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Foto: Francisco Pratas (1987)

ARTE COM CIÊNCIA NO CIBERESPAÇO *

Maria Estela Guedes

 

TriploV Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade

da Universidade de Lisboa (CICTSUL)

1. Condução intuitiva

O convite para participar neste forum, cuja idéia central liga a tecnologia à arte e à consciência, deve-se porventura à circunstância de há três anos manter aberta uma webpage que tem vindo a desenvolver-se gradualmente, o TriploV. O sítio é propriedade minha, é o meu projecto normal de trabalho enquanto membro do Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa (CICTSUL). É assim desta experiência que vou falar. Já que nesta casa de engenheiros houve interesse em ouvir-me, aproveito para lhes agradecer o facto de a minha estação ciberespacial ainda não ter sofrido nenhum acidente fatal. A eles, e também ao nosso operador de sistema e cyberdesigner, o engenheiro Magno Urbano. E porquê o agradecimento? Porque os engenheiros informáticos concebem máquinas e software que podem ser usados intuitivamente. Esta singularidade é digna de menção, por várias razões: a primeira é a de pôr em cena uma faculdade mental subvalorizada, ou cuja realidade nem sequer é aceite por todos. Antes de aparecerem os computadores, era quase só no espaço da arte e do sagrado que se falava de intuição. Tal como o instinto e a inspiração, ela nomeia uma faculdade indefinível. A intuição permite uma partilha de conhecimentos entre os engenheiros e quem precisa de usar as máquinas e domesticar os programas. Essa partilha é real, o utente procura descobrir para que servem menus e ícones, e chega lá mais depressa dessa maneira do que estudando os manuais. A aprendizagem sem livros e sem mestres visíveis evoca, de um lado, o jogo infantil: as tecnologias que nos permitem pilotar sem frequência de aulas apelam para a criança que há em nós. Por outra parte, a invisibilidade dos mestres recorda precisamente os mestres invisíveis, os alquimistas, os iniciados, e também as primeiras universidades, em que estudantes de qualquer nação se podiam inscrever, sem obrigatoriedade de frequentarem as aulas. No ciberespaço, tão novo que ainda só uma pequena parcela do planeta tira partido dele, com aparelhagem tão sofisticada, recuperam-se, diria que intuitivamente, modos de estar que pertencem à Tradição e trazem à cena faculdades mentais que subvertem as concepções científicas ortodoxas. Estamos no reino da exploração, da descoberta, da aventura e da criação, o que estabelece uma aliança entre oficiais de ofícios muito distintos: os cientistas e técnicos de um lado, os magos e os artistas do outro. Segundo motivo para agradecer aos engenheiros informáticos a invenção de máquinas que conduzimos intuitivamente é o de dispensar a carta de condução. Enfim, por enquanto...

