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CONFRARIA DO BECO, MARQUÊS DE POMBAL,

MALAGRIDA E MUITO MAIS

Evandro da Nóbrega

druzz@openline.com.br
evandro.da.nobrega@gmail.com

http://druzz.blogspot.com

Este artigo é oferecido à escritora, professora, dramaturga, atriz e crítica literária e teatral Petra Ramalho Souto, bem como a suas irmãs Glenda & Júlia, igualmente Ramalho Souto e filhas de Petrônio Souto com Sânia Ramalho, sendo ele, Petrônio, o fundador e primeiro presidente da Confraria do Beco da Faculdade

Livros não querem ser proibidos.
Não querem ser queimados.
Idéias não querem ficar presas.
No longo prazo da História,
censores e inquisidores sempre foram derrotados.
Porque a única arma contra idéias ruins
são idéias melhores. (1)
ALFRED WHITNEY GRISWOLD [1906-1963],
décimo-sexto Reitor da Universidade Yale (1950-1963)
e autor dos livros The Far Eastern Policy of the United States (1938),
Farming and Democracy (1948), Essays on Education (1954),
In the University Tradition (1957),
e Liberal Education and the Democratic Ideal (1959).


* * *

— Que há de novo?

— O terremoto.

— Que terremoto? Verdade é que
esta noite ouvi grandes estrondos,
tanto que supus serem as fortalezas todas juntas.
Mas há de ser isso, um terremoto;
as paredes da minha casa estremeceram;
eu saltei da cama; estou ainda surdo...
Houve algum desastre?

— Ruínas, senhor, e grandes ruínas.

— Não me diga isso! A Rua do Ouvidor, ao menos...

— A Rua do Ouvidor está intacta,
e corri ela a Gazeta de Notícias.

— Mas onde foi?

— Foi em Lisboa.

— Em Lisboa?

— No dia de hoje, 1o. de novembro,
há século e meio. Uma calamidade, senhor!
A cidade inteira em ruínas.
Imagine por um instante, que não havia
o Marquês de Pombal — ainda o não era,
Sebastião José de Carvalho, um grande homem,
que pôs ordem a tudo, enterrando os mortos,
salvando os vivos, enforcando os ladrões,
e restaurando a cidade. Fala-se da reconstrução
de Chicago; eu creio que não lhe fica abaixo
o caso de Lisboa, visto a diferença dos tempos,
e a distância que vai de um povo a um homem.
Grande homem, senhor! Uma calamidade!
Uma terrível calamidade!

MACHADO DE ASSIS,
in A Semana, 5 de novembro de 1892
[Obra Completa, vol. III, Rio de Janeiro
Editora Nova Aguilar, 1994].

É de surpreender como saiu rápido, no Brasil, neste ano de 1996, a tradução do importante livro do brasilianista Kenneth Maxwell sobre o Marquês de Pombal. Lemos a obra, no ano passado, na edição inglesa ["Pombal, paradox of the Enlightenment", Cambridge, 1995], graças aos bons ofícios desse infatigável importador de livros imperdíveis, o intelectual Odilon Ribeiro Coutinho. Agora, cerca um ano depois, em tradução de Antônio de Pádua Danesi, chega-nos a bem cuidada edição brasileira, pela editora Paz e Terra ["Marquês de Pombal, paradoxo do Iluminismo", 1996].
Para Maxwell, competente pesquisador e historiador, com outras obras publicadas (como “Conflicts and conspiracies: Brazil and Portugal - 1750-1808”), Pombal foi uma das maiores figuras do Iluminismo, movimento intelectual europeu que, nos séculos XVII e XVIII, voltou-se para a Razão como forma de dominar a Natureza e promover o progresso geral do Homem, das nações, do Conhecimento, da Política, da Filosofia, da Arte etc. Mas tudo isto, como se verá, só se consegue com muito sangue, suor e lágrimas.

MANDANDO COMO UM REI
Sebastião José de Carvalho e Mello [1699-1782], marquês de Pombal a partir de 1770 e Conde de Oeiras, foi o todo-poderoso ministro do vigésimo-quinto rei de Portugal, Dom José I [1714-1777, regnabat 1750-1777). Foi o monarca conhecido como “o Reformador”, não por seus próprios méritos, mas especialmente pelos de Pombal.
O pai do rei José I, o rei Dom João V, o Magnânimo [1689-1750], enriquecera e de certa forma enriquecera Portugal graças ao ouro e aos diamantes levados do Brasil. Explica-se, de certa forma, que o Marquês de Pombal tivesse tanta autoridade (ou, digamos de uma vez, mandava literalmente em tudo durante o reinado de Dom José I): é que o pai deste, Dom João V, reinara absolutamente e não entregara nenhuma responsabilidade ao filho, futuro rei, seu sucessor. Dom João V, carola, bonacheirão, perdulário, preferia dedicar-se a suas caçadas, amantes, manutenção de suntuosa corte — e a construção do gigantesco palácio-convento de Mafra.

RECONSTRUTOR DE LISBOA
Quando Dom José I finalmente assumiu o trono, não estava acostumado, pelas razões que já se viu, a ocupar-se com as coisas do Estado e folgou em entregar tudo às mãos dos ministros. O Marquês de Pombal, que dele recebera muitos outros benefícios e títulos, inclusive este, era um dos homens mais inteligentes do século XVIII e era talhado para executar as reformas que praticamente todos exigiam, ante a decadência que pairava sobre Portugal e até a diminuição dos aportes de ouro vindo do Brasil. Na verdade, Pombal é considerado por Maxwell, nesta sua nova obra, como um autêntico "paradoxo do Iluminismo" — embora com todas as grandezas e pequenezas que podiam configurar o chamado Século das Luzes.
Estadista, deveu-se a ele a reconstrução de Lisboa, em modernas concepções urbanísticas, após o horrível terremoto de 1755, com uns 60 mil mortos [em Portugal, sempre se disse e ainda hoje se diz “terramoto”]. Decretou a execução sumária de quem se aproveitasse da situação pós-terremoto para fazer saques, explorar o povo ou violar mulheres.

REFORMA DA UNIVERSIDADE
Foi ele também quem acabou com a preconceituosa divisão entre “cristãos-novos” (judeus conversos) e “cristãos-velhos” (católicos tradicionais). Criou a primeira região produtora de vinhos demarcada do Mundo, ao mesmo tempo em que exercia terrível repressão contra as massas que não aceitavam a criação de uma companhia geral agrícola nas vinhas do Alto Douro. Reformou os estatutos da Universidade e do ensino em geral, sendo esta considerada uma de suas maiores, mais abrangentes, mais duradoras e mais influentes obras [“Estatutos da Universidade de Coimbra”, 1772].
Mas a guerra sem quartel movida por Pombal contra os jesuítas fazia, por exemplo, com que uma obra das proporções e alcance de “Compêndio Histórico do Estado da Universidade de Coimbra (1771) ressumasse a panfleto antijesuítico.
José Bonifácio de Andrade e Silva foi um dos brasileiros que se beneficiaram com a reforma da Universidade promovida pelo Marquês de Pombal. E lamentou, em versos satíricos (“No reino da estupidez”, em parceria com o luso-brasileiro Francisco de Mello Franco), o total descaso com que dirigentes e professores de Coimbra, onde se formou, aplicavam as acertadas medidas pombalinas para o ensino superior. Mas isto foi depois de 1780, quando o ex-superpoderoso ministro já não mandava em nada e caminhava desalentado para a morte. Até os ratos dançam sobre a carcaça do leão morto...

A “DEDUÇÃO CRONOLÓGICA”
Também com total apoio de Dom José I, Pombal demitiu, prendeu e por pouco não condenou à morte o inquisidor-geral de Portugal, mesmo sendo ele um dos filhos bastardos do rei anterior, Dom João V. Impôs o poder do Reino de Portugal ante os demais povos europeus, desafiando até mesmo o poderio econômico da Inglaterra. Obteve o apoio da Espanha e da França contra os jesuítas. E também contra esses idealizou e escreveu em grande parte a “Dedução cronológica e analítica”, terrível libelo, que fez furor na Europa, atribuindo aos jesuítas todos os males historicamente ocorridos a Portugal. O richeliêulico ministro dava seu troco, na mesma moeda (ver, adiante, o “Juízo” de Malagrida sobre o terremoto).
Esse livro pombalino, de lógica implacável e admirável estilo, tanto impressionou cardeais e outros assessores papais inimigos da Companhia que eles se perguntavam: se é a Companhia de Jesus que leva ao Mundo tão má imagem da Igreja, não seria melhor que o Papa suprimisse a Ordem desses inacianos?! Foi o que terminou ocorrendo, no Papado seguinte. Quando queria ser maquiavelicamente diabólico, o Marquês concorria com poucos rivais...

TÍTULO QUILOMÉTRICO
Assinado por José de Seabra da Silva, o livro — que, patrocinado pelo Estado, tirou sucessivas edições — era parcialmente escrito por Pombal e sem dúvida por ele todo inspirado. Seu título completo, para entreter a curiosidade do leitor, é:
“Deducção Chronologica, e Analytica. Parte primeira, na qual se manifestão pela successiva serie de cada hum dos Reynados da Monarquia Portuguesa, que decorrerão desde o Governo do Senhor Rey D. João III até o presente, os horrorosos estragos, que a Companhia denominada de Jesus fez em Portugal, e todos seus Dominios, por hum Plano, e Systema por Ella inalteravelmente seguido desde que entrou neste Reyno, até que foi delle proscripta, e expulsa pela justa, sabia, e providente Ley de 3 de Setembro de 1759."
Dada á luz pelo Doutor Jozeph de Seabra da Silva, Desembargador da Casa da Supplicação, e Procurador da Coroa de S. Magestade [Majestade], para servir de instrucção, e fazer parte do recurso, que o mesmo Ministro interpoz, e se acha pendente na Real Presença do dito SENHOR, sobre a indispensável necessidade, que insta pela urgente Reparação de algumas das mais attendiveis entre as Ruinas, cuja existencia se acha deturpando a Authoridade Regia, e oprimindo o Publico Socego. Em Lisboa, anno de MDCCLXVII. Na Officina de Miguel Manescal da Costa por ordem de Sua Magestade”.
Como se vê, Pombal e os pombalinos não diziam “Companhia de Jesus”, mas “Companhia denominada de Jesus”... inclusive para não melindrar os demais católicos. E o livro servia também para propagandear a idéia de uma monarquia de poder ilimitado, embora o rei devesse ser vassalo da Lei.

MECENAS IMORTALIZADO
Um dos motivos pelos quais os jesuítas não gostavam de Pombal: ele, preocupado apenas com as razões de Estado e com a afirmação do Reino português, determinou um ataque militar aos Sete Povos das Missões, as amplas reduções jesuíticas a oeste do atual Rio Grande do Sul.
Este ataque, por sinal, ficou imortalizado no poema épico de [José] Basílio da Gama, “Uraguay” [erroneamente citado como “Uruguay], que exalta o feito pombalino. Como lembra outro Voltaire, não o Voltaire (1694-1778) filósofo do Iluminismo, escritor, poeta, dramaturgo, mas o historiador Voltaire Schilling, no Brasil de hoje, ao citar a tese de Ivan Teixeira (“Mecenato pombalino e poesia neoclássica”, de 1999), Pombal também era um mecenas.

MACHADO, BASÍLIO, POMBAL
A propósito de “Uraguay”, Machado de Assis, com seu humor triste e humaníssimo, lembra noutra crônica de “A Semana” a aproximação entre o Marquês de Pombal e o poeta Basílio da Gama. Por tocante, merece a crônica ser transcrita em grande parte:

“Hoje comemora-se o centenário de um poeta. Digo mal. Nem se comemora, nem é ainda o centenário. Este é no fim do mês; o que se faz hoje, segundo li nas folhas, é convidar os homens de letras para tratarem dos meios de celebrar o primeiro centenário da morte de José Basílio da Gama. Não conheço o pio brasileiro que tomou a si essa iniciativa. Não se vive só de política. As musas também nutrem a alma nacional. Foi o nosso Gonzaga que escreveu com grande acerto que as pirâmides e os obeliscos arrasam-se, mas que as “Ilíadas” e as “Eneidas” ficam.
José Basílio não escreveu “Eneidas” nem “Ilíadas”, mas o “Uraguai” é obra de um grande e doce poeta, precursor de Gonçalves Dias. Os quatro cantos dos Timbiras, escapos ao naufrágio, são da mesma família daqueles cinco cantos do poema de José Basílio. Não tem este a popularidade da Marília de Dirceu, sendo-lhe, a certos respeitos, superior, por mais incompleto e menos limado que o ache Garrett; mas o próprio Garrett escreveu em 1826 que os brasileiros têm no poema de José Basílio da Gama "a melhor coroa da sua poesia, que nele é verdadeiramente nacional e legítima americana".
Neste tempo em que o uso do verso solto se perdeu inteiramente, tanto no Brasil como em Portugal, Gonzaga tem essa superioridade sobre o seu patrício mineiro. As rimas daquele cantam de si mesmas, quando não baste a perfeição dos seus versos, ao passo que o verso solto de José Basílio tem aquela harmonia, seguramente mais difícil, a que é preciso chegar pela só inspiração e beleza do metro. Não serão sempre perfeitos. O meu bom amigo Muzzio, companheiro de outrora, crítico de bom gosto, achava detestáveis aqueles dous famosos versos do “Uraguai”:

Tropel confuso de cavalaria,
Que combate desordenadamente.

