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UMA JANELA DE

 

BOTEQUIM

 

 

Sônia van Dijck

O mais novo romance de

Cunha de Leiradella

 

Apenas questão

de gosto

 

Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2005.

 

lcm@lcm.com.br

Capa: Paulo Vermelho

Eis que Eduardo da Cunha Júnior está de volta. Talvez não seja certo dizer “está de volta”. Ele está sempre nas páginas de Cunha de Leiradella. Explico. Eduardo da Cunha Júnior é aquele que morreu no Caraça, não se sabe bem se morreu no Caraça, e esse fato nem é muito certo para ele, conforme não chegou a saber com certeza se morreu ou não no Caraça, e nem nós e nem os habitantes de Os espelhos de Lacan (2004) podemos ter qualquer certeza. Desde que apareceu em O longo tempo de Eduardo da Cunha Júnior (1987), Eduardo da Cunha Júnior já foi gerente de hotel; foi dramaturgo sem muito sucesso e nem era bom no bilhar; fez curso por correspondência e passou a ganhar a vida consertando aparelhos elétricos, até que um tiro encerrou sua carreira de técnico em eletrodomésticos; voltou a Portugal, para reencontrar um grande amor. Mas, tudo isso foi antes de Apenas questão de gosto (2005), onde ele volta na pele de detetive.
Para entender Eduardo da Cunha Júnior, recorro a Northrop Frye (1973, p. 185):

O elemento essencial da trama, na estória romanesca, é a aventura, o que significa que a estória romanesca é naturalmente uma forma consecutiva e progressiva; por isso a conhecemos melhor na ficção do que no drama. Em seu ponto mais ingênuo é uma forma sem fim, na qual um protagonista que nunca se desenvolve ou envelhece passa de uma aventura a outra, até que o próprio autor desanima.

Trata-se, então do herói romanesco que vive na obra de Cunha de Leiradella. Apesar da citação acima, não pretendo ler Apenas questão de gosto como atualização do Mythos do Verão, segundo a formulação de Frye.
É fato que Eduardo é um homem comum, parecido com milhões de homens comuns, mergulhados todos na banalidade do cotidiano, com suas demandas, angústias e desejos. Na aventura de Eduardo, não há traços de nostalgia, de “busca de algum tipo de idade de ouro imaginativa no tempo e no espaço.” (FRYE, 1973, p. 185).
De envolvido no esquema de propina do jogo de bicho, passando para caçador de animais de estimação, no Flamengo, ele se tornou um detetive, que se traveste de jornalista entendido em cinema, a pedido de uma cliente, Raiolinda, que quer saber com quem o marido a está traindo. Além do pagamento, concluída a investigação, o detetive pretende ganhar favores sexuais da cliente.
O acontecido é narrado por Eduardo, que, em 1985, foi do Rio de Janeiro para Caxambu (Minas Gerais), para dar conta da empreitada.
O narrador começa dizendo: “Meu velho pai tinha razão. Mais vale um ovo no saco do que dois no cemitério.” Só se deixando levar pelas primeiras páginas, o leitor vai perceber que textos de várias naturezas, com inversões e modificações ou não, fazem a fonte do discurso do narrador. O “velho pai Eduardo da Micas do Ferreiro”, citado na abertura do discurso, assim como “o velho Abílio Quitandeiro, vascaíno roxo e meu [seu] falecido tio e padrinho” e a professora “D. Maricota, aquela admiradora fissurada das duzentas mil páginas de A Retirada da Laguna” repetem-se ao longo do discurso, sempre mencionados como comentários dos fatos ou como justificativas ou explicações das ações de Eduardo. A essas figuras é atribuída uma sabedoria de frases feitas ou de transformação das formas simples, de obviedades, sabedoria essa que é orientadora dos passos de Eduardo. O velho pai, o tio e padrinho e a professora são um só elemento na relação com o narratário e podem ser vistos como leitmotiv do discurso do narrador, pois sua repetição constante implica a informação tanto da construção do discurso do narrador como sublinha o caráter farsesco do detetive Eduardo.
Eduardo, em seguida à citação do velho pai, descreve seu escritório e ao mesmo tempo se apresenta, mostrando nada ter do charme que cerca essa figura nas histórias do gênero:

