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R i t a

e

s u a s .......h i s t ó r i a s

 

Sônia van Dijck

Depois de exercitar-se no conto, com sucesso de crítica e premiação nacional, Rinaldo de Fernandes faz sua estréia no romance, com Rita no pomar (Rio de Janeiro: 7Letras, 2008).
Leitor de sua própria obra, Rinaldo dá continuidade a sua experiência de dar voz feminina à narrativa, de modo a trazer para o primeiro plano as angústias e as dificuldades da condição da mulher, que, em uma sociedade marcada pelo masculino, busca afirmação e realização não só profissional e financeiramente, mas principalmente afetiva e emocionalmente. Sem travar polêmica explícita com a crítica feminista, que privilegia a voz autoral feminina, Rinaldo consegue traçar o labirinto percorrido pela mulher em demanda da felicidade, conferindo-lhe o comando da diegese. Aliás, considerando a atitude da crítica de militância feminista, Sônia Lúcia Ramalho de Farias já salientou que

os contos de Rinaldo desdobram-se em duas instâncias distintas. A instância autoral masculina, não dramatizada na diegese, e a instância enunciativa, conduzida por uma narradora-protagonista em primeira pessoa... (1)

A personagem feminina de Rinaldo, nessa ou naquela curva da vida, vê-se em disputa e não hesita em recorrer à violência, tão conhecida no mundo dos machos. A essa mulher resta o prêmio da solidão.

Mas o exercício de Rinaldo não se esgota nessas poucas considerações.

Leitor de sua própria obra, retoma e desenvolve, em Rita no pomar, a personagem do conto “Rita e o cachorro” (2), conferindo-lhe novas vivências, que fazem uma história de traições, de perdas, de solidão, sob o signo da morte, da violência, quer do choque da revelação, quer da solução escolhida, que ainda não chegou ao fim.


Segundo lição de Northrop Frye (3),

O elemento essencial da trama, na estória romanesca, é a aventura, o que significa que a estória romanesca é naturalmente uma forma consecutiva e progressiva; por isso a conhecemos melhor na ficção do que no drama. Em seu ponto mais ingênuo é uma forma sem fim, na qual um protagonista que nunca se desenvolve ou envelhece passa de uma aventura a outra, até que o próprio autor desanima. (p. 185)

Rinaldo é um autor de histórias urbanas, que pinçam, na multidão, indivíduos anônimos, mas tão anônimos que nem sequer são procurados pela polícia. Não há nada de heróico ou de sublime ou de retumbante ou de exemplar na origem de suas personagens, até que seu olhar de autor as destaque e as exponha ao leitor; no caso de Rita (do conto e do romance), até que ele lhe passe a palavra narrativa. Sendo criador de personagens urbanas, Rinaldo ambienta seu Rita no pomar em uma praia nordestina fictícia, mas evita o pitoresco, o exótico, concentrando-se no drama existencial da personagem, a paisagem apenas servindo como moldura.

Faço um parêntese para salientar que, o autor deixa sua marca na escolha da epígrafe, instaurando a presença do autor implícito (4), responsável pelo agenciamento da narrativa.
Rita no pomar tem, no pórtico, a lembrança do cão pulguento de “Sarapalha” (Guimarães Rosa). Testemunha inquieta, muda em relação aos fatos, caracterizado pela infestação de carrapatos, o cão acompanha o grotesco da história de Primo Argemiro e Primo Ribeiro, marcada pelo amor proibido, pela traição presumida, pela dor da perda, pela solidão absoluta e pela violência radical e ineficaz da solução. Quando Rinaldo abre seu romance citando

