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1ª edição (1946)- Capa: Geraldo de Castro

SAGARANA

CAUSOU POLÊMICA

Sônia Maria van Dijck Lima

 

“Fazer um livro é como bordar um tapete:
cada um que vê acha uma coisa.
Se o leitor achou isso, é porque ali está:
o leitor tem sempre razão”.

JGR, Jornal do Brasil, 11 jan. 1959

Em 1946, Guimarães Rosa não era, propriamente, neófito em matéria de literatura. Já havia recebido o 1º Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras, com Magma, no dia 29 de junho de 1937. Também na narrativa fora bem sucedido: o conto “Mystério de Highmore Hall” foi selecionado em concurso promovido pela revista O Cruzeiro (Rio de Janeiro), e publicado na edição desse periódico do dia 7 de dezembro de 1929. No ano seguinte, o conto “Makiné” estava no suplemento dominical de O jornal (Rio de Janeiro), no dia 9 de fevereiro. O ainda estudante da Faculdade de Medicina voltou às páginas de O Cruzeiro, com dois novos contos: “Chronos Kai Anagke (Tempo e destino)", “a mais extraordinária história de xadrez já explicada aos adeptos e não-adeptos do tabuleiro, num conto de João Guimarães Rosa”, em 21 de junho de 1930, e “Caçadores de camurças”, no dia 12 de julho de 1930 (Lima, 1996: 250). Porém, não havia despertado maior interesse da crítica literária. Para integrar o cânone da Literatura Brasileira faltavam o livro e a avaliação da crítica.
Procuraremos, então, reconstituir a recepção que a crítica concedeu a Sagarana, a partir dos recortes de periódicos do ano de 1946, colecionados por Guimarães Rosa. Neste momento, essa reconstituição tomará a discussão em torno do regionalismo como centro da recepção, recorrendo a algumas formulações tomadas como exemplares.


