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Capa: Adailton Clayton Santos

Gravura: “O Grande Pássaro” (Ariano Suassuna)

(Campinas: Unicamp, 1999)

Mais uma peça do mosaico cultural brasileiro

Pesquisadora visita o litoral, a zona da mata e o sertão, reencontra o vaqueiro, o cangaceiro e o santo para redescobrir o Movimento Armorial de Ariano Suassuna e entender melhor a cultura brasileira

Sônia van Dijck

FAÇO como Quaderna, lá na Cadeia Velha da Vila Real da Ribeira de Taperoá: "Escutem, pois, nobres Senhores e belas Damas de peitos brandos", venho dizer que temos o inventário poético de uma região. Este país é ainda mais amplo do que os sete reinos do Sertão visitados pela narrativa de Quaderna. Aliás, Mário de Andrade sabia disso, e Macunaíma tem o privilégio de freqüentar nossa variedade cultural. Como professora e como pesquisadora, Idelette dos Santos, a exemplo dos artistas armoriais, resistiu à atração dos movimentos culturais do Centro-Sul: resolveu investigar uma proposta de reflexão estética, que, procurando abolir a fronteira entre as artes, encontra na cultura popular inspiração, identificação, modelo, materiais, técnicas, instrumentos, temáticas, textos, mestres e heróis, para construir uma arte brasileira - o Movimento Armorial, no qual sobressai a carismática figura de Ariano Suassuna, professor universitário, escritor, poeta, gravador, imortal da ABL, teórico...
Retomando e atualizando sua tese de doctorat d'Etat (Universidade de Paris III, 1981), Idelette intitula seu trabalho “Em demanda da poética popular: Ariano Suassuna e o Movimento Armorial”. Ao leitor cabe perguntar: “de que demanda se trata?" ou "quem demanda: Idelette ou Ariano?". Não há necessidade de resolver a ambivalência do título. Idelette apresenta a demanda da poética popular empreendida por Ariano Suassuna e pelo Movimento Armorial; mas, também, organiza sua própria demanda da poética de Ariano Suassuna e do Movimento Armorial.
Na reconstituicão do percurso suassuniano, retorna à década de 40, para encontrar Ariano, com Hermilo Borba Filho, envolvido no Teatro do Estudante de Pernambuco, promovendo um encontro de cantadores e violeiros no Teatro Santa Isabel, realizando pesquisa sobre o maracatu, para publicar em livro, junto com o companheiro. Nos anos 50, Ariano integra o grupo d'O gráfico amador. É ainda com Hermilo e mais Gastão de Holanda, Capiba, entre outros, que, em 1959, Ariano Suassuna participa da criação do Teatro Popular do Nordeste, cujo repertório vai dos clássicos gregos, passando por Martins Pena, até Ariano Suassuna e Luiz Marinho, sob a regência do encenador Hermilo Borba Filho. A divergência em torno da concepção brechtiana de espetáculo encerra a parceria entre Hermilo e Ariano. Esteja fermentava uma experiência estética cuja apresentação formal ocorre no dia 18 de outubro de 1970, na velha cidade do Recife, na igreja de São Pedro dos Clérigos, com um concerto da Orquestra Armorial e uma exposição de artes plásticas: inaugurava-se o Movimento Armorial, que, depois de alcançar a fase qualificada como romançal, se dispersa em 1981.
Diz a pesquisadora que cada artista armorial recria seu universo nordestino. Por isso, seu estudo visita o litoral, a zona da mata e o sertão; reencontra o vaqueiro, o cangaceiro e o santo. A autora busca as lições de Câmara Cascudo e de Mário de Andrade, entre outros, para a melhor compreensão da cultura brasileira. Descreve instrumentos (viola nordestina, rabeca, pífano, marimbau), e, com a ajuda do musicólogo José Maria Neves, analisa composições musicais. Fala da literatura, da dança, do cinema, do teatro, das artes plásticas, da música e da concepção de arquitetura do Movimento Armorial. Uma tal empreitada, requer que Idelette se situe na história política, econômica e social do Brasil, sem se esquecer da marca do coronelismo quando, por exemplo, analisa a temática das obras armoriais. Depois de submeter as realizações armoriais a rigorosa análise crítica, fundamentada teórica e historicamente, aponta "o interesse pela arte medieval", "a influência considerável da literatura espanhola" e "a busca de uma expressão artística para uma região", como tendências do armorialismo.