Nem eu nem meu escritório nos podemos comparar à Hollywood Detectives Corp., pilotis no 1009º andar do Lyingly Building, Hollywood Boulevard, Los Angeles, Califórnia. Eu não fanho inglês como se entupisse três narizes e o meu estaminé também não tem duzentas e dez louras peitudas abrindo sorrisos e decotes nas mesas da Recepção, nem carpetes e quadros nas salas e nos corredores, frigobares disfarçando câmaras de vídeo embutidas nas paredes ou ar-condicionado central e outros arrebites me engana que eu gosto. (p. 9)

Apresentando-se, o narrador cuida de nos dar o perfil do “velho pai”, pois fará, logo em seguida, uma segunda citação de suas lições, sublinhando o tom do discurso narrativo:

Como muito bem dizia meu velho pai, um português perdido no bairro do Cubango, em Niterói-antes-da-ponte, que chegou ao Brasil no vácuo de uns tais de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, jóqueis de um teco-teco que ganhou o Sweepstake das Gaivotas por três bicos e duas asas, nesta terra abençoada por Deus, quem rouba uma galinha é ladrão, quem rouba um galinheiro vira deputado. Ou senador. (p. 9)

O detetive Eduardo não tem um escritório propriamente, mas um “estaminé”, pois foi tomado um empréstimo do francês estaminet – “botequim”, assim como jamais, que na fala de Eduardo se realiza como “jamé”, moi passa a ser “moá” e embeurré (embeurrer = passar manteiga, amanteigar) que deve ter sotaque de detetive carioca para dizer embeurrés d’escargots, tanto quanto forfait passa a nome de família de cineasta deslumbrado: Zózimo Forfait (sem deixar de remeter a conhecido colunista social).
A trama policial não é novidade na obra de Leiradella. Em Apenas questão de método (2000), a investigação é marcada por encontros e desencontros, situações inusitadas, que, graças à ironia, iluminam a condição humana. Em Apenas questão de gosto, Eduardo tende ao burlesco, e sua aventura acumula equívocos, situações ridículas, forjamentos, desencontros, invenção de palavras (tridiota, verdadeirizar, porrilhão, por exemplo). Se nem mesmo o discurso narrativo de Eduardo é inteiramente seu, pois se faz de outros textos, o relatório final da investigação só precisa apresentar fatos que satisfaçam a todos, para que o detetive seja bem pago.
A breve aventura de Eduardo dura cerca de uma semana, somando-se o tempo vivido em seu antiescritório de detetive e em Caxambu, palco da investigação. Para situar o tempo da história, o narrador toma a eleição de Tancredo Neves para a Presidência: 1985. Essa marca vai lhe permitir voltar no tempo ou contemplar seu presente, tecendo comentários críticos e muitas vezes irônicos acerca de fatos e de figuras históricas, como, por exemplo em:

Dizem que o que mais agoniou o vice-presidente Pedro Aleixo não foi a Junta Militar ter impedido que ele assumisse a Presidência da República, vaga com o afastamento do marechal Costa e Silva, foi a pergunta do porteiro do Palácio do Jaburu: E agora, doutor, o quê que eu faço com o correio? O senhor vem apanhar ou eu mando de volta aos remetentes? (p. 29)