O CONCURSO DA JOSÉ OLYMPIO

Mesmo antes de surgir em letra de fôrma, Sagarana gerou polêmica. Inscrito no Prêmio Humberto de Campos, da Livraria José Olympio (31 de dezembro de 1937), com o título Contos, que lhe alterava a nomeação original – Sezão (Lima, 1999: 32-34), a obra provocou o primeiro debate, conforme Graciliano Ramos (1946):
... abri um cartapácio de quinhentas páginas grandes: uma dúzia de contos enormes, assinados por um certo Viator que ninguém presumia quem fosse. (...) No dia do julgamento, eliminadas composições menos sólidas, ficamos horas no gabinete de Prudente de Morais, hesitando entre esse volume desigual e outro, Maria Perigosa, que não se elevava nem caia muito. Optei pelo segundo – e, em conseqüência, Marques Rebelo quis matar-me: gritou, espumou, fez um número excessivo de piruetas ferozes. (...) Dias da Costa apoiou-me. Prudente de Morais sustentou Marques. E Peregrino Júnior, transformado em fiel da balança, exigiu quarenta e oito horas para manifestar-se. Escolheu Maria Perigosa – e assim Luís Jardim obteve o prêmio Humberto de Campos em 1938.
Como ninguém sabia quem era Viator, e insatisfeito com o resultado de 1938, Marques Rebelo (1939) resolveu provocar o autor, publicando uma espécie de relatório de sua participação na comissão do Prêmio, sem poupar elogios ao desconhecido perdedor:
Qualidades excepcionais, não só de contista, como de escritor propriamente. Conhecedor forte da vida brasileira, segurança absoluta na exposição dos seus ambientes, diálogo muito bem feito, elevação de idéias, bom gosto.
Viator, pseudônimo de quem ia ter de começar longas viagens, estava longe e alheio ao debate. Assim, em 1941, F. Magalhães Martins escreveu, lembrando o resultado do Prêmio:
Vejamos o que aconteceu no último Prêmio Humberto de Campos (...). Luiz Jardim surpreendeu com Maria Perigosa. Sete contos inéditos e ótimos, entre os quais avulta “Os cegos”. Outro concorrente apresentou um volume que daria 500 páginas, pelo qual o sr. Marques Rebelo quebrou lanças. Os outros membros da comissão optaram por Maria Perigosa, e o autor dos Contos de Viator (sic), lidos apenas pela comissão continua no anonimato, até hoje...
Até então, nem sinal do contista...
Cícero Dias, companheiro de confinamento em Baden-Baden, durante a Segunda Guerra, leu o gordo volume de 447 ou 446 páginas e gostou, animando o autor a publicar . Finalmente, depois de retomados pelo autor, os contos que tanto entusiasmaram Marques Rebelo foram entregues ao público, com um novo título para o conjunto. Sagarana (Rio de Janeiro: Universal), lançado no início de abril de 1946, reacendeu e ampliou o debate crítico. O anúncio de O globo (Rio de Janeiro), de 29 de abril, traduziu o clima instaurado: O livro do momento. SAGARANA. J. Guimarães Rosa. Já está à venda em todas as livrarias. Esgotado em poucos dias, já se falava em segunda edição em maio do mesmo ano, conforme reportagem de Ascendino Leite; fato confirmado em nota, de 30 de junho, de O jornal (Rio de Janeiro): ... convém lembrar que se esgotou em poucos dias a primeira edição de Sagarana, (...). A Editora Universal já está mesmo cogitando de lançar a segunda edição, tantos são os pedidos que não puderam ser atendidos. A segunda edição foi anunciada na coluna “Livros”, de A noite (Rio de Janeiro), no dia 30 de julho, salientando que a publicação estava destinada ... a atender aos inúmeros amigos dos bons livros que não haviam conseguido adquirir a obra no lançamento inicial.
O livro era sucesso de vendas, apesar do selo de uma editora pequena, que estreava no mercado, e embora não deva ter tido uma grande tiragem na primeira edição. Por outro lado, o público leitor da década de 40 não deve ser encarado pelas nossas medidas de hoje, ainda que, na opinião de Almeida Fischer (1946), o interesse pelo livro de contos já fosse, em 1946, bem maior do que há vinte anos atrás.