— Isto nunca será onomatopéia, dizia ele; são dous maus versos.
Concordava que não eram melodiosos, mas defendia a intenção do poeta, capaz de os fazer com a tônica usual. Um dia, achei em Filinto Elísio uma imitação daqueles versos de José Basílio da Gama, por sinal que ruim, mas o lírico português confessava a imitação e a origem. Não quero dizer que isto tornasse mais belos os do poeta mineiro; mas é força lembrar o que valia no seu tempo Filinto Elísio, tão acatado, que meia dúzia de versos seus, elogiando Bocage, bastaram a inspirar a este o célebre grito de orgulho e de glória: — Zoilos, tremei! Posteridade, és minha!
A reunião de hoje pode ser prejudicada pela grande comoção de ontem. Outro dia seria melhor. Se alguns homens de letras se juntarem para isto, façam obra original, como original foi o poeta no nosso mundo americano. Antes de tudo, seja-me dado pedir alguma cousa: excluam a poliantéia. [...]
Não; há vários modos de comemorar o poeta de Lindóia, dignos do assunto e do tempo. Não busquem grandeza nem rumor; falta ao poeta a popularidade necessária para uma festa que toque a todos. Uma simples festa literária é bastante, desde que tenha gosto e arte. Oficialmente se poderá fazer alguma cousa, o nome do poeta, por exemplo, dado pelo Conselho Municipal a uma das novas ruas. Devo aqui notar que Minas Gerais, que tem o gosto de mudar os nomes às cidades, não deu ainda a nenhuma delas o nome de Gonzaga, e bem podia dar agora a alguma o nome de Lindóia, se o do cantor desta lhe parece extenso em demasia; qualquer ato, enfim, que mostre o apreço devido à musa deliciosa de José Basílio, o mesmo que, condenado a desterro, pôde com versos alcançar a absolvição e um lugar de oficial de secretaria [N. do R.: sob o governo de Dom José I/Pombal]:

Eu não verei passar teus doze anos,
Alma de amor e de piedade cheia,
Esperam-me os desertos africanos,
Áspera, inculta, monstruosa areia,
Ah! tu fazes cessar os tristes danos...


“Assim falou ele [Basílio da Gama] à filha do Marquês de Pombal, como sabeis, e dos versos lhe veio a boa fortuna. A má fortuna veio-lhe do caráter, que se conservou fiel ao marquês, ainda depois de caído, e perdeu com isso o emprego.” — conclui Machado de Assis.

NOBRES & JESUÍTAS
A um tempo amado por muitos e por muitos figadal e rancorosamente odiado, mandou para a masmorra muitas figuras importantes da nobreza de Portugal, cujos privilégios combateu vigorosamente. Sua influência sobre o rei atraía a inimizade de grande parte dos nobres e de setores da Igreja, marcadamente os jesuítas. Não titubeou em decretar a horrenda execução pública do próprio Duque de Aveiro, logo após o sério atentado contra a vida do rei Dom José I. Ao affaire, chamou-se Conspiração dos Távoras.
Foi essa Conspiração dos Távoras [1758–1759], uma das mais destacadas famílias portuguesas, que deu ao Marquês o pretexto por ele esperado para esmagar rápida e maquiavelicamente seus opositores, inclusive a nobreza e os jesuítas. Na noite de 13 de setembro de 1758, três homens a cavalo, escondidos numa estrada, haviam atacado a carruagem real. Apesar da habilidade e rapidez do cocheiro, o rei foi ferido.

A TERRÍVEL EXECUÇÃO
Para horror dos mandantes e demais implicados na tentativa de morte contra o rei, Dom José I sobreviveu, embora ferido — e cerca de três meses depois, sob a direta supervisão do Marquês, instalou-se temível corte especial para julgar quem fosse encontrado em culpa. Basta dizer que alguns membros da família Távora, sentenciados em 13 de janeiro de 1759, foram cruelmente executados no patíbulo especial para isto construído na Praça de Belém. Existem detalhados desenhos contemporâneos desse mesmo patíbulo — patíbulo elevado, bem visível à multidão, porque a execução servia de advertência a outros que pensassem em regicídio.
Assim é que, a 13 de janeiro de 1759, dez foram supliciados: 1) a Marquesa de Távora; 2) seu filho mais jovem, José Maria; 3) o Conde de Atoguia; 4) o jovem Marquês de Távora (Luís Bernardo, cuja esposa era “favorita”, isto é, amante do rei); 5) Manuel Álvares Ferreira (plebeu, criado do Duque de Aveiro); 6) José Miguel (idem, idem); 7) Brás José Romeiro (idem, idem); 8) o Marquês de Távora (pai); 9) o Duque de Aveiro; e 10) António Álvares Ferreira (um dos dois que haviam atingido o rei a tiros; o outro, Manuel Álvares Ferreira, não foi preso nem executado, provavelmente por haver revelado toda a trama às autoridades, durante os interrogatórios e sessões de tortura). No dia seguinte, 14 de janeiro, toda a Corte participou do beija-mão no Paço Real, em homenagem ao rei. E, no dia 19 do mesmo mês e ano, dá-se a ordem de seqüestro de todos os bens de todos os jesuítas em todos os domínios de Portugal.

COMO O REI ESCAPOU
Nunca ficou comprovada a participação dos jesuítas na tentativa de assassinato do rei. Mas, com relação aos Aveiro e outros, e apesar de todo o mistério que ainda cerca o caso, havia então alguns indícios que ajudaram Pombal a livrar-se de alguns de seus principais inimigos declarados. Por exemplo: Dom José de Mascarenhas (Duque de Aveiro), manifestara bem antes do atentado a exigência de auferir as rendas a que faziam jus os duques seus antecessores.
Pombal convenceu o rei a não lhe dar tal privilégio e o Duque passou a odiar Dom José. Aí decidiu matar o monarca, conversando sobre isto com seu roupeiro, Manuel Álvares Ferreira (irmão do número 10 da relação acima). Pelo plano, Manuel deveria combinar o atentado com seu irmão Antônio Álvares Ferreira (que de fato atingiu o rei) e com outro parente, José Policarpo de Azevedo.
Dom José I foi atacado entre a Quinta de Cima e a Quinta de Cima, quando retornava ao Paço da Ajuda, vindo da casa de uma de suas favoritas/amantes. Qualquer um mais azarado teria morrido nesse transe, mas um dos bacamartes errou o tiro (o outro acerto-lhe um braço, mas de leve); e o chocheiro, ao invés de seguir adiante, decidiu retornar, numa manobra rápida e inteligente, quem sabe ditada pelo próprio ferido. Pombal foi imediatamente avisado e, indo ver na hora o rei ferido, divisou num átimo que poderia aproveitar-se da oportunidade para consolidar seu poder e o poder da monarquia contra os nobres. E, quiçá, com os jesuítas...

“O REI DEU UMA QUEDA...”
Inteligente, maquiavélico e de sangue-frio já comprovado no pós-terremoto de Lisboa, Pombal determinou que não se desse publicidade ao fato, inventando-se, ao contrário, que o rei havia levado uma queda. Foi assim que pôde fazer todas as investigações no maior segredo. Exatamente três meses depois, em 13 de dezembro, estavam presos os principais envolvidos, menos José Policarpo de Azevedo (Pombal ainda não sabia de seu envolvimento). Vasculhadas, as casas forneceram novos indícios e pistas. Os criados confessaram logo sua culpa e a do amo, o Duque de Aveiro, que também se declarou culpado, após terríveis torturas. Foi seu, aliás, o único depoimento do processo.
Outras prisões foram sendo feitas ao longo das investigações. Entre os presos, estavam os Aveiro, Távoras, Alornas, Atouguias... Os nobres presos por esse tempo enchiam as fortalezas às margens do Tejo. Enfim, fizeram-se mais de mil prisões. Nunca se pôde comprovar em toda a extensão a culpa dos Távoras. E, à luz do Direito de hoje, o processo viciou-se por falhas graves, a começar pelo fato de todos os ministros integrantes do tribunal especial serem funcionários diretos do próprio rei...

QUEBRADOS A MARRETADAS
Além disto, se a legislação previa a tortura dos suspeitos (o que foi feito com toda a crueldade possível), não admitia a tortura igualmente das testemunhas de acusação — mas essas também foram seviciadas, o que era contra a lei. Enfim, o tribunal especial de inconfidência passou por cima da já cruel legislação coeva. E até ganhou o direito de inventar novas penas, a seu bel-prazer, já que não se podia imaginar que castigo fosse suficiente para punir o crime de regicídio (ou tentativa de). Desta forma é que os executados tiveram os ossos dos braços e pernas quebrados a marretadas, antes de serem efetivamente jogados, agonizantes mas ainda vivos, dentro da imensa fogueira.
Não foi esta a primeira oportunidade que Pombal teve de mostrar seu extremado pulso no campo político-institucional. Em 1756, os nobres fizeram uma tentativa golpista de empolgar o poder — mas os envolvidos na conspiração foram todos desterrados para Angola... E o que pensam que ocorreu ao genovês Pele, acusado de tentativa de morte contra o próprio Marquês de Pombal? Simplesmente foi executado como regicida.

POMBAL VERSUS JESUÍTAS
Para completar os paradoxos, Pombal (mui propriamente considerado como um dos maiores "déspotas iluminados" internacionais daquele período histórico, e que fora bom embaixador em Londres e Viena sob o rei Dom João V) expulsou sem contemplação todos os jesuítas de Portugal e dos territórios ultramarinos portugueses (1759) — embora guardasse tantos pontos de vista em comum com os jesuítas, a começar pelo entendimento de que Portugal errara, e errara muito, em expulsar os judeus, responsáveis maiores pelo antigo esplendor econômico e financeiro do Reino.
Entre outras coisas, os jesuítas (deportados para os Estados Papais e que ainda hoje não conseguiram “digerir” o Marquês) foram acusados de comércio ilegal, incitamento a revoltas na América e cumplicidade no golpe para matar o soberano português. O protesto do então Papa Clemente XIII só provocou nova expulsão: a do núncio apostólico... Foi como resultado da ação do Marquês, neste particular, que mais tarde a Societas Jesu (Companhia de Jesus ou Ordem dos Jesuítas) ver-se-ia extinta, em 1773, pelo Papa Clemente XIV, quando contava com quase 22 mil 600 membros.
O certo é que, no dia 2 de julho de 1760, o embaixador lusitano Francisco de Almada, acreditado junto à Santa Sé, afixou na igreja de Santo Antônio dos Portugueses edital tornando público o rompimento de relações diplomáticas entre Portugal e o Vaticano. O edital também obrigava os portugueses a abandonaram os Estados Papais, nos quais, evidentemente, se incluía a cidade de Roma. No dia 6, novo edital ampliava o prazo para que os lusos deixassem os domínios do Papado.

ONZE IRMÃOS, DOIS DE DESTAQUE
Por nove anos, Pombal cortou relações diplomáticas com o Vaticano e secularizou a Inquisição em Portugal, colocando um de seus 11 irmãos (dissemos onze) para dirigi-la. Desses 11 irmãos, dois se destacaram, mas não tanto quanto Pombal, a quem serviam canina ou fielmente: Paulo de Carvalho e Mendonça (1702-1770) e Francisco Xavier de Mendonça Furtado (1700-1779). Dom Paulo de Carvalho e Mendonça nasceu em 1702 e foi monsenhor da Patriarcal de Lisboa.
Dom Paulo chegou a ser criado Cardeal pelo Papa Clemente XIV, sucessor de Clemente XIII (inimigo de Pombal). Isto se deu a 29 de janeiro de 1770, num claro agrado ao Marquês, mas, quando a notícia chegou a Lisboa, Dom Paulo já falecera, aos 68 anos de idade. É bom não esquecer que, quando prendeu e demitiu o filho bastardo do rei anterior, bastardo que dirigia a Inquisição em Portugal, Pombal lá colocou seu irmão Paulo de Carvalho e Mendonça, que passou a ser portanto o Inquisidor-Mor do Reino (depois de Inquisidor é que seria Cardeal). Como Pombal não poderia mandar em tudo, se um irmão era o chefe-d’armas, comandando as tropas de terra e mar (no Brasil e depois em Lisboa) e o outro era chefe da Igreja?!

