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SÔNIA van DIJCK

Este é um espaço dedicado à Literatura

O FEMININO e o MASCULINO na Literatura

SÔNIA VAN DIJCK

uma voz feminina em busca de expressão

Giovanna Soalheiro Pinheiro*

No FUNDO do pensamento.
Tenho por sono um cantar,
Um cantar velado e lento,
Sem palavras a falar

Fernando Pessoa

A construção literária de Sônia van Dijck é edificada não somente por meio de elementos pertencentes às tradições culturais dos povos afro-brasileiros; a escritora faz, na realidade, uma critica sutil, fundamentalmente em seus contos, ao preconceito e à desigualdade social em nosso país. Além de erguer uma literatura com base nas heranças dos negros, sua produção poética é delineada pelo questionamento em relação a própria construção textual.
Não raro, encontramos em sua obra, poemas que perguntam sobre si mesmos e que dialogam com produções anteriores: são, portanto, marcados pela metalinguagem e pela intertextualidade, signos da modernidade. Detentora de uma obra literária de cunho elevadamente confessional, Sônia, não faz mais que relatar o seu estado psicológico perpassado por elementos lingüísticos e literários, que evocam a sua condição de poeta em busca do objeto de criação, as palavras.
A função metalingüística centraliza-se na linguagem-objeto, isto é, enquanto signo da expressão e do conteúdo, fala sobre o próprio código. A enunciação intertextual, por sua vez, é também uma forma de metalinguagem, onde se faz menção a uma linguagem anterior. O eu lírico “no seu poetar demonstra o seu comportamento de leitor dessa memória poética e instaura uma posição crítica – a consciência do fazer poético”. (Chalhub: 2002, p.53.)
Observemos o poema:

CIGARRA
Escrevo, para te esquecer vivendo.
Canto, e te faço escrevendo.
E, assim, tenho não tendo,
não vivo vivendo;
mas, continuo te querendo.

A cigarra, elemento lendário constante na criação literária, é um inseto que muda de casca e evoca o canto. Segundo a tradição, teria sido a humanidade outrora. No diálogo platônico Fedro, há a referência ao canto das cigarras, suposto mito criado por Platão, em que esses seres lendários seriam homens antes do nascimento das Musas, deusas gregas que evocam o canto e a arte. As cigarras, descendentes da espécie humana, teriam recebido das Musas “o honroso privilégio de não necessitarem de alimentação durante sua vida, sendo capazes de cantar, do nascimento à morte”. (PLATÃO, p.163). Ora representam o nascimento, ora a morte (mudança de casca); ora o sol, ora a chuva e, portanto, a vida e a existência; ora alegre, ora triste. O poema “Cigarra” é, na realidade, um símbolo para toda a construção literária da escritora. É um subsídio para um pensamento que é inexprimível, mas plausível de se alcançar, visto que o eu enunciador não desiste de buscá-lo. A estrutura do poema e os termos lingüísticos, essencialmente focados na utilização de gerúndios e em termos antitéticos, enunciam o canto da cigarra e evocam um universo nostálgico e paradoxal, representando a incessante busca pela construção poética, por meio da linguagem-objeto.
Vejamos outro exemplo:

FICÇÃO
Te construí
na trama
da utopia.
Era uma vez
um príncipe que virou sapo,
ao raiar do dia.

Através de um universo semiótico, o signo como algo representativo do mundo interior da poética de Sônia van Dijck, observar-se-á um complexo metafórico que expressa a poesia como produto de criação do imaginário, ou seja, o mundo só existe na própria construção textual. “Ficção” atesta bem essa função: um príncipe que virou sapo e não um sapo que virou príncipe. Observa-se o caráter paródico da inversão e a fragmentação de um imaginário relacionado aos contos folclóricos. A escritora, enquanto voz feminina afro-descendente, denega o idealismo masculino e demonstra a sua descrença em relação ao mundo real. O grande segredo, neste caso, é trabalhar o imaginário e a fantasia, mecanismo que possibilitaria um certo distanciamento em relação ao mundo factual.
Em outros poemas, pode-se perceber um diálogo direto com grandes poetas brasileiros, pode-se citar, por exemplo, “Fado” e “Nova Pasárgada”, os quais respectivamente, dialogam com Carlos Drummond de Andrade (“Poema de sete faces”) e com Manuel Bandeira (“Vou-me embora pra Pasárgada”).
Vejamos:

FADO
Meu anjo chamou-me (in) Sônia
e mandou-me pra vida
não só para ser gauche,
mas, para gastar-me mesmo
do lado esquerdo do peito.