OS CRÍTICOS FALARAM DE SAGARANA

Coube a Álvaro Lins (1946) a primeira avaliação:
De repente, chega-nos o volume, e é uma grande obra que amplia o território cultural de uma literatura, que lhe acrescenta alguma coisa de novo e insubstituível, ao mesmo tempo que um nome de escritor, até ontem ignorado do público, penetra ruidosamente na vida literária para ocupar desde logo um dos seus primeiros lugares. O livro é Sagarana e o escritor é o sr. J. Guimarães Rosa.
Ao ensaio do consagrado crítico, que não deixou de apontar em alguns momentos do livro uma certa fragilidade na ação novelística, seguiram-se, ao longo de 1946, resenhas, notas assinadas e outras da responsabilidade da redação, reportagens, novos ensaios; colunas dedicaram-se a falar do autor e da obra; jornais apressaram-se a pedir entrevistas ao autor e João Condé conseguiu um depoimento sobre a gênese da obra. Ofereceram-se ao leitor trechos do livro como “Um ‘trailler’(sic) de Sagarana” , independentemente das inúmeras citações feitas nos textos críticos estampados nos periódicos. Na coluna “Cara ou coroa”, Henrique Pongetti (1946) fez um balanço, bem pouco inocente, do que acontecia:
Na nossa literatura os endeusamentos e as excomunhões se manifestam sob a forma de andaço. Em certo dia aparece no suplemento literário o artigo-vírus do baliza do grupo: todos os componentes passam a acusar em seus escritos-cobaias os efeitos do contágio. (...) Todos correm para botar incenso nos turíbulos ou pedras nas fundas. (...) O último andaço das nossas letras é o Sr. Guimarães Rosa, autor de Sagarana.
Não nos é possível, nos limites deste trabalho, analisar os compromissos políticos, ideológicos e culturais da crítica literária militante, naturalmente direcionada pela linha editorial de cada periódico. Mas não podemos desprezar as observações de Pongetti, ainda que notando o tom de seu texto, que se refere a Álvaro Lins como o baliza do grupo e a seu ensaio como o artigo-vírus, embora sem a coragem de apontar claramente. Mas, na verdade, falou-se tanto do autor e do livro, que a impressão que se tem é a de que todos - escritores, críticos, jornalistas, intelectuais e periódicos - queriam marcar presença no debate. E o fenômeno ultrapassou os limites do eixo Rio - São Paulo, ainda em 1946. O próprio Pongetti, no mesmo artigo, declarou:
Não li ainda o livro porque ainda não escreveram sobre ele os vinte admiráveis espíritos que escreverão sobre ele nesses próximos sessenta dias, contagiados de um entusiasmo sem vacina, inevitável. Gosto de ler certos livros na segunda edição e de ver certos filmes na "reprise".
O articulista não precisou esperar muito pela segunda edição de Sagarana, e logo havia muito mais do que vinte nomes (admiráveis espíritos ou não... tudo depende de quem julga...) assinando matérias sobre Sagarana. Mas, não só Pongetti falou do que não havia lido. José Lins do Rego (26 abr. 1946), no calor da hora, apressou-se a falar do livro:
O crítico Álvaro Lins lançou um rodapé de absoluto elogio ao livro de um estreante.
E por isso tenho ouvido os comentários mais opostos. Para uns o artigo do crítico se excedera, a consagrar o que não merecia tanta vela de libra. Para outros, e entre estes o poeta Augusto Frederico Schmidt, o elogio ainda assim não corresponde à realidade do livro.
Estamos, portanto, diante de um caso literário. É de espantar, porém, que haja quem não dê fé na opinião do mestre Álvaro. O que me faz crer na nossa fraca capacidade para admirar.

Para, logo em seguida, confessar:
Eu ainda não li o tal livro de contos , mas pelo que dele me falam homens como Pedro Dantas e Graciliano Ramos, homens que não são de fácil elogio, trata-se de coisa muito séria.
(...) vou eu à procura do livro de contos, com disposição para pisar em terra nova!

Tendo lido Sagarana, Lins do Rego (10 maio 1946), voltando a mencionar Álvaro Lins e aludindo às críticas em circulação, revelou a sua opinião:
Li todos os contos do novo escritor mineiro e cheguei ao fim de sua última página com a impressão de que há qualquer coisa de realmente grande na sua ficção. O que não me convence é a afirmação de que a forma literária do Sr. Rosa seja uma terra nova, um mundo à vista, como nunca existira. O que menos vale no conjunto de contos é a intervenção do autor, quando se propõe a brilhar e a tomar conta dos acontecimentos.
Depois de falar da erudição botânica, dos conhecimentos de zoologia e de uma quase pedante exibição de detalhes que nos enfada, o consagrado autor de Fogo morto admitiu que o livro do estreante
se não chega a ser a obra-prima da exaltação do poeta Augusto Frederico Schmidt, é um magnífico livro de contos, como já nos deram o Sr. Monteiro Lobato ou o Sr. Luiz Jardim.
E que nos obriga a acreditar na sinceridade de seus críticos.

