Capa: Thiago Soares

 

 

 

UM RENOVADO OLHAR

 

SOBRE A CULTURA

 

Luiz Antônio Mousinho

 

Recife

Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPE 2005

O livro Imagens do Brasil na Literatura, organizado por Sônia Lúcia Ramalho de Farias e João Denys Leite, traz resultados de pesquisas realizadas junto ao Projeto Integrado de Pesquisa: Imagens do Brasil na Literatura - As formas interdiscursivas do imaginário estético e sociocultural, desenvolvido na Universidade Federal de Pernambuco. Afinados com o próprio subtítulo do projeto, os ensaios reunidos promovem reflexões que levam em conta as relações literatura e sociedade, abrigando ainda textos de outros pesquisadores que não pertencem ao programa, mas realizam estudos em direção semelhante e fazem uma bela ponte entre teoria e reflexão crítica.
Além dos organizadores, Piedade Sá, Jomard Muniz de Britto, Moisés Neto, Andrea Ciacchi, Moema D’Andrea, Ana Cristina Dourado, Clarisse Loureiro, Rosângela Soares, Auríbio Farias, Elio Ferreira, José Lira e Ricardo Soares, participam desse trabalho de análise do discurso ficcional e poético.
Os objetos de estudo são extremamente variados, partindo da literatura colonial, chegando até o Movimento Mangue-Beat. Assim, por exemplo, José de Anchieta, Antônio Vieira e autores da poesia afro-brasileira como Luís Gama, são estudados em seus textos, articulados a seus respectivos contextos históricos os quais são atualizados em visadas pós-colonialistas.
Os ensaios contemplam, entre outros autores e aspectos selecionados, Emily Dickson e as imagens de um Brasil imaginário em sua poesia, a figura do sertanejo em Os sertões e nos folhetos de cordel, ou as várias revisitações de Canudos (inclusive as mais recentes), com ênfase para A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, além de embates com dados da canção, da política, do cinema no país. Obras e recortes temáticos são observados pela via da construção discursiva e da co-presença intertextual constante, onde a letra dos livros se entrama com o tecido social que se torna interno ao texto e revela textos e contextos. O discurso literário não se faz pretexto para se ler a sociedade, sendo o elemento social tomado nas obras “não exteriormente (...) mas como fator da própria construção artística”, como sugere Antonio Candido.
O “malungo” Chico Science, Machado de Assis, João Cabral, Joaquim Cardozo, Osman Lins e um panorama de várias narrativas contemporâneas brasileiras, são mostrados na beleza de suas construções, no coração de suas contradições. Isso num livro que promete não ser um artefato de celebração, mas que, à contrapelo, se faz uma celebração do movimento de idéias, transitando entre amontoadas camadas de textos dialogicamente instituídos, dialogicamente desconstruídos.
Os livros, a vida de seus autores – esse outro texto no mundo --, são trabalhados numa perspectiva que ressalta a urgência da alteridade e denuncia a cooptação do discurso da diferença; que se encanta com os textos e propõe o contracanto crítico; ou proporciona a ampliação do impacto da obra na sensibilidade do leitor, para falar com o crítico de cinema André Bazin. Que ensina a ler extraindo belezas e contradições, os horrores e as promessas de libertação postos ou velados pela narrativa literária, esta também documento de cultura, rastro de barbárie, promessa de felicidade. Ensaios que mais acertam quanto mais ressaltam as contradições reveladas pelos textos, mas também quando enfrentam as contradições dos próprios textos. E que também se assumem como uma visada possível, a ser completada, contradita.
Como ressalta Diana Luz Pessoa, para Bakhtin, a especificidade das ciências humanas está em ter o texto (ou o discurso) como objeto. “Em outras palavras, as ciências humanas voltam-se para o homem, mas é o homem como produtor de textos que se apresenta aí”. Segundo ela, “dessa concepção decorre que o homem não só é conhecido através dos textos, como se constrói enquanto objeto de estudos nos ou por meio dos textos, o que distinguiria as ciências humanas das ciências exatas e biológicas que examinam o homem ‘fora do texto’”.
É por dentro do texto que correm os ensaios deste livro. E isso se faz revelando algo do Brasil colônia, o assassinato de pessoas e culturas, crimes estes ressimbolizados no ambiente de suas cicatrizes no Brasil de hoje. Textos que falam do Brasil rural, dos laços tradicionais sentidos como elos e correntes e das possibilidades que o popular traz de ressignificação da tradição. E tratam também de um país embebido numa modernidade repleta de contradições. De um Brasil urbano, com seus anúncios luminosos, que são a cidade a mentir, mas que são ainda a assunção das tensões e contrastes na grande cidade, espaço também de fascínio e mapa de possibilidades de encontro.
O local e o global, as fraturas identitárias, as armadilhas ideológicas são espreitadas por esses ensaios escritos a partir das cidades de Recife e João Pessoa. Cidades próximas e distantes, no desenho de colonialismos internos. Cidades que mostram aqui a força de sua produção acadêmica, apostando na trama eterna desse diálogo entre textos, nos desrecalques do socialmente reprimido, resgatados pelo movimento interpretativo. Isso em imagens do Brasil descobertas em seus impasses e possibilidades, na mímesis assumida como crítica da cultura.
Em Triste trópicos, Lévi-Strauss vasculha na memória a sua primeira impressão do país. “O Brasil desenhava-se na minha imaginação como feixes de palmeiras torneadas escondendo arquiteturas bizarras, tudo isto banhado num cheiro de incensador, pormenor olfativo introduzido sub-repticiamente, ao que parece, pela homofonia inconscientemente apreendida das palavras ‘Brasil’ e ‘brasido’, o que de qualquer modo explica que hoje, para além de qualquer experiência adquirida, eu pense no Brasil em primeiro lugar como um perfume queimado”. E ainda: “A exploração é mais uma busca do que um percurso; só uma cena fugidia, um recanto de paisagem, uma reflexão apreendida no ar, permitem compreender e interpretar horizontes que de outro modo permaneceriam estéreis”.

Em Imagens do Brasil na Literatura, essa busca parte da teoria literária, se amplia num esforço interdisciplinar e se realiza no corpo a corpo com os textos, onde os autores vincam sua argúcia analítica. Se "criar consiste na infindável remissão do imaginário ao real e do real ao imaginário", como sugere Benedito Nunes, essas imagens do Brasil são um estimulante modo de lançar, através dos livros, um renovado olhar sobre a cultura.

 

Luiz Antônio Mousinho é doutor em Letras (UNICAMP) e professor da UFPB.

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