2. Dar espaço ao corpo

No TriploV encontramos muita matéria, assinada por umas centenas de colaboradores, relacionada de forma íntima com a temática do forum. Em relação à consciência, entendendo-a como sentimento de responsabilidade perante acontecimentos no mundo que exigem resposta do cidadão, é muito claro que ela transparece da parte dos mais variados sectores e indivíduos. Saliento apenas a Amnistia Internacional, por ser ela em muitos casos a instituição mobilizadora dos movimentos de ajuda e solidariedade através da Internet. Num nível primeiro de avaliação do TriploV, quando intelectuais, técnicos, religiosos e artistas, de tendências, nacionalidades e línguas diversas, colaboram numa obra colectiva, não se conhecendo uns aos outros, e sem consciência da estratégia subjacente ao projecto, aquilo a que vão dando corpo é uma construção heteróclita, sem nenhum programa definido. No caso, a construção é suportada pela tecnologia informática, mas podia passar e passa muitas vezes parcialmente para o papel. Ou seja, os conteúdos do TriploV só em percentagem ínfima são específicos da ciberarte, se por ela entendermos a arte inteiramente gerada por computador. Porém o que se passa nele só é possível no meio da cibercultura, não só por motivos económicos como pela facilidade em congregar parceiros em qualquer continente. Mas para já, é evidente que os construtores o são de uma fortaleza transnacional, por muito que a palavra “Portugal” se imprima na fachada. Neste ponto é curioso anotar que, quando enviam convites e notícias para convocar audiência em actos públicos, os autores esquecem-se de acrescentar o país à hora e local, e mesmo a cidade em que vai ter lugar a cerimónia. Também não é invulgar o aspirante a colaborador desconhecer a pátria do TriploV, ficando muito espantado quando na resposta ao seu email recebe abraços lisboetas. Estes dados mostram que as pessoas ainda se comportam na cibercultura como se estivessem no espaço do papel impresso, de audiência circunscrita a um país, a uma cidade, a um bairro, ou até a um grupo de colegas. Ainda não existe consciência generalizada de que o ciberespaço não tem fronteiras, e de que os textos divulgados na Internet têm público potencialmente planetário. Não sei até que ponto agrada ou interessa a todos os ciberautores esta possibilidade de a sua voz chegar aos pontos mais longínquos do seu habitat. Creio que a tendência para alguns estreitarem a audiência ao funil do colegial ou familiar, se deve à sua circunscrição afectiva a esse espaço privado. Estas pessoas sabem e têm consciência de que, quando usam a Internet para marcar um almoço de confraternização na Parreirinha do Rato, qualquer pessoa que fale português pode ter acesso à informação, desde Pequim a Buenos Aires. Para os leitores de Pequim e Buenos Aires, a notícia é irrisória. Se não se irritarem por as fazermos perder tempo com ela, será por acharem graça a uma intimidade que as faz sentir cúmplices de um jogo secreto. Talvez todos saibam que a informação do ciberespaço chega também aos dispositivos de segurança de certos países, se não forem todos os países, como Israel ou os Estados Unidos, e estou a referir-me concretamente ao Echelon, máquina-espia que lê os nossos emails. Um dia, falando com um dominicano que vive em Israel e tem vários ensaios publicados na webpage, comentei que ele frequentava bastante o TriploV, pois vários PCs de Israel estavam registados no programa de estatística. Ao que ele reagiu logo, afirmando que eram os serviços de espionagem que metiam o nariz em tudo. As pessoas têm consciência de que a sua palavra é incontrolável no que diz respeito à amplitude da audiência, mas o seu modo de estar, mesmo num meio de comunicação à distância, é um modo de estar entre amigos, confrades e conhecidos, porque encaram a cultura como um habitat privado. E outros há que restringem o habitáculo ao seu próprio corpo, o que aliás é próprio de muitos poetas. Então temos cambiantes entre dois extremos: o ciberespaço tanto permite a presença do texto de largo espectro de comunicabilidade como aquele que o autor considera reservado ou mesmo secreto. Ora no TriploV, entre os seus muitos directórios e conjuntos de temas, alguns existem que participam de um conhecimento tradicionalmente considerado secreto. E outros, pelo contrário, não só pertencem à esfera do conhecimento revelado, como têm vocação ecuménica. No primeiro conjunto refiro-me a textos esotéricos, assinados por iniciados. No segundo, aos provenientes da Igreja católica, especialmente dos Dominicanos de Lisboa, cuja webpage está alojada no TriploV. Poderíamos então pensar que a tendência para um texto limitar o seu campo de audiência a um grupo de confrades é própria dos que escrevem sobre alquimia, por exemplo, e que a vocação ecuménica é própria dos frades. Ora não existe nenhuma relação entre os termos: um frade pode limitar a audiência ao seu próprio ouvido, e um iniciado pode alargá-la a quaisquer orelhas da Terra. Aliás é notório, em toda a Internet, que as sociedades secretas, embora reservando às vezes o acesso aos seus portais, os mantêm em público e em público recrutam membros. Este fenómeno, facilitado pela liberdade de acção no ciberespaço, decorre no entanto da liberdade que a democracia tem criado em muitos países. O ciberespaço é realmente um espaço, um depósito de informação. O principal desenvolvimento do TriploV tem sido esse: de trinta megabytes fomos alargando para o actual gigabyte, porque eu preciso de muito espaço para trabalhar à vontade. Temos uns milhares de ficheiros disponíveis, com muitos assuntos e mesmo imagens que aparecem nos primeiros lugares do Google. Esse é o aspecto mais importante do ciberespaço, a sua capacidade de armazenagem, e em consequência o grande número de pessoas que beneficiam da consulta. Diferentemente de uma biblioteca, em que um número restrito de pessoas vai tornando livros acessíveis ao público, no ciberespaço há uma monstruosa tarefa colectiva, visando dar aos outros um património cultural. Como em qualquer outra biblioteca, dá-se o bem e o mal. Nem outra coisa seria de esperar de nós, humanos e não deuses.

