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Para uma História da Literatura

ARQUIVOS: REENCONTRO DO TEMPO

Sônia Maria van Dijck Lima

Começo citando o poeta e estadista senegalês Léopold Sédar Senghor:“preservar os testemunhos da criação e do pensamento e tornar acessíveis à pesquisa internacional os manuscritos dos criadores e intelectuais é um gesto de profundo civismo mediante o qual afirmamos nossa identidade e asseguramos a continuidade, a sobrevivência de nossa herança cultural” .

Não deve ser lido, na citação feita, um significado nostálgico, muito menos o cultivo da neofobia, motivada pela fragmentação de nossa realidade marcada pelas mudanças tecnológicas e por radicais conquistas científicas. Na citação, há um sentido político, que remete às atenções relativas a acervos documentais como prática da nacionalidade e da cidadania. Penso que nacionalidade e cidadania não são categorias cristalizadas e nem tampouco meros enfeites da retórica politiqueira. São princípios que se constroem e se alimentam no processo de vivenciar e de defender uma nacionalidade e a cidadania. Por isso mesmo, a atividade do pesquisador de arquivo não se esgota na vulgaridade de revelar o que dorme no silêncio dos acervos. Segundo lição de Heloísa Liberalli Bellotto, “é imprescindível assegurar aos historiadores os testemunhos de cada geração, do modo de pensar e atuar de seus elementos, quando na sua contemporaneidade” .
Os documentos dos arquivos e das coleções particulares, conservados pelas instituições públicas e pelo zelo de indivíduos esclarecidos, constituem-se elos com o passado e informam os fundamentos de nosso presente, garantindo o legado a ser preservado para as gerações vindouras. São elementos de nosso patrimônio cultural. Ao pesquisador cabe revelar a existência dos documentos, para que novos estudos possam ser desenvolvidos, assim como é sua a tarefa de, através da interpretação e da leitura crítica, fazer a documentação falar acerca do que fomos, do que fizemos, do que pensamos, reencontrando e presentificando as figuras significativas de nosso passado.

Vejamos uma história ilustrativa, colhida em Rachel de Queiroz, em seu Memorial de Maria Moura . Trata-se de uma experiência que nos é relatada pelo padre do romance. A certa altura de sua aventura, o padre, agora com o nome de Mestre Zé, vai parar em um lugar que se chama Bruxa - ou “as Bruxa”, como eles dizem (p. 273). A comunidade de analfabetos, com exceção de Ti’Franco, que pelo menos aprendeu a assinar o nome, veste-se de forma simples: “Os meninos usavam apenas uns calções que iam só até abaixo do joelho. Já as meninas vestiam uma espécie de timão de pano ordinário, manga curta, a saia pelo meio das canelas”(p. 274). Os objetos necessários ao cotidiano expressam tão somente sua utilidade e não trazem marcas de fantasia ou de criatividade. Numa terra de poucos fusos e de raras fiandeiras (p. 281), o ferreiro tem medo do fogo e da forja, “alegando que lhe fazia mal aos bofes!”(p. 310). Naturalmente, livro, naquelas terras, “...ainda era mais escasso do que dinheiro”(p. 282). Como diz o padre, “não cultivavam nenhuma religião, só uma espécie de devoção grosseira” (p. 309). Um dos traços característicos da comunidade é o nome das pessoas: Cau, Rana, Vico, Zefe, Franco; isso é notado por Ti’Franco: “o povo de fora estranha muito quando escuta os nomes da gente...”(p. 284).
E que insólita comunidade é essa “das Bruxa”? Um dia, Ti’Franco convidou Mestre Zé para ir à sua casa, pois queria mostrar “a herança do Avô” e, “de um surrão de couro muito velho” (p. 282), retirou uns papéis velhos. Tudo escrito em alemão e em letras góticas; havia um caderno, também em gótico, com uma folha central, na qual, escritas em letras latinas e maiúsculas, de imprensa, como se abrissem um diário, liam-se estas cinco palavras:

FAZENDA PRÚSSIA - PROPRIETÁRIO: FRANZ WIRTZBICK (p. 283)

