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Capa: Foto Clara Lenira

João Pessoa: Edições FUNESC, 1995

Retalhos de Amizades

Correspondência passiva de José Lins do Rego

 

Sônia Maria van Dijck Lima
Lauro Meller
Leonardo Nogueira
Maria do Socorro Barbosa Araújo
Raimunda Zoraide Dantas Martins

Colaboradores
Eduardo Henrique Cirilo Valones
Maria Elizabeth P. Souto Maior
Maria José Leite Cavalcanti
Regivaldo Batista Monteiro

Projeto ATELIÊ DE JOSÉ LINS DO REGO

Série: Correspondência passiva - Subsérie: Diversos remetentes - Código do projeto: AJLR - Código dos documentos: CP-DR

Retalhos de Amizades (catálogo) - Índices: REMETENTES - OBRAS DE JLR MENCIONADAS - Outros catálogos

 

Agradecemos a
Edson Almeida de Macedo, restaurador,
Consultor Técnico do "Ateliê de José Lins do Rego", pelo companheirismo e pela competente orientação,
todos aqueles que de alguma forma colaboraram com nosso trabalho
e ao CNPq, pelas bolsas concedidas.


DOCUMENTOS E IDENTIDADE NACIONAL

Sônia Maria van Dijck Lima

Sabe-se que a preocupação com a memória nacional, através da conservação de seus testemunhos, não faz parte da tradição de nosso comportamento cultural. Contam-se como exceções algumas instituições que se preocupam com a preservação e o estudo de acervos históricos. Portanto, não vamos aqui permanecer na constatação daquilo que é por todos sabido.
Vejamos uma história ilustrativa, colhida em Rachel de Queiroz, em seu Memorial de Maria Moura 1.
Trata-se de uma experiência que nos é relatada pelo padre do romance. A certa altura de sua aventura, o padre, agora com o nome de Mestre Zé, vai parar em um lugar que se chama Bruxa - ou "as Bruxa", como eles dizem (p. 273). A comunidade de analfabetos, com exceção de Ti'Franco, que pelo menos aprendeu a assinar o nome, veste-se de forma simples: "Os meninos usavam apenas uns calções, que iam só até abaixo do joelho. Já as meninas vestiam uma espécie de timão de pano ordinário, manga curta, a saia pelo meio das canelas" (p. 274). Os objetos necessários ao cotidiano expressam apenas sua utilidade e não trazem marcas de fantasia ou criatividade. Numa terra de poucos fusos e raras fiandeiras (p. 281), o ferreiro tem medo do fogo e da forja, "alegando que lhe fazia mal aos bofes!" (p.310). Naturalmente, livro, naquelas terras, "...ainda era mais escasso do que dinheiro" (p.282). Como diz o padre, "não cultivavam nenhuma religião, só uma espécie de devoção grosseira" (p. 309).
Um dos traços característicos da comunidade são os nomes das pessoas: Cau, Rana, Viço, Zefe, Franco; isso é notado por Ti'Franco: "o povo de fora estranha muito quando escuta os nomes da gente..." (p. 284).
E que insólita comunidade é essa "das Bruxa"? Um dia Ti'Franco convida Mestre Zé para ir a sua casa, pois queria mostrar "a herança do Avô" e "de um surrão de couro muito velho" (p. 282) retirou uns papéis velhos. Tudo escrito em alemão e em letras góticas; havia um caderno, também em gótico, com uma folha central, na qual, "escritas em letras latinas e maiúsculas, de imprensa, como se abrissem um diário, liam-se estas cinco palavras:

FAZENDA PRÚSSIA - PROPRIETÁRIO: FRANZ WIRTZBICK (p. 283)

Outro papel Mestre Zé reconheceu como um documento oficial brasileiro. Nele, um Juiz de Direito mandava saber a Franz Wirtzbick que fora aberto o inventário de seu pai e que já haviam sido notificados os demais herdeiros... Esse documento tinha data de vinte anos antes do momento em que Mestre Zé o estava lendo.
Em suma: o conjunto de documentos revelava que o lugar chamado Bruxa tinha mesmo o nome de Prússia (Fazenda Prússia) e que os nomes esquisitos, Zefe, Rana, Cau, eram, na verdade, Joseph, Hanna, Karl, etc-, enquanto Franco, originalmente, era Franz. Mas ninguém sabia mais como era, conforme explica Ti'Franco; e Cau, Zefe, etc. "é como dá pra dizer na nossa língua" (p. 284). O fato é que "o português que falavam parecia até pior do que o saído da boca dos índios mansos ou dos negros de senzala" (p. 307), como observa Mestre Zé.