O romance se constrói de diálogos sempre interrompidos pelos comentários de Eduardo, citando ou não seu velho pai, seu tio e padrinho, a professora “admiradora fissurada das duzentas mil páginas de A Retirada da Laguna” e, ocasionalmente, sua mãe, trazendo acontecimentos do passado ou do presente da aventura, e até da contemporaneidade da escritura do romance, graças a um slogan dos militantes de um partido político que não poderia ser esquecido pelo autor: “pt, saudações.”
O discurso do narrador, sem ligação imediata com os fatos que geram os diálogos, instaura um jogo que poderia mergulhar no non sense, caso não ficasse estabelecida uma cumplicidade com o leitor, graças ao pacto com o narratário, que tem conhecimento da farsa que está sendo desenvolvida e que lê os comentários de Eduardo mais como uma crítica aos decadentes valores ocidentais, aos vícios da política brasileira, aos comportamentos de algumas figuras históricas, outras ligadas ao cinema ou ao futebol, por exemplo, até chegar ao próximo diálogo que revela o avanço da aventura.
Trazendo para a história a imitação do texto bíblico (epístolas de Paulo), o pastiche de um juramento profissional, e empregando calão, palavrão, gírias, expressões em línguas estrangeiras, citando frases em latim, o discurso do narrador recorre com freqüência à sinédoque, permitindo a compreensão simultânea de várias situações, como ensina Massaud Moisés (1974, p. 478). Assim é que para falar das formas atraentes e da aparência requintada da ricaça que contrata seus serviços, Eduardo passa a chamá-la “Chanel” ou a ela se referir como “nº 5” ou inverte fazendo “nº 5 do Chanel”: “O Chanel tirou a tampa do frasco e, na maior complacência, adubou o vamos ver da minha flor de laranjeira.” (p. 11) - “e mostrar que nos cem dólares diários que o nº 5 do Chanel me pagava”. (p. 79). Para outras características que ele julga que sejam do perfil de Raiolinda, elabora outras sinédoques: “por que é que eu não poderia vencer também as quizilices de uma simples Lassie, mesmo estofada e perfumada à la Nunca Fui Santa?” (p. 32). Considerando a complexidade da criação desse “Chanel nº 5” em relação a Raiolinda, vale a pena aprofundarmos a leitura. Pelos seus significados, a expressão guarda um sentido metafórico na medida que prevalece a lembrança de Marilyn Monroe, que, conforme uma das muitas histórias a seu respeito, ao ser perguntada como se vestia para dormir, teria respondido que “apenas com algumas gostas de Chanel n. 5” – sou capaz de assegurar que Eduardo da Cunha Júnior é um dos aficcionados cultores dessa resposta, a ponto de instaurar o perfume como metonímia de Monroe. Ele cria mesmo uma combinação que resulta em “Lassie de Chanel”, referindo-se à mesma Raiolinda.
Mas, voltando à sinédoque, em outras ocasiões, para se referir a políticos brasileiros, por exemplo, ele recorre a essa figura de linguagem para a síntese crítica: “Tancredo de Almeida Neves, cavaleiro da Távola Sempre-Em-Cima-Do-Muro” – “Paulo Salim Maluf, cavaleiro da Távola Do-Lado-Mais-Direito-Do-Muro”.
Acontece que Leiradella, premiado polígrafo, se renova, renovando sua narrativa e confirmando seu projeto poético, a cada obra que nos oferece. Na apresentação de Apenas questão de gosto, ressalta a jornalista Berta Carvalho (2005), a quem, aliás, é dedicado o livro:

Na sua literatura, Leiradella busca, acima de tudo, a verdade que se encontra ao desvendar os porquês e as causas que determinam os actos de cada um. E como nunca, ou muito raramente, encontra essa verdade, diz-nos que vive como vivem as suas personagens: mergulhado na angústia, incapaz de comunicar, a odiar a sujeição. E a invejar aqueles que acreditam. Seja no que for.
Talvez devido a todas estas impossibilidades, a ironia, o sarcasmo e até a ferocidade da sátira sejam a marca registrada dos seus romances Apenas Questão de Método e Apenas Questão de Gosto. E o detective Eduardo da Cunha Júnior seja uma das suas maiores criações.