Para não nos alongarmos em citações, tomemos um trecho de Gracioso Filho (1946), que bem resumiu a polêmica de imediatamente após o lançamento de abril:
O último exemplo que presenciamos, trazendo outra vez à baila o desencontro da crítica, foi motivado pelo discutido livro Sagarana de J. Guimarães Rosa. Álvaro Lins começou os comentários, antecipando-se aos seus colegas, e não teve dúvidas em aplaudir a obra, intitulando-a como "uma estréia auspiciosa", porém não sem fazer referência às partes defeituosas que atraíram a sua atenção. Depois, Genolino Amado também teve idêntica opinião, se bem que não tivesse agido como um crítico, mas, sim, como um cronista impressionado pelo valor do trabalho. Posteriormente, Sérgio Milliet falou de Sagarana, contrariando Lins e Genolino. Não condenou, radicalmente, limitando-se a dizer que, apesar de se tratar de um livro interessante, não merecia o cartaz que lhe estavam imputando. Finalmente, a quarta crítica que chegou ao nosso conhecimento, por intermédio de um amigo, colocou Clóvis Ramalhete em posição de combate, esperando os resultados da ofensiva por ele desencadeada contra Sagarana. Os seus termos, passaram longe do esperado, e a obra de Guimarães Rosa, uma série de contos inspirados em quadros do interior do Brasil, desceu sensivelmente no conceito dos meios literários.
O articulista exagerou um pouco na avaliação dos efeitos da crítica de Clóvis Ramalhete. Sagarana esteve entre os mais vendidos ao longo de 1946, e seria o responsável por mais um prêmio concedido a Guimarães Rosa. Quando da reunião de janeiro de 1947, a Sociedade Felipe d’Oliveira, que tradicionalmente premiava o escritor que, tendo ingressado na vida das letras, publicou o melhor livro do ano anterior, concedeu o prêmio de cinco mil cruzeiros a J. Guimarães Rosa, considerado a mais pujante vocação literária de 1946, ao lado de Afonso Pena Júnior, fulgurante expressão de nossa cultura. Guimarães Rosa passava a integrar uma galeria de premiados, já habitada por Amando Fontes (Os Corumbas), Gilberto Freyre (Casa-grande e senzala), Rachel de Queiroz (As três Marias), Manuel Bandeira, pelo conjunto de obra, entre outros ilustres da cultura brasileira.