A experiência da comunidade construída por Rachel .de Queiroz parece ilustrativa. Sem que se tenha transmitido a língua do fundador da comunidade, seus descendentes perderam todo referencial de suas origens a ponto de Prússia (Fazenda Prússia) ter-se transformado em Bruxa. Alteraram-se até os nomes dos indivíduos: Franz passou a Franco, Joseph a Zefe e assim por diante.
Os documentos fundadores da comunidade tornaram-se ilegíveis e por isso incapazes de informar a verdadeira identidade daquele povo, chegando-se mesmo a desconhecer a herança deixada pelo avô Franz.
Ignorando seus fundamentos históricos, a comunidade sem arte, sem criatividade, sem vida espiritual, passa a viver limitada às necessidades do cotidiano na luta pela sobrevivência.
"As Bruxa", esquecida de que seu nome é Prússia, perde seu passado e se limita a construir o presente do trabalho na roça e do artesanato pobre, sem qualquer ambição em relação ao futuro.
Por outro lado, os documentos existem, guardados no velho e empoeirado surrão. Mas não despertam interesse de leitura e ninguém deseja aprender a decifrá-los.
E os Caus, os Zefes, os Ranas continuam sem saber quem são e de quem descendem.

A exemplaridade da narrativa de Rachel de Queiroz impõe-se como uma advertência: a transmissão de uma memória histórica e cultural está intimamente ligada à construção do cidadão, que, reconhecendo seu passado, constrói um presente em perspectiva para o futuro, que será o legado das gerações vindouras. Perdidos os elos com o passado, empobrece-se e amesquinha-se o presente e compromete-se o desenvolvimento de um povo.

Instrumento fundamental nesse processo de construção de uma cidadania com base em uma identidade histórica e cultural é o domínio de uma língua nacional, enquanto instrumento tanto de reconhecimento do passado como de construção de um futuro vivido desde o presente.

Mas não é suficiente que os testemunhos documentais do passado estejam acondicionados em um velho e empoeirado surrão de couro. É necessário que se cultive a habilidade de decifrá-los e a competência indispensável para sua leitura critica.

Voltando ao início deste texto, foi por não pretender permanecer "na constatação daquilo que é por todos sabido" que desenvolvemos o projeto "Ateliê de José Lins do Rego". Desde 1988*, o projeto tem convivido com as diversas administrações da Fundação Espaço Cultural da Paraíba, que detém a guarda dos documentos do arquivo de José Lins do Rego, e com as direções do Museu José Lins do Rego, no qual estão depositados os papéis.
Vale salientar que o Museu está localizado no sub-solo do edifício e pode ser descrito, sem preocupações com os rigores da arquitetura, como uma caixa com três lados de concreto aparente e uma parede de vidro que lhe serve de fachada, com uma porta de entrada; o sistema de refrigeração é precário, marcado por longos períodos de não funcionamento, e intermitente, pois, quando a máquina não está com defeito, é sempre desligado no final do expediente; este é o ambiente onde repousam os papéis do autor de Usina.

O projeto "Ateliê" abriu o "surrão de couro", sacudiu a poeira, sempre lutando contra o mofo, e vem tentando formar em novos pesquisadores a habilidade de ler criticamente os vetustos papéis*. Os resultados do trabalho podem ser avaliados a partir dos instrumentos de pesquisa preparados pela equipe do projeto. Este que agora oferecemos aos estudiosos reúne retalhos das relações pessoais e profissionais de José Lins do Rego, organizados na forma de catálogo de sua correspondência passiva assinada por diversos remetentes.

