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SÔNIA van DIJCK

Este é um espaço dedicado à Literatura

O FEMININO e o MASCULINO na Literatura

 

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ELISA NAZARIAN. VOZ DO FEMININO

(Sônia van Dijck)

VOZ E REPRESENTAÇÃO DA MULHER

(Sônia Lúcia Ramalho de Farias)

Capa: Ricardo Assis

São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.

DISCURSO

DE HOMEM

 

Sônia van Dijck

 

 

atelie_editorial@uol.com.br

 
“Alma masculina. Um mergulho na alma masculina. É a isto que nos levam os textos de Marcos Rodrigues”, diz a orelha do livro, que sei ter sido escrita por Elisa Nazarian.
Bem... Vejamos... Não é próprio da Literatura o revelar-se... Eis aí um espaço do jogo entre “velar-se” e “revelar-se”. Também não é muito comum que os homens permitam esse penetrar na “alma masculina”... Portanto, vale a pena o exercício de compreender as regras do jogo, ou do pacto com o leitor/leitora, instaurado por Marcos Rodrigues.
Para começo de conversa, há uma voz masculina que conduz os relatos e se faz personagem na maioria das histórias; fato que imprime um tom confessional ao discurso, além de contribuir para a unidade da coletânea. Esse narrador, ao impor seu ponto de vista (ou foco narrativo, para quem preferir), estabelece o limite de seus relatos: só o que lhe foi dado viver, saber, contemplar, é oferecido ao leitor/leitora. Mas, esse mesmo recurso permite que o livro traga as marcas de seu universo viril, na presença de elementos simbólicos como os canivetes, o cavalo; e que ele, convencionalmente, se deixe conhecer ou penetrar em sua “alma”.
Uma das marcas observáveis desse homem é seu caráter de intelectual viajado, capaz de combinar um espírito cosmopolita com o sossego na rede da varanda do sítio, contemplando suas galinhas d’angola, e, ao mesmo tempo, registrar costumes dos homens “recios y honrados” que vivem em Oyacucho.
No presente dos textos, o eu que fala concede-se o privilégio de estar só. Com esse recurso, pode melhor revisitar o tempo perdido, até revendo-se na infância; reconstituir o dito e o feito por outros homens; reencontrar as mulheres que amou; permitir-se “voyeur” e auditor de conversas alheias; e, principalmente, construir-se sedutor. Tudo isso misturando lirismo, humor e algumas notas de fina ironia.
Que não se enganem as leitoras! O narrador mantém seus compromissos masculinos! Apesar de, por exemplo, ser impossível evitar o riso diante do relato do que fizeram e falaram após a morte de Zacharias nos braços da amante; no final, o narrador toma mesmo o partido do finado, pois “a mulher dele não tinha bunda, não tinha mesmo.”
Adotando a perspectiva de que se trata de um homem que quer ser visto na inteireza de sua masculinidade dentro do livro que nos oferece, passo a contemplar alguns momentos, conforme essa orientação.
Às vezes parece tudo tão claro que, por exemplo, “Escolha” pode ser lido como uma reafirmação desse homem, que, numa relação, prefere a “moda européia” (possivelmente, esse é um conceito forjado para a ocasião...), em que “a fera se submete, com docilidade e presteza, a tudo que o homem sereno e sorridente pede.” E admite: “Uma vaidade boba, que você pode ignorar.” Bem... e haja vaidade e nem tão boba assim... E o pior é que ele só faltou dizer “submissa, como é da natureza” (mas, isso já seria demais nos tempos que correm...). Depois, sobre essa história de submeter-se com “docilidade e presteza” à solicitação do macho, há controvérsias... – mas essa voz masculina desconhece ou finge desconhecer isso... Deixo por conta da revelação do imaginário masculino... Quanto a um homem “sereno e sorridente” nas circunstâncias... isso é coisa tão insólita... que só a autocontemplação masculina pode desmentir o testemunho das mulheres...