Em Os espelhos de Lacan, Leiradella construiu um romance como hipertexto ou caleidoscópio, que pode ser lido em qualquer ordem, uma vez que um texto remete ao outro, que está logo ali à espera do leitor, sendo suficiente virar algumas páginas, pouco importando a cronologia da história. Agora, o que temos, em rigorosa ordem cronológica da aventura, é um hipertexto que se instaura como máquina devoradora de textos (hipotextos, como ensina Gérard Genette, 1982). Dentro de um regime lúdico, com forte compromisso satírico, a obra de Leiradella lança mão de procedimentos de transformação e de imitação de textos, que vão do parodístico e chegam à charge, sem contudo evitar a citação ou a alusão, como práticas intertextuais (GENETTE, 1982)
Na verdade, Eduardo da Cunha Júnior, no papel de narrador de sua aventura detetivesca, promove uma verdadeira devastação em discursos consagrados, seja pela tradição religiosa, seja pela pose acadêmica, seja pela empáfia política, seja pela vaidade científica, seja pelo emprego abusivo de estrangeirismos, seja pelo uso popular consagrante. Graças ao primarismo pragmático da sabedoria cunhada como popular de seu pai, de seu tio e padrinho e de sua professora, Eduardo faz tábula rasa dos ícones da cultura ocidental e da História, incluindo-se aí tanto ídolos do cinema ou do esporte, como pensadores e políticos brasileiros e estrangeiros e mais um imenso número de personalidades, de realizadores e de tipos que informam a sociedade judaico-cristã ocidental. Prolixo ou pretensamente enciclopedista, Eduardo narrador costura fragmentos relativos ao cinema com outros do campo da filosofia ou da ciência política, sem se esquecer de alguns palavrões, gírias e formas populares, ao tempo em que fragmenta a travessia de boa parcela da humanidade, enquanto devora alguns uísques bem “cubados” (uma das formas da linguagem de Eduardo: “e outro Ballantine’s bem cubado”), e se prepara para mais uma performance sexual, sem perder de vista a investigação que lhe foi encomendada, pretendendo ser recompensado levando a cliente “Chanel nº 5” para a cama, e assim explica algum episódio realizado no diálogo anterior a seu discurso ou anuncia o próximo lance da aventura. Eduardo se faz devoto de uma extensa hagiografia e invoca anjos de incontáveis legiões e usa repetidamente um certo “campanário das urtigas” como eufemismo para um termo chulo, como em: “mandei o pensamento marcar passo no campanário das urtigas”.
Se a sabedoria dos sempre citados pai, tio e padrinho e da professora soa falsa como uma nota de 3 dólares (a investigação deve ser paga em dólares), seu mestre que o prepara para que pareça entendido em cinema não passa de um esperto contraventor.
No conjunto de sua obra, Leiradella constrói uma narrativa consecutiva e progressiva, sempre vivida por essa personagem sem rosto, que não envelhece e que passa de uma aventura a outra. Neste seu recente livro, o autor mergulha no gênero para, em um processo de desconstrução, que atravessa o conjunto da obra, subverter o próprio discurso narrativo e implodir o romance. Seu herói romanesco, ostentando com propriedade o figurino de anti-herói, é tão escrachadamente farsesco que seu relatório de investigação é absolutamente falso. De seu caráter, deriva sua atitude crítica em relação aos homens e ao mundo. Ou, quem sabe, sua atitude crítica em relação aos homens e ao mundo terminou por forjar seu caráter?
Temos, neste romance, mais um caleidoscópio da raça humana que, se está presente n’Os espelhos de Lacan, aqui se mostra em novas possibilidades de combinação: fragmentos da trajetória da humanidade, que, reunidos para a contemplação graças ao discurso do narrador, que também se articula de fragmentos, revelam a grande farsa ou, no extremo, a fatuidade da trajetória humana.
Portanto, a hipertextualidade e a configuração fragmentada não são, na obra de Leiradella, finalidades em si mesmas. São muito mais instrumentos a serviço de uma poética que se instaura em permanente tensão dialógica ou polifônica e que se alimenta da contemplação crítica da condição humana.
Mantendo uma fatura cômico-séria, Apenas questão de gosto revela que a personagem habita um mundo cuja unidade épica está, irremediavelmente, quebrada. A Eduardo, restam a ironia e a sátira menipéica, uma cosmovisão carnavalesca (BAKHTIN, 1981).
O leitor tem a oportunidade de tomar Apenas questão de gosto como a janela de algum “estaminé” situado no alto de qualquer edifício de cidade grande, da qual pode contemplar as conquistas, vitórias, derrotas, progressos, crimes e mais uma infinidade de atos grandiosos e outros mesquinhos que fazem a História e que deságuam na avenida de nosso tempo, fazendo-nos a imagem e semelhança da multidão que escorre no asfalto. Tal como Eduardo da Cunha Júnior, é bom ter por perto uma garrafa de seu uísque preferido e uns cubos de gelo - pode ser que faça um calor infernal.

Publicado em Castelo de Lanhoso, Póvoa de Lanhoso, 12 fev. 2006. Opinião.

Cunha de Leiradella, em Póvoa de Lanhoso

Foto: Berta Carvalho, 2005

REFERÊNCIAS

BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. Trad. Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1981.

CARVALHO, Berta. Texto da “orelha”. In: CUNHA DE LEIRADELLA. Apenas questão de gosto. Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2005.

CUNHA DE LEIRADELLA. Apenas questão de gosto. Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2005.

FRYE, Northrop. Anatomia da crítica. Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Cultrix, 1973.

GENETTE, Gérard. Palimpsestes. La littérature au second degré. Paris: Seuil, 1982. (Poétique).

MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 1974.

© Copyright by Sônia van Dijck, out. 2006

 

Midi: Maio (Zeca Afonso)

Leia sobre Os espelhos de Lacan
Leia texto de Cunha de Leiradella
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