________________________
NOTAS
1 - São Paulo: Siciliano, 1992.
* Nota para esta página na web: o projeto “Ateliê de José Lins do Rego” foi, formalmente, encerrado em maio de 2001. Desde então, não sabemos quais as condições de conservação do Arquivo JLR, mas temos esperança de que tenham melhorado significativamente, em benefício dos documentos.

© Copyright by Sônia Maria van Dijck Lima, 1995

*****

CORRESPONDÊNCIA PASSIVA DE JOSÉ LINS DO REGO

Lauro Meller

Dentre as várias atividades desenvolvidas pelo projeto "Ateliê de José Lins do Rego", coordenado pela Profa. Dra. Sônia Maria van Dijck Lima, está a catalogação da correspondência passiva do titular do acervo. Esses documentos, para efeito de sistematização, foram divididos em subséries, sendo a subsérie DIVERSOS REMETENTES o objeto deste estudo.

José Lins do Rego teve uma vida bastante movimentada em matéria de correspondência. Travou contato com muitos colegas escritores, tradutores de suas obras, editores, amigos, enfim. Esses, que foram documentados por carta, nos proporcionam um material de pesquisa que dá margem a um melhor conhecimento do homem José Lins do Rego, bem como da realidade social e política de sua época. Até a feitura de obras de alguns colegas foram abordadas em missivas recebidas pelo autor de Menino de engenho.

Lins correspondeu-se com estrangeiros da França, de Portugal, dos Estados Unidos, e, principalmente, recebeu cartas de diversos escritores e tradutores de paises sul-americanos, em especial da Argentina e do Chile, onde mantinha contatos para publicação de suas obras com editores locais.

Alguns desses documentos, embora escritos numa linguagem de cunho pessoal, tratam da obra de JLR. É o caso da carta enviada pelo tradutor americano Anderson Weaver (CP-DR-81) l, em 1933, em que informa já ter revisto várias vezes a tradução de Menino de engenho (Sonny-boy of a Brazilian sugar-mill), dizendo-se interessado em enviá-la para diversos editores americanos. Na verdade, é provável que essa tradução não tenha sido publicada, uma vez que a informação conhecida é a de que aquela obra só seria lançada, nos EUA, em 1966, numa edição conjunta dos romances Menino de engenho, Doidinho e Bangüê, traduzidos por Emmi Baum.

Também num estilo informal se enquadra a missiva enviada, em 1942, pelo escritor Bernardo Kordon (CP-DR-34), encarregado de passar para o castelhano a obra Pedra Bonita (Piedra Bonita). Nessa ocasião, diz já se encontrar a referida tradução em poder da Empresa Editora Zig-Zag S.A. Comunica ainda o interesse do editor Gregorio Schuartz, com o qual mantivera contato, em publicar as obras do "Ciclo da cana-de-açúcar". A esse propósito, informa estar empenhado na tradução de Menino de engenho para o castelhano. Esses contatos, parece-nos, não foram profícuos no campo editorial, uma vez que a edição argentina de Menino de engenho (Nino dei ingenio) sairia somente em 1946, por uma outra editora (Emecé, de Buenos Aires) e por um outro tradutor (Raul Navarro).

Sobre o primeiro romance de JLR, há no acervo uma carta que se ocupa da publicação da tradução francesa dessa obra. Esse documento (CP-DR-66), enviado de Paris, data de 7 de agosto de 1952 e foi escrito em português. Robert, que assina a carta, não pôde ter seu nome de família decifrado.

Ainda a respeito de edições francesas de JLR, citemos a carta de J. W. Reims (CP-DR-64), enviada em 22 de agosto de 1952. Informa a remessa da já publicada tradução francesa de um dos romances de JLR, sem especificar qual deles. Contudo, não podemos afirmar, categoricamente, que tal romance seria Menino de engenho, o que estabeleceria um elo com a carta de Robert.