O REGIONALISMO EM DEBATE


Todo crítico, todo historiador fala a partir de seu presente, lembra Jean Starobinski (1978: 10). Isso significa que o leitor tem um repertório que lhe é familiar e à luz do qual realiza a leitura do novo texto, que confirmará, negará ou afastar-se-á desse repertório, pelos seus aspectos inovadores. Bom exemplo disso é o primeiro texto de Sérgio Milliet (19 maio):
Falou-se de Monteiro Lobato, a propósito de Sagarana. O anedotário regional do autor estabelece o paralelo, mas eu prefiro lembrar Valdomiro Silveira mais artista e purista dentro da mesma preocupação de espelhar um clima sertanejo. Dois ou três contos de Sagarana alcançam entretanto, a meu ver, uma realização de obra de arte perfeita a que nem Valdomiro Silveira nem Lobato se alçam jamais: “Sarapalha” e “A hora e vez de Augusto Matraga".
(...) Acontece que li Sagarana depois de me haver comovido intensamente com os contos de Graciliano Ramos e minhas observações sem dúvida se ressentem de comparação inevitável.
Álvaro Lins também leu o livro à luz de um repertório literário; detendo-se em “São Marcos”, sublinhou: ... com uma descrição da natureza, tão monumental nas proporções e tão orquestral no jogo dos vocábulos, que logo faz lembrar, involuntariamente, a maneira euclidiana.
Eis uma das manifestações do que Hans Robert Jauss (1978: 54 e seg.) chama de horizonte de expectativa, dentro de um cânone literário. Para os críticos de Guimarães Rosa, o horizonte de expectativa, além dos nomes acima mencionados, ainda estava marcado por Afonso Arinos, Alcântara Machado, Graça Aranha, Machado de Assis, Marques Rebelo, Simões Lopes Neto, mestres do conto e/ou expressões do regionalismo, entre outros.
Mas, no caso de Sagarana, o horizonte de expectativa não se traçava apenas no campo das obras literárias propriamente ditas. E aí foi relevante o papel de Álvaro Lins. A seu respeito, afirma Alfredo Bosi (2000: 491-492): foi, entre 40 e 60, um dos nossos críticos mais ativos e percucientes, muito próximo do modo de ler dos franceses pelo gosto da análise psicológica e moral. Sua importância foi atestada por um seu contemporâneo; Antonio Candido (1 set. 1946), explicando sua predileção por “A hora e vez de Augusto Matraga” disse ter confiado no juízo ...dos mais seguros do Brasil em matéria de ficção: o de Álvaro Lins, mestre de todos nós e entusiasta fervoroso de Sagarana, que foi o primeiro a indicar aos leitores como obra-prima.
Críticos do porte de Braga Montenegro, Brito Broca, além de José Lins do Rego e Gracioso Filho, referem-se à avaliação de Álvaro Lins. Outros, como Monte Brito, não podem evitar mencioná-lo, ainda que sem dar crédito a sua opinião. A revista Atualidades literárias transcreveu longo trecho do ensaio de Lins. A julgar por algumas notas, às vezes de certa malícia, falava-se tanto de Sagarana como da opinião de Álvaro Lins: O livro em cartaz, no momento, parece que é Sagarana, de J. Guimarães Rosa. Foi com foguetórios que o crítico Álvaro Lins saudou o seu aparecimento. Como a Livraria José Olympio era uma espécie de ponto de encontro das muitas “rodinhas” de intelectuais, pode-se imaginar o que e o quanto se falava da obra e do crítico...
Álvaro Lins viu no livro o retrato físico, psicológico e sociológico de uma região do interior de Minas Gerais, passando a tratar de seu caráter regionalista:
Mas o valor dessa obra provém principalmente da circunstância de não ter o seu autor ficado prisioneiro do regionalismo, o que o teria conduzido ao convencional regionalismo literário, à estreita literatura das reproduções fotográficas, ao elementar caipirismo do pitoresco exterior e do simplesmente descritivo. (...) Em Sagarana temos assim um regionalismo com o processo da estilização, e que se coloca portanto na linha do que, a meu ver, deveria ser o ideal da literatura brasileira na feição regionalista: a temática nacional numa expressão universal, o mundo ainda bárbaro e informe do interior valorizado por uma arte civilizada e por uma técnica aristocrática de representação estética.
Podemos até dizer que estava dado o mote. Passou-se, então, a falar de regionalismo nas páginas dos periódicos. Francisco de Assis Barbosa (1946), por exemplo, também deu sua opinião, mandando a certos habitantes da Cidade das Letras uma pequena alfinetada, para não perder a oportunidade:
Regionalista, no bom sentido da palavra, (...) O interior de Minas está inteirinho nas suas novelas, escritas com uma técnica verdadeiramente notável, onde encontramos sempre a palavra exata, a composição perfeita, até com requintes que chocam em meio à maneira desmazelada e muitas vezes antiliterária de certos escritores, nomes consagrados. (...) Mas não estaremos nós narcotizados por tanto desleixo, por tanta incorreção gramatical?
Conforme lição de H. R. Jauss (1978: 56),
... a recepção de um texto pressupõe sempre o contexto de experiência anterior no qual se inscreve a percepção estética: o problema da subjetividade da interpretação e do gosto do leitor isolado ou em diferentes categorias de leitores não pode ser colocado de forma pertinente, se não se tem inicialmente reconstituído este horizonte de uma experiência estética intersubjetiva preliminar que funda toda compreensão individual de um texto e o efeito que ele produz.
Assim, ao tratar de Sagarana, os críticos passaram a discutir “regionalismo”. Para esses críticos, o livro de Guimarães Rosa, ao que parece, estava à frente de suas experiências com o regionalismo; procurou-se, então, um conceito que se lhe aplicasse. Se um falava de um regionalismo com o processo da estilização, contrário a um chamado convencional regionalismo literário, o outro usou o conceito no bom sentido da palavra.
Renato Almeida (1946), depois de reconhecer o êxito de Sagarana, e falar de corte transversal na alma da gente do interior, preferiu emprestar um tom político ao debate:
O drama das populações do interior e o equívoco da civilização brasileira mais uma vez se patenteia. Ao invés de orientarmos a marcha do progresso para o interior, de uma forma racional, quer dizer preparando o material humano, deixamo-nos ficar nos contornos urbanos, seja nas zonas favoráveis, onde aumentamos o padrão de vida, e abandonamos o mais até que, pela ordem das coisas, porque Deus é brasileiro, as circunstâncias favoreçam melhores dias.
Oscar Mendes (1946) sistematizou duas noções de regionalismo, servindo, inclusive, para esclarecer como, em 1946, poderiam ser entendidas as formulações de Álvaro Lins e de Francisco de Assis Barbosa:
Criou-se um conceito de regionalismo na verdade muito estreito. Para muitos, escritor regional é apenas aquele que escreve usando termos de linguajar caipira ou matuto para contar casos de muito pouca importância e de interesse muito restrito.
(...) Mas o verdadeiro escritor regional a nosso ver, é aquele que, num cenário característico especial, único por vezes, sabe fazer viver o drama universal da condição humana. Poderá usar termos regionais para maior pitoresco e cor local, mas apenas como um recurso estilístico e maior força de caracterização.
(...) Da leitura do livro do sr. Guimarães Rosa não me veio a impressão dum regionalismo daquela espécie limitada.

