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Shopping dos Milagres -Travessia - Uma mesa perto da arrebentação

 

 

A ESCOLHIDA

Sônia van Dijck

 

Kawo Kabiyesi le!

Vera queixou-se do frio nos pés. Rosa levantou-se impaciente com a demora da empregada.
- Parece até que foi até o fim do mundo só pra encher uma bolsa de água quente... – pensou.
Ainda pôde ouvir, ao entrar na cozinha:
-... é encosto...
- Não!... a menina tem que pagar obrigação.
- Que conversa é essa?! - disse Rosa, quase gritando. Arrebatou a bolsa de água quente da mão de Estela e, antes de passar pela porta avisou:
- Não quero esses assuntos aqui em casa. Não gosto. Se doutor Pedro souber... ele odeia isso.
Apressou-se em voltar para o quarto. O calor da bolsa parecia ter trazido conforto a Vera, que agora estava de olhos fechados; talvez dormisse.
E aquela Estela... atrevida... metendo-se em conversas com Guiomar... Mas... essa também... cozinheira de confiança, bem sabia que naquela casa não entravam esses assuntos... Por um momento, pensou que não fizera bem quando admitira aquela Estela... mas a festa de quinze anos de Vera daria muito trabalho a Guiomar e à copeira, com todos aqueles parentes que chegariam... Sabe como é: gente de fazenda não fica em hotel... Além do mais, todo mundo sabia que sua casa era enorme... uma mansão, no dizer das tias velhas. Estela aparecera... seria mais uma para ajudar... afinal, não pretendia descabelar-se o dia inteiro, para que todos ficassem satisfeitos. A doença repentina de Vera cancelara a festa. E Estela foi ficando e ajudando em providências que não tinham sido pensadas: mudar rápido a roupa de cama, suja de vômito; botar água quente na bolsa; trazer água para o comprimido. Ninguém sabia o que era; nem os médicos. A menina começara a passar mal, a vomitar, a ter crises de frio... também tinha febre. O pai, em pânico, levara para uma clínica particular. A melhor da cidade... era louco pela filha. Dias de exames e de observação. Ninguém dizia nada... A menina tinha melhorado dos vômitos e já não tinha febre. Melhor voltar para casa e aguardar os resultados dos exames de nomes complicados. Pedro já pensava em levar a filha para os Estados Unidos. Tinha dinheiro. Um médico ponderara que poderia não ter necessidade... e Rosa achava a filha muito fraca (em tão pouco tempo...) para a viagem. Melhor aguardar.
Recostou-se na poltrona, olhando a filha de olhos fechados. Fora uma gravidez difícil. Ninguém dizia... Rosa era jovem e saudável, mas... nunca se sabe... As complicações do parto... e o médico quando disse, dias depois: “A senhora não poderá mais ter filhos”. O mundo rodou. Não quis entender. Só sabia que não teria mais filhos. E Pedro, advogado de sucesso, que queria um filho, para lhe continuar a carreira... Vera foi criada como princesa; o pai encantado por ela, já a via advogando, trabalhando com ele no escritório. Nunca mais falou em filho... E agora... aquela estranha doença... Uma crise de vômitos tirou-a da poltrona num pulo. A febre voltou.
-Estela!!... ajude aqui.
Só quando a empregada se abaixou para ajudar a carregar a menina para o banheiro, reparou nas contas dentro da blusa...
-Vai ser uma noite difícil... Pedro só chega amanhã...
Sentiu-se só, mas fora ela que insistira naquela viagem. Vera parecia melhor e ele tinha os compromissos de conferências e congressos. Roupa de cama trocada, camisola limpa, a menina gemia baixinho (estranho: quando lhe perguntavam onde doía, não sabia responder ao certo). Talvez Pedro voltasse a falar em ir aos Estados Unidos... quem sabe se os médicos de lá... já pensava como solução para aquele quadro tão estranho de definhamento. A poltrona... Levantou-se para beber água. A casa em silêncio, depois que Guiomar limpara a cozinha após o jantar. Estela estava com a cabeça entre os braços na mesa da cozinha. Levantou assustada. O desalinho da blusa deixava as contas à mostra.
- Ainda aí?
- A senhora precisa de alguma coisa?
- Só vou tomar água...
Estela ajeitou a blusa e pegou a água. Continuava de pé diante de Rosa, sentada à mesa. Cansada.
- Aquela conversa de logo cedo...
- A senhora me desculpe, não foi por mal...
Rosa lembrava-se de uma velha história. Sua mãe temia perder o marido para uma sirigaita, assanhada e ambiciosa lá da fazenda. Filha de um morador, fazia serviços na casa-grande. Estava moça feita, quando dona Margarida se mudou para a cidade por causa da escola das crianças, e continuou no serviço doméstico. Foi advertida pela cozinheira, que era gente de lá do interior e que ouvira os comentários das comadres. Muito choro, cheia de ciúme, aceitou o conselho da lavadeira:
- Minha mãe, a senhora fez feitiço para meu pai?
- Feitiço!? Não, gosto disso. Mandei fazer um trabalho.
As duas arrumavam as últimas peças do enxoval de Rosa, véspera do casamento. Na intimidade do quarto, dona Margarida dobrava as peças, quando disse:
- Se sentir seu casamento ameaçado, faça tudo que estiver a seu alcance. Numa situação dessa, vale qualquer tentativa.
