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Capa: José David Campos Fernandes

LIMA, Sônia Maria van Dijck. (Org.).

Ascendino Leite

entrevista Guimarães Rosa


João Pessoa: Editora Universitária/ UFPB, 1997

 

Constância Lima Duarte (1)
Universidade Federal de Minas Gerais

Uma ótima notícia para os mineiros nos chega do Nordeste. A Editora da Universidade Federal da Paraíba lançou um livro que pode ser considerado uma verdadeira preciosidade. Seu título: Ascendino Leite entrevista Guimarães Rosa. Trata-se realmente de uma preciosidade porque o livro contém uma das poucas entrevistas que Guimarães Rosa deu ao longo de sua vida. O privilegiado interlocutor, Ascendino Leite - conhecido jornalista e intelectual paraibano - transformou as horas passadas com o escritor em interessante reportagem para o jornal A Noite *, do Rio de Janeiro, de 26 de maio de 1946. A recente publicação de Sagarana, mais o sucesso e a repercussão que o livro alcançava em todo o país, levou o jornalista (com o incentivo de Carlos Lacerda) a procurar Guimarães Rosa no Itamarati para uma entrevista. Ao longo da conversa, Ascendino Leite vai confessar sua admiração irrestrita pelo autor e tentar compreender o processo de criação de Sagarana.
A responsável pela localização e publicação de tão importante material é Sônia van Dijck, professora da UFPB, doutora em Literatura Brasileira pela USP e ex-presidente da ANPOLL. As investigações que Sônia realizou em arquivos e bibliotecas do país acerca dos manuscritos e da correspondência de Hermilo Borba Filho, José Lins do Rego e Olívio Montenegro tornaram-na conhecida nacionalmente e respeitada como uma especialista da gênese textual e na Crítica Genética.
E não são poucos os motivos que me fazem considerar Ascendino Leite entrevista Guimarães Rosa uma preciosidade editorial. O acabamento gráfico, a edição, em papel pólen, fartamente ilustrada com as capas das cinco primeiras edições de Sagarana, as fotos do escritor e do entrevistador, são apenas alguns deles. O livro é valioso principalmente por trazer a público - após cinqüenta e dois anos - a inédita entrevista de Rosa que permanecia depositada no Instituto de Estudos Brasileiros, da USP. Felizmente, para nós, Sônia van Dijck a encontrou e percebeu de imediato o quanto era oportuno reeditá-la, até como forma de permitir aos estudiosos de Rosa terem acesso a um depoimento do próprio autor sobre um de seus mais conhecidos textos.
Mas o livro ainda tem mais, o que me permite achar seu título redutor por fazer o leitor pensar que apenas encontrará nele o texto da entrevista. Na verdade, ele está organizado em quatro partes. A primeira, intitulada "As chaves de um autor", contém a pesquisa de Sônia van Dijck em torno de aspectos relativos à gênese de Sagarana. Suas informações elucidam sobremaneira os diferentes momentos por que o texto passou - de 1937, quando é concebido sob nome de Sezão, a 1946, quando finalmente é entregue ao público, já como Sagarana. Van Dijck percorre cada uma das versões e anota as alterações que vão sendo feitas nos títulos (do livro e dos contos); a inclusão e exclusão de narrativas de uma edição para outra; e nos revela depoimentos inéditos do próprio autor a respeito dessas modificações, encontrados em pesquisas nos arquivos de José Mindlin e Aderaldo Castelo. Guimarães Rosa declara, por exemplo, ao ser indagado sobre a insistência em continuar corrigindo o livro: o que me preocupa e tortura, ao rever as páginas escritas, é a angústia de evitar a chapa, o chavão, a frase-feita.
A segunda parte traz a entrevista propriamente dita de Rosa, que habilmente Ascendino Leite transforma em reportagem. O título - Arte e céu, países de primeira necessidade - antecipa a narrativa agradável e sofisticada que se segue. O entrevistador estabelece um clima de intimidade e conduz a conversa com a habilidade de quem conhece bem sua arte. O objetivo que o move é claro desde o início: quer a chave de Sagarana. Interessa-se pelos primeiros anos de vida do escritor, a cidade onde nasceu, e vai anotando com perspicácia as revelações sobre sonhos infantis, experiências de vida e projetos futuros, até penetrar no universo ficcional. Guimarães Rosa revela então as linhas básicas de sua poética, que se apoiariam principalmente no amor à terra, nas lembranças da infância, na valorização da natureza, na pesquisa da linguagem poética e na preferência assumida pela investigação do problema do destino, da sorte e do azar, da vida e da morte. Segundo Sônia van Dijck, "Ascendino provoca, Guimarães fala, o repórter anota".
Em alguns momentos o jornalista apresenta um resumo do que ouve; em outros, deixa o próprio escritor se expressar e transcreve suas palavras. Como nesse momento, quando indaga o escritor sobre sua infância:
Não gosto de falar da infância. É um tempo de coisas boas, mas sempre com pessoas grandes incomodando a gente, intervindo, comentando, perguntando, mandando, comandando, estragando os prazeres. Recordando o tempo de criança, vejo por lá um excesso de adultos, todos eles, mesmo os mais queridos, ao modo de soldados e policiais do invasor, em pátria ocupada. (...) Gostava de estudar sozinho e de brincar de geografia. Mas, tempo bom, de verdade, só começou com a conquista de algum isolamento, com a segurança de poder fechar-me num quarto e trancar a porta. Deitar no chão e imaginar histórias, poemas, romances, botando todo mundo conhecido como personagens, misturando as melhores coisas vistas e ouvidas, numa combinação mais limpa e mais plausível, porque -como muita gente já compreendeu e já falou — a vida não passa de histórias mal arranjadas, de espetáculo fora de foco. A arte e o céu serão, pois, assunto mais sério, e também são países de primeira necessidade. (p. 39)
Após a entrevista/reportagem, temos a terceira e a quarta partes do livro, onde Sônia van Dijck nos oferece primeiro uma cronologia de vida e obra de Guimarães Rosa com alguns achados curiosos, como o título original com que ele inscreveu o livro Sagarana no concurso literário, e o pseudônimo - Viator - utilizado na ocasião. Depois, temos um perfil biográfico de Ascendino Leite, um paraibano amigo de Rachel de Queiroz e José Américo de Almeida, que manteve ao longo da década de 30 uma coluna sobre os principais eventos culturais e literários do país. Além de jornalista, foi romancista, memorialista e tradutor de Rilke, Stendhal e Maupassant.
Por tudo isso, é oportuna esta publicação de Ascendino Leite entrevista Guimarães Rosa. No ano em que lembramos os 30 anos de morte do autor, e que nos empenhamos na reedição de sua obra e na organização de congressos e seminários visando um amplo debate em torno do escritor mineiro, uma publicação como esta da UFPB vem se somar às comemorações e torná-las ainda mais amplas e significativas.

2ª ed., rev. - 2000

Capa: José David Campos Fernandes

NOTAS

1. Constância Lima Duarte é Doutora em Literatura Brasileira (USP), e Professora do Departamento de Letras Vernáculas da UFMG.

* Nota da webmaster: Na verdade, a entrevista foi publicada em O Jornal (Rio de Janeiro), na data corretamente informada por Duarte.


Publicado in:

Boletim do Centro de Estudos Portugueses, Belo Horizonte, v. 19, n. 24, jan.-jun. 1999, p. 213-216.

© Copyright by Constância Lima Duarte, 1999

Wave: Minas Gerais
(na verdade, trata-se da composição napolitana
Viene sul Mare - séc. XIX)

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