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VOLTAR GUIMARÃES ROSA

VER Para uma História da Literatura

 

1ª edição (1946)- Capa: Geraldo de Castro

O aparecimento de Sagarana

 

Sônia Maria van Dijck Lima

Conforme lição de H. R. Jauss (1978: 56),

... a recepção de um texto pressupõe sempre o contexto de experiência anterior no qual se inscreve a percepção estética: o problema da subjetividade da interpretação e do gosto do leitor isolado ou em diferentes categorias de leitores não pode ser colocado de forma pertinente, se não se tem inicialmente reconstituído este horizonte de uma experiência estética intersubjetiva preliminar que funda toda compreensão individual de um texto e o efeito que ele produz.

Em outras palavras: a recepção estética faz-se nos contornos canônicos de um horizonte de expectativa (Jauss, 1978: 54 e segs.).

... Cada época e cada grupo social têm seu repertório de formas de discurso na comunicação sócio-ideológica. (Bakhtin, 1988: 43)

Nos parâmetros de um cânone já habitado por José de Alencar e Franklin Távora, desde o século XIX, e José Américo de Almeida, a partir de 1928, a questão de uma literatura da terra e da gente brasileiras, antecede, percorre e ultrapassa a polêmica das várias correntes do Modernismo, em demanda de uma expressão nacional, cuja unidade resulta da diversidade de linguagens e de comportamentos culturais, vindos do processo histórico de colonização e conquista do vasto território brasileiro.
Revelado ao público em abril de 1946, Sagarana encontrou um horizonte de expectativa interessado no regionalismo; leitores voltados para busca de um reconhecimento de uma identidade nacional, não importando a tonalidade política desse ou daquele autor ou crítico, desse ou daquele grupo de artistas e intelectuais. Dentro de um clima ideológico forjado pela Revolução de 30 e construído pela força do Estado Novo, aos intelectuais eram solicitadas atitudes de apoio e de conivência, ou de oposição e contestação em relação ao projeto político-ideológico formulado pelo governo. A alternativa marcante do período reside nos estudos sobre o passado, e, no limite, em uma literatura voltada para as regiões afastadas do centro de poder e de decisão. Aliás, a respeito da literatura regional, as vezes até se afastando da realidade tematizada, vale a pena retomarmos alguns comentários de Brito Broca (1946):

Ora, esse gênero sempre se caracterizou, entre nós, pela tendência romanesca e sensacionalista, que a influência do realismo não conseguiu abolir. Tendência justificável no que se refere às zonas de sertão bravio, às regiões castigadas do Norte e do Nordeste, onde a aventura, o perigo, a incerteza andam por toda parte, mas pouco aceitável em setores rurais de vida agrícola e pastoril estabilizada, como os do centro sul. Aqui os assassinatos, as tragédias, as tocaias heróicos e fascinorosos constituem uma nota excepcional, inclinada a soar falso. Os ficcionistas rústicos do centro sul, que tomaram Afonso Arinos por mestre, parecem não haver percebido que o autor de Histórias e paisagens focaliza o sertão mineiro numa fase ainda heróica de sua evolução histórica, embora não precisamente identificada, já que os contornos dos quadros se esfumam em certa indeterminação idealista. E assim continuaram a ver por aí descendentes de Pedro Barqueiro, como se os povoados da Mantiqueira andassem infestados de bandoleiros românticos e cavalheiros, do tipo Mauprat, de George Sand

A QUESTÃO DO REGIONALISMO

Álvaro Lins (1946), conduzindo-se por seu repertório literário, encontrou termo de comparação com Sagarana no monumento Os sertões, iluminado pelo entendimento vigente das diversidades. A propósito de “São Marcos”, sublinhou:

... com uma descrição da natureza, tão monumental nas proporções e tão orquestral no jogo dos vocábulos, que logo faz lembrar, involuntariamente, a maneira euclidiana.

Traçava-se, portanto, o horizonte de expectativa da crítica.
Lins viu o retrato físico, psicológico e sociológico de uma região do interior de Minas Gerais, passando a tratar de seu caráter regionalista, e inaugurou outra faceta da polêmica:

Mas o valor dessa obra provém principalmente da circunstância de não ter o seu autor ficado prisioneiro do regionalismo, o que o teria conduzido ao convencional regionalismo literário, à estreita literatura das reproduções fotográficas, ao elementar caipirismo do pitoresco exterior e do simplesmente descritivo. (...) Em Sagarana temos assim um regionalismo com o processo da estilização, e que se coloca portanto na linha do que, a meu ver, deveria ser o ideal da literatura brasileira na feição regionalista: a temática nacional numa expressão universal, o mundo ainda bárbaro e informe do interior valorizado por uma arte civilizada e por uma técnica aristocrática de representação estética.

