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HERMILO BORBA FILHO - 90 anos --COURBET e HERMILO- OS AMBULANTES DE DEUS: E LA NAVE VÀ... - O MARAVILHOSO EM HBF -O POPULAR COMO POÉTICA---TEATRO NA NARRATIVA

UM CAVALHEIRO QUE NÂO CONHECEU A DECADÊNCIA - NOCIAS - FOTOS

TEXTOS DE HERMILO BORBA FILHO- POEMAS PARA HERMILO

 

 

Arquivo Hermilo Borba Filho (Recife - PE)

 

Programa das comemorações dos 90 anos

* Engenho Verde - Palmares (PE - Brasil), 8 de julho de 1917 - + Recife (PE - Brasil), 2 de junho de 1976

 

PRESENÇA DO GROTESCO

NO

TEATRO HERMILIANO

 

Sônia Maria van Dijck Lima

Como traços característicos do conjunto da obra de Hermilo Borba Filho, podemos destacar: presença da cultura popular, narrativa de tom confessional, diversidade de níveis de linguagem, orientação erótica das personagens, pesquisa histórica, freqüentação do espaço transtextual, entre outras marcas do autor de Deus no pasto. Todavia, gostaríamos de contemplar o grotesco, enquanto categoria estética atualizada na obra hermiliana.
Hermilo Borba Filho estreou em livro como dramaturgo, com Teatro, lançado em 1952. Uma das peças desse livro, “A barca de ouro”, escrita em 1949, tem como espaço uma ilha de pescadores. O conflito vivido pelas personagens resulta do embate contra poderes indomáveis. A vida na ilha acha-se condicionada pelo sentido erótico das ações das personagens e pela manifestação de poderes abismais. Hermilo atualiza, no universo da peça, a lenda da belíssima mulher que aparece aos pescadores, viajando em uma barca de ouro. Não se consegue resistir a uma tal aparição, pois, além dos sentidos eróticos nela contidos, é uma promessa de libertação das contingências humanas. A presença das mulheres de preto e o desespero da personagem Dona dizem do caráter abismal da figura:

- Anselmo, pelo amor de Deus! Tire isso da cabeça (...). Anselmo! Sou eu, Dona, sua mulher! Olhe para mim (...). Sou sua mulher de carne e osso, tenho olhos, garganta, seios, ventre, coxas, tudo de verdade, real, bulindo! Aquela desgraçada não tem nada disso! É uma assombração! Quer somente perder você, como já perdeu os outros, todos os maridos daqui da ilha. Vá olhar como aquelas viúvas da outra sala envelheceram de repente. São moças da minha idade, mas a pele já murchou e o sangue delas não corre mais! Não vá embora, Anselmo! Não vá! Não vá!
(HBF, Teatro, p. 370-371)

No Auto da mula-de-padre (Borba Filho, 1953), o autor também coloca no palco o elemento assombroso, e, em “Sete dias a cavalo” (Borba Filho, 1976, p. 127-148), as figuras carregam os sinais grotescos dos vícios da danação e mais parecem saídas de um quadro de Hieronymus Bosch (Os sete pecados capitais, Museu do Prado, Madrid), como uma advertência quanto aos perigos da tentação.
Mas foi em Um paroquiano inevitável que Hermilo Borba Filho (1965) explorou as forças abismais como capazes de decidir o destino dos homens. Enquanto em outros textos de sua autoria o elemento assombroso é apenas um dentre os móveis da intriga, nessa peça, o grotesco é que está no centro do conflito. É o macabro que assume, em Um paroquiano inevitável, o estatuto de personagem principal. Pretendemos, portanto, destacar essa peça no conjunto da dramaturgia hermiliana.

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Nossa leitura de Um paroquiano inevitável recorre a Wolfgang Kayser, em Lo grotesco (s. d.). Kayser assinala que a palavra grotesco, a princípio termo técnico, transformou-se em palavra significativa, ou seja, em categoria estética, na medida que aponta atitudes criadoras, conteúdos, estruturas e efeitos. Todavia, salienta que é a partir da estrutura que se deve definir o grotesco: “O grotesco é uma estrutura” (Kayser, s. d., p. 224). Conforme lição desse autor:

A) “... o grotesco é o mundo distanciado”. Para esse mundo distanciado, concorrem os seguintes fatores:
1. coisas estranhas e familiares que se revelam estranhas e ameaçadoras
2. cena ou imagens em movimento
3. tensões ameaçadoras
4. sensações de estranheza, estremecimento, insegurança
5. angústia diante da vida
6. perda de nossa orientação no mundo, deformação das proporções naturais, aniquilação da ordem histórica
B) O grotesco é a representação daquilo que está fora da esfera de nossos conceitos e para o qual a língua não tem nome

Para Kayser, “a configuração do grotesco constitui a tentativa de banir e conjurar o demoníaco” (Kayser, s. d., p. 228), por isso, “as configurações do grotesco são um jogo com o absurdo” (Kayser, s. d., p. 228). saliente-se, porém, que o grotesco é diferente do trágico; seu sentido não se oculta no destino traçado nas mansões dos deuses nem na grandeza do herói, muito menos em alguma norma de conduta que antecede e excede a uma particular decisão humana. No grotesco não há, necessariamente, a preocupação em dar um sentido aos fatos.

