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Quasímodo perdeu a ternura

Sônia van Dijck

Para Aglaé, que bem conhece a origem deste texto

Claro que entrei no vagão errado, avaliei em um segundo. Dei de cara com o casal e os maus modos do sujeito. Mediano, corpulento, mãos fortes e calosas, rosto deformado e embrutecido, parecendo mais uma dessas imagens de retrato falado de algum maníaco. A primeira idéia que me ocorreu foi que ele era a cara de Quasímodo. Não o de Hugo, pois esse nunca foi mostrado em imagem, mas o do cinema: lábios grossos, nariz proeminente, a testa larga demais ou a cabeça acontecendo até a face, sei lá. Pele encardida ou suja, como saber? Cabelos crescidos e em desalinho. Olhos miúdos, parecendo muito próximos e inquietos. Sobrancelhas grossas e barba por fazer desde um par de dias. A omoplata esquerda apontando escandalosamente no agasalho ordinário. Creio que isso era o que o tornava mais grotesco: uma corcunda fora de prumo, pior do que um homem dromedário... Um esgar de ódio na boca, percorrendo a face.
Mas, senti, em sua companheira, falta da vitalidade de Esmeralda. Ela, em lugar da vassoura, que lhe atribuíam e que procurei encontrar ao conferir a cena, portava uma muleta. Ao contrário do porte viril, entrevisto sob o agasalho dele, a mulher estava envelhecida ou envilecida demais, além de lhe faltar um dos incisivos, o que lhe acentuava a decadência ao tentar falar de modo irônico ou agressivo.
Ele berrava imprecações em um francês cheio de argots do qual só consegui entender “putain”, “incapable” e mais “merde” e “merde” a cada meia dúzia de palavras.
E ela devolvia com outras tantas agressões, a julgar pelo tom canino da fala.
O vagão lotado às 10 e tanto da noite e eles permaneciam sentados nos assentos junto à porta, vomitando seu ódio, encurralados pelos demais passageiros, que não tinham alternativa para se acomodar. Por um instante, ele se calou; seu olhar havia registrado a bela jovem que acabava de entrar e ele se interessou em procurar-lhe as pernas; como encontrou botas de cano alto quase cobertas pela saia, retomou seu discurso.

Só em Montparnasse, o vagão aliviou sua carga e eu troquei de lugar. Na estação seguinte, o casal ficou numa ilha de vazio, e um outro casal que, inadvertidamente, entrou na porta errada resolveu se dirigir para o meio do trem.
Ela tentou prender a mecha de cabelo que teimava em cair sobre um olho e procurou recompor o casaco desbotado, fechando um dos botões e passando a mão na gola. A muleta estava segura entre as pernas.
Com espaço de sobra, o corcunda passou a esmurrar as portas e as hastes de metal, nas quais os passageiros em pé se seguram. Era só ele que acontecia no pequeno mundo de alguns metros de um vagão de metrô. Podia até mesmo andar de um lado ao outro no mínimo universo de seu reino estúpido.
Ela disse qualquer coisa, sem o olhar, pois havia encostado a testa na muleta, e entendi a resposta “vagabonde”, acompanhada de um murro na porta.

O metrô chegou a minha estação. Não me dirigi à saída. Preferi contemplar, pela última vez, a cena: ela, desalinhada, com seus cabelos de um louro falso, agora bradava de dedo em riste em direção ao corcunda de pé – não pude conter o riso ao ler em seus lábios “impuissant”.
O trem partiu.
Azar do corcunda. Deve ter sido difícil para um sujeito acusado de “impotente” encontrar uma boa resposta.

Paris, 12-11-2006 – João Pessoa, 21-02-2007

Imagens capturadas na internet

Midi: Sous le ciel de Paris (Jean Dréjac et Hubert Giraud)

Publicado em: O conto brasileiro hoje. São Paulo: RG Editores, 2007, v. 4, p. 99-101

© Copyright by Sônia van Dijck, 2007

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