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Jardim e mandarines

Sônia van Dijck

FRANCÊS

- Que noite terrível! – pensou ao descer o último degrau da pequena escada que dava para o jardim.
Acordou a intervalos. Fumou quase um maço de cigarros. As lembranças voltavam sempre. Tentou rezar, mas faltou-lhe concentração e voltou para a cama.
O dia amanhecia e logo seria animado pelos ruídos costumeiros da vida retomando sua rotina.
O sol do início da primavera parecia tímido, mas o céu tinha um azul brilhante.
A si mesmo tinha dito que faria uma pequena caminhada pelo jardim da antiga fazenda restaurada.
O jardim estava deserto. Apenas alguns pássaros cumpriam suas tarefas.
Buscou o rosário no bolso.
Não queria pensar no encontro casual naquele bistrô em Paris. Não queria. Mas, voltava o riso dela, solto, de bem com a vida. Nem se lembrava bem como a conversa tinha começado de uma mesa para a outra. Mas, tinha começado.
- Sou belga. Mas, conheço bem esta cidade. Estudei na Sorbonne e volto sempre por motivo de trabalho.
E ela quis saber o que estudou, quem foram seus professores, qual seu trabalho.
Brasileira, participando de um congresso. Tinha um jeito de sorrir, um modo de falar em um francês cheio de dificuldades e era mais uma amante de Paris.

Tentava pensar, olhar o jardim, ouvir o canto dos pássaros e apertava as contas do rosário. A lembrança do riso solto e o cheiro de mandarines. Agora, tentava entender por que a tinha convidado para uma cerveja belga depois do jantar. Por que combinara uma vista ao museu Branly? por que aceitara ouvir “não” tantas vezes naquele outono? Por que trocara tantas mensagens até marcar um encontro no ano seguinte?
O jardineiro lhe disse “bom dia” quase ao mesmo tempo de os sinos advertirem que a hora da missa estava chegando. Sentou-se em um banco de pedra e apertou as contas até que os dedos doessem.
Sorriu ao se lembrar do outono seguinte. A mensagem dela dizia quando estaria de volta a Paris. E ele havia pensado que ela não voltaria...

Foi uma semana de encontro, de paixão, de descoberta. Loucura, sensualidade. E havia aquele jeito de ela rir e aquele modo de falar francês meio atrapalhado, seu jeito de entregar-se na cama... seu cheiro de conhaque e sua predileção por mandarines no café da manhã... Os bicos de seus seios como contas do rosário...
Tanto tempo...
Os sinos voltaram a tocar. A missa começaria em alguns minutos.
Quantas vezes ao longo desses últimos anos dissera o nome dela nas orações?
Tinha aquelas noites mal dormidas. Lembranças e silêncio.
- Não vou e não quero mudar minha vida.
- Vai ser difícil; mas vou respeitar. Vai ser difícil para você também. - ela disse.
E era uma fria manhã de outono, quando ela seguiu pela Gay Lussac.
Tanto tempo...
Apertou as contas... Uma chuva fininha começou a cair e o jardineiro aproveitou para lavar as mãos sob a cobertura das orquídeas e se dirigir para a igreja.

 

- Simon, estávamos à sua procura. Esqueceu que a missa de hoje é celebrada por você? Se não estiver bem, posso celebrar em seu lugar. Mas, de qualquer modo, venha comigo; você está todo molhado - disse o irmão Dominique, também com o hábito encharcado.

Um movimento brusco quebrou o fio do rosário e as contas se espalharam pelo jardim.

FRANCÊS

 

In: O conto brasileiro hoje, v. 8. São Paulo: RG Editores, 2008, v. 8, p. 119-122.

Photos: Sônia van Dijck

© Copyright by Sônia van Dijck, 2008

 

 

<<< Capa: Neide Siqueira


FRANCÊS

Midi: Chopin

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