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As veredas de

Sagarana


Luiz Ruffato *

 

Já bastante esmiuçada, pouco resta, de original, a analisar na obra do escritor mineiro João Guimarães Rosa (1908-1967). Portanto, tomar a si a tarefa de desenvolver qualquer tema nesse campo é saber das armadilhas que aguardam a casa passo. Destemida, a professora Sônia Maria van Dick Lima, conhecida pelos trabalhos na área de crítica genética, resolveu olhar o autor por um ângulo bastante caro a ele: o da criação. Em correspondência à tradutora norte-americana, Harriet de Onís, datada de 4 de março de 1965, Guimarães Rosa chega a afirmar: “(...) nos meus livros (onde nada é gratuito, disponível, nem inútil), tem importância, pelo menos igual ao do sentido da estória, se é que não muito mais: a poética ou poeticidade da forma, tanto a ‘sensação’ mágica, visual, das palavras, quanto a ‘eficácia sonora’ delas; e mais as alterações viventes do ritmo, a música subjacente, as fórmulas-esqueletos da frases – transmitindo ao subconsciente vibrações emotivas sutis (...)”¹
Partindo da constatação da importância da reescritura na obra de Guimarães Rosa, Sônia van Dijck tentou rastrear a história da construção do primeiro livro do escritor, Sagarana, justamente aquele que o catapultou, já na estréia, ao restrito grupo dos gênios da literatura brasileira. A pesquisadora, usando técnicas próximas das investigações detetivescas, sai em busca das pistas que poderiam levá-la ao original primeiro e, através dele, perseguir e explicitar as várias mudanças levadas a termo pelo autor. Esse é o objetivo do livro Escritura de Sagarana.
Já bastante conhecida é a história da feitura desta obra-prima, edificada em 1937, com a declarada intenção de disputar o Prêmio Humberto de Campos, instituído pela Livraria José Olympio, do Rio de Janeiro. O livro foi escrito, segundo declaração do autor, “quase todo na cama, a lápis, em cadernos de 100 folhas – em sete meses de exaltação, de deslumbramento. (...) /Lá por novembro, contratei com uma datilógrafa a passagem a limpo. E, a 31 de dezembro de 1937, entreguei o original, às 5 e meia da tarde, na Livraria José Olympio. O título escolhido era ‘Sezão’; mas para melhor resguardar o anonimato, pespeguei no cartapácio, à última hora, esse rótulo simples: ‘Contos’ (...)”². Em maio do ano seguinte, Guimarães Rosa, servindo como cônsul-adjunto brasileiro em Hamburgo, na Alemanha, recebeu a notícia de que o vencedor do concurso tinha sido Luís Jardim, com o volume de contos Maria Perigosa. Aliás, livro injustamente esquecido, como bem lembra Sônia van Dijck, em artigo que mostra que a obra de Jardim já estava madura, enquanto o “cartapácio” (que “assustava muito”, segundo Marques Rebelo, jurado do concurso) encontrava-se ainda em processo³.
Sônia van Dijck mapeia as várias versões de Sagarana, desde a de 1937, intitulada Contos, que, enfim, não foi publicada (a 1ª edição só veio à lume em 1946), até a 5ª edição, dita “retocada, forma definitiva”, de 1958. E é essa reconstrução, da tentativa quase obsessiva de Guimarães Rosa para encontrar o termo correto, a palavra mais adequada, enfim, a linguagem ideal para cada imagem que queria transmitir, que constitui a sedução de Escritura de Sagarana, uma rara contribuição original para a já ampla bibliografia roseana.

* Luiz Ruffato – jornalista, autor de Eles eram muitos cavalos


Guimarães Rosa. Escritura de Sagarana, de Sônia Maria van Dijck Lima. São Paulo: Navegar,2003. Acompanha cd rom.

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¹ Lição de idiomas, nas margens de uma correspondência. São Paulo, Jornal da Tarde, 18 maio 1996.
² Depoimento a José Condé. Jornal de Letras, n. 15, set. 1950.
³ LIMA, Sônia Maria van Dijck. Luís Jardim e Guimarães Rosa. Qvinto Império, Salvador, Gabinete Português de Leitura, n. 15, dez. 2001, p. 39-54.

Publicado em Jornal da USP, São Paulo, 4-10 ago. 2003, p. 14.)

© Copyright by Luiz Ruffato, 2003

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