Outro papel Mestre Zé reconheceu como um documento oficial brasileiro. Nele, um Juiz de Direito mandava saber a Franz Wirtzbick que fora aberto o inventário de seu pai e que já haviam sido notificados os demais herdeiros. Esse documento tinha data de vinte anos antes do momento em que Mestre Zé o estava lendo. Em suma: o conjunto de documentos revelava que o lugar chamado Bruxa tinha mesmo o nome de Prússia (Fazenda Prússia) e que os nomes esquisitos, Zefe, Rana, Cau, eram, na verdade, Joseph, Hanna, Karl, etc., enquanto Franco, originalmente, era Franz. Mas ninguém sabia mais como era, conforme explica Ti’Franco; e Cau, Zefe, etc. “é como dá pra dizer na nossa língua” (p. 284). O fato é que “o português que falavam parecia até pior do que o saído da boca dos índios mansos ou dos negros de senzala” (p. 307), conforme observa Mestre Zé.
A situação do grupo construído por Rachel de Queiroz é exemplar. Sem que se tenha transmitido a língua do fundador da comunidade, seus descendentes perderam todo referencial de suas origens, a ponto de Prússia (Fazenda Prússia) ter-se transformado em Bruxa. Alteraram-se até os nomes dos indivíduos: Franz passou a Franco; Joseph, a Zefe, e assim por diante. Os documentos fundadores da comunidade tornaram-se ilegíveis e, por isso, incapazes de informar a verdadeira identidade daquele povo, chegando-se mesmo a desconhecer a herança deixada pelo avô Franz. Ignorando seus fundamentos históricos, o grupo sem arte, sem criatividade, sem vida espiritual, passa a viver limitado às necessidades do cotidiano, na luta pela sobrevivência. Em outras palavras: “as Bruxa”, esquecida de que seu nome é Prússia, perdeu seu passado e se limita a construir o presente do trabalho na roça e do artesanato pobre, sem qualquer ambição em relação ao futuro. Todavia, os documentos existem, guardados no velho e empoeirado surrão. Mas não despertam interesse de leitura e ninguém deseja aprender a decifrá-los. E os Caus, os Zefes, os Ranas continuam sem saber quem são, de quem descendem, por que e para que vivem.
A criação poética de Rachel de Queiroz guarda uma amarga verdade e impõe-se como uma advertência: a transmissão de uma memória histórica e cultural está intimamente ligada à construção do cidadão, que, reconhecendo seu passado, constrói um presente em perspectiva para o futuro, que será o legado das próximas gerações. Perdidos os elos com o passado, empobrece-se e amesquinha-se o presente e compromete-se o desenvolvimento de um povo. Como vimos, não é suficiente que os testemunhos documentais do passado estejam acondicionados em um velho e empoeirado surrão de couro. É necessário que se cultive a habilidade de decifrá-los e a competência indispensável para sua leitura crítica.
Não se trata, contudo, do gozo de lembrar o que caiu no esquecimento e tampouco da curiosidade de mostrar o desconhecido. Aproveitando-nos de lição de Heloísa Liberalli Bellotto, lembramos que os acervos documentais não se compõem de “‘preciosidades’ colecionadas aqui e ali” , a espera do garimpeiro de revelações estrondosas.

O pesquisador de arquivo, longe de ser um detetive vulgar, é o investigador que aprende a lidar com o particular, o incompleto, com o fragmentário; além da competência para estabelecer relações entre fatos e para realizar interpretações críticas, deve ser dotado da conveniência do silêncio diante da intimidade que pode comprometer a imagem de alguém ou de seus descendentes, sem qualquer contribuição histórica.
Por outro lado, esse estudioso deve estar sempre lembrado de que lida com materiais que são únicos e que resultam da travessia existencial de alguém que os produziu e/ ou os guardou. Para o pesquisador, a documentação é o testemunho de uma vida e de um tempo; portanto, no trato com as peças do acervo, deve cercar-se de cuidados para sua preservação, cuidados esses que vão desde a atenção no manuseio até evitar a solicitação de fotocópias desnecessárias, que, ao duplicarem os documentos, podem resultar em divulgação de assuntos ou traços pessoais que não podem ser banalizados.

Como pesquisadora de arquivo, herdei uma especial relação com o tempo. Se, por um lado, adquiri a noção da fugacidade das ações, por outro lado, aprendi que essa fugacidade é corrigida graças aos testemunhos documentais, e isso confere mais responsabilidade a cada ação executada. Dentro de um arquivo, o tempo adquire uma concreta dimensionalidade: nosso presente inicia-se no passado e projeta-se em perspectiva para o futuro. As ações do passado, reencontradas nos documentos, integram de modo essencial uma memória histórica e cultural, que vive de sua dinamicidade. No caso da área de Letras, aqueles que se dedicam ao estudo de acervos literários aprendem a lidar com fatos culturais e literários investigados em fontes primárias, evitando, assim, inferências nem sempre autorizadas pelo texto, mas que se justificam “pelos recheios de erudição”, como adverte o mestre José Aderaldo Castello.

No eloqüente silêncio dos arquivos e das coleções particulares estão nossas raízes e a herança de nossos avós. Percorrer os labirintos dos acervos é uma fascinante aventura intelectual e política. *

*Espero poder transmitir meu compromisso aos que de mim têm-se aproximado,

para aprender a andar nos labirintos dos acervos documentais.


Este texto foi, originalmente, uma conferência no
Programa de Pós-Graduação em Letras e Lingüística
UFBA
4 de março de 1998

Publicado

D. O. leitura, São Paulo IMESP, ano 22, n. 2, mar.-abr. 2004

© Copyright by Sônia van Dijck, 1998

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