No poema acima, observa-se um dialogo claro entre a poética de Sônia e a de Carlos Drummond de Andrade. O termo gauche, que, em francês, significa “esquerdo”, está presente em ambas as construções e apresenta acepções como, deslocado, desajeitado, inepto à comunicação com o meio no qual vive e, ainda, o que está à margem da sociedade. O prefixo “in”, negando o substantivo próprio Sônia, remete à situação de inadequação da poeta com o mundo no qual vive, assim como acontece com Carlos Drummond de Andrade, “Vai, Carlos! Ser gauche na vida”. Para finalizar, atente-se para o próprio título do poema, “Fado”, que, já de inicio, indica a condição irrevogável do ser - (in) Sônia.
Deixando de lado as construções metalingüísticas e intertextuais, vejamos agora outra produção da escritora. O conto “A escolhida”, permeado por elementos da cultura afro-brasileira, revela a descendência de Sônia van Dijck e o que pode ser compreendido por literatura negra. “A escolhida” aborda os valores presentes em nosso cotidiano de cultura híbrida, caracterizando “o mistério e o maravilhoso como aspectos da vida social de representação das raízes da existência coletiva, já que o imaginário faz parte das coisas do mundo, lhes dando ordem e sentido”. (Tavares: 2000, p.16). Pouco irradiada em uma sociedade predominantemente cristã, as religiões brasileiras de origem africanas encontram, no conto de autora, um mecanismo de propagação e divulgação dos aspectos intrínsecos à sua origem, visto narrar a história de uma família rica que, para salvar a vida da filha, recorre à religião. Em princípio o pai, advogado de sucesso, e sua esposa, Rosa, rechaçam qualquer envolvimento. A empregada doméstica, Mãe Estela, afro-descendente, afirma que a filha do casal, Vera, estava “com encosto” e, em vista disso, deveria pagar obrigação. Diante das impossibilidades de cura da medicina tradicional, Rosa recorre à empregada com o objetivo de salvar a vida da filha e se recorda das palavras de sua mãe em outra ocasião, quando recorrera ao mesmo tipo de trabalho para preservar o casamento. Vera, tornar-se-ia uma sacerdotisa de Xangô, mas sempre deixava os ofícios da “camarinha” para depois.
O clímax da narrativa é justamente o momento em que a menina, ao consultar Mãe Estela, no jogo de búzios, descobre o seu verdadeiro orixá, no entanto não o aceita, o que a leva à morte. Pode-se inferir, ao analisar o conto “A escolhida”, que a literatura negra não se concretiza por meio de um olhar externo que se forma na consciência dos autores. Configura-se, sobretudo, através de uma mundividência interna, modeladora e reconstrutora, visto a necessidade de reformulação de uma consciência literária hegemônica fundamentada em um negrismo que enfoca a questão a partir de um olhar descomprometido do escritor branco. É importante ressaltar que a literatura negra, ou o movimento da negritude, enquanto consciência coletiva, deve, indispensavelmente, figurar os valores humanos, culturais e lingüísticos da sociedade afro-descendente brasileira.
Entender o processo de formação das nossas tradições implica conhecer, essencialmente, as heranças africanas. Vejamos o diálogo estabelecido entre Mãe Estela e Vera, quando esta decide por se aproximar da religiosidade africana:

- Vim pra você jogar os búzios.
- Você nunca aceitou que eu fizesse isso antes...
- Mas, agora, quero saber. Preciso saber. Quero que dê certo. Veja aí.
Como explicar aquela disputa? O primeiro havia perdido a esposa, encantada pelo Rei. E, agora, o que se tinha era uma escolhida que fora atraída por aquele homem de terno azul e camisa branca. Mãe Estela não podia falar de vingança. Falou de jogo de forças. Vera pensou em arquétipos... Mãe Estela estremeceu...
- Seu moço... Ele é de Ogum – falou.
- E meu pai era de quem? – perguntou quase que automaticamente.
- Seu pai não gostava disso. Mas era de Xangô, como você.
- Não aceito! – gritou. Levantou-se.
Não quis voltar para a cidade. Resolveu pegar a estrada. Não conhecia bem aqueles lados... ia sempre só até a casa-grande, na
saída da cidade. O passeio desanuviaria as idéias... Tentou pegar a bolsa para um cigarro. A curva espreitava. Um relâmpago. Na sala de Mãe Estela, um vento quente apagou as velas. Ele tinha agora mais uma esposa ou escrava... nunca se vai saber... Mãe Estela ia anunciar às filhas que vinham chegando para saber do acontecido. Depois... questão de guardar a lembrança de Vera...

