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ESPAÇO dos AMIGOS

Elisa Nazarian

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A PAIXÃO DE OTTO

Morando há quarenta anos no Brasil, Otto ainda tinha problemas na pronúncia dos erres e dos sons anasalados, o que não comprometia sua eloqüência nos discursos em mesas de bar. Grande personagem o Otto: setenta e oito anos, alto, bom físico, nariz aquilino, bastante cabelo, um pouco surdo é verdade, mas ágil e enérgico, sobrancelhas cerradas.
Pois Otto agora começava a murchar. Lentamente, mas murchava.
E aconteceu de se descobrir apaixonado pela caixa do supermercado. A mais magrinha e invisível, Ana; o que era bastante estranho, já que Otto passara a vida atraindo todas as mulheres, mesmo as que nem notava.
Pois Otto, em desacerto com a idade, cabeça desmembrada do corpo, se encantou no jeito com que Ana dizia: "Volte sempre", ao final de suas compras. Tomou isso no particular, na intimidade. Mesmo que ela o repetisse a quem quer que fosse, com ele era diferente, quase um sussurro.
Estava cansado de morar na mesma casa, na mesma cidade, cansado dos amigos cada vez mais jovens, cansado de tantas noites de insônia. E apareceu Ana dizendo: "Volte sempre".
Otto começou a ter urgências de um litro de leite, meio quilo de carne, uma pasta de dentes, pão de forma. Começou a gostar do brilho da luz fluorescente e a levar notas graúdas para compras ínfimas.
No "Volte sempre" de Ana, descobriu dois dentes encavalados e um par de brincos quase de pérolas.
Não houve nem como desentender essa paixão. Os dentes encavalados de Ana se revelaram acima da maior competência, e o olhar de Otto começou a escorregar para o gesto de seus dedos na contagem do troco. Unhas curtas e sem brilho.
Ele se casara umas poucas vezes ao longo dos anos, e se separara umas outras tantas com maior veemência, deixando vários corações ensombreados e sem filhos. Como editor de livros de arte, era reconhecidamente o melhor. Punha grande paixão em tudo que fazia e seus livros, embora caros, eram bastante disputados. Quase tudo em que trabalhara dera bom retorno. Não tinha problemas econômicos.
Ana pouco notara Otto. Confundia-o com outros clientes, de outras idades e outros tamanhos.
Na quarta-feira ele percebeu que ela estava nervosa, porque dobrou as notas ao lhe dar o troco. Na quinta veio com uma fivelinha no cabelo, que não lhe ficava nada bem.
Otto gostava da falta de graça explícita de Ana.
Fora a paixão que lhe acometera, sua vida seguia quase igual. Ainda dirigia de maneira ensandecida e continuava se limitando a usar calças jeans e camisetas brancas.
Na quarta-feira em que dobrou as notas, Ana esqueceu o guarda-chuva no trabalho, e teve que esperar pelo ônibus debaixo de chuva forte. Otto jantava na casa de um amigo.
No sábado, Otto foi pra cama com Arlete e dormiu com Ana. Projetou na primeira o rosto da segunda e imaginou o resto. Ana, em sua casa de três cômodos, terminava a faxina e se preparava pra dormir. Sozinha.
Talvez tudo tivesse permanecido indefinidamente deste jeito, não fosse o tédio ter acometido Otto na manhã do dia seguinte, pleno domingo, levando-o a sair da cama bem cedo. Sentiu desejo de comer pão-de-queijo.
Sem se preocupar nem um pouco com a aparência, enfiou os pés nuns chinelos gastos , passou os dedos pelos cabelos e partiu rumo ao supermercado. Eles acabavam de abrir as portas.
A poucos metros, Otto presenciou a chegada de Ana um tanto esbaforida. Vestia uma saia sem jeito e uma blusa laranja. Nada demais. Mas foram seus pés que deixaram Otto aturdido. Ele nunca parara pra pensar nos pés de Ana, e agora eles estavam ali, os dois, bem na sua frente, numas sandálias de dedo amarelo-gema. E Otto viu claramente que o segundo dedo, o que correspondia ao indicador, era bem mais comprido que o primeiro, o correspondente ao polegar.
Otto perdeu seus olhos nos pés de Ana. Desmembrou-os do resto do corpo e ficou ali na calçada, tentando lhes dar novo feitio. Um segundo dedo maior do que o primeiro seria um obstáculo intransponível.
Ana, de jaleco azul, há muito assumira suas funções. No seu caixa registrava um lote de cervejas.

© Copyright by Elisa Nazarian, 2005

Fotos: Sônia van Dijck

Midi: Debussy

LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998

No curso de um breve movimento cultural em defesa do sítio histórico rua Gabriel Malagrida - conhecido como Beco da Faculdade - (João Pessoa - PB - Brasil), dois participantes e amigos mandaram-me textos sobre o Padre Gabriel Malagrida, cuja atuação, no Brasil, foi de grande importância - Elizabeth Hazin - Evandro da Nóbrega
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