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Após essa breve apresentação dos postulados teóricos de Wolfgang Kayser, retornemos a Um paroquiano inevitável. A peça representa uma família dita pequeno-burguesa, às voltas com duas preocupações: o desemprego do Pai e dos filhos, e a perspectiva de casamento de um dos filhos com uma negra. A ação é localizada apenas no tempo: 1930. Sua duração não fica bem definida, mas pode ser estimada em mais ou menos três meses e dias. Representam-se três instantes da vida do grupo familiar, marcados, principalmente, pelo horário do almoço. Aos conflitos decorrentes das preocupações da família, soma-se a presença de seu Enéas, que se constitui fonte de tensão crescente, e que, na verdade, ocupa o centro da ação da peça, pois é a partir de seu Enéas que os fatos acontecem e a representação avança.
As cenas iniciais apresentam as personagens Mãe, Pai, e os filhos: Poeta, Atleta, Noivo, Pescador. Fica-se sabendo que as relações familiares são conflituosas e marcadas por incompreensões e desentendimentos.
Mesmo antes do aparecimento de seu Enéas, as falas da Mãe anunciam as linhas de seu caráter; há algo de sinistro na figura ainda ausente da cena. A atitude da Mãe em relação a seu Enéas compõe as primeiras pinceladas de soturno, que, aos poucos, vão sendo acumuladas sobre a personagem seu Enéas. Diz a Mãe:

- Você não pode acreditar, mas vou dizer. Sabe que todas as vezes que ele chega eu sinto frio? Como se chegasse pessoa de outro mundo.
(HBF, Um paroquiano, p. 15)

Desde sua entrada em cena, seu Enéas instaura uma atmosfera de estranheza e confirma a atitude da Mãe: uma sensação de horror, a princípio um tanto vaga, mas que se intensifica no decorrer da peça. Seu Enéas surge como uma personagem sem passado, sem laços de qualquer espécie. Sobre sua figura paira um certo mistério, que vai cedendo lugar ao sinistro. Sabe tudo o que acontece (mesmo estando ausente do fato) e anuncia o que vai acontecer. Suas falas vão, paulatinamente, denunciando seu caráter; no primeiro ato, ao falar da morte, pondera:

- É o que você pensa. Não se sente, mas ela anda junto de todos nós. Às vezes é uma borboleta, outras vezes um gato e outras um homem como eu.
(HBF, Um paroquiano, p. 22)

Quanto mais seu Enéas deixa notar sua real natureza, mais as pessoas não parecem, efetivamente, saber com quem estão tratando. Todos experimentam, gradativamente, um arrepio de horror, mas não mostram que entendem, por completo, a trama em que estão envolvidos.
Essa observação, contudo, não se aplica à Mãe, que vai do estremecimento, diante da suspeita do sinistro, até a crise nervosa motivada pelo pânico. É a personagem Mãe, a quem é dado saber a verdade, que atualiza a tensão decorrente do ser a Morte e do parecer um velho inofensivo aos olhos dos demais. Hermilo Borba Filho centrou seu argumento jogando com o ser e o parecer, na construção da personagem seu Enéas. Para a Mãe, o falecimento do Atleta, ocorrido no dia em que seu Enéas esteve ausente, confirma os poderes horrorosamente inapreensíveis do velho.
Cabe a seu Enéas, no fim do primeiro ato, indicar a solução para o desemprego na família: instalar uma casa funerária na residência da família; nela trabalharão os homens da casa (exceto o Atleta, que partiu com um circo). Está instaurado o jogo com o absurdo, a partir do qual se desenrolam os atos seguintes.
No segundo ato, vemos a prosperidade da casa funerária e os homens da família trabalhando como escravos, uma vez que não param de fazer caixões de defunto para satisfazer a tantas encomendas. Revelam-se os poderes abismais que decidem a vida das pessoas, impulsionam as ações e conduzem os fatos. Os seres humanos não passam de criaturas manobradas: para a prosperidade ou para a morte; a decisão cabe às forças sinistras.
O último ato passa-se no dia em que se recebe a noiva negra para almoçar. A Mãe havia dito, no primeiro ato:

- ... enquanto eu for viva aquela negra não põe os pés nesta casa
(HBF, Um paroquiano, p. 20)