A “SALA DA CONCÓRDIA”
No Palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras, existe uma algo misteriosa Sala da Concórdia. Nela há um enorme retrato a óleo, no teto. Um retrato não do Marquês de Pombal sozinho, mas dele em companhia dos dois principais irmãos, Dom Paulo de Carvalho e Mendonça (à direita), Francisco Xavier de Mendonça e Furtado (à esquerda) e, ao centro, claro que o primeiro Marquês de Pombal. Os três manos estão abraçados e este abraço semelha um grande oito horizontalmente posto, sinal que, também para o racionalismo iluminista da época, significava o infinito.
Diz-se que era nessa Sala (mui justamente chamada “da Concórdia”) que os três irmãos se reuniam, chegando necessariamente a bons termos, sempre que entre eles surgisse alguma divergência pessoal, política, ideológica, administrativa, ou quando havia assuntos essenciais de Estado a decidir.

MANDOU QUEIMAR MALAGRIDA
Como demonstra Maxwell, de 1684 a 1747, 4 mil 672 pessoas haviam sido condenadas pela Inquisição e 146 foram queimadas na fogueira (dizia-se "relaxadas em carne"; e o uso da fogueira "atendia", brrr!, ao preceito bíblico de não derramar sangue...); e, de 1750 a 1759, houve 1 mil 107 sentenças e 18 execuções em fogueiras, procedimento bárbaro que, evidentemente, começara bem antes de Pombal.
Foi sob o incontrastável poder do Marquês de Pombal que a fogueira inquisitorial queimou o missionário (e visionário) italiano Gabriel Malagrida [1689-1761], cuja biografia liga-se proximamente à História da Paraíba. Foi esse frade quem, entre outras façanhas dignas de louvor no Maranhão, no Pará, em Pernambuco, na Bahia, na Parahyba e noutras paragens (sem esquecer Recife, Olinda, Penedo, Belém, parte da Amazônia Setentrional), ajudou efetivamente a desenvolver o antigo Colégio dos Jesuítas da Paraíba. Esse Colégio foi fundado em 1586, no mesmo ano em que se construiu o Convento dos Jesuítas, atual Palácio da Redenção. Para se ter uma idéia, o Colégio dos Jesuítas do Rio de Janeiro havia sido criado em 1567.

COLÉGIO DOS JESUÍTAS
Procurando detalhar mais e correndo o risco de sermos repetitivo (“quando se tenta esgotar um assunto, o que se esgota é a paciência do leitor...”): o Colégio jesuíta da Parahyba — cujo prédio atual foi erguido em 1746, como se pode ver pela inscrição existente em seu frontispício — funcionava onde hoje se encontra o prédio da Faculdade de Direito da UFPB, na atual Praça João Pessoa e bem ao lado do Palácio da Redenção. A rua ao lado, por sinal, que desde seus primórdios foi chamada de Beco do Colégio, tem hoje o nome do Padre Malagrida, mas não por ele haver ajudado a construir o Colégio (nem era nascido ainda em 1586 e só entrou na Companhia de Jesus em 1711).
Não foi este, da Parahyba, o único colégio organizado por Malagrida, que fez o mesmo em Pernambuco. Não se limitava a fundar colégios ou seminários. Em 1742, por exemplo, fundou na vila de Igaraçu (erroneamente dita Igarassu), com o padre Miguel Rodrigues Sepúlveda, o “recolhimento” do Sagrado Coração de Jesus. Estabelecimentos como este tinham o objetivo de recolher moças pobres que se podiam dedicar à vida religiosa. Noutros estabelecimentos, cujas “recolhidas” o frade Malagrida e seus contemporâneos chamavam de “convertidas”, abrigavam-se ex-prostitutas conversas para uma nova vida de obras cristãs. Tanto quanto aos índios, o frade italiano tinha especial dedicação a essas almas desgarradas, em cuja salvação era preciso insistir.
Malagrida passou 25 anos percorrendo (o mais das vezes a pé) os caminhos entre o Pará, o Maranhão e a Bahia, sem esquecer Pernambuco, Paraíba e outras plagas. Sempre fundando seminários, colégios, escolas, abrigos para moças pobres ou para mulheres-de-vida-difícil, casas de “exercícios espirituais” (bem no estilo de Loyola, o guru-inventor desse método específico de meditação).

PALÁCIO DO GOVERNO
Foi concluída ainda em 1586, um ano após ser fundada a Paraíba, a construção do primeiro conjunto de prédios, formado
1) pelo Convento (hoje Palácio da Redenção);
2) pela Igreja (antes de São Gonçalo e, se muito não me engano, depois de Nossa Senhora da Conceição, derrubada em 1929, pelo presidente João Pessoa, com a construção de outro templo, uma igrejinha menor, mas com a mesma invocação, na Rua São Miguel, também no centro da cidade, em entendimentos com as autoridades eclesiásticas, para compensar a perda); e
3) pelo Colégio dos Jesuítas (atual Faculdade de Direito da UFPB).
Mas aqueles não eram os mesmos prédios como hoje os conhecemos. Quando os jesuítas foram expulsos também da Paraíba (a lei de 3 de setembro de 1759, assinada por Dom José I por inspiração de Pombal, mas só integralmente cumprida na Paraíba em 1760, valia para todas as possessões lusas), seus prédios foram adjudicados ao governo paraibano, que passou a ocupar um dos próprios, o do Convento, como palácio e residência do governador. Mas este foi um processo longo, que demandou muita tinta e papel, na correspondência entre a Paraíba, a Corte, o Vaticano, a Ordem Jesuíta... Em torno disto, temos igualmente alguns documentos inéditos, cujos fac-símiles vão estampados nas páginas seguintes, com seu devido traslado paleográfico.

BATAVOS NÃO FIZERAM, POMBAL FEZ...
Cerca de dez anos depois, já sendo outro o Papa (Clemente XIII, com quem Pombal rompeu relações diplomáticas, fora substituído por Clemente XIV, que extinguiu a Ordem jesuíta e retomou essas relações), aceitou o novo Pontífice as razões apresentadas pela Paraíba ao Governo português e este, por sua vez, ao Papado, de a sede do Governo e a residência serem no Convento, ficando outros setores do Estado (administradores, guarda etc) no Colégio. Quanto a este último ponto, não há concordância entre alguns historiadores. É bom ver que nem o invasor holandês usara esses Convento e Colégio dos jesuítas. Preferiram usar a igreja de São Francisco e o Convento de Santo Antônio, como suas instalações militares.
Muito tempo depois, já entre 1920 e 1930, o presidente João Pessoa reformou quase completamente o Palácio da Redenção. E o atual prédio da Faculdade de Direito, descontadas algumas pequenas reformas, internas e externas, data de 1746, sempre como obra dos jesuítas. Basta dar uma olhada pra cima e ver, lá no frontispício, a data de 1746.

PREGAÇÕES PERIPATÉTICAS
Assim, Malagrida fundou o colégio, o seminário jesuíta (no caso, tanto faz colégio como seminário). Não foi ele quem pessoalmente construiu o prédio, porque nem tinha tempo para isto: vivia percorrendo parte da Amazônia Setentrional e quase todo o Nordeste. A História registra que ele colocou a primeira pedra (a pedra inaugural), mas não chegou a colocar pedra de toque... Também conseguiu o dinheiro necessário para o prédio (como o conseguiu para outras obras suas, nas missões deambulantes ou pregações peripatéticas em que constantemente se empenhava).
Como arranjava os recursos menos dificultosamente? Além de ser conhecido como santo, taumaturgo e de gozar de grande prestígio também em Portugal, era confessor e muito amigo do rei Dom João V. Certa vez, por volta de 1750-1751, o rei deu todo o dinheiro que o Frade exigia para suas missões e outras obras religiosas. Mas, com o novo rei, Dom José I, filho daquele, Malagrida não tinha muita aproximação, mesmo porque o futuro Marquês de Pombal não permitia — e a mentalidade desse novo governo era outra, tentando se livrar da tremenda influência exercida pelos inacianos.

NÃO FOI O PRIMEIRO COLÉGIO
Malagrida não participou, evidentemente, da construção INICIAL do Colégio dos Jesuítas, e não poderia mesmo, pela boa e simples razão de haver nascido em 1689. Já a construção do atual o atual prédio, terminada em em 1746,foi de responsabilidade da Ordem dos Jesuítas. De qualquer forma, em hipótese alguma Malagrida poderia ter fundado o PRIMEIRO colégio jesuíta na Paraíba, porque ele já existia desde praticamente o início da cidade/capital.
O que Malagrida realizou aí, bem depois, foram principalmente duas coisas: a) fundou um SEMINÁRIO jesuíta (a instituição, não o prédio), com vistas a atender ao ensino dos vocacionados para a intrépida ação missionária dos jesuítas; e b) obteve dinheiro também para reformas internas no prédio a fim de acomodar alunos e professores.

POVO QUERIA UM COLÉGIO
Dispomos de documentos inéditos que demonstram à saciedade que o desejo da população da cidade de Paraíba ter um colégio já se manifestava por escrito pelo menos desde 1683, quando, no dia 15 de novembro daquele ano, em Lisboa, o Conselho Ultramarino fez consulta ao rei Dom Pedro II (claro que não o imperador Dom Pedro II, do Brasil, bem posterior a esse Dom Pedro II lusitano), “sobre as cartas do capitão-mor da Paraíba, Alexandre de Sousa e Azevedo, e de outras autoridades da Paraíba, acerca dos moradores quererem fundar um colégio da Companhia de Jesus”.
A consulta enviada pelo Conselho ao rei continha em anexo mais cinco documentos, justamente as missivas do governador paraibano e dos peticionários. Esses documentos são também transcritos adiante, com seus fac-símiles.

CÔNGRUA E CASA DE RESIDÊNCIA
Da mesma forma transcrevemos documento por aqui inédito, de 6 de novembro de 1700, datado também de Lisboa: o decreto do mesmo rei Dom Pedro II ordenando ao Conselho Ultramarino “consultar o papel que fez [isto é, o relatório que enviou] o ex-capitão-mor da Paraíba, Manuel Soares de Albergaria, sobre as missões [religiosas] da Capitania, e o que propõe a Junta das Missões para encarregar algumas dessas missões aos padres da Companhia de Jesus, dando-se-lhes côngrua e casa de residência”. Essa casa de residência, sem qualquer dúvida para nós, foi aquela veio a situar-se onde hoje é a Faculdade de Direito da UFPB. Côngua, que veio de côngruo (= convergente, coerente), era a pensão concedida pela Coroa aos párocos, “para sua conveniente sustentação”.
O ativo Albergaria, que foi nomeado pelo rei Dom Pedro II a 14 de fevereiro de 1697 e tomou posse no governo da Capitania da Paraíba em setembro de 1697, por aqui se demorou até julho de 1700. Foi durante sua administração que se iniciou a reconstrução da fortaleza de Santa Catarina, em Cabedelo, trabalhos esses que só viriam a se concluir bem depois, já no governo de Joaquim Rebelo da Fonseca Rosado. A administração deste, por sua vez, iniciou-se em agosto de 1819 e terminou abrutamente em outubro de 1821.
Abrutamente, sim, porque, como nos revela o médico e historiador Guilherme Gomes da Silveira d’Ávila Lins — o maior conhecedor da História Colonial da Paraíba e responsável por total revisão de todos nossos conceitos sobre os sucessivos governantes paraibanos desde 1585 —, o governador Fonseca Rosado “largou o governo da Paraíba em virtude da eleição de uma Junta Provisória determinada pelo decreto das cortes, de 29 de setembro de 1821”.