Decididamente confessional, e sem impedir a manifestação de Narciso, esse narrador, que se quer adulto, revela as nuanças de seu comportamento sedutor. Em “Danças”, contempla seu objeto de desejo bailando com o marido; não sente inveja, “só leve cobiça”, pois “não viveria com ela. Isso era com o marido.” Em “Configuração”, depois de um trecho de pretensa análise objetiva sobre a cópula, só para racionalizar seu olhar desejante, afirma: “Sensual e encantadora. Integralmente construída em mim.” Em “Corpo”, a proposta inicialmente grosseira, demanda uma explicação: “Eu precisava do corpo dela para expressar a ela o quanto eu gostava dela. No fundo era isso.” E só homens muito especiais podem ter essa sinceridade.
Mas, delícia mesmo é “Elisa”. O narrador/protagonista volta à infância, tempo em que Elisa entrou em seu coração, e conta sua demanda da mulher amada. Parece que estava “escrito nas estrelas” (“Maktub”). Adulto, o narrador esteve, em algumas oportunidades, muito perto dessa mulher. Timidez? Insegurança? A carta reveladora de sua paixão ficou guardada longo tempo... até que, no melhor papel, escolhido pela ternura, chega à amada, com toda a descompostura da paixão de uma vida. Chegou em tempo... depois de cerca de 40 anos de indecisão... E ele, em óbvia manifestação de pretensão masculina, em gritante pedantismo viril, em clara vaidade machista, tem a coragem de arrematar, depois de todo esse tempo: “Comigo é assim, vapt-vupt.” – imaginem se não fosse... Elisa teria que esperar esse homem mais quanto tempo?...
Mas, o que interessa acima de tudo, e isso é que o título do livro desafia, é que esse eu masculino, presente em todos os textos, declara que chora. E isso de assumir-se, publicamente, como um ser que chora, é muito mais importante do que ser capaz de chorar, como, obviamente, todos os homens o são, ainda que não confessem. Na história que dá título ao volume, ele conta que explicou ao filho que há “dois choros”. “Um é para quando batem forte no homem. Machucam, derrubam ou abandonam. Quando a coisa é braba assim, pode esse choro molhado, que escorre no rosto, que aperta a garganta, quebra a voz e anoitece.” Todas as leitoras também têm a coragem desse choro. Mas, se por um lado, o narrador estabelece uma boa cumplicidade com elas, por outro lado mostra ao público masculino a dignidade desse choro de homem. Adiante, explica o outro tipo de choro: “... é o ruim, que é seco e não é choro. É choromingo de luta, resmungo de trilha, reclamo de rota. É esse que não pode. Não é coisa de homem. Nem de mulher.”. Lição de homem pra homem; consumação da cumplicidade com as mulheres: hábeis em engolir em seco o choro entalado na garganta e tocar a vida pra frente...
Mas, que alguém tem que dizer a Marcos Rodrigues que tudo isso é muito difícil... ah! isso tem.... seu companheiro de ofício já disse que viver é muito perigoso... e nisso vai também o saber chorar... principalmente, quando o choro não deve ser percebido pela filha, tal como em “Nursery”.
Aos leitores, o autor oferece, com lirismo, humor, ironia, e em linguagem coloquial, uma lição do quanto é difícil e belo ser homem, olhando, por vezes, as miudezas do cotidiano e fortalecendo-se com isso. Mas, sobretudo, falando disso tudo com virilidade.
Às leitoras, Marcos Rodrigues entrega narrativas ou confissões de um homem que se quer completo, apesar da sinceridade de seu equívoco acerca da submissão feminina.
Faço questão de sublinhar que o narrador acredita tanto nas leis de seu universo, que termina por permitir, de fato, um mergulho na “alma masculina”. E nessa fé e nessa permissão, ainda que involuntária, ele se revela um sedutor.
Vale a pena conferir.

Publicado in: Revista da ANPOLL, São Paulo, Humanitas,
ANPOLL, n. 12, jan.-jun. 2002, p. 307-311.


© Copyright by Sônia van Dijck, 2002

Midi: Chopin

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LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998

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