate
fazendo o passo do siricongado
na terça-feira de carnaval!

Inspiração

Mário de Andrade

“Onde até na força do verão havia tempestades de ventos e frios de crudelíssimos invernos.”
Fr. Luís de Sousa

São Paulo! comoção de minha vida...
Os meus amores são flores feitas de original!...
Arlequinal!... Trajes de losangos... Cinza e ouro...
Luz e bruma... Forno e inverno morno...
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de Paris... Arys!
Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!...

São Paulo! comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América.

Mário de Andrade - Arc. IEB/USP

 

O trovador

Mário de Andrade

Sentimentos em mim do asperamente
dos homens das primeiras eras...
As primaveras de sarcasmo
intermitentemente no meu coração arlequinal...
Intermitentemente...
Outras vezes é um doente, um frio
na minha alma doente como um longo som redondo...
Cantabona! Cantabona!
Dlorom...

Sou um tupi tangendo um alaúde!

Tietê

Mário de Andrade

Era uma vez um rio...
Porém os Borbas-Gatos dos ultra-nacionais esperiamente!

Havia nas manhãs cheias de Sol do entusiasmo
as monções da ambição...
E as gigânteas vitórias!
As embarcações singravam rumo do abismal Descaminho...
Arroubos... Lutas... Setas... Cantigas... Povoar!
Ritmos de Brecheret!... E a santificação da morte!
Foram-se os ouros!... E o hoje das turmalinas!...

- Nadador! Vamos partir pela via dum Mato-Grosso?
- Io! Mai!... (Mais dez braçadas.
Quina Migone. Hat Stores. Meia de seda.)
Vado a pranzare con la Ruth.

Paisagem N. 1

Mário de Andrade

Minha Londres das neblinas finas...
Pleno verão. Os dez mil milhões de rosas paulistanas.
Há neves de perfumes no ar.
Faz frio, muito frio...
E a ironia das pernas das costureirinhas
Parecidas com bailarinas...
O vento é como uma navalha
Nas mãos dum espanhol. Arlequinal...
Há duas horas queimou Sol.
Daqui a duas horas queima Sol.

Passa um São Bobo, cantando, sob os plátanos,
Um tralalá... A guarda-cívica! Prisão!
Necessidade a prisão
Para que haja civilização?

Meu coração sente-se muito triste...
Enquanto o cinzento das ruas arrepiadas
Dialoga um lamento com o vento...

Meu coração sente-se muito alegre!
Este friozinho arrebitado
Dá uma vontade de sorrir!

E sigo. E vou sentindo,
À inquieta alacridade da invernia,
Como um gosto de lágrimas na boca...

Paisagem N. 3

Mário de Andrade

Chove?
Sorri uma garoa cor de cinza,
Muito triste, como um tristemente longo...
A casa Kosmos não tem impermeáveis em liquidação...
Mas neste largo do Arouche
Posso abrir meu guarda-chuva paradoxal,
Este lírico plátano de rendas mar...

Os homens passam encharcados...
O reflexos dos vultos curtos
Mancham o petit-pavé...
As rolas da Normal
Esvoaçam entre os dedos da garoa...
(E si pusesse um verso de Crisfal
No De Profundis?...)
De repente
Um raio de Sol arisco
Risca o chuvisco ao meio.

 


Tarsila do Amaral. Oswald de Andrade, 1922

 

Paisagem

Oswald de Andrade

Cultivam-se palmares de cocos grandes
Principalmente à vista do mar

(“Frei Vicente do Salvador”)

Prosperidade de São Paulo

Oswald de Andrade

Ao redor desta vila
Estão quatro aldeias de gentio amigo
Que os padres da Companhia doutrinam
Fora outro muito
Que cada dia desce do sertão

(“Frei Vicente do Salvador”)

Paisagem

Oswald de Andrade

O cafezal é um mar alinhavado
Na aflição humorística dos passarinhos
Nuvens constroem cidades nos horizontes dos carreadores
E o fazendeiro olha os seus 800 000 pés coroados

3 de maio

Oswald de Andrade

Aprendi com meu filho de dez anos
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi

Bonde

Oswald de Andrade

O transatlântico mesclado
Dlendlena e esguicha luz
Prostretutas e famias sacolejam

São João Del Rei

Oswald de Andrade

Bananeiras
O sol
O cansaço da ilusão
Igrejas
O ouro na serra de pedra
A decadência

Procissão do Enterro

Oswald de Andrade

A Verônica estende os braços
E canta
O pálio parou
Todos escutam
A voz da noite
Cheia de ladeiras acesas

Himeneu

Oswald de Andrade

Para teu corpo
Construirei o dossel
Abrirei a porta submissa
Ligarei o rádio
Amassarei o pão

geração 60

Sérgio de Castro Pinto

a carta branca do montilla
não era de alforria.

o papagaio era calado.
o cuba-libre nos prendia.

e em barris de carvalho
o tempo envilecia.

Sérgio de Castro Pinto - Arc. O NORTE

atos falhos

Sérgio de Castro Pinto

sequer os ensaio.

mas os meus atos falhos
encenam-se assim:

eles já no palco
e eu ainda
no camarim.

sem fórmula

Sérgio de Castro Pinto

não piso a embreagem,
piso a paisagem
e a ponho em primeira,
segunda, terceira e quarta
de segunda à sexta.

(às vezes dou-lhe ré,
mas ela sempre me escapa).

aos sábados e domingos
deixo-me ficar em ponto morto
diante dessas fotos já sem cor:

paisagens vistas de retrovisor?

sedentário

Sérgio de Castro Pinto

sob o interrogatório
dos cabides,

as roupas são açougues
onde falta a carne
do meu corpo triste.

língua

Sérgio de Castro Pinto

espada fora da bainha.

crista de galo
na rinha
dos lábios.

fogo chovendo no teu molhado.

GLOSSAIRE
Acídulo – ligeiramente ácido
Capro – bode; fig.: demoníaco
Fulvos – ruivo, loiro dourado
Imoto – imóvel, insensível, inflexível
Lésbia – nome da amada que aparece em vários poemas de Catulo: mulher casada, aristocrata, que teria tido um romance com o poeta; mulher de comportamento condenável; mulher dada à luxúria; personificação de aspectos femininos negativos
Tetargo – letargo; letargia, sono profundo, torpor
Virente – verdejante, viçoso, próspero, magnífico, florescente

RÉFÉRENCES – poetes brésiliens

ANDRADE, Mário de (1987). Poesias completas. Ed. Crítica de Diléa Zanotto Manfio. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo.

ANDRADE, Oswald de (1982). Cadernos de poesia do aluno Oswald. Poesias reunidas. São Paulo: Círculo do Livro.

BILAC, Olavo. Poesias. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1978. Col. Prestígio.

CRUZ E SOUZA. Obra completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1961.

GUIMARÃES, Alphonsus de. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001.

FERREIRA, Ascenso (1988). Catimbó, 7ª ed. Recife: FUNDARPE.

PINTO, Sérgio de Castro. Domicílio em trânsito. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.

____________________O cerco da memória. João Pessoa: Ed. Universitária, 1993.

__________________ e TAVARES, Flávio. A quatro mãos. João Pessoa: Ed. Universitária; ANPOLL, 1996.

Matériel didactique.

Resumé des leçons

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