OLIVEIRA LEDO, MARQUÊS, POMBAL
Albergaria está também ligado à História do Sertão paraibano, pelo contato que manteve com os capitães-mores do Interior ligados à família dos desbravadores Oliveira Ledo. Por exemplo, em 3 de setembro de 1699, o Conselho Ultramarino fez por escrito uma consulta ao rei dom Pedro II justamente sobre “a carta do capitão-mor da Paraíba, Manuel Soares de Albergaria, acerca da gente [índios mansos, soldados, padres] e munições que deu ao capitão-mor dos Sertões das Piranhas e Piancó, Teodósio de Oliveira Ledo, para entrar no sertão contra o gentio tapuia”.
A base de operações dos Oliveira Ledo era o velho arraial de Piranhas, isto é, a velha povoação de Nossa Senhora do Bom Sucesso, no Alto Sertão da Paraíba, povoação essa que depois — ao tempo do seu, do nosso, do vosso Marquês — viria a se transformar na Vila Nova de Pombal e, ainda mais recentemente, na cidade de Pombal.

INSPIRADO EM LOYOLA
Mais que os Oliveira Ledo o faziam a cavalo, o carismático sacerdote Malagrida, inspirado no exemplo deambulante de Inácio de Loyola, andava muito a pé — mas não a pé, porque também de canoa, burro, barco, navio etcétera e tal. Tanto que ficaria mais tarde conhecido igualmente como "missionário ambulante", responsável por um tipo de ação missionária dita "absolutamente original".
Quanto à igreja derrubada da igreja dos jesuítas (entre o Convento e o Colégio dos Jesuítas), o saudoso fotógrafo Walfredo Rodriguez, de origem espanhola e que chegou a ser nosso amigo, quando tínhamos uns 20 anos de idade e ele bem uns 70, publicou duas fotos, uma frontal e outra lateral, de todo o conjunto. Está no livro dele, “Roteiro sentimental de uma cidade”, obra clássica, reeditada pelo Conselho Estadual de Cultura da Paraíba.

O MENAGGINO MALAGRIDA
Nessas fotos, vê-se que a igreja, ao contrário do que muitos pensam, não era recuada, mas se projetava na calçada, ficando no mesmo nível do Palácio e da Facudade de Direito (que, dentro de sua vocação para o ensino, já abrigou o Lyceu Parahybano, antes da construção do atual Lyceu). A rua ao lado era chamada, já desde tempos remotos, de Beco do Colégio, como ocorre no centro de São Paulo (também um colégio jesuíta!), bem ao lado da casa da célebre Marquesa de Santos.
Malagrida nasceu na então pequena vila italiana de Menaggio. Fica junto ao lago Como e apresenta, portanto, belíssima paisagem, além de ser uma cidade de passado medieval. Na Itália, quem nasce em Menaggio é chamado "menaggino", mais ou menos "menagginense", como dizemos "pessoense", "patoense", "campinense".

GABRIEL DO MAU GRITO?
Agora, forçando um pouco a barra na área lingüística... Já entre as interpretações possíveis para a origem do sobrenome “Malagrida”, pense antes noutros sobrenomes italianos que não tem nada a ver, como “Bonaparte”, depois em “Malaparte”; ainda depois em “malagràzia”; e, finalmente, mas só finalmente, em “mau grito”, “má gritaria”. “gritos feios”, “grito pavoroso”...
Tal qual a cantora de ópera que se chama efetivamente Luise Malagrida (cujo nome, em princípio, significaria “Luísa do Mau Grito”, mas que canta divinamente), o Padre Gabriele Malagrida não teria do que reclamar em relação a sua voz: era ótimo orador sacro — e a prova disto é que muito moço ainda foi indicado para pregador no Maranhão e, depois, noutras comunidades jesuíticas...

UMA “VIAGEM” PARALINGÜÍSTICA
Compulsando dicionários italianos, sobretudo o inexcedível “Garzanti”, podemos deduzir, tirante a antigüidade do termo e a óbvia significação de “mala” = “má”, que “Grida”, a parte final do sobrenome “Malagrida”, pertence a uma família de palavras em que se incluem, entre outras:

* grida = antigo decreto emanado de autoridade local e levado ao conhecimento do público pelo leiloeiro ou pregoeiro; banditore = proclamação, proibição;
* grido = grito, berro, brado, fama;
* gridacchiare = ralhar (como em “io gridàcchio” = eu ralho);
* gridare = gritar (como em “gridare un po’” = gritar um pouco; e, por extensão, ralhar, criticar; também o mesmo que “brontolare” = resmungar, reclamar; levantar a voz para reclamar a atenção de outrem ou por qualquer outro motivo (como em “gridare a squarciagola” = gritar até não mais poder; “gridare a gran voce” = gritar a plenos pulmões;
* gridario = gritaria
* gridata = vozerio, gritaria
* sgridata = repreensão, reprovação, censura, bronca, sabão;
* gridato = berro, grito, rangido, chio, guincho; também o particípio passado de “gridar” = gritar (gritado); por extensão, excessivo, exasperado;
* gridatore = gritador, gasguito;
* gridatrice = gritadora, gasguita;
* gridellino = a cor entre o cinza e o rosa; violeta pálido; lilás; lilás berrante; rosa-shock;
* gridio = gritaria insistente, de diversas vozes ao mesmo tempo;
* grido (com o plural “le grida” ou “i gridi”) = gritos do homem ou animal; etc etc etc.

MÃE DE JESUS NO ÚTERO
Para não falar do panfleto mais conhecido (sobre o terremoto de Lisboa), as prolíficas cartas de Gabriele Malagrida, hoje nas coleções da Companhia de Jesus, indicam novamente que escrevia bem, num tom sempre candente e por vezes apocalíptico.
Não nos foi ainda possível ler o seu famoso livro sobre as conversas mantidas entre ele e, ehr, a própria Virgem Maria, “em pessoa” (como diria o inesquecível garçom Cobrinha, do Esporte Clube Cabo Branco) — e com Ela, a Mãe de Jesus, lhe contando coisas do tempo em que ainda vivia no ventre da senhora genitora lá dela, Sant’Ana. Mas, como somos todos muito moços, ainda há sobradas esperanças de que isto venha a ocorrer mais dia, menos dia.

MATAR O REI NÃO É CRIME
O Papado, então sob o reinado de Clemente XIII, não aceitou que Malagrida e os demais jesuítas presos fossem julgados pela Inquisição portuguesa. Mas, ainda assim, eles o foram. Durante o julgamento de Malagrida, dizem historiadores que ele pôde apresentar sua defesa, sustentando-a candentemente ao lado de dois causídicos, Mathos e Alexandre, ante o tribunal do Santo Ofício.
Num desses debates, Malagrida chegou a declarar abertamente que não aceitava a acusação de regicídio — mesmo porque, para sua consciência, matar o rei não constituiria crime. Mas Pombal, ainda maquiavelicamente, não havia entregue Malagrida à Inquisição como acusado de regicídio e, sim, de heresia. Para apoiar seus argumentos, foram anexados ao processo dois livros de Malagrida, “A vida do Anticristo” [La vie de l’anté-Christ”] e “A vida de santa Ana” [“La vie de Sainte-Anne”], em que havia extravagantes considerações de um misticismo sem fronteiras.
Com os causídicos Alexandre e Mathos, Malagrida sustentou perante o tribunal que matar o rei não seria um crime, segundo a sua própria consciência. Estava consciente de que o Papa, do alto de sua autoridade, em Roma, não permitiria o seu julgamento civil. Mas, como vimos, Pombal não o quis acusar de regicida, mas, sim, de herético, motivo suficiente para mandá-lo para um “julgamento” no Santo Ofício. À luz do que hoje sabemos, tudo foi muito paradoxal e a última vítima individual da Inquisição portuguesa deveu-se a um homem que fazia de tudo para retirar poder a essa mesma Inquisição e que era um dos maiores representantes do Iluminismo, do Século das Luzes.

A CASA DE MALAGRIDA
Em visita à cidade, não deixe de dar uma passadinha na casa em que nasceu Malagrida. O saite www.menaggio.com/ita/itinerari-storico.php é um dos que dão o mapa da mina para encontar rapidinho essa velha residência, bem conservada: após a igreja de Santa Marta, junto à comunidade paroquial de Santo Estêvão (Santo Stefano), segue-se à direita, penetrando na rua Caronti; já no final da via, dobra-se novamente à direita, na rua Leoni; aí, após uns 30 metros, entra-se à esquerda na rua Castellino da Castello.
À saída para Castello, que domina a urbe, pode-se observar admiráveis portas monumentais de igrejas e palácios. Na esquina com a rua Strecioum, está finalmente o local de nascimento de Malagrida.

O RIDÍCULO E O HORROR
Maxwell lembra até a famosa frase de Voltaire [1694-1778] sobre a por todos os títulos indesculpável morte do Frei Malagrida na fogueira: "Ainsi l'excès du ridicule et de l'absurdité fut joint à l'excès d'horreur [= "Assim juntou-se o excesso do ridículo e do absurdo ao excesso do horror"].
Costuma-se pensar que as referências mais explícitas de Voltaire estão em “Candide, ou l’optimisme”. Elas se acham, porém, noutras obras, em particular as mais propriamente históricas do filósofo iluminista francês, como o capítulos 38 de seu “Précis du siècle de Louis XV”, que hoje integra as “Oeuvres historiques” do mesmo autor. O capítulo 38 trata do “assassinat” (na verdade, tentativa de assassinato) contra o rei de Portugal, com os jesuítas sendo expulsos desse reino e depois da França etc.

EM “CÂNDIDO, O OTIMISTA”
Especialmente no capítulo VI de “Candide, ou L’optimisme”, Voltaire ridiculariza tanto os auto-de-fé da Inquisição portuguesa como os que desejam conter os terremotos com manifestações explícitas de piedosa fé, caso de Malagrida. Diz o célebre autor francês: “Após o tremor de terra que destruiu três quartos de Lisboa, os sábios do país não encontraram um meio mais eficaz de evitar a ruína total do que oferecer ao povo um belo auto-de-fé. Decidiu-se na Universidade de Coimbra que o espetáculo de algumas pessoas queimadas a fogo brando, numa grande cerimônia, era um segredo infalível para impedir a terra de tremer”.
— Em conseqüência, prendeu-se um biscainho [basco] que desposara a comadre e mais dois portugueses que, comendo um frango, dele retiraram a gordura. E prenderam igualmente o doutor Pangloss e seu discípulo Cândido, um por haver falado alguma inconveniência no almoço e outro por tê-la escutado com ar de aprovação. Os dois foram levados separadamente a quartos de extremo frescor, onde jamais poderiam ser incomodados pelo sol. Oito dias depois, vestiram-nos com sambenitos e ornaram suas cabeças com mitras de papel. A mitra e o sambenito de Cândido eram pintadas com chamas viradas para baixo e diabos sem caudas ou garras; mas os diabinhos de Pangloss traziam garras e caudas, sendo as chamas dirigidas para cima. Assim vestidos, eles marcharam em procissão e ouviram um sermão patético, seguido de bela música em fabordão. Cândido foi chicoteado em cadência, ao som de tambores, enquanto todo mundo cantava. O biscainho e os dois homens que não quiseram comer o toucinho foram queimados lentamente numa estaca da fogueira. E Pangloss viu-se enforcado, embora tal costume não fosse o mais usual. No mesmo dia, a terra tremeu novamente, agora com um barulho ainda mais ensurdecedor...

POMBAL & A PARAÍBA
Além de haver sido homenageado na Paraíba com a criação da Vila Nova de Pombal (hoje simplesmente Pombal), por ação de seu parente e amigo que então governava Pernambuco, o Marquês de Pombal deixou outras marcas também em nosso Estado. Após a fundação da Companhia do Grão-Pará e Maranhão ou também do Grão-Pará e Rio Preto (com o direito exclusivo de todo o comércio e navegação das capitanias por 20 anos), Pombal, dando prosseguimento a suas tentativas de introduzir novas práticas comerciais no Reino e em suas colônias, estabeleceu uma segunda empresa monopolista "no importante e populoso mercado de Pernambuco e Paraíba, em 1759".
Basta ver um documento que Maxwell consultou, o "Mapa de todas as fazendas que a Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba tem extraído das fábricas do Reino e exportado para as conquistas desde o seu estabelecimento e até 31 de dezembro de 1777" [por "fazendas", entenda-se "rendas"].
Essa companhia foi criada exatamente a 13 de agosto de 1759. Já com relação ao irmão que veio de mala-e-cuida para tomar conta da Capitania do Grão-Pará, Rio Negro, Maranhão e outros domínios ao Norte do Brasil, ele chegou a Belém em setembro de 1751. Além de governador-geral e chefe de armas, era também Plenipotenciário das Demarcações, cargo muito útil no tempo em que existiam tratados (como o de Tordesilhas e, depois, o de Santo Ildefonso) a serem implementados, do papel para o terreno propriamente dito. E a ordem de Pombal era redesenhar a Amazônia, em favor da Coroa.
Após a morte do rei José I, a Coroa portuguesa extinguiu as duas Companhias, tanto a do Grão-Pará e Maranhão (que deu alguns resulados financeiros) quanto a da Pernambuco e Paraíba (que só deu prejuízos). Mas, em termos gerais, Portugal veio a se beneficiar, a médio e longo prazo, das reformas econômicas empreendidas pelo inegável pulso do Marquês, segundo reconhece a maioria dos historiadores independentes (quer dizer, nem partidários dos jesuítas nem admiradores do “Paradoxo do Iluminismo”.