Aos ouvidos de todos, o dito da Mãe soa, a princípio, como uma expressão enfática da recusa das intenções do filho de tomar uma negra como esposa. É seu Enéas quem, no último ato, relembra a fala da Mãe. Só então, fica explícito o projeto da Morte; a mãe sem o saber, havia determinado a data fatídica: o dia em que a negra entrasse em sua casa. Aquela fala da Mãe ganha o sentido de sentença condenatória. Os poderes abismais não só manobram as ações humanas, mas estão atentos a todos os gestos e expressões do homem; com isso tecem seu destino.
Mas olhemos a questão através de outro ângulo: não teria sido seu Enéas quem colocou na boca da Mãe a data de execução de seu plano macabro? Se lermos assim, as ações humanas despojam-se de sua capa de livre iniciativa, e os homens não passam de criaturas dirigidas por forças desconhecidas e ameaçadoras. Na cena, predomina uma atmosfera de insegurança, na qual se movem criaturas que não são donas de seu destino.
Seu Enéas transforma a Mãe numa morta-viva, para dar andamento a suas intenções: reunir a família para a morte. A Morte não quer mais apenas um cadáver de cada vez: multiplica-se em suas vítimas.

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Diante do exposto, podemos anotar alguns traços do grotesco no texto hermiliano:

- personagens que desempenham papéis absurdos, tirando seu progresso material da morte dos outros;
- seres humanos como joguetes manobrados pela Morte;
- domínio de forças abismais;
- presença de personagem de comportamento e de aparência assombrosos;
- tensão entre o ser e o parecer;
- experiência de sensações de estranheza, de estremecimento, de angústia da personagem Mãe, diante dos fatos;
- atmosfera de tensão ameaçadora;
- situação que se dirige para o abismal;
- multiplicação da morte.

O recurso de construir personagens sem nomes próprios, apenas indicadas por seus papéis no grupo, contribui para criar um relativo distanciamento. Por outro lado, o mesmo recurso funciona para levar o leitor/ ou espectador a um estremecimento, ao ver que estão em cena criaturas anônimas, com as quais qualquer um pode identificar-se. Não se trata de pessoas particulares, designadas por seus nomes, cuja experiência nos é mostrada, mas de funções sociais representadas pelas personagens.

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Vemos, então, que o conceito de grotesco não se restringe à organização estrutural da obra. Essa categoria estética implica também a percepção que se tem dessa mesma estrutura. No caso do texto em consideração, fica difícil indicar um momento especial em que a peça pode levar o leitor/ ou espectador a um arrepio de horror, pois são muitas as cenas em que o ameaçador se mostra detentor do destino das pessoas. Mas, poderíamos assinalar como um dos momentos causadores de estremecimento aquele em que a frase da Mãe é revelada em todo seu significado de condenação, graças ao uso que os poderes subterrâneos fazem dos comportamentos humanos. O acento grotesco do texto ainda se faz presente no fato de algumas personagens desconhecerem que se dirigem para o abismal, enquanto a Mãe partilha conosco (leitores/ espectadores) o conhecimento desse desfecho. A atitude da Mãe acentua a ignorância dos outros e estabelece conosco o pacto do grotesco da situação representada.

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Conforme lição de Wolfgang Kayser, “as configurações do grotesco são um jogo com o absurdo”. Logo, Um paroquiano inevitável insere-se na série do grotesco, pois tudo que se representa, nessa peça, está baseado em um contrato com o absurdo, e as ações humanas encontram sentido apenas no encaminhar-se para a morte. A peça ilustra uma verdade soturna: todos os gestos e preocupações humanas são presididos pela Morte. Hermilo Borba Filho, com fina ironia, analisa a labuta dos vivos: tudo conclui-se na Morte. É a Morte que encaminha a vida para sua resolução; a ela cabe a palavra final - sátira aguda e amarga de Um paroquiano inevitável.


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REFERÊNCIAS


BORBA FILHO, Hermilo. Teatro. Electra no circo. João sem terra. A barca de ouro. Recife: Edições TEP, 1952.

_____________________ Auto da mula-de-padre. Recife: Departamento de Documentação e Cultura, Prefeitura Municipal do Recife, 1953.

_____________________ Um paroquiano inevitável. Recife: Imprensa Universitária, Universidade do Recife, 1965.

______________________ Sete dias a cavalo. Porto Alegre: Globo, 1976, p. 127-148.

KAYSER, Wolfgang. Lo grotesco: configuración en pintura y literatura. Trad. Ilse M. de Brugger. Buenos Aires: Nova, s. d.

LIMA, Sônia Maria van Dijck. Hermilo Borba Filho: fisionomia e espírito de uma literatura. São Paulo: Atual, 1986 (Lendo).

Publicado em

Caderno de textos, João Pessoa, CPGL/UFPB, 2. série, n. 6, 1991, p. 57-65.

Versão preparada para esta página.

© Copyright by Sônia van Dijck, 1991

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