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Da Cartilha para os livros de gente grande


Sônia van Dijck

Para mamãe

Eu achava minha mãe muito bonita, metida num tailleur de tafetá, segurando um monte de livros, indo e vindo do Grupo Escolar, sempre arrodeada de alunos. Quando chegavam à porta lá de casa, era uma algazarra, porque todos se despediam de uma só vez e as vozes se misturavam aos risos do “Até amanhã, professora”. A cena acontecia logo depois do meio-dia e no fim da tarde.
Naquele tempo, só havia bondes e ônibus nas capitais, - aliás, os ônibus eram chamados de “marinetes”. No interior, todos circulavam a pé. Contra o sol, os homens usavam chapéus e as mulheres gostavam de belas sombrinhas.
À tarde, lá em casa, minha avó sentava-se à cabeceira da mesa da copa, cercada de meninas e meninos. Vovó, apesar de não ter completado sua educação formal, tinha sempre livros por perto e opinião sobre muitos aspectos da vida, além de conhecer o milagre dos chás e brincadeiras de adivinhação. Ela dava aulas de reforço – dizia-se que ela dava banca.
Morávamos no interior da Bahia.
Todas as tardes, eu escutava palavras mágicas como “álgebra”, “gramática”, “apólogo”, e as crianças menores liam em um livro chamado Cartilha, que tinha uma linda menina na capa, vestida de azul e branco, deitada meio de bruços, com as pernas dobradas para cima, lendo um livro, que nunca fiquei sabendo qual era.
As crianças recitavam, apontando as linhas da cartilha: “Vovô viu a uva. A uva é da vovó”. Eu sabia que encontravam aqueles ditos naquele livrinho da menina na capa.
Ficava rondando a mesa da copa e não podia fazer diabruras, para não perturbar os alunos de minha avó.

Mas, a coisa não era um mar de rosas. Na parede da copa, estava pendurada dona Palmatória – a de lá de casa era de jacarandá e tinha uma cara um tanto antiga e talvez mamãe a tivesse experimentado uns anos antes. Os erros, as faltas de atenção, podiam fazer dona Palmatória entrar em ação. O indigitado ou a indigitada não tinha tempo para chorar muito, pois o castigo ainda se completava com alguma coisa como escrever 100 vezes “Vou prestar mais atenção à explicação da professora” e tinha que segurar o lápis com a mão inchada dos bolos de palmatória e se preparar para o puxão de orelha quando a mãe viesse buscar no fim da tarde, e fosse informada do deslize cometido. Elas adoravam ter filhos na banca de vovó.
As aulas começavam em março. Sorte minha, pois fiz cinco anos em março, e mamãe e vovó decidiram que havia chegado minha hora de começar a descobrir as letras. Na segunda-feira depois de meu aniversário, fui levada, depois do almoço, para a casa de uma amiga de mamãe e vovó.
Não gostei muito de ser deixada por minha avó na casa de dona Dalva, uma bela moça, de longos cabelos. Ela veio me receber na porta da casa, na mesma rua em que eu morava. Foi gentil e calorosa comigo. Minha raiva por ter sido largada na casa da quase vizinha foi se apagando e ela foi me mostrando as letras na carta do ABC, enquanto me fazia desenhar cada uma em uma pequena lousa. Mas, eu vi que dona Palmatória estava também na sala de dona Dalva.
Não cheguei a entender bem o que fiz ou o que me aconteceu. Só me lembro de, dois dias depois, ter sido conduzida à casa de dona Dalva levando aquele livrinho da menina de azul e branco, que acabava de ganhar de minha avó e mais um caderno novinho em folha. Escrevi meu nome na capa do caderno, com a ajuda da professora.
Na sala da professora Dalva, havia uma luz calma e sempre fazia fresca. A mãe dela deslizava, de vez em quando, pelo corredor e ia à cozinha ou ao quintal, e voltava com passos leves. Eu era sua única aluna por talvez umas duas horas. Sua voz era calma; suas mãos delicadas, para me ensinar a segurar o lápis.
Era minha vez de dizer “Vovô viu a uva. A uva é da vovó” e eu já sabia o que o livrinho da menina de pernas dobradas para cima guardava e começava minha mágica recitação, reconhecendo as palavras. Depois de copiar o que havia lido e escrever outras frases que dona Dalva ditava, estava terminada minha sessão; minha avó estava na porta lá de casa, vigiando eu cruzar os poucos metros entre uma casa e outra, e mais uma criança estava chegando para os cuidados de minha professora.
Eu já gostava do jeito de a professora sorrir enquanto eu lia em minha cartilha. Mas, na sexta-feira, minha aula terminou mais cedo e dona Dalva levou-me para minha casa. Como as crianças não podiam perguntar as razões da gente grande, fui trocar minha roupa de festa, tirar as meias quentes e os sapatos que me davam saudade de meus chinelos, enquanto vovó e ela conversavam na sala de visitas e a criançada da copa aproveitava o recreio inesperado.
Dona Dalva tinha vindo avisar que eu já sabia ler e escrever e que já não podia ficar comigo como aluna, porque seu trabalho era somente alfabetizar.
Mamãe ficou sabendo da novidade na hora do jantar e fez um sorriso bonito.
Minha suprema glória era o fato de dona Dalva não poder dizer que tinha usado a palmatória para me ensinar a ler e escrever.
Como não tinha idade ainda para ir à escola formal, fui integrada à turma da banca de vovó.
Logo me apareceram os livrinhos das Edições Melhoramentos e as revistinhas, que eu devorava nas horas em que não estava sentada à mesa da copa fazendo exercício de caligrafia, copiando trechos do Tio Emílio – 1ª série, ou lendo alto algum parágrafo de outro livro, como lição oral.