O cachorro está desatinado. Pára. Vai, volta, olha, desolha... Não entende. Mas sabe que está acontecendo alguma coisa. (Guimarães Rosa)

está, através do paratexto, mais do que anunciando o papel ou o destino do cachorro Pet – de Rita. A epígrafe assegura que há coisas acontecidas que ficarão em silêncio. Ou que apenas ao leitor é dado saber. A seu primeiro cão, Rex, Rita não contava nada. Mas a Pet, ela conta. Pet, às vezes inquieto, às vezes de olhos fechados, escuta – Rita julga que ele escuta.
Longo monólogo travestido de diálogo... O autor implícito aproxima a fala de Rita de dois outros “diálogos”. Aquele do onceiro que se transforma em sua caça e aquele do jagunço que quer saber se fez ou não pacto com o demônio; a ambos, Guimarães Rosa concedeu a voz narrativa, mantendo em silêncio seus “interlocutores”.
No romance de Rinaldo, Rita não caça; acolhe, abriga seu “interlocutor”; ela não pergunta acerca de qualquer pacto, pois já sabe o que viveu e o que fez. Não há desespero de arrependimento em Rita; há conhecimento de fatos, de seus atos; há determinação e muita solidão. E é a solidão que aproxima Rita de seus cães; ela não vai se transformar em cão/cadela, pois já tem os traços de seus companheiros: abandono, fragilidade, medo, fome de afeto, um passado de dificuldades, e a vastidão do amanhã incerto e vazio de esperança, tão bem sugerido pelo mar aberto que Rita descortina. Rita encontra-se em Rex e em Pet e, por isso os acolhe: ela conhece bem a solidão, que pode ser sublinhada pelo silêncio; então, Rita escreve na agenda.
Impotente, tal qual Pet, o leitor lê/“escuta” a história de Rita e nada pode fazer. Rita vai continuar sua busca de afirmação e de felicidade, tudo faz crer, em outro sítio, em outras angústias, traições e violências.

Rinaldo construiu Rita no pomar como um tabuleiro em que se joga com o tempo, com idas e vindas. Assim, o passado e o presente da narrativa parecem confundir-se, na catarse da personagem. A história começa com um passado recente em relação ao presente da narrativa, que só será reconhecido e revelado na parte ou capítulo 34 (final do livro), quando o leitor fica sabendo que a traição foi resolvida com a morte.

Rita, jornalista, dada a escrever poemas e breves narrativas em uma agenda, teve sua primeira disputa com a mãe (que Rinaldo fez cega, para não ver o grotesco da situação e nem o perigo do risco e não conhecer culpa). Uma competente abordagem psicológica bem pode explicar o complexo de Electra de Rita, pois, quando a mãe admite o genro como macho, ela o conduz à condição de “pai” a ser disputado pela filha.

Rita, fugitiva de um crime do qual só ela sabia ser autora, encontra-se em uma praia paradisíaca na Paraíba. Nova disputa com uma mãe simbólica e Rita encontra seu homem com um amigo.

De uma demanda a outra, a solução de Rita, para não ser derrotada, é a morte da “mãe’ e do “pai” – só através da morte, Rita pode continuar a viver.
Prazer e morte misturam-se na vida de Rita. É emblemático o episódio de sexo no cemitério, com o namorado de Londres: o papel sujo de esperma encontra pouso na cruz de um túmulo.
Prazer, traição que leva à morte. História típica de nossos dias? Ou a história de sempre, que se repete com novas personagens? Rita, ferida em seus sonhos de mulher amada, conversando com Pet, vai partir para outra praia, em busca do paraíso. O leitor, envolvido pela fala nervosa e entrecortada por reclamações dirigidas ao cão, desconfia que Rita ainda poderá amar um sujeito que não a engane. Ela não sabe. Talvez isso seja apenas o que as leitoras querem que aconteça.

E o destino de Pet? O silêncio. Pet sabe demais.

E que pode fazer o leitor? Ficar em silêncio. O leitor não sai impune: paga o preço da cumplicidade ao saber de tudo.

 
REFERÊNCIAS

1. FARIAS, Sônia Lúcia Ramalho de.
http://www.soniavandijck.com/sonia_ramalho.htm - visita em set. 2008.

2. In: FERNANDES, Rinaldo de. O perfume de Roberta. Rio de Janeiro: Garamond, 2005, pp.99-105.

3. FRYE, Northrop. Anatomia da crítica. Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Cultrix, 1973.

4. DUCROT, Oswald e TODOROV, Tzvetan. Dicionário das ciências da linguagem. Ed. portuguesa orientada por Eduardo Prado Coelho. Lisboa: Dom Quixote, 1974.

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