Idelette Muzart-Fonseca dos Santos

L A N Ç A M E N T O

25 ago. 2009

CASTELO POÉTICO DE ARIANO SUASSUNA E IDELETTE MUZART:
“FAZENDEIROS DO IMAGINÁRIO”

Beliza Áurea de Arruda Mello

 

“Ser Poeta, não é somente escrever estrofes!
Ser Poeta é ser um “geníaco”, ser “filho
assinalado das Musas”, um homem capaz de
se alçar a umbela de ouro do Sol, de onde
Deus fala ao Poeta!”
(Ariano Suassuna - A Pedra do Reino, p.183)

“Com a permissão de Vossas Excelências, vou dizer alguma coisa sobre” Em Demanda da Poética Popular, da crítica e professora da Université Paris Ouest Nanterre La Défense, Idelette Muzart-Fonseca dos Santos, nossa sempre orientadora da UFPB.

Como Edmund Wilson, em o Castelo de Axel, que rastreia as origens de tendências da literatura contemporânea a partir da obra de seis escritores - Yeats, Joyce, Elliot, Gertrude Stein, Proust e Valéry, Idelette Muzart rastreia e decifra o enigma da Poética Popular a partir da Pedra do Reino revelando a teia indivisível de vozes em contínua mutação, ou contínua movência, como prefere Paul Zumthor. A voz, no livro de Idelette, a partir dos conceitos de Ariano é decifrada como Pedra fundante de um Castelo Poético, que pode ser uma metáfora do movimento armorial, construído por múltiplas vozes, muito mais de forma espacial do que de forma temporal.
Muito se tem falado sobre poética. Pouco se tem falado da poética popular e muito menos a partir das vozes de quem a faz. Este viés é fundamental para melhor entender-se um projeto poético da poesia popular. Analisar as vozes é também adentrar-se no seu imaginário e ver aflorar a “mutação poética” integrada à vida, às relações de trabalho e de parentesco, a relação com a sua cidade, com os lugares por onde as vozes circulam.
Idelette faz um trabalho de garimpagem da poiesis popular, não apenas d’A Pedra do Reino, mas de todos envolvidos no projeto armorial: junta os pedacinhos e os transforma em caleidoscópios que vão montando, como um quebra-cabeça, uma poética alimentada pelos detalhes e miudezas, passada a limpo entre vozes e escrituras.
Assim, Idelette Muzart, a reconstruir as pegadas de Ariano Suassuna em A Pedra do Reino, vai-se tornando cúmplice do fazer poético e vai como Quaderna – o decifrador – descobrindo meticulosamente a construção do Castelo Poético. Ariano e Idelette sabem que o poeta popular não faz poesia como atividade “Cult”. Na poética popular, se encontra a reflexão e a vicissitude da exigüidade da sobrevivência pela vida diária. A poesia é “espírito mágico manifestado nos folhetos (...), nas cantorias, na atualização de romances antigos adaptados à realidade social” (SANT. E.D.P. p.34). Traduz as tensões psicológicas e sociais, as oposições completivas e, como memória do que se passou, segue a continuidade das redes mnemônicas. Isto provoca a reflexão sobre a importância da circularidade da voz – que também faz a epifania da vida.
A voz - poesia é entendida por Ariano como Pedra, “uma educação por lições”, como diz João Cabral de Melo Neto: “Precisa freqüentá-la, (porque) no Sertão a pedra não sabe lecionar, lá a pedra é de nascença: entranha a alma” (J.C.M.N. A E. P. P).
A voz é, portanto, na poética popular profecia, Quinto Império, o “Reino do Desejado” que se constrói no cotidiano, mas que se desdobra e define o lugar da imaginação no tempo infinito da memória. Tem um sentido mágico por excelência, porque é dela que nasce a simbolização de mundos reais e imaginários, evidenciando-se, assim, a convergência dos múltiplos gêneros poéticos. Em seu livro, Idelette sinaliza como a poética popular ressalta o desejo de falar, “um duplo desejo: o de dizer” (ZUMTHOR, 1997:32). Ela e Ariano sabem que a poética popular comunica pelo fio da palavra e constrói progressivamente uma poética organizada como um ABC. Um “ABC”, como dizia Patativa do Assaré, “sem beabá, um livro cheio de verdade, da beleza e de primô, tudo incardenado, inscrito pelo poder do criadô. Uma poética ditada pelo prazer e sofrimento e feita sem os códigos universitários”. (Patativa do Assaré. Aos poetas clássicos).
Em a Demanda da poética popular é enfatizado como a voz torna-se escritura, bordados-imagens de palavras, fios tecidos por ritmos, por melodias, por gestos, por performances. A poética popular é, assim, munida por um tempo épico: “medido apenas pelos movimentos coletivos das sensibilidades e dos corpos, na (...) performance” (ZUMTHOR.1993, p.143). É uma poética tecida pelo fascínio de brincar com palavras, mesmo relatando o sofrimento do vivido o poeta sabe, com a personagem Samuel d’A Pedra do Reino que - “Na arte, a gente tem que ajeitar um pouco a realidade que, de outra forma, não caberia bem nas métricas da Poesia” (SUASSUNA, PDR, p. 22)
É poética de poetas conscientes das suas limitações que assumem com intensidade suas histórias, sua identidades sem escamoteá-las, mas as transforma em um espelho mágico de vozes do cotidiano, de vozes da memória, organizadas com a intensidade dos limites da exiguidade da vida e “transforma um rifle, no folheto” (SUASSUNA, PDR, 22)
A poética popular, como diz Idelette, “é relação estreita entra as diferentes expressões artísticas e os próprios artista. O folheto não é via de mão única, mas (...) ponto de convergência de três modos de expressão que a cultura letrada separou e fragmentou em disciplinas diferenciadas, se não rivais - narrativa teatral, artes plásticas (xilo) e música (canto)” (SANTOS. E.D.D.P. p 35,36)
A palavra se torna visível, transparente, “brincante”, “vai e volta”, como na boca de Quaderna a anunciar a epifania de um sujeito histórico. Ela vai além de uma linguagem “fática”: “estabelece uma autoridade”. (ZUMTHOR, 1997, p.33)
É neste contexto que Idelette revisita Ariano, sistematizando uma nova arte poética armorial. A poesia vai-se tecendo com mistérios traçada e apoiada em xilogravuras. É poema-imagem, magia. Precisa do dom, da imaginação criadora que escapa à causalidade, único método capaz de captar a imagem, de mergulhar na emocionalidade do ser. É, portanto, um fazer fenomenológico; capaz de chegar às margens primeiras, capaz de estar presente e se materializar no silêncio da imaginação criadora como devaneio e matéria sagrada. O silêncio assim é para a poética popular armorial, criador ativo, sonho realizante e “gritante”, “queima o veneno das Serpentes, (...) arde em brasa o Sonho perdido, tentando em vão reedificar seus Dias, para sempre destroçados” (SANTOS E.D. P. P, 289)
Por isso, é uma poética mágica: precisa de espaços diferenciados, de memória e de ritmos, de olhares e de gestos, precisa de espaços sagrados, dos mistérios dos astros, do silêncio e da solidão. É poética que se constitui e constrói “palavra imagem”.
A Demanda da poética popular encarrega-se de construir um imaginário com o receptor convidando-o a ouvir as vozes das feiras, as vozes das entranhas da cantoria, rastros de uma teia indivisível de “muitos gêneros poéticos pouco conhecidos”, como ressalta Idelette.
A reedição da Demanda da poética popular preenche a lacuna de um olhar focado, especializado em uma poética tão rica. Desperta no leitor uma atitude crítica à ideologia reinante nos meios acadêmicos. Apazigua a sensação de “falta de território” de quem trabalha com as poéticas populares ao encarar no dia a dia das pesquisas, infinitos “Cabos das Tormentas” dos “olhares fora de lugar” do mundo acadêmico. Pode-se, pois, ler esta obra, seguindo a voz da autora interpretando Ariano ao enaltecer o valor da poética das vozes populares como “marco e indicador dos novos caminhos de uma poética nova”:

