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DE HOMEM PARA MULHER

UMA LEITURA DO CONTO “RITA E O CACHORRO”, DE RINALDO DE FERNANDES

GLÓRIA MARIA OLIVEIRA GAMA *

 

“(...) independente do sexo de quem escreve um texto, a literatura, como arte que explora a potencialidade dos signos linguísticos, vale-se do poder das palavras para revelar as condições existenciais da mulher (...)”

(Gilmei Francisco Fleck)

 

 

 

Nos estudos que discorrem sobre a polêmica questão da voz autoral e da representação da mulher na escrita pelo homem, percebe-se de saída que a crítica literária feminista ainda carece de uma abordagem satisfatória que dê conta da multiplicidade de indagações acerca do tema. Essa crítica oriunda do movimento feminista procurou nas décadas de 70 e 80 centralizar-se na figura da mulher destacando-a no campo das ciências humanas, particularmente na literatura.

Em um primeiro momento, houve o surgimento de novos paradigmas, quando a crítica literária feminista tornou-se primordial por enfatizar o papel da mulher enquanto leitora e escritora, diferenciando-a do papel masculino como tal. Em uma segunda fase, textos produzidos por homens foram totalmente ignorados, e esta corrente, denominada ginocrítica pela teórica estadunidense Elaine Showalter, voltou-se exclusivamente para a produção textual feminina. A intenção era demonstrar que as mulheres tinham sua escrita bastante marcada pelo gênero e que, portanto, seria extremamente importante, literária e socialmente, dar destaque ao texto de autoria feminina. Já na terceira fase, a crítica feminista não só cobrou de forma incisiva o reconhecimento da produção literária feita por mulheres, como também exigiu uma revisão sistemática dos conceitos hegemônicos e patriarcais predominantes em vários campos sociais e culturais.

Na fase denominada ginocrítica, foi feita uma catalogação das publicações de autoria feminina, tendo sido elencadas algumas de ordem confessional como jornais, cartas e diários. Ora, percebe-se aqui que, embora tal crítica tenha validade legitimada por colocar a produção literária feminina em evidência, ao desconsiderar a masculina, ela permite a abertura de uma nova discussão em que um dos tópicos centrais diz respeito à representação literária da mulher na escrita pelo homem. Como resolver este problema, se considerarmos que a escrita masculina pode também posicionar-se de uma forma anti-hegemônica e, acima de tudo, colocar a mulher em posição central na obra literária? Não temos a pretensão de solucionar a questão, mas de acirrar os debates que norteiam os estudos de gênero conjugando-os com a temática da representação artístico-literária.

Para percorrer uma trilha tão delicada e desafiadora como esta, parece-nos oportuno evocar as considerações da teórica e pensadora, Nelly Richard. Antes, porém, frisamos que nossa intenção não é desqualificar a crítica feminista que se consolidou nas décadas finais do século passado, escapando também aos nossos propósitos tentar preencher suas lacunas. Nosso objetivo é apenas procurar estabelecer um diálogo com a mesma, reverenciando suas especificidades e buscando um diálogo com os questionamentos sobre identidades fixas tão comuns na teoria pós-estruturalista. Para tanto, utilizaremos o conto “Rita e o cachorro”, de Rinaldo de Fernandes (O perfume de Roberta, 2005) em nossa análise. A leitura que propomos dará relevo à capacidade do autor em representar hábil e sensivelmente a personagem feminina, mesmo não sendo mulher, nem se colocando no lugar de quem “fala por” essas.

Podemos iniciar a discussão com a seguinte pergunta: quais são as marcas temáticas e formais características das duas escritas – masculina e feminina? No ensaio intitulado “A escrita tem sexo?”, que faz parte da obra Intervenções críticas: arte, cultura, gênero e política (2002), Richard procura investigar quais são os traços estilísticos da produção textual que podem identificar a escrita feminina. Ela defende o princípio de que, ao invés de “escrita feminina”, deveríamos adotar a expressão “feminização da escrita”, por ela simultaneamente contemplar e extrapolar as questões relacionadas ao sexo e ao gênero na escrita em geral.

