FRANCÊS

Sônia Maria van Dijck Lima - Université Paris-X-Nanterre - 2007

Sagarana: um livro com muitas histórias

Resumo

História do livro

Em 1946, Guimarães Rosa já havia sido laureado com premiações e já não era um inédito.

1929: o conto “Mystério de Highmore Hall” foi selecionado em concurso promovido pela revista O Cruzeiro (Rio de Janeiro), e publicado na edição desse periódico do dia 7 de dezembro .
1930: o conto “Makiné” saiu no suplemento dominical de O jornal (Rio de Janeiro), no dia 9 de fevereiro.
1930: o ainda estudante da Faculdade de Medicina voltou às páginas de O Cruzeiro, com dois novos contos: “Chronos Kai Anagke (Tempo e destino)”, “a mais extraordinária história de xadrez já explicada aos adeptos e não-adeptos do tabuleiro, num conto de João Guimarães Rosa”, no dia 21 de junho
- “Caçadores de camurças”, também em O Cruzeiro, no dia 12 de julho .
1937: ganhou o 1º Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras, com Magma*, no dia 29 de junho

Todavia, esses textos não causaram repercussão, apresentando seu autor aos críticos.

* Magma permaneceu inédito até 1997, quando foi editado pela Nova Fronteira (Rio de Janeiro).

VISITE: www.soniavandijck.com/rosa_cronologia.htm

A história de Sagarana começa com a inscrição do volume Contos, no Prêmio Humberto de Campos, instituído pela Editora José Olympio.

Guimarães Rosa inscreveu-se no dia 31 de dezembro de 1937. Viator foi seu pseudônimo.

O regulamento do Prêmio “Humberto de Campos” e um incidente encarregaram-se de deixar Guimarães Rosa distanciado do ambiente literário por mais alguns anos:

Como em todo concurso, a identidade do autor era desconhecida e ele assinava-se apenas "Viator", pseudônimo de itinerante. Realizado o concurso, verificou-se que dos cinco juízes três votaram nos "Contos", sendo que dois mantiveram esse voto até o fim. Indagou-se então de quem poderia ser o livro, e em torno do caso até artigos foram escritos, inclusive por Marques Rebelo, um dos membros da Comissão Julgadora. Infelizmente, perdera-se o envelope contendo a identidade do autor, que assim continuou no anonimato, ao mesmo tempo que longe da pátria e por conseqüência alheio ao que se passava. *

* Pequena história de um grande livro. Texto da “orelha” da 3ª ed. de Sagarana, Ed. José Olympio, 1951,
da responsabilidade do Editor.

Porém, Marques Rebelo não se esqueceu do concorrente:

“Contos", de Viator; - livro grande, de cerca de 500 páginas, intensamente escrito. (...) Causou-me singular impressão este livro, o mesmo acontecendo com o sr. Prudente de Morais Neto. (...) E ficam aqui a este 'Viator' que ninguém conhece, e que tanto merecia entrar para a lista dos grandes contistas brasileiros, o meu derrotado aplauso e a minha admiração.*

Graças à memória de Marques Rebelo, ficou a descrição do volume inscrito no concurso da José Olympio, que foi por ele completada em 1946: Era um grosso original encadernado com cuidado, quinhentas páginas de papel relatório, espaço dois, cerrado atochado – assustava muito.* *

* MARQUES REBELO. Depoimento. O Prêmio Humberto de Campos. Dom Casmurro, Rio de Janeiro, 1939. Arq. JGR-IEB/USP-R1.

**MARQUES REBELO.Sagarana. A Manhã, Rio de Janeiro, 28 abr. Arq. JGR-IEB/USP-R1.

Maria Célia de Moraes Leonel (1985: 250), pesquisando as anotações de Guimarães Rosa, observou:

muitos dos apontamentos de viagem, como está provado, foram recuperados no texto literário. (...) aliás, em Corpo de baile e Grande sertão: veredas há apenas a retomada de processo já utilizado largamente em Sagarana. Infelizmente os ‘Estudos’ e o Arquivo não conservam o material que exerceu, em relação ao primeiro livro, papel semelhante ao dos diários de viagem nos seguintes. Se algum documento desse tipo tiver restado, será em escala muito reduzida.