Aberta a discussão, passou-se, então, a falar de regionalismo nas páginas dos periódicos. Francisco de Assis Barbosa (1946), por exemplo, também deu sua opinião, mandando a certos habitantes da Cidade das Letras (a expressão é de Barbosa) uma pequena alfinetada, para não perder a oportunidade:

Regionalista, no bom sentido da palavra, (...) O interior de Minas está inteirinho nas suas novelas, escritas com uma técnica verdadeiramente notável, onde encontramos sempre a palavra exata, a composição perfeita, até com requintes que chocam em meio à maneira desmazelada e muitas vezes antiliterária de certos escritores, nomes consagrados. (...) Mas não estaremos nós narcotizados por tanto desleixo, por tanta incorreção gramatical?

José Lins do Rego (1946) trouxe para o debate os nomes de Monteiro Lobato e Luís Jardim.
Também Genolino Amado é um dos que mencionam Lobato, fiel à atitude comparatista da crítica literária de seu tempo:

Notam-se, aliás, entre as obras de ficção e os ficcionistas citados certos pontos de contato que vale a pena acentuar. Como Guimarães Rosa, Lobato era um nome quase totalmente desconhecido nos círculos intelectuais antes da vitória repentina e decisiva. Como Urupês, tem Sagarana um frescor de terra virgem, um cheiro de mato, uma graça cabocla de tipos e uma independência de linguagem que não se descobrem noutras criações de índole regional, constituindo esplêndido elemento de renovação para a prosa brasileira.

Para os críticos de Guimarães Rosa, o horizonte de expectativa estava marcado por Afonso Arinos, Alcântara Machado, Euclides da Cunha, Graça Aranha, Machado de Assis, Marques Rebelo, Monteiro Lobato, Simões Lopes Neto, entre outros, mestres do conto e/ou expressões da literatura regional. Inevitável, portanto, que se discutisse “regionalismo”. Porém, procurou-se um conceito que se lhe aplicasse. Se um crítico falava de um regionalismo com o processo da estilização, contrário a um chamado convencional regionalismo literário, outro falava de regionalismo no bom sentido da palavra.
Para Renato Almeida (1946), respirando os ares pós-Estado Novo,

O êxito do livro de contos do sr. J. Guimarães Rosa, Sagarana, vem sobretudo do motivo. O interesse pelo Brasil, através da sensibilidade ou da interpretação dos que dele se aproximam, emotiva ou analiticamente, ainda é dominante e essencial. Aqueles que acreditaram possível fixarmo-nos na orla da civilização litorânea e nos mantermos em contato permanente com a Europa, cuja cultura transplantamos para este lado do Atlântico, mas resguardando-a da contaminação da barbaria (sic) nativa, equivocaram-se e permaneceram marginais. (...) A vida dramática da gente do interior, nos países latino-americanos, é uma sugestão imensa e trazê-la à luz é ao mesmo tempo fazer obra de arte e pesquisa sociológica.

Almeida, depois de falar de corte transversal na alma da gente do interior, preferiu assegurar um tom político ao debate:

O drama das populações do interior e o equívoco da civilização brasileira mais uma vez se patenteia. Ao invés de orientarmos a marcha do progresso para o interior, de uma forma racional, quer dizer preparando o material humano, deixamo-nos ficar nos contornos urbanos, seja nas zonas favoráveis, onde aumentamos o padrão de vida, e abandonamos o mais até que, pela ordem das coisas, porque Deus é brasileiro, as circunstâncias favoreçam melhores dias.

Oscar Mendes (1946) sistematizou duas noções de regionalismo, servindo, inclusive, para esclarecer como, em 1946, poderiam ser entendidas as formulações de Álvaro Lins e de Francisco de Assis Barbosa:

Criou-se um conceito de regionalismo na verdade muito estreito. Para muitos, escritor regional é apenas aquele que escreve usando termos de linguajar caipira ou matuto para contar casos de muito pouca importância e de interesse muito restrito. (...) Mas o verdadeiro escritor regional a nosso ver, é aquele que, num cenário característico especial, único por vezes, sabe fazer viver o drama universal da condição humana. Poderá usar termos regionais para maior pitoresco e cor local, mas apenas como um recurso estilístico e maior força de caracterização. (...) Da leitura do livro do sr. Guimarães Rosa não me veio a impressão dum regionalismo daquela espécie limitada.