ÚLTIMAS VÍTIMAS DA FOGUEIRA
Insistindo em causas sobrenaturais para o terremoto, Malagrida foi não só a última vítima da Inquisição em Portugal [sempre se pensou assim, mas é preciso ver que, no mesmo ano da morte do Marquês de Pombal, em 1782, é que realmente se queimaram as últimas pessoas em Portugal: 17 no último auto-de-fé de Coimbra e 8 no último auto-de-fé em Évora]; mas, por tabela, foi Malagrida também a última vítima das próprias “causas naturais” do sismo...
Na fratricida e monumental queda-de-braço pelo poder, Pombal aproveitou a situação para ele favorável e ganhou esse round, livrando-se igualmente do taumaturgo algo fanático que dizia conversar com a “Virgem Maria”. Além do mais, por defender os índios, como os demais jesuítas, não havia ele se atritado no Norte/Nordeste brasileiro, com um dos irmãos de Pombal, governador-geral do Grão-Pará e Maranhão?! Acusado de herético e regicida (por ser confessor da esposa de um dos acusados), a ironia é que Malagrida assistira anos antes, em 1750 — a pedido do moribundo, seu admirador — os últimos momentos de vida do pai de Dom José I, Dom João V...

PROPAGANDA NO EXTERIOR
Mas a cruel execução do influente e carismático Malagrida recebeu tantas críticas na Europa que o Marquês distribuiu largamente, no mesmo ano, uma tradução francesa da sentença portuguesa, sob o título de "Liste des personnes qui ont été condamnées à l'act public de Foi, célèbré dans le cloître du couvent de s. Dominique de Lisbonne le 20 septembre 1761" [= "Lista das pessoas condenadas no ato-de-fé público celebrado no claustro do convento dos dominicanos de Lisboa em 20 de setembro de 1761].
Houve também tradução para o espanhol e outras línguas, mas o francês, depois do latim, era a língua mais universal da época e se a coisa não saísse na língua de Voltaire deixaria de alcançar, para usar a expressão hoje corrente, o desejado índice de leitura. Ao mesmo tempo, em cartazes da época, os jesuítas eram acusados de regicídio.

LIGAÇÕES PERIGOSAS
O Padre Malagrida era muito ligado à bela e valente dona Leonor Tomásia de Távora [1700-1759], sexta condessa de São João da Pesqueira e terceira marquesa de Távora, de quem era confessor, influindo praticamente em todos os seus atos civis. Figura orgulhosa, Leonor desafiava o poder do Marquês de Pombal e mantinha permanente contato com os jesuítas, em constantes encontros realizados em sua casa.
Isto fez com que, após o atentado ao rei, dona Leonor fosse presa como principal mandante do crime. Pouco depois, era sentenciada a morrer no cadafalso, onde teria a cabeça separada do corpo. Todos os seus bens foram também confiscados em prol da Coroa. Além dela e de outros réus com pena capital, estavam Francisco de Assis e José Mascarenhas de Távora.

MALAGRIDA NA PARAHYBA
Por volta de 1721, Malagrida estava no Maranhão, pregando. Em 1723, passou a pregador do Colégio Jesuíta do Pará, promovendo também missões no interior. Depois desse ano é que ficou encarregado da missão dos índios tabajaras (aproximadamente entre 1724 e 1727), exercendo suas funções com admirável destemor. Os tabajaras concentravam-se sobretudo na Parahyba. Já por essa época, ouvia vozes que o advertiam sobre coisas a acontecer. Acreditava firmemente que milagres podiam ocorrer no dia-a-dia — e que era um enviado especial da divindade. Conversava até com a Mãe de Jesus, quer dizer, Nossa Senhora ou a Virgem Maria, conforme revelou no livro “La vie de Sante-Anne”.
Foi nesse ano de 1727 que voltou ao Maranhão para ensinar letras no Colégio. No ano seguinte, já pregava novamente aos índios. Em 1730, retornou ao Maranhão para lecionar letras e teologia. Quatro ou cinco anos depois, dirigiu-se à Bahia, Pernambuco e novamente o Maranhão, passando uns 14 anos em missões pelo interior nordestino, a partir de quando passou a ser chamado Apóstolo do Brasil. Naquelas e nessas missões, manteve contatos com a Parahyba, inclusive realizando peregrinações pelo interior.
Já com o prestígio de santo, retornou a Portugal em 1749-1750, para conseguir recursos com os quais sustentar colégios, seminários e conventos por ele fundados. Dom João V deu-lhe praticamente tudo o que pedira. Dois anos depois, veio novamente ao Brasil e atritou-se com o governador do Grão-Pará, irmão do Marquês de Pombal. Dirigiu-se então ao Maranhão, onde também esse irmão de Pombal exercia sua autoridade, e aí ficou até 1754, ainda realizando missões e fundando novos estabelecimentos, embora com certa oposição do bispo local (por causa de seu excessivo fervor místico). Em 1750/1751, a rainha-viúva o chamou de volta a Portugal — e esse último retorno lhe foi fatal.

MAXWELL SOBRE MALAGRIDA
Não podemos nos furtar a uma longa citação do próprio Maxwell enfocando Malagrida:
"No dia anterior à espetacular punição dos aristocratas e dos demais condenados pelo atentado regicida, oito jesuítas foram presos por uma suposta cumplicidade, entre eles o Padre Gabriel Malagrida, missionário e místico jesuíta. Malagrida, que nascera na Itália, partiu para o Brasil em 1721, a fim de trabalhar no Maranhão. Após uma rápida estada em Lisboa, entre 1749 e 1751, retornou ao Brasil, onde entrou em atrito com o irmão de Pombal. Exatamente um ano após o terremoto de Lisboa, Malagrida também publicou um panfleto sobre a tragédia, "Juízo da verdadeira causa do terremoto", atribuindo o desastre à ira divina. E Pombal havia chegado a todos os extremos para explicar o terremoto como um fenômeno natural!...
“Para o Estado agir contra os jesuítas, Pombal necessitava de dispensa papal. Mas, para a Igreja, entregar os jesuítas às autoridades seculares seria reconhecer implicitamente a culpa deles. E isso o Papado não estava disposto a fazer. Pombal voltou, em vez disso, para Dom João Cosme da Cunha, arcebispo de Évora e conhecido como Cardeal da Cunha, que publicou uma carta pastoral contra os jesuítas, escrita pelo brasileiro Frei José de Santa Rita Durão [autor do famoso poema "Caramuru"]. Dom Cosme era membro da família Távora, mas tornou-se um dos mais sicofânticos adeptos de Pombal, tendo galgado muitas posições importantes no curso dos vinte anos seguintes”.

DOIS CARDEAIS, DUAS CABEÇAS
Ver-se-á aqui o papel de dois Cardeais portugueses em tudo por tudo diferentes. Esse Cardeal da Cunha nascera em Lisboa, em 1715, formando-se em Leis. Em 1738, tomou o hábito da Ordem de Santa Cruz. Quando do terremoto de Lisboa, atuando como cônego dessa Ordem, percorreu as ruas descalço, com uma corda no pescoço e um crucifixo levantado acima da cabeça, pregando que os vivos deveriam fazer penitência em sufrágio pelos mortos. Talvez por isto Pombal o tenha escolhido como um dos inspetores da reconstrução da capital portuguesa. Em 1760, com apoio de Pombal, tornou-se Arcebispo de Évora. E, depois, em 1770, Pombal ainda pediu ao Papa Clemente XIV que o criasse Cardeal, o que foi de pronto atendido.
Agora, o outro Cardeal. O terremoto foi também testemunhado pelo segundo Cardeal-Patriarca de Lisboa, Dom José Manuel da Câmara, nascido na capital lusa em 1686. O Papa da época, Bento (Benedito) XIV, criou-o Cardeal em 1747. Em 1754, foi eleito Patriarca de Lisboa, vivenciando logo no ano seguinte o dito tremor de terra tamanho gigante. Mas, quanto se iniciaram as hostilidades entre os jesuítas e Pombal, ele se aborreceu muito com o que considerava perseguições e renunciou a seus cargos, retirando-se da vida pública.

O JUÍZO DO TAUMATURGO
Prossegue Kenneth Maxwell:
“Pombal, pessoalmente, denunciou Malagrida à Inquisição, à frente da qual havia instalado seu irmão Paulo de Carvalho. Um alvará real, em 3 de setembro de 1759, declarou que os jesuítas estavam em rebelião contra a Coroa, reforçando o decreto real de 21 de julho do mesmo ano, que ordenava a prisão e a expulsão dos jesuítas do Brasil. Na altura de março e abril do ano seguinte, 119 jesuítas haviam sido expulsos do Rio de Janeiro, 117 da Bahia e 119 do Recife. As vastas propriedades da ordem no Brasil, em Portugal e em todo o Império português foram expropriadas.
Maxwell não o diz com todas as letras, mas, "au grand complet", o folheto do taumaturgo Malagrida intitulava-se "Juízo [isto é, opinião] da verdadeira causa do terremoto que padeceu a corte de Lisboa no 1.º de novembro de 1755". Nele, indignava-se ante a visão pombalina de que o sismo tivera causas naturais. Malagrida dizia abertamente que o tremor de terra fora castigo de Deus. Baseado em profecias de antigas freiras, criticava os que tentavam reconstruir a capital portuguesa, recomendando, ao contrário, muitas penitências, procissões, meditação e exercícios místicos.

GARROTEADO & QUEIMADO
Mas o Marquês de Pombal, ocupado em sua ciclópica tarefa de reerguer não só a cidade transformada em cinzas, mas o próprio Portugal, não estava para brincadeiras. Em 1756, ordenou que se queimasse o folheto de Malagrida e exilou o autor em Setúbal. Dessa cidade, e após o atentado à vida do rei Dom José I, em 3 de setembro de 1758, o carismático Malagrida enviou nova e candente carta, sendo preso cerca de três meses depois. Facilitara a Pombal o trabalho de convencer o rei de sua culpabilidade...
Transferido, ainda preso, para o Colégio dos Jesuítas, em inícios de 1759, pespegaram-lhe a culpa por crime de lesa-majestade, passando às prisões do reino. Entregue à Inquisição, viu-se condenado à morte. E vejam bem esta: caracteristicamente, Pombal fez com que o rei Dom José I assinasse o decreto de expulsão dos jesuítas no dia 3 de setembro de 1759 — exatamente no primeiro aniversário do atentado regicida...
Prossegue Maxwell: "A morte pelo garrote e pela fogueira [assassinato judicial talvez seja um termo mais apropriado] de Malagrida, do jesuíta já velho e meio louco, em 20 de setembro de 1761, no Rossio, em Lisboa, foi a última gota para muitos europeus que só enxergavam o atraso de Portugal e a tirania de Pombal. [Maxwell comete aqui um equívoco: embora a condenação de Malagrida, também chamado em Portugal mesmo de “o apóstolo do Brasil”, tenha ocorrido realmente em 20 de setembro, sua execução deu-se no dia seguinte, 21 de setembro de 1761]. Foi uma curiosa ironia histórica, contudo, que a última morte na fogueira individual, pelas autoridades portuguesas, por instigação da Inquisição, tenha sido a de um padre e membro de uma Ordem que havia sido uma verdadeira ponta de lança da Contra-Reforma”.