O próprio Reims escreve novamente a JLR (CP-DR-65) , em 4 de setembro daquele mesmo ano, tratando de problemas de uma tradução francesa de JLR, apontando a possibilidade de Blaise Cendrars prefaciar a obra. A informação conhecida é que J. W. Reims traduziu para o francês a obra Menino de engenho (L'enfant de la plantation) , em 1953, e Cendrars de fato prefaciou essa edição.

Um outro remetente, Eefriede Kant (CP-DR-33), informa ter traduzido Eurídice e solicita remessa de Fogo morto, a fim de conhecê-lo. Aproveita para comunicar a JLR, num português formal, que seu "ciclo" seria impresso na Holanda.

Além desses documentos, enviados por amigos e intelectuais, temos cartas enviadas diretamente das editoras, através de seus gerentes, e que tratam de direitos de tradução e publicação das obras de JLR. É o caso da carta enviada pelo Director dei Departamento Editorial da Empresa Editora Zig-Zag S.A. (CP-DR-21), de Santiago do Chile. Neste documento, escrito em 6 de setembro de 1941, pede-se urgência a JLR para que sejam enviados os papéis necessários à publicação de uma obra sua, não mencionada. A única informação concreta de que dispomos, ao lermos a carta, é que a obra em questão fora traduzida por Bernardo Kordon. Cruzando dados com a missiva enviada por Kordon (CP-DR-34) em 9 de janeiro de 1942, deduzimos que se trata do romance Pedra Bonita.

O Director-gerente da Emecé Editores S.A. (CP-DR-22), de Buenos Aires, também se dirigiu a JLR, em 10 de março de 1943, para tratar dos direitos de publicação, em espanhol, de Menino de engenho.

Temos, assim, vários documentos que tratam das obras de JLR em diversas línguas. Contudo, um documento de teor incomum é aquele de um certo Eduardo (CP-DR-23), escrito em língua espanhola. Na carta enviada de Buenos Aires, em 9 de fevereiro de 1945, além de exaltar a qualidade literária das obras de JLR, trata de um livro seu, Todo verdor, a ser traduzido por José Lins do Rego. É o que se apreende, sem ambigüidades, na seguinte passagem: " ... No sabe usted cuánto me alegra y me honra Ia idea de que ustea vá a traducir y prologar un libro mio..."2. Infelizmente, não dispomos de documentos comprobatórios do êxito desse projeto.

Em relação às cartas remetidas por correspondentes brasileiros, trata-se de um farto material, que nos permite até apontar nomes célebres, como José Américo de Almeida, Yan de Almeida Prado, Graciliano Ramos, Cyro dos Anjos, Aurélio Buarque de Holanda, António Houaiss, Alceu Amoroso Lima, Vianna Moog e Érico Veríssimo, entre outros.

José Américo de Almeida (CP-DR-2), por exemplo, refere-se em carta remetida a JLR em 20 de junho de 1925, ao trabalho de elaboração de A bagaceira: " Tenho remoído A Bagaceira, para escrevê-lo de uma assentada, por todo o mês de julho. Arredarei, para isso, outra qualquer preocupação." 3

Graciliano Ramos (CP-DR-62) confessa-se sem estímulo para dar continuidade a um romance de sua autoria, Angústia, então em fase de escritura: " Ando muito devagar, nem sei se chegarei ao fim. Um capítulo por mês, dois, não termino a história não, Zelins. Ainda não nasceu e já está de cabelos brancos." Curiosamente, Valdemar Cavalcanti (CP-DR-lb) confirma essa preocupação do autor de Caetés: "Graciliano sempre desanimado com o Angústia e com a literatura soviética.".

A vida cotidiana no Brasil da época é também assunto em pauta nesses documentos. Yan de Almeida Prado (CP-DR-59) escreve de São Paulo, em 21 de julho de 1933, elogiando a obra de JLR, mas reclamando da dificuldade em adquirirem-se os romances do paraibano nas livrarias.