Antonio Candido (21 jul. 1946) começou estabelecendo a questão em termos de regionalismo e de nacionalismo literário. Relembrando a formação de uma consciência federalista, a crise de 1929, o Estado Novo, a fase nacionalista, cujo expoente, segundo ele, foi Bilac, via na década de 40 uma tendência para ser bairrista, aí... citando Gilberto Freyre como porta-voz da corrente. E é nesse contexto de sabor da terra (expressão usada por Candido) que se apresentou Sagarana. O crítico é o primeiro a sublinhar que, em Guimarães Rosa, Minas é menos uma região do Brasil do que uma região da arte, com detalhes e locuções e vocabulário e geografia cosidos de maneira por vezes quase irreal, tamanha é a concentração com que trabalha o autor. Mais adiante, tendo falado de um regionalismo "entre aspas", ou seja em que os escritores trouxeram a região até o leitor, conservando, eles próprios, atitude de sujeito e objeto, Candido disse que
Guimarães Rosa construiu um regionalismo muito mais autêntico e duradouro, porque criou uma experiência total em que o pitoresco e o exótico são animados pela graça de um movimento interior em que se desfazem as relações de sujeito e objeto para ficar a obra de arte como integração total de experiência.
Sagarana nasceu universal pelo alcance e pela coesão da fatura.

O colégio crítico esteve, mesmo, ativo no debate. Como em verdadeira assembléia, seus membros dialogavam, através dos periódicos, retomando ou ampliando pontos, trazendo novos argumentos e apontando divergências. Sérgio Milliet ( em 19 maio), que, um tanto ambivalente, já havia dito:
Sagarana é, entretanto, uma grande estréia. Mais pela promessa do que pela realização. Estamos diante de um escritor capaz, de uma grande obra. Se conseguir libertar-se de sua propensão para a anedota, o caso curioso, se puder livrar-se da tendência para o efeito e o rebuscamento, se se depurar enfim e tentar uma penetração mais vertical do mundo, há de dar-nos dentro em pouco uma grande obra.,
resolveu voltar ao palco (em 21 jul.), por causa do artigo de Candido:
O jovem crítico paulista considera que o sr. Guimarães Rosa transcende o regional em seus contos, que "Sagarana nasceu universal pelo alcance e a coesão da fatura" e, ainda, que a língua usada "parece ter atingido o ideal da expressão literária regionalista". Desejaria que o sr. Antonio Candido esclarecesse melhor a sua concepção do universal e nos dissesse também em que essa língua erudita e admiravelmente artística de Guimarães Rosa se prende ainda ao regional.
Apesar de argumentar contra o caráter universal, Milliet chegou a assegurar não negar as qualidades do escritor Guimarães Rosa nem a importância de seu livro como marco de uma nova tentativa regionalista, ainda que, logo em seguida, estivesse apontando amor ao efeito, um rebuscamento, uma profusão barroca que atordoam por vezes mas não penetram além da inteligência da gente. E concluiu: Releio Sagarana depois do rodapé de Antonio Candido. Lerei sem dúvida outras vezes o livro. Para discuti-lo ainda, o que não deixa de ser ótimo sinal.
Pelo menos em 1946, não foi com Antonio Candido que Milliet deu curso à discussão sobre Sagarana. Em setembro, o jovem crítico paulista voltou a tratar do livro, mas para responder a um leitor que o argüiu por causa de sua predileção por “A hora e vez de Augusto Matraga”. Candido escreveu reafirmando sua preferência e ilustrando a dificuldade que é tentar estabelecer listas de “10 melhores”, ao mesmo tempo que saiu compondo listas variadas.


