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Poderia ter acontecido em Dublin

Sônia van Dijck

Para Vilani

Rapidamente, devorava ruas e esquinas. O jornal estava dobrado na página do anúncio com o endereço e falava em pensão familiar e era mais ou menos perto de onde estava hospedada.
Toc-toc-toc-toc, o salto estragado do sapato marcava o ritmo da marcha, das lembranças.

- Vai ter que dar certo, pois o se dinheiro acaba vou ter que voltar pra lá e agüentar risinhos naquela merda de salão de beleza fuleiro. Ninguém acreditou que tivesse coragem e aí é que quebraram a cara pois arrumei minhas coisas e nem disse “chau” a ninguém, tudo um bando de invejosas parideiras e mal amadas e se não estivesse solviscando poderia andar mais depressa e chegar antes de outra candidata, pois topo qualquer parada desde que saia daquele mundinho feio e pobre, e ser camareira em pensão familiar não deve ser tão ruim assim e com calma procuro coisa melhor em salão de beleza por aqui e peço para fazer um teste e mostro tudo que sei e até já me ofereci pra dona lá da pensão pra dar um tratamento no cabelo dela e a criatura desconfiada me olhou esquisito e disse que não é de luxo como se cuidar do cabelo fosse luxo, já o homem da banca de jornal, querendo saber se procuro emprego comprando jornal tão fresco na quase manhã, me disse que um dia desses vai cortar o cabelo comigo e é mesmo um cara muito espaçoso se pensa que vou cortar o cabelo dele de graça só por ele ter elogiado minha profissão dizendo que todo mundo precisa de cabeleireira pois ninguém pode deixar de cortar o cabelo.
- Olha por onde anda, sua idiota!
Quase atropelava o sujeito enrolado no cobertor na entrada do mercadinho do bairro.
Adiante, uma mulher estirou a mão e devia estar pedindo algum dinheiro, mas não dava para tomar conhecimento disso pois o seu estava ameaçando acabar e precisava encontrar logo serviço para ganhar algum e devia estar chegando pelo que dissera o polícia do sinal na outra esquina.



Lá estava: Pensão Flor da Montanha. O beco era pequeno e feio. Só uma meia dúzia de pequenos prédios encardidos. Em pleno centro da capital, colorido de soliandantes apressados, curvados na chuva que aumentara e, aos poucos, enxurralava o beco.
No lugar de “bom dia” ao sujeito amarrotado que abriu a grade da entrada foi logo dizendo: “Vim pelo anúncio de camareira”.
- É? mas veio cedo demais. Dona Lucineide ainda não se levantou. Você vai ter que esperar. E eu já estou quase de saída e você vai ter que falar com meu colega que deve estar chegando.
E o outro só disse: “Espere dona Lucineide descer; você fala com ela”.

Toc-toc-toc-toc e entendeu que dona Lucineide descia a escada. Lá fora, a manhã avançava em chuvipingos. Ficou em pé quando uma figura magra, cabelos curtos mechados de um louro encardido e unhas vermelhas, entrou na saleta da recepção.
- Você, quem é?
Viu o jornal e entendeu.
- Ah! sim. Você veio para limpar os quartos. Não é muito serviço, são só cinco quartos, porque ainda não tive grana para mandar terminar a suíte tal como quero pra oferecer uma opção diferenciada – sabe como é!... – pago o salário e você fica morando aqui, porque às vezes tem gente na madrugada e logo estão chegando outras pessoas. Suas refeições são por conta da casa e roupa lavada e você só tem que limpar e arrumar os quartos e fazer higiene rápida nos banheiros, mas isso é só quando ficarem desocupados porque nossos hóspedes não devem ser incomodados, você me entende.



Toctoc-toctoc-toctoc – o casal entrou na recepção. Ela, em quebranto de despedida, jogou um beijinho e desapareceu na rua chuvada. Ele encostou a barriga no balcão do caixa, para conferir a conta que Luizito lhe apresentou.
- Não abrimos aos domingos porque é meu dia de ir à missa e de descansar dessa maldita labuta, então você folga aos domingos depois que cuidar dos quartos e, como na segunda também não abrimos porque é dia de fazer compras, consertar alguma torneira ou chuveiro que esses vândalos quebram, você também ficará de folga desde que todos os quartos fiquem prontos para a terça pela manhã, pois os primeiros hóspedes começam a chegar lá pelas onze meia da manhã. Isso aqui é casa que tem ordem e não permito funcionária minha de conversinha com hóspede e muito menos criando encrenca com as meninas que freqüentam minha casa, pois não posso perder dinheiro por causa de rolo com empregado meu. Você já está empregada, se quiser. Tem um quarto depois da cozinha e só está precisando de uma arrumação, porque faz três dias que estou sem camareira (estou morta de cansada de limpar quartos e cuidar das coisas todas, porque não dá pra parar e desagradar os clientes das meninas), graças à idiota da Marluce que foi se meter com um maníaco imbecil e ainda não saiu do hospital e ninguém sabe quando vai sair, mas não quero ela de volta de modo algum, porque quem faz uma vez faz mil, por mais que eu tenha avisado para não procurar conversinha besta com os hóspedes ela foi parar na cama com um sádico e a coisa não foi pior porque Betinho ouviu os gritos dela aqui na recepção quer dizer que tive muita sorte e nem precisou chamar a polícia porque ela foi logo socorrida e Betinho disse ao resgate que foi um assalto e que lhe havia dado socorro quando ela ficou aí no beco, e isso foi logo na noite em que vou visitar minha mãe e, por isso, tenho certeza de que ela combinou com o calhorda, pensando que ia se dar bem. Você trouxe suas coisas?
- Não, senhora. Mas posso ir buscar, porque estou numa pensão logo aqui perto.
- Primeiro, limpe os quartos e dê uma higienizada nos banheiros. Não desperdice material de limpeza espero que saiba ser econômica e veja as bebidas dos quartos – Lourdes! meu café! – Pegue as chaves aí com Damião, ele é o segurança do dia, e se informe sobre onde fica o material de limpeza e a roupa de cama e banho.

Fez uma pausa, enquanto olhava a figura jovem e cheia de vida diante de si:
- Quantos anos você tem?
- Vinte e dois, senhora.
- Você tem futuro, se souber aproveitar a oportunidade que estou lhe dando. Como é seu nome?
- Nora, senhora.

Fotos: Sônia van Dijck e Ideraldo Barbosa de Sousa

Midi: Odeon (E. Nazareth)

Publicado em: O conto brasileiro hoje. São Paulo: RG Editores, 2007, v. 5, p. 113-115.

© Copyright by Sônia van Dijck, 2007

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