O panorama político daqueles tempos é discutido nas cartas, dando-nos a exata medida dos acontecimentos por quem os viveu. Graciliano Ramos (CP-DR-62), em carta redigida em 14 de ;unho de 1935, alude às rivalidades políticas em Alagoas: "Continua a ferver a política. Sempre o mesmo jogo, ninguém se entende." ; Valdemar Cavalcanti (CP-DR-16), por sua vez, diz que visitara Maceió, e condena a violência da policia local: " Um Maceió morto, o que eu conheci agora. Um cadáver que a polícia quer fazer nadar em sangue com as suas atitudes violentas."

No entanto, as considerações políticas não se limitam ao contexto brasileiro. Exemplo disso é a missiva enviada por um certo Falcão (CP-DR-25) 4, em 1955, residente em Nova Delhi (Índia), na época. Nessa ocasião, o remetente comenta a situação sócio-político-econômica na Ásia, e se permite dizer que "ainda assistiremos ao levantamento dessas gentes 'morenas' ". Mais adiante, demonstra insatisfação quanto aos candidatos a presidente da República, no Brasil, preferindo nomes como Octávio Mangabeira e Juarez Távora.

Fatos curiosos também vêm à tona: o Dr. João Rosenfeld (CP-DR-67), por exemplo, fala, em missiva datada de 8 de julho de 1946, de um livro de José Lins do Rego intitulado Cerca viva. Teria essa obra sido esquecida na gaveta? O fato é que, até o presente momento, não se tem conhecimento de tal obra.

Muitas facetas pessoais surgem com a leitura desses documentos. Um José Lins preguiçoso para escrever é-nos revelado na carta em que Cícero Dias (CP-DR-20) reclama da negligência do amigo em responder suas cartas. O trecho em que o artista plástico faz esse comentário é bastante irônico: " José Lins, até agora não tenho uma só carta sua. De bordo, radiografei, e nada; antes do Rio escrevi, e nada; de Recife, escrevi, e nada de resposta. Pelo visto você agora forma no partido do Amado, no partido do requinte, do bom tom, da nuance. É o cúmulo isto! "

Outras cartas são testemunhos de momentos difíceis nas relações de amizade de JLR. Lauro Escorel (CP-DR-24) envia uma carta ao escritor paraibano, num tom sóbrio, rechaçando as críticas que Lins lhe havia endereçado em artigo publicado n'O Globo. Tudo nos leva a crer que tal relação não foi adiante.

Ainda nessa linha de "desentendimentos", destacamos a carta remetida por Francisco Gallotty (CP-DR-28), em 31 de julho de 1951, em que este se desculpa veementemente, por ter-se utilizado da palavra "escrevinhadores" (em relação aos escritores brasileiros), assegurando-lhe que não sabia ser este termo depreciativo.

Lins costumava pedir a opinião de colegas escritores acerca das obras que estavam em processo de criação. Levi Braga (CP-DR-13), por exemplo, foi um dos que deram alguma contribuição nesse sentido. Em carta enviada de Belo Horizonte, em 8 de agosto de 1935, critica a obra de José Lins e apresenta sugestões para o seu - aperfeiçoamento: " parece-me que os seus romances foram escritos um tanto à pressa sobre um material valioso de notas e observações." E o aconselha: "Tome o amigo o que há de bom nos seus romances, o que realmente lhe satisfaz. Seja o crítico severo e cuidadoso de si mesmo; procure reler calmamente a sua já apreciável obra - principalmente o 'Doidinho' e o 'Moleque Ricardo' (sic)...".

Ascenso Ferreira (CP-DR-26), por sua vez, envia uma extensa e curiosissima carta de onze páginas, de tom saudosista, em que comenta também ter sido ele aluno do Instituto Nossa Senhora do Carmo e do Prof. Eugênio Lauro Maciel Monteiro (e não Francisco, como registrará JLR 5), tendo sido esse mestre também o seu "carrasco impiedoso". Esse Instituto e aquele Professor teriam inspirado Doidinho, e Ascenso elogia a fidelidade com que JLR recriou aquele ambiente e a personalidade do Prof. Maciel, permitindo-se corrigir-lhe algumas pequenas "falhas" como, por exemplo, a omissão de JLR do fato de o Professor sempre portar um palito no canto da boca...6

José Lins tinha o costume de enviar exemplares de suas obras para amigos e colegas escritores, e muitos deles acusavam o recebimento desses livros em suas cartas. Tal atitude, por parte de Lins, é ilustrativa do interesse que ele nutria em divulgar sua obra.

