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NATAL - TUDO QUE RELUZ É OURO

Cunha de Leiradella

Encontrei ontem o meu compadre Zé das Couves derreado, mal podendo respirar, carregando um tantão de sacos de compras. Ora, compadre, disse-lhe eu, quê que é isso? Fazendo reservas? Compadre, diz-me ele, fazendo reservas, não senhor. São só umas compritas de Natal. Compritas, compadre? Compritas sim, homessa! Se a minha reforma, no ano que vem, vai diminuir, uma pessoa tem é mais que aproveitar enquanto pode. Mas deixa-me ir. Deixa-me ir, que ainda tenho que fazer os embrulhos para os presentes.

E lá se foi o meu compadre Zé das Couves, curvado com o peso dos sacos. Fiquei-me a vê-lo andar e a pensar: Caraças, o compadre tem razão. Se uma pessoa não gozar o que tem, adeus viola. E fui para o café tomar um cheiinho, com um cheirinho dos antigos.
A primeira evidência dos festejos natalícios, como festa cristã, data de 336 d.C. Mas o Natal, como festa oficial da Igreja Católica aconteceu em Roma no ano 350 d. C. Foi o papa Júlio I quem determinou que o nascimento de Jesus fosse comemorado a 25 de dezembro.
Mas quem hoje continua fazendo disso uma festa religiosa? De alegria espiritual? De interiorização conscienciosa?

O Natal, hoje, nada mais é do que a festa magna do consumismo. Tudo se vende, tudo se compra, e se não puder pagar a pronto, pague em suaves prestações. E não precisa prometer não cair mais em tentação. A propaganda das grandes superfícies mete um advogado que o defenda e Jesus Cristo Nosso Senhor, remetido a um mero acidente de percurso, perdoará o atropelamento dos pecados capitais. Afinal, depois de anos e anos de jejum, todo mundo tem direitos. Pelo menos de se endividar. Ou não?
No meu tempo de menino o Natal era outro, mais íntimo, sem consumismos, sem...
Sem consumismos, homessa!?!, escandaliza-se o compadre Quim dos Nabos, o mais competente e entendido comentarista em genéricos, sejam eles remédios, futebóis, políticas ou programas de televisão, compadre do meu compadre Zé das Couves. Não havia consumismos porque o povo não tinha nem sequer o que comer, quanto mais dinheiro para festanças.

Mas hoje tem. Hoje todos podem comprar, nem que seja só uns telemoveizitos para dar à família, homessa!
Está certo o compadre Quim dos Nabos. Se se passa o ano tirando minhoca do asfalto, comprando comida, roupa e remédios pela hora da morte, não poderá um cristão soltar, ao menos durante alguns dias, as amarras desta vidinha sem norte e sem retorno e esquecer que nem tudo que reluz é ouro?
Tudo que reluz é ouro, sim senhor. Pelo menos para quem não tem dinheiro e poder para dar voltas às leis. E, além do mais, pelo menos até ver, não há nenhuma lei que preveja ilegalidades nas compras de Natal. Ou há?
O que não se deve é ser hipócrita. Passar o ano pimba, pimba, e chegar no Natal, levantar os braços aos céus e clamar a todos os ventos que o Natal é a festa da solidariedade humana e que o amor ao próximo é o caminho mais curto para alcançar o reino dos céus.
Mas é feito, infelizmente. Porque, mais infelizmente ainda, o olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço está tão vivo hoje quanto sempre esteve, apesar de tudo que se diz. Principalmente, ao dizer-se aos outros como eles devem ser e o que eles devem fazer. Amém.

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