Diante da curiosidade de Rosa, resolveu contar. Também, isso não alterava mais nada... estava viúva, e vivera os últimos anos de casamento na maior paz. Seu Alfredo, ninguém entendeu, perdeu o gosto pela fazenda, duma hora para outra... Até que conseguiu fazer bom negócio... Mudou-se em definitivo para a cidade e aplicou o dinheiro para criar uma construtora. Morreu de enfarte – quem sabe?... dos aborrecimentos da empresa.
- E a outra, a da fazenda? – perguntou Rosa.
- A assanhada? logo depois minha cozinheira me contou, amigou-se com o novo capataz. Morreu do primeiro filho.
Um frio percorreu a espinha de Rosa.
- Não é isso criatura. Queria que você me explicasse esse negócio de pagar obrigação.
Estela sentou-se do outro lado da mesa. Guiomar entrou silenciosa e resolveu renovar a água quente da bolsa dos pés Vera. Saiu sem palavra.
- Mas... e doutor Pedro...
- Não precisa ficar sabendo. Não se esqueça disso. Avise a Guiomar. – respondeu Rosa com secura.
- Só se a gente fizer esta noite... Já tinha conversado com minha mãe Pequena. Ela tá sabendo de tudo. Tem tudo pronto pra hora que a senhora quiser.
Disse a Guiomar que olhasse a menina e foi tirar o carro, enquanto Estela trocava de roupa. Deixou o carro encostado diante do portão e resolveu dar uma olhada para se assegurar de que Guiomar ficaria no quarto. Estela ajeitava a cabeça de Vera no travesseiro. Seus olhos caíram sobre o decote da camisola: as contas haviam mudado de pescoço. Parecia que uma mão suave lhe roçava os cabelos: “vale qualquer tentativa”... - a voz de dona Margarida. Também por uma filha... pensou.
Mãe Pequena explicou que não era preciso acompanhar nada. Ela e as duas filhas que trouxera, mais Estela fariam tudo. O quarto, depois, estaria em ordem. Ficou com Guiomar na cozinha.
Manhãzinha, o cheiro de ervas acendia a casa. Mãe Pequena explicou que tudo ficaria bem. Questão de dias, se alimentando melhor... Só precisava que Estela fosse com ela; dia seguinte, estaria de volta. Rosa ainda ouviu, do fundo de sua ansiedade, não senhora... nada disso... não posso cobrar nada; recusou até o pagamento até dos animais.
- O que quer dizer?
- A menina é especial. Tem que ser feita. Ainda é cedo. Mas, se não for feita, será escrava. Ele vai cobrar o que lhe pertence. Mas, a senhora tem tempo para preparar tudo. Ela está muito nova.
- Essa gente não fala coisa com coisa, pensou enquanto pegava a chave do carro, para levar as mulheres de volta à casa grande, na saída da cidade. Guiomar voltou a seu posto de vigilante no quarto.
- Está bem melhor mesmo. - Disse Pedro ao telefone. O médico telefonara para dizer que os exames nada tinham esclarecido, mas que estava pensando em um outro que não havia sido feito, exame de tecnologia avançada. Diante das informações de Pedro, preferiu, então, dar uma passadinha para ver Vera de perto, antes de qualquer nova tentativa.
Com atraso, fez-se a festa dos quinze anos. Estela foi ficando na casa. Gostava de conversar com dona Rosa.
Advogada, Vera mostrou ter o talento do pai. Herdou-lhe o escritório e conservou os velhos clientes. Quando Rosa morreu, a casa ficou silenciosa, pois Estela sucedera Mãe Pequena na casa grande e suas obrigações eram muitas. Mudou-se para lá. Vera, cada vez que acabava um namoro, e depois um caso ou romance mais quente, corria para Mãe Estela. Que diabo! Sempre enjoava do cara! Ou então, por uma besteira qualquer, o sujeito enchia-se de razões, virava ciumento intolerável e rompia com ela. Nunca ficava com ninguém... Mãe Estela sorria; às vezes perguntava:
- Você não pensa em ser feita? Acho que já está na hora...
Mas só quem podia decidir era Vera; ela só queria lembrar... Vera não tinha tempo para isso; essa coisa de dias e dias na camarinha... quando tivesse tempo...
Com esse queria que desse certo. Nunca sentira nada tão forte antes. Ele parecia mesmo apaixonado. Era maravilhoso.
- Vim pra você jogar os búzios.
- Você nunca aceitou que eu fizesse isso antes...
- Mas, agora, quero saber. Preciso saber. Quero que dê certo. Veja aí.
Como explicar aquela disputa? O primeiro havia perdido a esposa, encantada pelo Rei. E, agora, o que se tinha era uma escolhida que fora atraída. Mãe Estela não podia falar de vingança.
- Ele é de Ogun – falou.
- E meu pai era de quem? – perguntou quase que automaticamente.
- Seu pai não gostava disso. Mas era de Xangô, como você.
Vera levantou-se.
- Não aceito! – gritou.

 

Não quis voltar para a cidade. Resolveu pegar a estrada. Não conhecia bem aqueles lados... ia sempre só até a casa grande, na saída da cidade. O passeio desanuviaria as idéias... Tentou pegar a bolsa para um cigarro. A curva espreitava. Um relâmpago. Um vento quente apagou as velas. Ele tinha agora mais uma esposa, Mãe Estela ia anunciar às filhas que vinham chegando para saber do acontecido.

**********

Desenhos: Geraldo Profeta Lima

Fundo: Armas dos Orixás (Geraldo Profeta Lima)

Publicado em

Iararana, Salvador, 8, mar. 2002-mar.2003, p. 68-71.

Midi: Angola (Execução: Mestre Boneco)

© Copyright by Sônia van Dijck, 2002

LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998

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