3. Interactividade

Numa época em que se valoriza tanto a interactividade, é curioso verificar que no TriploV ela só se exerce através do email e da colaboração. Foram instalados, retirados, reinstalados e esquecidos forum, chat, blog, galeria de fotos, etc., tudo dispositivos que permitem aos cibernautas entrar em contacto uns com os outros e depositar directamente a sua colaboração. Recebemos mais de dois mil e quinhentos PCs por dia, esse número aumenta todos os meses, parecendo então medida útil a instalação de dispositivos interactivos. Realmente ninguém os utiliza, e não vale a pena perder tempo a indagar os motivos, eles decorrem da natureza do sítio. O TriploV é um depósito de material artístico e ensaístico de nível elevado, para jovens e adultos, não para classes etárias inferiores. Os ensaios prestam serviço de formação literária e científica. A arte cumpre a sua função de criar conhecimento, dar prazer e alargar o campo da consciência. Nada disto precisa de mecanismos interactivos provocados artificialmente, a interactividade exerce-se de forma espontânea no plano afectivo, estético e intelectual.

Pensando melhor, acabei por abandonar essas experiências, por as considerar inadequadas e me sentir desacompanhada. Os artistas plásticos usam a Internet como galeria, não criando para esse meio com as ferramentas do ciberespaço. Ainda não conhecem o potencial das novas tecnologias. É o caso de Pedro Proença, apesar de este pintor-escritor-músico até criar obras destinadas especialmente ao TriploV. Quem quer colaborar pode fazê-lo da maneira que escolhe, e a opção é o envio de trabalhos para publicação.