PRIMEIRA PROVÍNCIA INACIANA
Por que Maxwell diz isto? Porque em grande parte a própria estabilidade de Portugal se devia à ida dos jesuítas para seu território, por iniciativa do então rei Dom João III [1502-1557], o Piedoso, décimo-quinto rei dos lusitanos e neto materno dos famosos reis católicos Fernando e Isabel, aqueles mesmos que, num ataque de fanatismo religioso e de burrice administrativa, expulsaram os judeus da Espanha. O doutor Diogo de Gouveia, dirigente do parisiense Colégio de Santa Bárbara recomendara ao rei convidar alguns jesuítas para trabalharem em seu reino. Feito o contato, Inácio de Loyola mandou a Portugal, em 1540, os primeiros jesuítas: um português, Simão Rodrigues,e o navarrense Francisco Xavier, o mesmo que depois viajaria à Índia e se tornaria mártir no Oriente. Foi Simão quem deu início, em 1546, à primeira Província jesuítica portuguesa — na realidade, a primeira Província na História da Ordem inaciana.
Muito tempo depois, porém, já sob o poder discricionário de Pombal, os jesuítas começaram a tomar atitudes que se chocavam com as alegadas “razões de Estado”. Por exemplo, opuseram-se — segundo o próprio Marquês — à implementação do Tratado de Madri, assinado entre Portugal e Espanha para a delimitação de fronteiras sul-americanas. Foi esse um dos primeiros estopins para a luta de vida e morte entre Pombal e os inacianos.

O CAVALEIRO DE OLIVEIRA
Ainda é Kenneth Maxwell:
“Como para enfatizar a questão, o Cavaleiro de Oliveira [Maxwell refere-se a Francisco Xavier de Oliveira (1702-1783), autor do "Discours pathétique", também citado por Voltaire, por haver sido "queimado" em efígie após considerar o terremoto de Lisboa como manifestação da cólera divina diante dos absurdos excessos da Inquisição], aventureiro português que havia recomendado a Dom José I que estabelecesse uma Igreja Lusitana segundo o modelo da Igreja da Inglaterra, e que mais tarde se fez luterano, foi queimado em efígie ao lado do jesuíta [Malagrida].
“Na verdade, os dois homens foram queimados por motivos exatamente opostos: o Cavaleiro de Oliveira por dizer que o terremoto havia sido uma punição por Portugal seguir uma religião errônea e por adorar ídolos; e o Padre Malagrida por dizer que o terremoto era uma punição divina por Portugal ter abandonado a verdadeira religião".

UM DIA A CASA CAI
Com a morte do rei Dom José I, em 1777, foi aclamada rainha, em maio do mesmo ano, Dona Maria I (depois dita “a Louca”), que reinou entre 1777 e 1816, e que terminaria seus dias no Brasil. Como grande parte da nobreza e da burguesia, ela não via com bons olhos (muito pelo contrário!) o até então superministro. O Marquês foi demitido e banido para os domínios privados, em Pombal. Seus perigosos inimigos foram restaurados no poder. Era a chamada “Viradeira”, como diziam e dizem os portugueses... Oitocentos prisioneiros foram soltos. Dois mil e quatrocentos não puderam ser libertados, no entanto, porque já haviam morrido nas enxovias!
A religiosamente devotíssima e moralizadora (embora progressista) Dona Maria I era a primogênita de D. José I, mas veio a ser afastada da direção da coisa pública em inícios de 1792, por causa de doença mental, provocada por vários fatores (morte do marido, perda de um filho, medo da invasão francesa). Quem assumiu esses poderes foi seu filho, o príncipe Dom João — até 1799, quando passou a ser Regente. Após a morte da mãe, a quem sucedeu como rei, com o título de Dom João VI, seria obrigado a transferir a Corte para o Brasil, em 1808, fugindo dos exércitos napoleônicos.
Anote-se: sempre houve animosidade entre a rainha Dona Maria I (desde quando ainda era Princesa do Brasil) e o Marquês de Pombal, mesmo porque este sustentava que ela devia renunciar ao trono, se bem que em favor de seu filho Dom José.

DEMITIDO MAS RECEBENDO
A rainha, para surpresa dos indignados nobres finalmente de volta ao poder, foi algo magnânima em relação ao Marquês de Pombal, perdoando-o ou, antes, dispensando-lhe penas físicas. Muitos desses inimigos desejavam-no morto ou no mínimo torturado e humilhado. Antes do processo e julgamento que se fez depois contra ele, Dona Maria I demitiu Sebastião José (como faziam questão de o chamar os nobres, para ressaltar sua alegada extração plebéia) de todos os cargos públicos — mas lhe manteve o salário de secretário de Estado, quiçá para que não passasse privações... Pombal foi acusado de tudo o que se possa imaginar, em termos de corrupção, mas, já bem doente, fez por escrito sua admirável defesa.
Se é verdade que o condenaram a penas físicas e outras, mas nunca lhe acharam culpas provadas e comprovadas nisto de corrupção (era conhecido como incorruptível). Os defensores dos jesuítas, no entanto, acham difícil explicar como pôde reunir tão grande fortuna ao longo da vida (e muitos descendentes dos Távora ainda hoje guardam rancor à memória do Marquês).

O MAIOR ESTADISTA
Não se deve esquecer, porém, que o Marquês, para começo de conversa, herdou todos os bens da rica esposa, falecida em 1750. Era ela Dona Teresa de Noronha e Bourbon, filha de Dom Bernardo de Noronha, dama da rainha Dona Marianna d’Áustria e com ele casado em 1723 (ela em segundas núpcias; antes, fora casada com um primo dele, Antônio de Mendonça Furtado, de quem enviuvou).
Por sua fez falecido muito tempo depois, em 8 de maio de 1782, recolhido à sua Quinta de Pombal (Soure), o Marquês apenas não chegou a ser torturado (ou possivelmente executado) por estar muito velho. O reconhecimento de seu grande papel na História portuguesa somente viria bem depois. E ele tem hoje um monumento, basicamente uma praça com estátua, imaginava eu no Rossio, em pleno centro de Lisboa, conservando-se ainda o largo e o palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras.

ONDE ESTÁ O MONUMENTO A POMBAL
Mas meu amigo internético e lusitano Rui Tavares envia-me diretamente de Portugal mais esclarecimentos sobre a exata localização do monumento ao Marquês: “A estátua de Pombal encontra-se na Praça [ou Rotunda, como costuma ser chamada] Marquês de Pombal. No Rossio [que na realidade se chama Praça Dom Pedro IV, mas isto nem os lisboetas costumam saber] encontra-se a estátua de Dom Pedro IV de Portugal, primeiro do Brasil”. A propósito disto, acrescenta Rui Tavares uma nota curiosa: “Durante o século XIX, as más-línguas diziam que a estátua não era exactamente de Dom Pedro I ou IV mas uma do Imperador Maximiliano do México e que tinha sido desviada para ali após a execução desse. Mas isto, segundo dizem os melhores autores, é mentira. À época, Dom Pedro IV era considerado o pai da pátria portuguesa (na verdade, apenas o pai do regime), como certamente seria também aí no Brasil” — conclui o estudioso português Rui Tavares.
A estátua lisboeta representa o carismático e controverso Marquês acariciando a juba de um leão... — ele, que nada parecia temer. E ninguém lhe tira o mérito de haver sido o maior estadista do século XVIII — não só em Portugal, mas em toda a Europa. Diz-se que governava para o povo, mas sem o povo... Depois, num artigo da “American Catholic Quarterly Review” (II, 51, Filadélfia, EUA, 1877), chegaria a ser chamado de “o Bismarck do Século XVIII”...

NOUTROS LIVROS DE VOLTAIRE
Sempre usando sua grande capacidade crítica, com muito humor e sátira, para combater todos os tipos de tirania, dogmatismo, intolerância, preconceitos e crueldade, Voltaire também cita o Padre Malagrida no capítulo IV de outro livro sarcástico seu, "Les oreilles du comte de Chesterfield et le chapelain Goudman", de 1775. É quando Sidrac diz ao capelão Goudman:
"Amanhã o Dr. Grou vem jantar comigo. Médico mui instruído. Fez a volta ao Mundo [...] Enfim, conversou com o reverendo Padre Malagrida, depois queimado em Lisboa, porque a Santa Virgem lhe revelara tudo o que ela fizera quando se achava no ventre de sua mãe, Sant'Ana." [No original, "Enfin, il a conversé avec le révérend père Malagrida, qui a été brûlé depuis à Lisbonne, parce que la Ste. Vierge lui avait révélé tout ce qu'elle avait fait lorsqu'elle était dans le ventre de sa mère Ste. Anne"].
De fato, Malagrida era visto já à sua época como excessivamente místico e algo por sobre o fora da realidade. Sustentou no tal folheto, por exemplo, que era escandaloso pretender que o terremoto representava um evento natural, porque, se isto fosse verdade, não haveria necessidade de arrependimento e de tentar evitar a ira de Deus; e nem mesmo o Diabo poderia inventar uma idéia mais falsa capaz de nos levar todos à mais irreparável ruína... Contudo, nada disto justifica sua brutal execução, que chocou toda a Europa — quase tanto quanto o próprio terremoto.

A RAZÃO E A VERDADE
Ainda outra obra satírica de Voltaire com referências ao Padre Malagrida: “L’éloge historique de la Raison, prononcé dans une académie de province, par M. Chambon”. É livro tragicômico, em que pontificam figuras femininas de relevo, como Razão e sua filha Verdade. Vivem escondidas num poço, enquanto a Sra. Política, tendo como irmãs e ministras a Velhacaria e a Avareza, acompanha-se da Ignorância, da Fúria, da Pobreza e do Fanatismo. As irmãs Razão e Verdade visitam o Papa Clemente XIV (citado como Ganganelli, seu sobrenome de cardeal), que logo "extingue a Companhia de Garasse, Guiguard, Garnet, Busenbaum, Malagrida, Paulian, Patouillet, Nonnotte [a Companhia de Jesus]; e a Europa bateu palmas".
Em “L’homme aux quarante écus”, o filósofo de Ferney escreve que “as draconianas leis, castigando por igual crimes e faltas leves, a perversidade e a loucura, me parecem odiosas. Não trataremos o jesuíta Nonotte (que não cometeu outro delito senão o de escrever calúnias e disparates) como trataram os jesuítas Malagrida, Oldecorne, Garnet, Guignard, Gueret e como deveriam ter tratado o jesuíta Letellier, que enganou seu rei e encheu de dolo e confusão a França. [...] Em toda disputa, é preciso distinguir entre agressor e agravado, opressor e oprimido. A guerra ofensiva é infame, mas a defensiva é justa”.

NAS CARTAS DE VOLTAIRE
Numa carta de Voltaire, quando resume alguns acontecimentos chocantes, ele diz: “Eis um século abominável, o dos Calas, dos Malagrida, dos Damien, a perda de todas as nossas colônias, as cartas de confissão e a ópera cômica”... Já em resposta a uma carta anônima sobre os jesuítas, Voltaire refere-se ao Padre Malagrida, dizendo: “Há sempre, numa sociedade de religiosos, fanáticos apressados em escrever. O ex-jesuíta Patouillet e outro, chamado Nonotte, investiram contra mim com a idéia extravagante de que contribuí para a ruína da Companhia de Jesus e que, em conseqüência, sou apenas um herético. Honram-me tanto ao misturar meu nome com os libelos que publicam contra os parlamentos que a gente de bom grado se deixaria queimar pelos verdugos — quando o que realmente se queimou em Portugal foi o reverendo Padre Malagrida”.
Ainda noutra missiva, Voltaire coloca humoristicamente, numa conversa imaginária, padres opositores dos jesuítas, um deles dizendo: “A propósito, irmão, não escreveu ainda ao Padre Malagrida e a seus cúmplices?” [o texto é de 1759, quando Malagrida já estava sob acusação].

SANTOS VISITAM MALAGRIDA
Voltaire era muito bem informado (também) sobre os acontecimentos de Portugal, beneficiando-se, além da leitura de jornais e revistas de lá provindos, de uma autêntica rede de informantes epistolares. Ante o garroteamento e queima de Malagrida, indigna-se contra a barbárie de homens que se dizem movidos pela religião. Uma das obras mais comicamente voltaireanas citando Malagrida é a “Relation de la maladie, de la confession, de la mort et de l’apparition du jésuite Berthier, avec la relation du voyage de frère Garassise, et ce qui s’ensuit, en attendant ce qui s’ensuivra”, de 1759, quando o frade já estava preso.
Num dos engraçados diálogos, santos dizem a dois padres que visitem o Frei Malagrida na prisão, pois há pouco haviam estado com ele “e sempre estaremos com vocês”. Um padre muito inocente então pergunta aos santos: “E se vocês estiveram lá, com todos esses poderes, por que não o tiraram da prisão?!”. Um dos santos comenta: “Vocês jovens fazem muitas perguntas; continuem andando, e calados”...