Há outros episódios interessantes nas cartas: no caso daquela enviada por Vianna Moog (CP-DR-46), de Nova Iorque, em 21 de maio de 1955, aparece um comentário referente à candidatura de Lins à ABL. De fato, poucos meses depois, precisamente em 15 de setembro de 1955, José Lins do Rego é eleito para a cadeira de n. 25 da Academia Brasileira de Letras, antes ooupada pelo Ministro Ataulfo de Paiva.

De Érico Veríssimo, há três cartas que foram enviadas a José Lins. A primeira missiva (CP-DR-77) foi redigida em Porto Alegre, em 1947, e está imbuída de informações literariamente relevantes, pois nela o escritor gaúcho comenta Euridice, considerando-o um divisor de águas no comportamento de Lins como escritor 7. As duas restantes são de tom bastante pessoal; uma comenta a convivência de Érico Veríssimo com a filha e com o genro de JLR em Washington (CP-DR-78), enquanto a terceira carta (CP-DR-79) carrega uma mensagem de solidariedade ao romancista paraibano, que tivera o visto de entrada nos EUA negado havia pouco tempo.

Em relação a correspondentes estrangeiros célebres, o assunto traz, para nós, certo grau de dificuldade, pois há várias missivas cujos remetentes não puderam ser identificados, devido à ilegibilidade das assinaturas/ rubricas. Além de alguns tradutores, cujos nomes já foram mencionados, poderíamos destacar o escritor neo-realista português Vitorino Nemésio(CP-DR-52), que assina uma carta enviada a Lins, de Coimbra, em 13 de junho de 1938. De todo modo, deixamos clara a possibilidade de termos gratificantes surpresas pela frente, à medida que o estudo desses documentos for ampliado.

Enfim, esse corpus documental sobre o qual nos temos debruçado é uma fonte de pesquisa de relevância, que nos permite, através de estudo minucioso, da verificação e do cruzamento de dados, estabelecer relações, constatar ou não publicações, vislumbrar o Brasil das décadas passadas (nos seus vários aspectos) e, sobretudo, conhecer melhor o homem e o romancista José Lins do Rego, através de sua intensa vida de relações epistolares.

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NOTAS

1 - Utilizaremos este código para fazer referência às cartas mencionadas: CP-DR (CORRESPONDÊNCIA PASSIVA - Diversos remetentes), acompanhado do número do documento.
2 - "Você não sabe quanto me alegra e me honra a ideia de que você vai traduzir e escrever o prólogo de um livro meu."
3 - Nas transcrições, optamos por atualizar a ortografia.
4 - Um timbre com o Brasão de Armas da República do Brasil nos leva a crer que se trata de um diplomata.
5 - Eis o trecho de Doidinho em que aparece o nome completo do Professor Maciel:
" - É de família importante!
E dizia o nome por extenso:
Francisco Lauro Maciel Monteiro! Sobrinho do poeta Maciel Monteiro, Barão de Itamaracá. Maciel tem poetas na família." (Doidinho. 22.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1982, p. 141).
6 - Logicamente, esses fatores externos não têm relação com a análise de uma obra literária em si. Portanto, não se trata de "falhas" as eventuais discrepâncias existentes entre o personagem e a pessoa empírica que o inspirou, pois, sendo uma obra ficcional, pode o autor distanciar-se quanto queira da realidade que lhe serviu de fonte criadora.
7 - Érico Veríssimo pediu que fosse mantida a privacidade de sua correspondência. Por tal razão, abstivemo-nos de transcrever fragmentos de suas cartas.

© Copyright by Lauro Meller, 1995

LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998

Retalhos de Amizades (catálogo) - Índices: REMETENTES - OBRAS DE JLR MENCIONADAS - Outros catálogos
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