Na obra acima referida, Richard traz para um primeiro plano, noções ligadas ao determinante biológico (ser mulher) e identidade cultural (escrever como mulher). Para ela, um aspecto não deve condicionar-se ao outro, uma vez que a representação de uma postura anti-hegemônica no texto pode ocorrer tanto na escrita feminina quanto na masculina, como já apontamos anteriormente. Aliás, Richard vai além quando, à luz de outra pensadora, Josefina Ludmer, indaga se a escrita teria, de fato, sexo. Vejamos o que ela diz a este respeito:

Para Ludmer, voltar a enquadrar a linguagem na chave monosexual (sic) – definir o texto como univocamente masculino ou feminino – seria restringir o potencial transimbólico (transgenérico) da criação, como fluxo e transbordamento da identidade e do sentido (RICHARD, 2002: 132).

No encalço das ideias de Richard, está a pesquisadora Liane Schneider. Parece-nos válido citar um momento de um de seus ensaios quando ela afirma que, “(...) tanto o feminino quanto o masculino podem transgredir a dinâmica monológica dos signos, escrevendo de forma transgressora (...)” (SCHNEIDER, 2006: 152). Os princípios teóricos defendidos por Richard e Schneider revelam-se pertinentes não só pelas considerações aqui já feitas, mas também porque ambos instigam questionamentos que de certa forma motivaram a presente análise. Entre eles está a reflexão que aparentemente é tranqüila, mas essencialmente polêmica: como é possível determinar a carga ideológica e o valor estético de uma obra se a condicionarmos apenas à questão sexual/autoral ou gênero/autoral, caso a expressão existisse? Melhor perguntando: só mulheres representam bem mulheres na literatura? Ou somente homens representam satisfatoriamente personagens masculinos? É na tentativa de encontrar respostas ou soluções temporárias para tais questionamentos que passaremos agora a discutir o conto “Rita e o cachorro”. Entretanto, suspeitamos que a análise possa suscitar mais inquietações que propriamente fornecer respostas.

“Rita e o cachorro” tem como protagonista uma paulistana que vive numa praia semideserta da Paraíba, a fictícia praia do Pomar. É misteriosa e intrigante na sua opção em deixar a metrópole e passar a morar no litoral, lavando pratos num restaurante de uma região onde está sendo implementado o turismo. Vive só com o cachorro Pet, que se torna seu único “interlocutor”. É para ele que Rita vai narrando – de modo fragmentário – momentos de seu passado em São Paulo, mesclando-os com passagens mais recentes de suas aventuras na praia. Em São Paulo Rita tinha passado pela experiência de ter como única companhia um cachorro – Rex; na praia paraibana ela terá a companhia de Pet. Rita é uma personagem inteiramente moderna, contemporânea. Jornalista, ex-revisora de textos, ela é ligada ao mundo da palavra escrita. Uma personagem existencialista, que deixa claro o seu conflito na convivência com homens. O ex-companheiro e também o gerente do restaurante onde trabalha na praia são exemplos das tensões e dificuldades enfrentadas pela personagem. Ela não aceita ser dominada, quer ser independente, daí preferir a solidão a se submeter ao mando masculino. Porém, ela paga caro por essa opção. Sofre as penas do amor mal resolvido em São Paulo; sofre ainda por ser subjugada nas relações de trabalho no restaurante pelo autoritário gerente Márcio: “O Márcio, gerente do restaurante, deu agora para me repreender. Vem a todo momento me pedir uma coisa, não quer que faltem pratos no balcão.” (FERNANDES, 2005: 101).

O refúgio de Rita é o seu recanto (uma pequena casa na praia) e o cachorro Pet. É para este que vai revelando aspectos importantes de sua existência, sua inaptidão para conviver com certas figuras que no seu ponto de vista a massacram. Uma personagem profundamente solitária, buscando afirmação sem muito êxito – daí uma solidão visceral que a torna amarga e o tom da narrativa acaba refletindo sua amargura.

Se o cão é o melhor amigo do ser humano, Pet termina de alguma forma configurando isso – mas de um modo muito singular e estranho, porque o cachorro é tratado com muita rispidez pela personagem. A amargura dela se reflete no próprio trato com o cachorro: “Não me lambe, pombas! Já pra areia! Eu não já disse que o teu lugar é ali fora, perto da palmeira!” (FERNANDES, 2005: 99).