Antonio Candido (1946) estabeleceu a questão em termos de regionalismo e de nacionalismo literário. Relembrando a formação de uma consciência federalista, a crise de 1929, o Estado Novo, a fase nacionalista, cujo expoente, segundo ele, foi Bilac, via na década de 40 uma tendência para ser bairrista, e citou Gilberto Freyre como porta-voz da corrente. E é nesse contexto de sabor da terra (expressão usada por Candido) que se apresentou Sagarana. O crítico foi o primeiro a sublinhar que, em Guimarães Rosa, Minas é menos uma região do Brasil do que uma região da arte, com detalhes e locuções e vocabulário e geografia cosidos de maneira por vezes quase irreal, tamanha é a concentração com que trabalha o autor. Mais adiante, observa um regionalismo “entre aspas”, ou seja em que

os escritores trouxeram a região até o leitor, conservando, eles próprios, atitude de sujeito e objeto (...) Guimarães Rosa construiu um regionalismo muito mais autêntico e duradouro, porque criou uma experiência total em que o pitoresco e o exótico são animados pela graça de um movimento interior em que se desfazem as relações de sujeito e objeto para ficar a obra de arte como integração total de experiência. Sagarana nasceu universal pelo alcance e pela coesão da fatura.

No entusiasmo da polêmica, dialogava-se, através dos periódicos, retomando ou ampliando pontos, trazendo novos argumentos e apontando divergências. Sérgio Milliet (1946 a) que, um tanto ambivalente, em 19 de maio, já havia dito:

Sagarana é, entretanto, uma grande estréia. Mais pela promessa do que pela realização. Estamos diante de um escritor capaz, de uma grande obra. Se conseguir libertar-se de sua propensão para a anedota, o caso curioso, se puder livrar-se da tendência para o efeito e o rebuscamento, se se depurar enfim e tentar uma penetração mais vertical do mundo, há de dar-nos dentro em pouco uma grande obra.

voltou a falar do livro(1946 b), em 21 de julho, por causa do artigo de Candido:

O jovem crítico paulista considera que o sr. Guimarães Rosa transcende o regional em seus contos, que “Sagarana nasceu universal pelo alcance e a coesão da fatura” e, ainda, que a língua usada “parece ter atingido o ideal da expressão literária regionalista”. Desejaria que o sr. Antonio Candido esclarecesse melhor a sua concepção do universal e nos dissesse também em que essa língua erudita e admiravelmente artística de Guimarães Rosa se prende ainda ao regional.

Apesar de um certo acento sobre o caráter universal apontado por Candido, Milliet chegou a assegurar não negar

as qualidades do escritor Guimarães Rosa nem a importância de seu livro como marco de uma nova tentativa regionalista, ainda que, logo em seguida, estivesse apontando amor ao efeito, um rebuscamento, uma profusão barroca que atordoam por vezes mas não penetram além da inteligência da gente. E concluiu: Releio Sagarana depois do rodapé de Antonio Candido. Lerei sem dúvida outras vezes o livro. Para discuti-lo ainda, o que não deixa de ser ótimo sinal.


CONCLUSÃO

Na verdade, a crítica refletia uma atitude de recepção. Sagarana trazia nova seiva para a corrente regionalista, e, por isso, o debate levou a que se refletisse sobre esse conceito, marcando sempre o caráter de exceção, ou de originalidade, contido no livro. A polêmica esteve sempre orientada por uma atitude comparativa, quer com os grandes contistas, quer com os reconhecidos nomes do regionalismo. Ou seja: o debate foi travado à luz do cânone de até 1946. A partir daí, Sagarana passava a integrar o cânone, agora enriquecido com sua participação, embora se tenha falado de regionalismo “entre aspas”, regionalismo de “técnica aristocrática de representação estética”, regionalismo “no bom sentido da palavra”, como procurou explicar a crítica.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, R. (1946). Sagarana. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 30 jun. Arq. JGR-IEB/USP-R1.

AMADO, G. (1946). Em torno de um livro singular. Correio Paulistano, São Paulo, 5 maio. Arq. JGR-R1.

ANTONIO CANDIDO (1946). Sagarana. O Jornal, Rio de Janeiro, 21 jul. Notas de crítica literária. Arq. JGR-IEB/USP-R1.

BARBOSA, F. de A. (1946). Sagarana. Diretrizes, Rio de Janeiro, 29 abr. Arq. JGR-IEB/USP-R1.

BRITO B. (1946). Bucolismo anti-romanesco. A Manhã, Rio de Janeiro, 11 ago. Arq. JGR-R2.

JAUSS, H. R. (1978). Pour une esthétique de la réception. Trad. Claude Maillard. Paris: Gallimard. (tel, 169).

LINS, Á. (1946). Uma grande estréia. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 12 abr. Jornal de crítica. Arq. JGR-IEB/USP-R1.

MENDES, O. (1946). Recomeçando. O Diário, Belo Horizonte, 14 jul. Alma dos livros. Arq. JGR-IEB/USP-R1.

MILLIET, S. (1946). Sagarana. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 19 maio. Diário crítico. Arq. JGR-IEB/USP-R1.

__________ (1946 b). Leituras avulsas. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 21 jul. Diário crítico. Arq. JGR-IEB/USP-R1.

© Copyright by Sônia van Dijck, 2006

Midi: Minas Gerais

(na verdade, trata-se da composição napolitana Viene sul Mare - séc. XIX)

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