 

A voz e os textos populares constituem para os artistas e escritores armoriais uma fonte e um modelo poético, outros textos e outras vozes limitam e completam essa relação primeira, pertencendo a outras culturas, vindo de horizontes diversos, todos mantém e exaltam uma forma de expressão fundada na matéria tradicional. São marcos, e, às vezes indicadores de novos caminhos(...) integrando-se ao mesmo tempo no vasto conjunto textual em que Suassuna e os demais buscam a matéria nova. (SANTOS. E.D.D.P. p.273)

Afinal, diz Ariano Suassuna: “o Mundo é um livro imenso, que Deus desdobra aos olhos do Poeta!”

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REFERÊNCIAS

ASSARÉ, Patativa do. Cante lá que eu canto cá. 11ª ed. Petrópolis: Vozes, 2000.
NETO, João Cabral de Melo. “Educação pela pedra”. In: Obra completa. Ed. organizada por Marly de Oliveira com assistência do autor. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
SANTOS, Idelette Muzart Fonseca dos. Em demanda da poética popular: Ariano Suassuna e o Movimento Armorial. 2ª. ed. rev. Campinas: Editora da Unicamp, 2009.
SUASSUNA, Ariano. Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta. (romance armorial-popular brasileiro) Nota de Rachel de Queirós. Posfácio de Maximiano Campos. 2ª ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 1972,
ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz: A “literatura” medieval. Trad. Amalio Pinheiro, Jerusa Pires Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
_________ Introdução à poesia oral. Trad. Jerusa Pires Ferreira, Maria Lúcia Diniz Pochat, Maria Inês de Almeida. São Paulo: Hucitec, 1997.

Publicado in: CORREIO DAS ARTES, João Pessoa, .... set. 2009, p. ... Suplemento literário de A UNIÃO.

Fotos: Lira

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