Para exemplificar melhor a solidão de Rita, vejamos outra passagem do conto que mostra sua opção em escolher o cachorro como interlocutor, decisão que decorre além de outros fatores, de uma desilusão amorosa:

A paixão, Pet, tem sempre uma porta. A chave para abri-la pode estar numa festa, num avião, num elevador. A chave da minha, ah, mas que arbustos tortos, estava numa curva, numa estrada... Não assopre... Já estava decidido, já estava em não sei qual rascunho do Pai, que eu tinha que naquela tarde topar com o Pedro (FERNANDES, 2005: 103).

O conto talvez tenha sua melhor fatura nos “diálogos” travados entre Rita e Pet. Tais conversas se diluem em digressões quase filosóficas acerca do amor, da vida e seus dissabores. É neles que o leitor vai descobrindo – embora tudo seja mais sugerido que revelado – que há uma mistura de sentimentos na personagem, os quais decorrem da experiência amorosa frustrada, fazendo com que o passado repercuta insistentemente no presente. O uso de digressões constitui um dos pontos altos do conto, embora a ação seja minimizada no plano fabular. Porém, isso não reduz as expectativas. Ao contrário, o ritmo da história ganha força uma vez que, através de reticências, desperta nossa curiosidade sobre o que teria provocado a mudança radical de Rita – a decisão de trocar a metrópole pelo litoral isolado.

Cabe aqui apontar um dado curioso: o ex-companheiro de Rita encontra-se presente apenas através dos desabafos desta com Pet. Porém, isto não nos impede, enquanto leitores, de verificar o grau de importância, neste caso, negativa, que ele teve/tem para a situação de decomposição interior em que ela se encontra; esta situação torna-se paulatinamente mais dramática à medida que o conto avança. A este respeito podemos observar que um dos recursos narrativos mais potentes do conto está exatamente na intersecção entre passado e presente, mas isso não ocorre em um plano estrutural, e sim nas lembranças da protagonista. O passado por sinal, cobra seu preço o tempo inteiro e faz com que os dilemas de Rita sejam intensificados. Portanto, a isotopia temática central da história reside justamente na desestruturação da personagem diante de uma situação da qual ela não consegue escapar. As ações passadas, os erros cometidos, a escolha amorosa infeliz voltam à tona, assombrando-a no presente, fazendo-nos embarcar numa atmosfera cada vez mais nebulosa e melancólica, porém, nunca gratuita, pois é com maestria e eloquência ficcional que Fernandes conduz a narrativa. Note-se que o conto, narrado em primeira pessoa, além de evidenciar as angústias da protagonista, deixa uma ambiguidade: podemos conferir credibilidade ou suspeita ao material narrado. Como em literatura suspeitas são mais benéficas que nocivas, no conto parece saudável, ou necessária, nossa cumplicidade com a personagem. No ensaio “A nova narrativa”, Antonio Candido tece a nosso ver, comentários pertinentes acerca do emprego de primeira pessoa. Segundo ele:

A brutalidade da situação é transmitida pela brutalidade do seu agente (personagem), ao qual se identifica a voz narrativa, que assim descarta qualquer interrupção ou contraste crítico entre narrador e matéria narrada (CANDIDO, 1987: 212 – 213).

O foco narrativo parcial, a “visão com” a personagem o tempo todo, permite-nos assimilar e mesmo nos envolver com os dramas de Rita. Permite-nos adotar o seu ponto de vista.

Para ampliar essa discussão, cabe aqui ainda uma reflexão sobre um dos aspectos da contística de Fernandes. Trata-se da abdicação de excessos quanto à elaboração de seus temas, que incluem injustiças sociais, relações conjugais conflituosas, inclusão de poesia na narrativa, emprego de elementos típicos do conto fantástico, entre outros. Porém, o mais impressionante é que tudo é narrado sem pieguice ou lamúria exagerada. A abdicação de excessos está associada ao investimento de sutileza no tom e esta conciliação torna sua obra “esteticamente válida”, para empregar as palavras de Alfredo Bosi. Vale salientar também que os tipos humanos retratados por aquele autor são os excluídos, os marginalizados, ou pertencentes à minoria social. Dentro desta categoria incluem-se as mulheres.