O livro deixa claro que o Movimento Armorial é uma atitude erudita, que se volta para a arte do povo
Mas, é no estudo da narrativa e do teatro de Ariano Suassuna que Idelette aprofunda sua pesquisa. Nas páginas que tratam do “Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”, e naquelas acerca do “Auto da Compadecida”, a pesquisadora mergulha na literatura popular brasileira e traz extenso estudo dos romances e dos folhetos de feira, retornando à cultura ibérica sempre que a análise exige, para uma melhor compreensão da trama transtextual da criação suassuniana. Valendo-se da formulação de Compagnon, traça um quadro teórico da citação popular e, em seguida, um esquema recapitulativo da citação no “Romance d'A Pedra do Reino”. Serve-se de Gérard Genette para a identificação das práticas hipertextuais no tecido estrutural do “Auto da Compadecida”.
O livro deixa claro que o Movimento Armorial é uma atitude erudita, que se volta para a literatura popular, para a arte do povo, "apresentada como fonte, modelo de criação e bandeira cultural". Por isso, salienta a autora:
A referência culta dos artistas deve ser vista nesta perspectiva, como confluência de interesses mais do que influências. É na medida em que tiveram objetivos ou caminhos comuns, ou próximos dos artistas armoriais, que Gil Vicente, Calderón de La Barca, Cervantes, Federico Garcia Lorca, José Lins do Rego ou Guimarães Rosa foram identificados como “mestres” de um ou vários escritores armoriais. (p. 287)
Tendo já prestado extensa contribuição para o estudo da cultura brasileira, principalmente da cultura popular, espalhada em artigos e livros no Brasil e na Europa, a autora, neste livro, oferece um vasto panorama histórico e crítico de um movimento que participa, em definitivo, da história cultural brasileira. A pesquisa de Idelette abre uma galeria de grandes nomes de artistas nacionais, como Antônio Carlos Nóbrega, Antônio José Madureira (conhecido como Zoca Madureira), Capiba, Francisco Brennand, Gilvan Samico, Marcos Accioly, Raimundo Carrero, incluindo, evidentemente, Ariano Suassuna, com seus perfis biográficos e suas produções artísticas e fortunas críticas informados no "Quem é quem no Movimento Armorial", que se encontra no final do volume. Isso para não falarmos em outros nomes que vão sendo mencionados no decorrer do estudo, como, por exemplo, o da escritora Janice Japiassu e o do maestro Guerra Peixe.
A primorosa edição da Editora da Unicamp reproduz partituras armoriais; traz fragmentos do mural “A Batalha dos Guararapes”, de Francisco Brennand, e da “Tapeçaria de Bayeux”, com a qual a obra do pernambucano se relaciona. Tem ainda xilogravuras de José Costa Leite, desenhos, fotografias e gravuras de Ariano Suassuna e belas reproduções de gravuras de Gilvan Samico. E presenteia o leitor com um pórtico emblemático: “O Grande Pássaro”, gravura de Ariano Suassuna para um conto de Maximiano Campos.
Todavia, a melhor avaliação da significação e da abrangência do trabalho pertence mesmo a Ariano Suassuna: "Idelette é o crítico com o qual todo escritor sonha..."

Publicado em
Jornal da Tarde, São Paulo, 1 abr. 2000, p. 4. Caderno de Sábado.

© Copyright by Sônia van Dijck, 2000

Midi: Prateia a serra (modinha) - Domínio público

Versão ampliada deste texto, sob o título "Inventário poético do Movimento Armorial", foi publicada em A União, João Pessoa, 25 set. 1999, p. 16. Cultura.

A 2ª edição deste livro saiu em agosto de 2009 - veja fotos do lançamento em João Pessoa - PB

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