4. Espaço desierarquizado

O que alia no site pessoas tão diferentes na formação e nas crenças? Diria que é o agrado por se sentirem numa assembleia de pares, independentemente de uns pares serem escritores, outros pintores, outros frades, outros esoteristas, outros cientistas, e outros filósofos e historiadores das ciências. Neste ponto observo que as referências dos ensaístas são as mesmas, e que é o mesmo o paradigma em que se movem os cientistas. Existe uma globalização intelectual de topo que faz com que a formação de um universitário chileno seja a mesma de um seu par português ou brasileiro. A cultura universitária é comum a todos, escusado esperar por alguma originalidade própria de cada nação. Do lado da ciência normal, escusado esperar por alguma atitude pessoal que se afaste do consenso do grupo. E no entanto há muita matéria subversiva no TriploV, que eclode no seio do próprio grupo. Embora a única diferença notável entre nós seja a linguística, é evidente que o TriploV é um espaço de grande originalidade, que provém da singularidade de cada um. Provém ainda do contraste entre os grupos em presença. O que domina a cultura e a ciência, hoje, é a especialização. A especialização isola os grupos e cria hierarquias muito duras. O facto de o TriploV ser multidisciplinar anula a possibilidade de uns grupos se tornarem liderantes em relação a outros. O TriploV não é uma revista, a actualização é quase diária e eu não retiro textos do ar, vou-os armazenando, como numa biblioteca. O núcleo de colaboradores conhecidos pessoalmente dos três coordenadores, Maria Alzira Brum Lemos, no Brasil, José Augusto Mourão e eu em Portugal, é muito inferior ao total. Na maior parte, os construtores do TriploV tomam espontaneamente a iniciativa de se agregar a nós. Em geral são escritores e professores universitários. A sua produção está a ser utilizada em abundância, o que se nota no número de páginas consultadas e na presença que se começa a sentir de referências a páginas do TriploV em trabalhos curriculares. Porém nada disto constitui nódulo ideológico, nada disto se apresenta como dispositivo controlador ao serviço de dado paradigma. O mais importante factor que impede o controlo intelectual é o facto de o espaço do TriploV não estar hierarquizado. Não existe nenhuma liderança, eu sou proprietária do site, colaboradora e webmaster, mas não lidero e nem faço grande triagem dos trabalhos, não é preciso. Desinvesti o termo “editorial” do peso directivo que habitualmente tem, quer como género jornalístico, quer como manifesto de um único chefe. Qualquer texto novo que apareça pode ser apresentado como editorial. Esta estratégia desinveste-me a mim de protagonismos e acentua a paridade geral. Porém a paridade é díspar, pois nada impede que um conto, uma homilia ou uma exposição de artes plásticas apareçam debaixo do rótulo “editorial”. A consequência, para além de os pintores e escritores se sentirem respeitados, é a de evitar que o peso da arte possa ser maior que o da ciência, e menor que o desta o da religião. A todas as modalidades de expressão e saber é conferido o mesmo valor. A desierarquização é promovida pela presença do diferente, aquele que em situação normal não é um par: o poeta não é considerado um dos seus pares pelo cientista, o alquimista não considera o cientista um dos seus pares, e o católico pode considerar o maçon um dos seus semelhantes, mas não o considera um dos seus confrades. O inverso também é verdadeiro. Estas pessoas coabitam em paz, denunciam às vezes os seus diferendos, mas não se hostilizam. Agrada-lhes o convívio, quanto mais não seja por implicar uma assembleia sem fronteiras nacionalistas nem de paradigma. A ciência pode fazer arte mas não o reconhece, isto é, a ciência não reconhece a existência de uma dimensão literária no texto científico. O que reconhece, podendo nem existir para os escritores, é a dimensão estética dos seus contos e romances. Já a arte busca a ciência em plena consciência, e em plena consciência usufrui dos benefícios que lhe proporciona a tecnologia. Aliás, a arte é consciência. No TriploV há muita matéria científica e sobre a ciência que põe a nu problemas passíveis de interpelar a consciência, a nossa noção de responsabilidade. Estão neste caso os trabalhos de História Natural e sobre o naturalismo. Eles constituem o núcleo principal do site. Faz parte dele o Zoo_Ilógico, com ilustrações coligidas na maior parte na literatura científica do século XIX. Temos também um directório de Herpetologia, com fichas de espécies de Portugal e antigos territórios portugueses da África ocidental. Estes trabalhos são um dos elementos mais fortes da desierarquização. Julgo que o repúdio da hierarquia controladora, por estimular o livre pensamento, favorecer a vontade de crítica, é o principal atractivo do TriploV. Os autores sabem que podem falar livremente, benefício de que nem todos gozarão nos meios normais de comunicação nos seus países. E mesmo fora deste regime de voz controlada, é decerto aliciante falar num registo livre dos constrangimentos do bem parecer social, do bem merecer pelo currículo literário, do bem estar com quem nos assegura o ordenado. A este nível de liberdade de expressão, já o autor não reside decerto no habitáculo do familiar, do bairro, da universidade onde é docente, nem do próprio corpo como destinador e receptor da mensagem, sim no ciberespaço propriamente dito, aquele em que reina o anonimato apesar da eventual celebridade nacional, o do virtual que não é um parecer, sim um ser passível de gerar uma consciência alargada ao nosso semelhante, independente da piedade pelo nosso vizinho, por incidir em abstracto no que não se conhece, mas se sabe que é planta, animal, pessoa ou célula de um mesmo organismo, o Planeta.

 

* Texto apresentado no forum “Tecnologia, Arte e Consciência”, integrado nas Comemorações dos 150 Anos do Instituto Superior de Engenharia do Porto (Portugal). ISEP, 21 de maio de 2004.

© Copyright by Maria Estela Guedes, 2004

LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998

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Midi: Pavana (I. M.)

No curso de um breve movimento cultural em defesa do sítio histórico rua Gabriel Malagrida - conhecido como Beco da Faculdade - (João Pessoa - PB - Brasil), dois participantes e amigos mandaram-me textos sobre o Padre Gabriel Malagrida, cuja atuação, no Brasil, foi de grande importância - Elizabeth Hazin - Evandro da Nóbrega
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