DICIONÁRIO FILOSÓFICO
No verbete “Suplícios” do “Dicctionaire philosophique”, Voltaire mais uma vez cita o Padre Malagrida [em todos os casos, a responsabilidade pela tradução é nossa]: “Quanto àquilo que se chama comumente Justiça, isto é, o costume de matar um homem porque teria roubado um escudo de seu patrão; ou o queimar, como fizeram a Simon Morin, por haver dito que conversava com o Espírito Santo; e também como se queimou um velho jesuíta louco, de nome Malagrida, por haver divulgado sob forma impressa as conversas que a santa virgem Maria tivera com sua mãe, Santa Ana, quando ela ainda estava em seu ventre etc; este costume, convenhamos, nem é humano, nem razoável, e não pode jamais ter a menor utilidade”.
Noutro verbete [“Sobre outros sortilégios”] do “Dicionário filosófico”, assinala que “houve até há pouco, em nosso tempo, alguns dessa espécie [os que acreditam na possessão pelo diabo e na purificação pela morte na fogueira], como o jesuíta Girard, o ex-jesuíta Nonotte, o jesuíta Duplessis, o ex-jesuíta Malagrida; mas esta espécie de doidos tornou-se muito rara a cada dia”. Entre os escritos de Voltaire de antes e de depois da execução de Malagrida, observa-se uma evolução no julgamento crítico. Se antes ridicularizava muitos jesuítas (como o fez com as procissões e cânticos propostos por Malagrida), passara a uma atitude de comiseração para com os perseguidos e vítimas da crueldade.

“ENSAIO SOBRE OS COSTUMES”
Voltaire, por exemplo, em seu “Ensaio sobre os costumes e o espírito das nações” [1756] — uma espécie de História Universal, começando com os homens pré-históricos e os hebreus —, diz claramente que a padrecada explorava os indígenas americanos. É o caso do capítulo intitulado “Du Paraguay” (logo depois dos interessantíssimos capítulos “Du Brésil”, “Des possessions des Français en Amérique”, “Des îles françaises et des flibustiers” e “Des possessions des Anglais et des Hollandais en Amérique”), em que novamente ataca a alegada riqueza dos inacianos também em terras guaranis.
E, em “Candide, ou l’optimisme”, coloca seu personagem Cândido no Paraguai só para ter o pretexto de falar sobre as Missões jesuíticas ao sul do Brasil. Mas, enquanto um jesuíta de alto coturno come numa baixela de ouro, ao abrigo das intempéries, os pobres índios e demais paraguaios comem milho, com as mãos, sob o sol, em escudelas de pau... Nela, conta Voltaire, o seu jovem anti-herói, durante uma curta passagem pelo Paraguai, almoçou com o superior jesuíta "em baixela de ouro; e enquanto os paraguaios comiam milho em escudelas de pau, ao ar livre, sob o ardor do sol".

NA INGLATERRA, DUPLICIDADE
Em nossa antiga edição da “Life of Johnson” [“Vida de Samuel Johnson”], edição dos “Great Books”, o autor James Boswell cita as “Memórias” de Wraxall (1815) para dizer que o nome de Malagrida lembrava, a seus contemporâneos protestantes (que não gostavam nada dos jesuítas), a idéia de... duplicidade. Segundo o biógrafo de Johnson, o apelido de “Malagrida” foi pela primeira vez aplicado a Lorde Shelburne num texto-petardo atribuído ao incorrigível político e jornalista John Wilkes [1725-1797] descrevendo um baile à fantasia. Um personagem queria se fantasiar de “herdeiro presuntivo de Inácio de Loyola e de todo o seu Colégio”. E diz: “Ponha mais um toque de diabo, aqui, nas sobrancelhas; ah, está bem, é suficiente: um perfeito Malagrida!”...
Ademais, o rei Jorge III [1738-1820] da Inglaterra sempre se referia a Lorde Shelburne como “Malagrida” ou “o jesuíta da Praça Berkeley”, por causa de sua proverbial duplicidade. Lorde Shelburne outro não era senão William Petty-Fitzmaurice [1737-1805], primeiro marquês de Lansdowne, estadista que atuou como primeiro-ministro do próprio Jorge III entre 1782 e 1783.

HOMENS DE DUAS CARAS?
Entende-se facilmente isto de os ingleses informados de então atribuírem o viés de duplicidade aos jesuítas e, por extensão, a Malagrida (que, claro, era antes de tudo jesuíta): a Inglaterra anglicana não queria negócio com os da Companhia de Jesus. Isto não ocorria apenas na Inglaterra, mas em grande parte do mundo protestante de então.
É sabido que o Padre Antônio Vieira, ao viajar à Holanda, como embaixador secreto e espião de Portugal, evitou usar o hábito religioso, a batina jesuíta, vestindo-se como uma pessoa comum. Fosse na Holanda, fosse na Inglaterra, um jesuíta corria muito perigo de ser preso, linchado e até morto. Em suma, os protestantes, sobretudo os anglicanos, raciocinavam mais ou menos assim: se eram confessores da família real portuguesa e entraram numa trama para tirar a vida do rei, que outra palavra lhes caberia senão duplicidade?!

O “RICHELIEU LUSITANO”
Voltando a Shelburne. Outros o chamavam de “a fraude piedosa”, mas muitos protestavam, dizendo que a fraude era visível, mas onde estaria a piedade?... Se Você olhar direito para um retrato de Shelburne, comparando-o com o do autêntico Malagrida, verá que se pareciam — pelo menos no capítulo das sobrancelhas. E alguém chegou a fazer piada forte com Shelburne, dizendo-lhe pessoalmente: “Não sei por que o chamam de Malagrida, tendo sido o frade homem tão bom”...
Noutras partes do Mundo, porém, chamavam o implacável Marquês de Pombal de “o Richelieu luso”, porque, como o cardeal francês, o rei reinava, sim, e reinava absolutamente — mas quem mandava no rei era ele... Por cerca de três décadas, foi o virtual ditador lusitano, com os demais ministros sendo apenas seus auxiliares.

UMA VISÃO CATÓLICA
Escrevendo para a “Enciclopedia Católica” (edição de 1911), Edgar Prestage, que se aproxima bastante da visão geral dos jesuítas sobre Pombal, dá bem o tom das críticas até hoje feitas ao Richelieu luso pela Companhia de Jesus. Traduzindo da última versão inglesa (edição da editora Robert Appleton Company, de Nova Iorque), faremos nossas observações entre colchetes:
“O reino de José I [1750-77] tornou-se famoso pela administração do Marquês de Pombal, o verdadeiro governante de Portugal por mais de vinte anos [na realidade, quase 30 anos]. Sua ação enérgica durante o terremoto de 1755 confirmou a ascendência que mantinha sobre o soberano. E, com este apoio real, ele pôde usar a alegada Conspiração dos Távoras para humilhar a nobreza e continuar a campanha dirigida contra os jesuítas, determinado que estava a controlá-los. Suas acusações contra os padres inacianos, por conduta sediciosa nas Missões e de tráfico comercial ilícito, trataram-se de meros pretextos”.

REAL MESA CENSÓRIA
— Ele já havia afastado os jesuítas da Corte, denunciando-os também a Roma e assegurado a nomeação de um amigo, o Cardeal Saldanha, como o reformador de sua escolha para os jesuítas em Portugal. E, quando se atentou contra a vida do rei, ele atribuiu tudo a maquinações dos jesuítas. Confiscou os bens da Companhia nos domínios portugueses e expulsou os jesuítas portugueses, retendo os estrangeiros na prisão. O Papa recusou-se a culpabilizar toda a Companhia pelas faltas de indivíduos isolados e Pombal respondeu demitindo o núncio [apostólico] e ipso facto cortando as relações com Roma. Desta forma, o chefe real da Igreja em Portugal era o ministro [Pombal]. Ele aumentou a ignomínia sobre os jesuítas assegurando-se de que o Padre Malagrida fosse queimado pela Inquisição. E seu trabalho se completou quando, sob pressão das Potências Católicas [especialmente França, Espanha e Portugal], Clemente XIV suprimiu a Sociedade [de Jesus] em 1773 — prossegue ainda o texto de Prestage.
Pombal continuava fortíssimo. Cerca de um ano depois, em 28 de abril de 1774, era expedido o “Edital da Real Meza Censoria”, ordenando que uma carta escrita pelo bispo de Cochim, dom C. J. Colaço Leitão — analisando a sentença dada ao jesuíta Gabriel Malagrida — fosse queimada pelo carrasco público. Essa Real Mesa Censória foi por ele criada, aliás, para tirar a censura (de livros etc) do âmbito da Inquisição, passando-a às mãos do Estado.

“SEU MAIOR CRIME”
Fala ainda Prestage: “O desmantelamento, por Pombal, das Missões Estrangeiras, foi talvez seu maior crime, o qual de forma alguma foi compensado por sua abolição da escravatura e o fim da distinção entre cristãos-velhos e cristãos-novos. Ele, sem dúvida, promoveu grandes e necessárias reformas na administração interna e libertou o Portugal de seu tempo da subserviência à Inglaterra. Mas sua política comercial foi um fracasso e os males que cometeu sobrepassam de muito as medidas benéficas. E, acima de tudo, ele forjou algemas para a Igreja que ainda hoje paralisam sua ação [Edgar Prestage escrevia isto na primeira década do século XX]. A morte do rei José I provocou a queda do ministro, mas os novos soberanos, Pedro e Maria [1777-1816], ao tempo em que abriam as prisões que Pombal enchera com seus opositores, deixaram intactas muitas de suas obras”.
Foi este o texto mais light que pudemos encontrar dentre os opositores a posteriori de Pombal.

BIBLIOTECA DO VATICANO
Se Você eventualmente for à Biblioteca Apostolica Vaticana, em Roma, encontará pelo menos sete obras de ou sobre Malagrida:

1) Il buon raziocinio dimostrato in due scritti, o siano saggi critico-apologetici sul famoso processo e tragica fine del fu P. Gabriele Malagrida [...], de 1782 e de autoria de Gaetano Forti [= “O bom raciocínio demonstrado em dois escritos, ou sejam Ensaios crítico-apologéticos sobre o famoso processo e trágico fim do falecido Padre Gabriel Malagrida”];

2) Congregatio Sancti Offici. Sentenza della santa Inquisitione di Lisbona contro il padre Gabriele Malagrida della Compagnia denominada di Gesù con la conferma della medesima fatta dal Tribunale detto della Relazione. Lisbona, Michele Rodriguez, 1761 [= Congregação do Santo Ofício (Inquisição). Sentença da Santa Inquisição de Lisboa contra o padre Gabriel Malagrida, da Companhia denominada de Jesus, com a confirmação da mesma realizada pelo Tribunal dito da Relação. Lisboa, (editor) Miguel Rodriguez];

3) Il buon raziocinio dimostrato in due scritti. Lugano, 1784 [= O bom raciocínio demonstrado em dois escritos], por Giulio Cesare Cordara;

4) À Lisbonne, por Malagrida, 1763 [Em Lisboa];

5) Il Malagrida [Malagrida, tragédia traduzida do francês];

6) Conferenza spirituale tra il M.R.P. Gabriele Malagrida gesuita, e madama la marchesa D. Eleonora Tavora. Lugano, Stamperia della suprema superiorità elvetica, 1760 [Entrevista espiritual entre o Reverendíssimo Padre Gabriel Malagrida, jesuíta, e a Sra. Duquesa Dona Eleonora de Távora. Lugano, Casa Impressora da Suprema Governo Helvético]; Dona Eleonora outra não é senão “a bela e valente Dona Leonor Tomásia de Távora [1700-1759], sexta condessa de São João da Pesqueira e terceira marquesa de Távora, de quem Malagrida era confessor”, citada páginas atrás, e que foi executada a mando de Pombal junto com os demais acusados de conspiração contra o rei;

7) La figura storica e l’opera sociale e religiosa di P. Gabriele Malagrida, S.J., nel Brasile e nel Portogallo del Settecento. Como, Itália, 1996 [A figura histórica e a obra social e religiosa do Padre Gabriel Malagrida, da Companhia de Jesus, no Brasil e em Portugal do Século XVIII];

8) Malagrida, tragédia francesa, em três atos;

POMBAL NO VATICANO
Você acharia improvável que a mesma Biblioteca Apostolica Vaticana abrigasse livros inspirados pelo Marquês de Pombal? Pois nas estantes da Biblioteca papal há pelo menos 10 obras tendo como objeto central de interesse o Richelieu português:

1) Sejano, Pombal e Richelieu, de Giovanni Battista Froussard, edição tirada em Lucca, Itália, pela editora de F. Bertini (1839);

