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IR PARA Eles eram muitos cavalos - texto de Sônia van Dijck

 

Um mundo

de gente comum e universal

Sônia van Dijck

 

 

 

Em (os sobreviventes), o jornalista e escritor Luiz Ruffato faz da vida banal no interior do Brasil um microcosmo para as angústias e esperanças cotidianas

Vindo da tradição mineira e fiel à cultura italiana, o escritor Luiz Ruffato entrega aos leitores seu segundo livro: (os sobreviventes) (Boitempo Editorial). Sem facilitar qualquer classificação genérica, as seis narrativas curtas de Ruffato contemplam a vidinha banal dessa gente anônima com a qual qualquer um de nós pode cruzar todo dia, numa cidadezinha interiorana ou numa metrópole. Vidinha banal para quem contempla a gente miúda e desimportante sem olhos de ver, no particular, a atualização das angústias que inquietam a humanidade. E é nisso que consiste o exercício de Ruffato, já experimentado no primeiro livro, Histórias de remorsos e rancores, publicado pela Boitempo há dois anos. Retornando à pequena Cataguases, o autor tem o palco privilegiado de suas personagens. O leitor é levado a caminhar por ruas, praças, estabelecimentos comerciais, igreja, cemitério e pelo Beco do Zé Pinto. Sem nos esquecermos da emblemática presença da Rio-Bahia, sempre marcando a paisagem. Mas a geografia da cidade só ganha relevo na medida em que é cenário dos conflitos dos habitantes da ficção de Ruffato. Lá está uma gente que ele retira do anonimato, com sua lente que capta situações sensíveis da realidade, como exemplaridade universal. As criaturas de sua ficção estão em Cataguases ou levam Cataguases consigo, quando se espalham como diáspora pelas grandes metrópoles, principalmente Rio e São Paulo, em busca de melhores oportunidades. Como plano do real das personagens, Cataguases é descontentamento, desencanto, desesperança, falta de perspectivas, violência. Como espaço interiorizado, confirma a angústia confinada nos seus estreitos horizontes, mantida na vida na cidade grande, pois aqueles que se foram continuam presos a suas raízes, graças à bagagem de lembranças levada na partida.