Abordando o entrechoque cultural e humano-social, percebe-se que Sônia van Dijck focaliza, também, a condição social e os cargos exercidos por brancos e negros no país. O conto além de relatar as diferenças culturais, nos informa sobre as desigualdades provenientes da estrutura social e política do país e que têm suas origens no próprio processo de colonização fundado no escravismo e no sistema latifundiário. O advogado e sua esposa, personagens brancos, não aceitam a visão de mundo de Mãe Estela, afro-descendente, que tem uma visão cultural e religiosa voltada para os seus. A mãe da menina, secretamente, pede à empregada que a ajude a curar a filha e, então, realizam um trabalho espiritual com ervas e com outros elementos dos cultos africanos. Durante todo o enunciado podem-se perceber vários elementos vinculados às tradições culturais desses povos, mas ao final do conto, atente-se para o excerto citado acima, observar-se-á a grande predominância dos mesmos. Vejamos esses elementos:
Segundo José Ribeiro, autor do livro Orixás africanos, Xangô representa o raio, o trovão, o amor, a justiça, a guerra e a paz; tem, como símbolo, um Oxé, dupla machadinha. É grandiosamente respeitado, figurando um dos reis das etnias afro. Ogum, outro orixá, é o representante dos ferreiros; guerreiro sanguinário e insaciável, sempre alcança as suas presas: conforme o autor mencionado acima, a luta pertence a esse orixá, cujo nome significa exatamente guerra.
Diz o mito que Ogum e Xangô teriam disputado Iansã, deusa do vento e dos amores efêmeros.
No fragmento citado acima, pode-se perceber a presença dos três orixás: Ogum, Xangô e Iansã, corporificada em Vera. Ao final do conto há uma disputa, possivelmente advinda do mito relatado acima, e Vera morre tornando-se escrava de Xangô. Segundo as religiões afro-brasileiras, Xangô é um orixá muito severo e exigente com seus filhos, castiga-os pesadamente quando desrespeitam a lei, principalmente quando não cumprem as regras impostas por ele. Vera, suposta sacerdotisa do rei Xangô, denegou o seu desejo e, portanto, tornou-se sua escrava. Observa-se a questão da escravidão focada ao final do conto e a reversão de papéis.

Observa-se, portanto, que os valores culturais e humanos, imanentes à consciência coletiva dos povos brasileiros de origem africana, podem ser percebidos na prosa de Sônia van Dijck. Desde os primórdios da civilização brasileira, percebe-se uma luta mordaz pela autonomia social e cultural desses povos. Autonomia que vem se fixando e se firmando focada na construção de uma consciência nacional engajada na reconstrução de um processo, que é, antes de qualquer coisa, histórico. A literatura, enquanto mecanismo de divulgação de idéias e valores intrínsecos a uma determinada sociedade, tem se tornado uma aliada cada vez mais eficiente para a construção de uma identidade cultural que tenha, de fato, as características do povo negro. Literatura essa que tem, em Sônia van Dijck, suporte de divulgação e apreciação, uma vez que há a difusão, essencialmente no conto “A escolhida”, de elementos pertencentes ao seu continente cultural.

* Graduanda em Letras pela UFMG

Referências bibliográficas
CHALHUB, Samira. A metalinguagem. São Paulo: Ática, 2002. (Princípios).
DIJCK, Sônia van. Confidências. Exercícios líricos. Paraíba: Ed. Universitária/UFPB, 2003. [CD rom: poesias].
_______ A escolhida. In: Iararana, Salvador, 8 mar. 2002 - mar.2003, p. 68-71.
MOISÉS. Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 2004.
PLATÃO. Diálogos: Mênon. Banquete. Fedro, 21 ed. Trad. Jorge Paleikat. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999. (Clássicos de Bolso).
PESSOA, Fernando. Obra poética: novas poesias inéditas. Rio de Janeiro, 2005.
RIBEIRO, José. Orixás africanos. Rio de Janeiro:Espiritualista, 1968.
TAVARES, Ildásio. Xangô. Rio de Janeiro: Editora Pallas, 2000.

© Copyright by Giovanna Soalheiro Pinheiro, 2005

Texto publicado no portal LITERAFRO (UFMG) , 2005 - www.letras.ufmg.br/literafro/frame.htm (copie em seu navegador)

Midi: Iuna (execução Mestre Boneco)

Fundo: Oferenda (desenho Geraldo Profeta Lima)

LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998

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