2) Quem livrou Pombal da pena de morte, por J. T. Montalvão Machado, edição da editora Barbosa & Xavier (Lisboa, 1979) [obra recente, saída em Portugal, tentando explicar por que Pombal não foi torturado e morto];

3) Vita di Sebastiano Giuseppe di Carvalho e Melo, march. di Pombal [...] segretario di stato e primo ministro del re di Portogallo D. Giuseppe I [...], de Francisco Gustà, edição de 1781 [obra em italiano: Vida de Sebastião José de Carvalho e Melo, marquês de Pombal, secretário de Estado e primeiro-ministro do rei de Portugal Dom José I];

4) Voyage du ci-devant duc du Châtelet en Portugal, de Pierre Marie Félicité Dezouté de Cormatin (Paris, 1798, editora F. Buisson, An VI) [obra em francês, saída na França: Viagem do anterior Duque de Châtelet por Portugal];

5) Memoirs of the Marquis of Pombal, por John Smith Athelstane Carnota (Londres, 1843, edição da Longman, Brown, Green, and Longmans) [Obra em inglês: trata-se do conhecido livro de John Smith Athelstane, Conde da Carnota (1813-1886), contendo as memórias do Marquês de Pombal, numa edição de 1871, pela editora Longmans, Green, Reader, and Dryer, de Londres; com 387 páginas, mais 16 de introdução, tratando, além do Marquês, do rei Dom José I, dos jesuítas, da História de Portugal etc];

6) Commentarius de republica in America lusitana, atque hispana a Jesuitis instituta, belloque ab his cum Hispaniae, Lusitaniaeque exercitibus gesto, ex iis quae asservantur in secretioribus conclavibus legatorum, qui cum plena regum potestate negotia huc pertinentia in America administrabant, aliisque instrumentis certae auctoritatis concinnatur. [Documento em latim, de aproximadamente 1758 e bem típico do período pombalino, com (tradução livre) um comentário sobre a República implantada pelos jesuítas na América portuguesa e também na América espanhola, e sobre a guerra por esses movida contra os exércitos da Espanha e de Portugal, de acordo com o que foi observado em encontros secretos dos embaixadores, os quais, com pleno poder real, trataram de assuntos pertinentes que conduziam na América, além de outros instrumentos legais por essas autoridades concertados e firmados];

7) Collecção dos negocios de Roma no reinado de el-rey Dom José I, Ministerio do marquez de Pombal, Lisboa, [Imprensa nacional], 1874-75 [obra em português];

8) L’administration de Sébastien-Joseph de Carvalho et Mélo, comte d’Oeyras, marquis de Pombal (edição de 1788, em Amsterdam), por Pierre Marie Félicité Dezoteux de Cormatin [obra em francês, mas publicada na Holanda: A administração de Sebastião José de Carvalho e Melo, conde de Oeiras, marquês de Pombal];

9) Geschichte der Jesuiten in Portugal, unter der Staatsverwaltung des Marquis von Pombal, edição de 1787, pelo editor Felssecker, em Nürnberg (Nuremberg) [obra em alemão: História dos jesuítas em Portugal, sob a administração pública do Marquês de Pombal]

10) Ragionamento che contiene l'elogio di [...] Pombal [...], tradotto dal francese in italiano (Napoli, 1776) [obra em italiano, saída em Nápoles: Argumentação com o elogio de Pombal, traduzido do francês].

OUTROS LIVROS RAROS
Colecionadores de todo o Mundo, dispostos a gastar muitos dólares ou euros para satisfazerem sua bibliofilia, apreciam obras raras como a seguinte, aparentemente mandada publicar na França pelo Tribunal do Santo Ofício, de Lisboa, como parte da estratégia do Marquês de Pombal para provar cabalmente, ante a Europa do Iluminismo, a culpa do Padre Malagrida:

* Procès-verbal de condamnation de Gabriel Malagrida, jésuite, par l'Inquisition de Portugal, contenant la sentence des inquisiteurs et l'arrest de la Cour souveraine appellée de la Relation. À Amsterdam, chez Marc-Michel Rey, 1762, sur la copie imprimée à Lisbonne, chez Antoine Rodrigues Galhardo, rue Saint Benoît, 1761 [Memorando (ou Resumo ou Minuta*) da condenação de Gabriel Malagrida, jesuíta, pela Inquisição de Portugal, contendo a sentença dos inqusidores e acórdão da Corte soberana chamada de Relação (Tribunal da Relação). Em Amsterdam, na gráfica de Marcos Miguel Rey, 1762, segundo a cópia impressa em Lisboa, na gráfica de António Rodrigues Galhardo, rua São Bento, 1716]; trata-se de obra in octavo, com 12 páginas de introdução, seguidas de mais 56 de texto; é um documento do Santo Ofício, republicado em Amsterdam, Países-Baixos, evidentemente que com intenções político-religiosas. [*Procès-verbal, em francês, não significa “processo verbal”, mas minuta, registro, resumo, memorando].

“GUERRA” DOS FOLHETOS
Antes e depois de 1762 (mas especialmente nesse ano!), registrou-se autêntica “guerra” de publicações pró e contra a execução de Malagrida, e não só em Portugal, mas na França, Inglaterra, Itália, Países-Baixos (Holanda), Espanha. Grande número de escritores, panfletários ou não, lançaram-se nessas campanhas, com ou sem pseudônimos, de modo que as grandes bibliotecas desses países têm ainda hoje, devidamente conservados, documentos que nos impressionam por sua linguagem ferina, vivaz, tragicômica e até humorística. Isto para não falar dos escritores de carreira, como Voltaire, que, a propósito da brutal execução de Malagrida e de outras vítimas do garrote vil e da fogueira, anotou em seu Sermon du Rabbin Akib [= Sermão do rabino Akib, de 1765]:
— Acreditará Você que, enquanto as chamas consumiam essas inocentes vítimas, os inquisidores e outros bárbaros cantavam nossas preces sob forma de hinos religiosos? Pois é, aqueles monstros sem piedade invocavam com tais cantos solenes o Deus da misericórdia, enquanto cometiam os mais atrozes crimes!

LIVRO DE MARCUS ODILON
O historiador paraibano Marcus Odilon Ribeiro Coutinho — que se alinha entre os admiradores do Padre Malagrida e severo crítico do Marquês de Pombal — chegou a ganhar prêmio internacional, na Itália, por haver escrito, há uns dez anos, excelente obra ilustrada, de mais de 150 páginas, sob o título de “O livro proibido de Padre Malagrida” [Unigraf, João Pessoa, 1986].
Entre as páginas 139 e 152, o livro de Marcus Odilon inclui o panfleto do frade sobre o terremoto de Lisboa [“Juízo sobre as causas etc...”]. Tanto a obra de Kenneth Maxwell quanto a de Marcus Odilon são imperdíveis.

DESTRUIDOR DA INQUISIÇÃO
E, ainda sobre o Marquês de Pombal, uma palavra final, não nossa, mas do lusitano “Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico” (1904-1915), de Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues: “A forma mesmo como ele [Pombal] promulgava as suas medidas imortais, era antiga, e tinha como que um cheiro reaccionário”.
— Assim, efetivamente, a condenação do Padre Malagrida pela Inquisição e o seu suplício num auto-de-fé são realmente atos pouco dignos de um homem como era o ministro do rei D. José. [Com isto], não queria ele, porém, dar força à Inquisição nem restaurar os autos-de-fé. Esse foi o único que se realizou no seu tempo. E o regulamento que impôs a esse tribunal terrível [o da Inquisição] anulava-o completamente. Pouco tempo depois da morte do Padre Malagrida, um ato de iniciativa, numa questão de censura de livros, que o inquisidor?mor entendeu dever tomar, fiando-se na sua qualidade de irmão bastardo do rei, rendeu-lhe o ser preso e desterrado — juntamente com seu irmão, outro menino de Palhavã — para as matas do Buçaco. Este ato de audácia subjugou para sempre a nobreza. E a criação da intendência de Polícia ainda mais contribuiu para a domar.”
Este é outro dos paradoxos de Pombal: contribuiu, talvez mais que ninguém, para liqüidar a Inquisição em Portugal e noutras partes da Europa, embora dela tenha se servido para seus próprios fins (para os fins da consolidação do Estado português, diria ele).

MALAGRIDA, O FILME
Em 2001, ficou pronto, em 35 mm e em cores, o filme Malagrida, produção brasileira de Renato Barbieri com 73 minutos de duração. Esta obra foi inicialmente exibida na Itália e, depois, em Brasília. Mas, por deferência especial do autor, programou-se uma exibição para o dia 26 de março de 2005, um Sábado de Aleluia, em João Pessoa, PB, mais exatamente ao lado da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Paraíba — isto é, no mesmo prédio do Colégio dos Jesuítas em que funcionou o estabelecimento de ensino (re)criado por Malagrida. Foi ali também que ele lecionou, residiu e preparou-se para novos embates, como orador sacro, andarilho incorrigível, missionário dos índios, dos pobres, das “convertidas”, dos desvalidos em geral.
A exibição do filme resultou de um pedido da Confraria do Beco da Faculdade, formada exatamente para defender e revitalizar o Beco da Faculdade, vale dizer, a rua Gabriel Malagrida, que margeia um dos lados da Faculdade. O belíssimo filme, falado em italiano e com legendas em português, mostra “a vida, obra e paixão do jesuíta Gabriel Malagrida, nascido na Itália em 1689, e que foi o responsável pelo início de uma tradição de catolicismo rústico no Nordeste brasileiro, tornando-se conhecido como o Taumaturgo do Brasil. Vários milagres foram atribuídos a ele, que foi perseguido e morto, em Lisboa, por ordens do Marquês de Pombal, em 1761”. Ganhou o prêmio de melhor documentário de 1999 e foi também o grande vencedor do III Concurso para América Latina e o Caribe de pós-produção cinematográfica. Viu-se igualmente premiado pela Organización Católica Internacional del Cine y del Audiovisual e pela Federação Ibero-americana de Produtores de Cinema e de Audiovisual.
Da equipe realizadora da película fizeram parte, além de Renato Barbieri (direção):
* Victor Leonardi (pesquisa e projeto, além de roteiro, este com Barbieri);
Direção de Fotografia: Adrian Cooper
* Chico Bororo (som direto);
* Andrea Fenzi (direção de produção);
* Kodiak Bachine (trilha sonora original);
* Saulo Lamounier (montagem);
* Regina Porto (narração);
* Daniel Lemos (abertura);
* Lúcio Scartezini (artes em computação);
* Renato Barbieri e Andrea Fenzi (produção executiva);
* Ilário Govoni, SJ; Kodiak Bachine; e Fabiano Antonio de Manguape (consultoria);
* Videografia Criação e Produção Ltda (realização).

OUTROS FILMES DO DIRETOR
O diretor Renato Barbieri já contava, então, em sua filmografia, com realizações como:
* “Do outro lado da sua casa (1985);
* “Duvideo” (1987),
* “88 em perspectiva”,
* “Expiação (1989),
* “Global Fórum” (1989),
* “Vanguarda Internacional” (1989),
* “N'Pele Vídeo” (1992),
* “Rudimentos” (1993),
* “V Direitos das futuras Gerações” (1994),
* “São João no Matutu” (1995),
* “Viravolta” (1994-1995,
* “Seleção Tropical” (1995-1996),
* “Monteiro Lobato, vírgula, ponto e vírgula” (1996),
* “Moçambique” (1996),
* “Reservas extrativistas” (1997),
* “Atlântico Negro - Na rota dos Orixás” (1998),
* “O destino de nossas florestas” (1999),
* “A idade do Brasil” (1999-2000),
* “Amor sem DST” (2001),
* “O sentido do saber” (2001),
* “Mulheres do babaçu” (2001),
* “A invenção de Brasília” (2001).

Não posso concluir este longo artigo sem dizer que o cineasta e diretor cinematográfico Renato Barbieri é proprietário da Videografia Criação e Produção Ltda [SCN, Quadra 01, Bloco C, Edifício Brasília Trade Center, sala 1304, Brasília, DF - 70.710-902, telefax 55 61 327-1584, e-mail: barbieri@tba.com.br.
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NOTA

1. No original, "Books won't stay banned. They won't burn. Ideas won't go to jail. In the long run of history, the censor and inquisitor have always lost. The only sure weapon against bad ideas is better ideas."

Evandro da Nóbrega - jornalista, escritor, pesquisador, editor, membro do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba.

druzz@openline.com.br
evandro.da.nobrega@gmail.com

http://druzz.blogspot.com

Leia mais sobre Malagrida: Elizabeth Hazin

Criação da página: Sônia van Dijck

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