Becos e cortiços

Nesse cenário, instauram-se dois microcosmos, que apesar de distintos não se isolam mutuamente. Um deles é o Beco do Zé Pinto, que não deixa de lembrar o cortiço de Azevedo. O outro é a comunidade dos imigrantes italianos e seus descendentes. No primeiro, o leitor vê-se, de repente, na intimidade de um grupo de moças operárias, que só escapam para outras latitudes na fantasia do príncipe libertador da mesquinharia do cotidiano. Como essas jovens se parecem com as belas nuas e seminuas dos quadros de Ingres..., flagradas no pacto da cumplicidade feminina, deixando que se adivinhem desejos, só confessados na confiança da mesma identidade e na segurança do ambiente privado. Em Ruffato, não existe contudo a etérea e cálida atmosfera que envolve as mulheres no banho turco; a realidade impõe-se com tal severidade que não permite nem mesmo a fuga através da morte. É do Beco do Zé Pinto que vem a desgraça do Professor, que, em seu desespero, busca, grotescamente, aproximar-se da Paixão de Cristo, como forma de dar dignidade à miséria de sua condição. No Beco, vivem, por exemplo, moças sonhadoras, maridos bêbados, filhos que vêem mães sendo espancadas, gente que trabalha e jovens envolvidos com drogas — um bom recorte da humanidade. Zé Pinto preside a vida do beco, com sua avareza de proprietário e sua solidão senil. A comunidade de imigrantes está representada, principalmente, pelos Spinelli e Finetto, dando lugar à lembrança da tragédia de Ângelo Chiesa. Violência, embriaguez, subordinação feminina, prole numerosa aliam-se a fortes laços de parentesco, na caracterização do grupo. Morto Orlando Spinelli, elabora-se, nos comentários e cochichos, seu necrológio de homem bom. Como se não bastassem as lembranças amargas de Zé, seu filho mais velho, o autor, ironicamente, reserva, para o epílogo da história, a revelação do caráter arbitrário e racista da comunidade, ao mostrar, com requintes de grotesco, o espancamento do negro Badeco. Ainda que, internamente, algumas narrativas sejam bem marcadas cronologicamente, difícil é dizer em que tempo se situa o universo de (os sobreviventes). O leitor tem algumas pistas como a vitrola/eletrola com seu braço mecânico; o tubinho vermelho, de popelina, vestido por Hélia. Mas, na verdade, esse mundo das operárias da indústria têxtil, de jipes, kombis e caminhões, emoldurado pela Rio-Bahia, permite que se atravesse do “fogão de lenha” ao “fogão a gás”, que aparece na última aventura, quando já se leva a namorada para “andar” de metrô. No mundo de Ruffato, “o amor, ou o que convencionalmente identifica-se como ele, entretanto, confirma-se como uma ilusão”, como diz Malcolm Silverman, prefaciador da coletânea. Esse mundo tem como alicerce o verbo e recursos gráficos, que fazem a argamassa dos tijolos de palavras, estabelecendo diversidade de planos narrativos. Assim, para refletir emoções, para marcar lembranças e para traduzir a oralidade, o autor tanto lança mão da variedade de caracteres, como recorre aos parênteses (desde o título) e a uma pontuação tão fora da gramática que, muitas vezes, nem é grafada, deixando ao leitor a reconstituição do ritmo da fala da personagem ou do discurso do narrador. Mas também acontecem situações que lembram muito os movimentos de uma câmera cinematográfica, como no caso das tomadas da paisagem vista por Nica, através da janela do carro, na rapidez da viagem. As narrativas desenvolvem-se numa linguagem coloquial, fortemente marcada pelo popular, principalmente na boca das personagens; “macacoa”, “alembrar”, “talagada”, “procês”, “meu padrim”, são alguns exemplos, sem faltar o inevitável regional “uai”. Para acentuar a dicção regional, Ruffato freqüenta variantes dialetais, como “trabesseiro”, “sobaco”, “parede sem reboque”. Na construção do verossímil, gírias, como “gamado”, “paquerar”, combinam-se com o calão e o palavrão, na fala grosseira de algumas personagens ou do narrador, que se permite falar em apostar “uns caraminguás”, apesar de mostrar perfeito domínio da chamada norma culta. Outras vezes, ditos populares são reatualizados, como “não tem onde cair morto” e “quem muito lambisca, acaba não comendo”, com o luxo de uma variante desse último: “...acaba comendo pouco”. No italiano, presente nos nomes de várias personagens, o autor encontra um empréstimo e, para a verossimilhança, atualiza “lavourar”.

Mestre de seu ofício, Ruffato sabe que o universo ficcional se instaura no percurso dos eixos da linguagem: escolha (paradigma) e combinação (sintagma). (os sobreviventes) traz um duplo desafio. Um é dirigido ao leitor: quem há de resistir diante das aventuras construídas por Ruffato? O outro desperta os estudiosos da literatura brasileira: cabe investigar os elementos agenciadores dessas narrativas, harmônicas na temática e na diversidade de níveis de linguagem, reveladoras de uma atitude vanguardista de exploração de recursos gráficos e de ruptura gramatical.

Publicado in:

Um mundo de gente comum e universal. Jornal da USP, São Paulo, abr. 2000, p. 5-5, 24.

Versão in:

Boletim do Centro de Estudos Portugueses, Belo Horizonte, v. 20, n. 27, 2000, p. 339-342.

Reproduzido no site do Jornal da USP

© Copyright by Sônia van Dijck, 2000

Wave: Minas Gerais

(na verdade, trata-se da composição napolitana Viene sul Mare - séc. XIX)

IR PARA Eles eram muitos cavalos - texto de Sônia van Dijck

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