PARA CONCLUIR

Quase que antecipando a lição de Jauss (1978: 73), segundo a qual ...a resistência que a obra nova opõe à expectativa de seu primeiro público pode ser tão grande, que um longo processo de recepção será necessário antes que seja assimilado aquilo que era originalmente inesperado, inassimilável, Agrippino Grieco (1946) disse: ... o livro parece-me opulento. Muitos episódios bons e, naturalmente, episódios maus. Há onde se lhe pegue. Existe. Mesmo nas ruins passagens (e que bom trabalho não as tem?), aí está, implícito, um grande livro futuro.
Se Sagarana foi acolhido com aplausos e com restrições por parte da crítica também não ficou parado nas prateleiras das livrarias, passando a figurar entre os mais vendidos daquele ano. Para Almeida Fischer (1946), é verdade que certos críticos e cronistas exageraram um pouco os méritos do livro e se esqueceram de apontar-lhe as deficiências, o que explica, em parte, o sucesso obtido. Porém, para Alcântara Silveira (1946), talvez mais realista e com uma certa neutralidade, era
... bobagem afirmar – como estão fazendo a propósito de Sagarana e seus críticos – que a crítica entre nós é responsável pelo êxito do livro. O que houve no caso de J. Guimarães Rosa, foi apenas coincidência entre a opinião do povo e a do crítico (coisa que raramente acontece) e por isso Sagarana tem sido lido.
Na verdade, a crítica refletia uma atitude de recepção. Sagarana trazia nova seiva para a corrente regionalista, e, por isso, o debate levou a que se refletisse sobre esse conceito, marcando sempre o caráter de exceção, ou de originalidade, ou de subversão contido no livro. A polêmica esteve sempre orientada por uma atitude comparativa, quer com os grandes contistas, quer com os reconhecidos nomes do regionalismo. Ou seja: o debate foi travado à luz do cânone de até 1946. A partir daí, Sagarana passava a integrar o cânone, agora enriquecido com sua participação, como exemplo de regionalismo entre aspas, regionalismo de técnica aristocrática de representação estética, regionalismo no bom sentido da palavra, como procurou explicar a crítica.
Sagarana estava consagrado. E, indiferente à polêmica, dando voz aos capiaus, acompanhando o destino do burrinho, tangendo seus bois, padecendo com seus próprios mosquitos, entrava para a Literatura Brasileira. Álvaro Lins sabia:
... o que desejo principalmente é anunciar ao público a presença, na literatura brasileira, de um novo grande livro, e saudar, no autor de Sagarana, o companheiro que entra na vida literária com o prestígio de um mestre na arte da ficção.
E o público agradece.

Publicado em

MATOS, Edilene et al. (org.). A presença de Castello. São Paulo: Humanitas / FFLCH/ USP; Instituto de Estudos Brasileiros, 2003, p. 869-885.

Sagarana, 1ª ed.

Biblioteca Guita e José E. Mindlin.

Sagarana, 5ª ed.

Biblioteca Sônia van Dijck

Agradecimentos

ao Instituto de Estudos Brasileiros/ USP, a José E. Mindlin, José Aderaldo Castello, Cunha de Leiradella e Sueli Souza.

 

©Copyright by Sônia van Dijck, 2003

5ª edição (1958) - Capa: Poty

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