A personagem Rita faz parte de uma matriz de mulheres recorrente na obra de Fernandes – é uma personagem forte, que luta para não sucumbir e busca enfrentar a supremacia masculina em nome de uma dignidade pessoal. Vale a pena acompanhar o que diz a pesquisadora Sônia van Dijck Lima a este respeito:

(...) Rinaldo dá continuidade a sua experiência de dar voz feminina à narrativa, de modo a trazer para o primeiro plano as angústias e as dificuldades da condição da mulher, que, em uma sociedade marcada pelo masculino, busca afirmação e realização não só profissional e financeiramente, mas, sobretudo, afetiva e emocionalmente (...). (LIMA, 2008).

Dizíamos que Rita está constante e inexoravelmente à mercê de lembranças. É curioso percebermos que sua opção presente em viver num local afastado, longe do convívio humano, é disfórica em oposição às experiências eufóricas do passado em São Paulo. Este contraste por sinal permeia toda a narrativa em que se destaca outro aspecto diegético fundamental: o ambiente. Como já vimos, ele é disfórico se considerarmos a reclusão e solidão de Rita, exacerbadas pelo isolamento da fictícia praia do Pomar. Desta forma, o ambiente adquire importância funcional, principalmente porque em alguns momentos que intercalam reflexão e “diálogo”, é para a beleza do mar e da lua que Rita apela: “Hoje tem lua cheia, Pet, precisamos festejar. As águas ali vão ficar lindas. Vou preparar um jantar especial.” (FERNANDES, 2005: 101). Entretanto, nem esses momentos são lúdicos porque a realidade se impõe repetidamente: “E com esse movimento de fim de ano, muito turista, estou que não agüento de tanto trabalhar.” (FERNANDES, 2005: 101). Aliás, este aspecto é retomado no romance Rita no pomar (2008) que dá continuidade ao conto. Porém, uma análise comparativa dos dois é assunto para uma próxima discussão.

Como considerações finais, podemos constatar que para a maioria das teóricas feministas, a representação da mulher na literatura deve estar condicionada, parcial ou totalmente, às questões de gênero. Essa concepção é, a nosso ver, passível de um reexame crítico, pois defendemos o princípio de que o talento e a habilidade do autor predominam na arte. O escritor é entre outras coisas, um gerador, um articulador de discurso que, com maior ou menor peso ideológico, pode fazer com que uma voz masculina tenha o mesmo alcance de uma voz feminina no tratamento das questões que abordam a condição existencial da mulher. No entanto, reiteramos que nossa intenção não é travar querela com a crítica feminista, até porque reconhecemos que nos desdobramentos mais recentes das teorias da área vem sendo problematizada toda temática da autoria e sua ligação ao sexo. Nesse sentido, nosso objetivo inicial é também questionar, incitar, sugerir reflexões sobre o tema mais que propriamente fornecer respostas. Embora admitamos que o caminho em busca de soluções seja longo, acreditamos que com a leitura do conto “Rita e o cachorro”, aqui iniciada, tenhamos um ponto de partida para algumas conclusões nesse debate.

* Professora de Língua Inglesa e Literatura Norte-Americana na UFPB. Doutoranda do PPGL, sob a orientação da professora doutora Liane Schneider.

REFERÊNCIAS

ANTONIO CANDIDO. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1987.
BOSI, Alfredo. Situação e formas do conto brasileiro contemporâneo. In: O conto brasileiro contemporâneo. São Paulo: Cultrix 1997.
FERNANDES, Rinaldo de. Rita e o cachorro. In: O perfume de Roberta. Rio de Janeiro: Garamond, 2005.
___________ Rita no pomar. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008.
FLECK, Gilmei Francisco. De Flausina e Belisa: Flaulisa – protótipos da mulher latino-americana, presentes em Isabel Allende e Guimarães Rosa. In: Revista de literatura, história e memória – narrativas da memória: o discurso feminino, Cascavel, Unioeste/Cascavel, v.3, n. 3, p. 83-90.
LIMA, Sônia van Dijck. Rita e suas histórias, 2008. http://www.7letras.com.br/detalhe livro/id =671 - visita em julho 2009.
RICHARD, Nelly. Intervenções críticas: arte, cultura, gênero e política. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.
SCHNEIDER, Liane. Quem fala como mulher na escrita de mulheres? In: CAVALCANTI, Ildney; LIMA, Ana Cecília Acioli; SCHNEIDER, Liane (orgs.). Da mulher às mulheres: dialogando sobre literatura, gênero e identidades. Maceió: UFAL, 2006.
SHOWALTER, Elaine. A crítica feminista no território selvagem. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org.). Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

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LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998

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