No outro ano, eu também usava saia azul e blusa branca, e mamãe era minha professora. Agora, eu tinha uma pilhinha de revistas que eram minha coleção de Cirandinha e Luluzinha e meus livrinhos como A bela adormecida, Os cisnes selvagens e Cinderela, que, tempos depois, deixei na pequena biblioteca que criei na primeira escola em que fui professora, em outra cidade da Bahia.

Aquela minha coleção de livrinhos já não me fazia falta. Eu os conhecia de cor, tanto que foram relidos, antes de minha descoberta de José de Alencar, aos 11 anos: O tronco do ipê, que mamãe dizia ter sido o primeiro romance que leu.

Fomos morar na capital, e conheci Machado de Assis, nas aulas da professora Adélia, no ginásio, com os exercícios de resumo em cadernos forrados de papel verde. Foi quando cresci um pouco mais para ler outros livros lá de casa. Logo, estava lendo outros tantos, às escondidas, trazidos por alguma colega, e que me eram passados furtivamente, em artes de deixar a sacola no banheiro ou embaixo de alguma escada do colégio; sempre devolvidos com as mesmas artimanhas. O mulato, por essa época, me foi apresentado.
Só universitária conheci Balzac e entendi porque vovó e mamãe conversavam tanto com as amigas sobre a Comédia humana. A cada livro de Jorge Amado que li, lembrei-me de minha infância, quando aqueles romances me eram proibidos e ficavam guardados em uma estante com portas de vidro, cuja chave vovó guardava em local misterioso.
Mas, vovó, que já tinha partido, não poderia conversar comigo como fazia baixinho na sala de visitas, nas tardes de domingo, quando alguma amiga vinha devolver o livro que havia tomado emprestado ou oferecer algum de sua biblioteca. E riam, às vezes. Às vezes, pareciam graves. E vovó olhava pelo canto do olho, para se certificar de que eu estava distraída com meus brinquedos. Quando mamãe estava presente, eu era mesmo expulsa da sala: a conversa era mesmo para gente grande. Tomavam um cálice de licor de jenipapo e a amiga saía com outro livro, vindo daquele armário de portas de vidro.
Nunca saberei se vovó conheceu Vinicius e Cecília, que tanto me encantam. Sou também apaixonada por Castro Alves e guardo o exemplar de Espumas flutuantes que pertenceu a vovó.
Talvez para celebrar aquelas conversas de vovó e mamãe com as amigas, em torno de livros, eu me tornei professora de Literatura e crítica literária e, assim, posso conversar com muitas pessoas sobre os livros que tenho lido.
Adélia ainda é minha amiga, aos 70 e poucos anos, e eu me sinto sua aluna quando relembramos suas aulas sobre os romances de Machado de Assis e aqueles cadernos de resumos, que ela avaliava criteriosamente. Damos boas risadas, revivendo minha iniciação sistemática como leitora e seu rigor de jovem professora no colégio das irmãs ursulinas.

Abril de 2006

Publicado in: MEDEIROS, Neide e LIMEIRA, Yolanda (orgs.). Memórias rendilhadas: vozes femininas. João Pessoa: Ed. Universitária/UFPB, 2006, p. 83-87.

Capa: Mônica Câmara

© Copyright by Sônia van Dijck, 2006

Imagens capturadas na internet:

Cartilha, José de Alencar, Machado de Assis, Balzac, Castro Alves

Mamãe e a Professora Adélia - 17 jan. 2007

Foto: Sônia van Dijck

Eu e minha Professora Adélia - 17 jan. 2007

Foto: Anísia de Moura Pinho

LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998

Midi: Chopin

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