LEONEL, Maria Célia de Moraes. Guimarães Rosa alquimista: processos de criação do texto. São Paulo, 1985. Tese (Doutorado em Letras) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.

 

Sezão - encadernado em couro vermelho - página de rosto
Arq. JGR-IEB/USP-Originais

Testemunhos mais antigos da gênese de Sagarana conservados no Instituto de Estudos Brasileiros, da Universidade de São Paulo - Arq. JGR:


Sezão (/1937/) – encadernado em couro vermelho
Sezão (/1937/) – encadernado em couro preto
Folhas soltas dos originais da obra (acondicionadas em uma caixa)

1ª travessia do livro: de 1937 a 1946, quando foi entregue ao público sob o neologismo Sagarana

 

Letras e artes, Rio de Janeiro, 21 jul. 1946. Suplemento de A Manhã. Recorte. Arq. JGR-IEB/USP-R2.

Disse Guimarães Rosa a João Condé:

Bem, resumindo: ficou resolvido que o livro se passaria no interior de Minas Gerais. E compor-se-ia de 12 novelas. Aqui, caro Condé, findava a fase de premeditação. Restava agir. Então, passei horas e dias, fechado no quarto, cantando cantigas sertanejas, dialogando com vaqueiros de velha lembrança, “revendo” paisagens da minha terra, e aboiando para um gado imenso. Quando a máquina esteve pronta, parti. Lembro-me de que foi num domingo, de manhã. O livro foi escrito – quase todo na cama, a lápis, em cadernos de 100 folhas – em sete meses; sete meses de exaltação, de deslumbramento. (Depois, repousou durante sete anos; e, em 1945 foi “retrabalhado”, em cinco meses de reflexão e de lucidez). Lá por novembro, contratei com uma datilógrafa a passagem a limpo. E, a 31 de dezembro de 1937, entreguei o original, às 5 e meia da tarde, na Livraria José Olympio. O título escolhido era “Sezão”; mas, para melhor resguardar o anonimato, pespeguei no cartapácio, à última hora, este rótulo simples: “Contos” (título provisório, a ser substituído) por Viator. Porque eu ia ter de começar longas viagens, logo após.

Letras e artes, Rio de Janeiro, 21 jul. 1946. Suplemento de A Manhã. Recorte. Arq. JGR-IEB/USP-R2.

O “‘retrabalhado’, em cinco meses de reflexão e de lucidez”, foi explicado em entrevista a José César Borba (1946):

Com a ruptura das relações entre o Brasil e a Alemanha, fui internado em Baden-Baden, onde fiz ótima camaradagem com o pintor Cícero Dias, que leu, gostou e me animou a publicar “Sagarana”. Voltando ao Brasil, mal pude passar umas poucas semanas no Rio, seguindo depois para a Colômbia, de onde voltei em fins de 1944. Foi um custo para achar um apartamento! E só depois, então, é que tornei a pegar no livro. Fiz-lhe pouquíssimas alterações de forma ou estilo, limitando-me a suprimir em uma ou duas histórias, parágrafos que me pareceram supérfluos para o público, embora tivessem para mim uma grande importância, mas toda de ordem subjetiva. O que me preocupa e tortura, ao rever as páginas escritas, é a angústia de evitar a chapa, o chavão, a frase-feita.

Em carta dirigida ao pai, de 6 de novembro de 1945, Guimarães Rosa falou do trabalho com Sagarana e de sua sua expectativa em relação à fortuna do livro:

Em todo o caso, consegui – a custa de horas de sono, do descanso dos domingos e de muito esforço – preparar, ou melhor, reestruturar um livro de contos, para o qual achei imediatamente editor. Tenho muita esperança nesse livro, pois já provocou o mais exaltado entusiasmo (e sincero) da parte dos maiores escritores e intelectuais brasileiros, que lhe garantem tremendo sucesso. Vamos ver o que dá. (apud V. G. Rosa, 1983, p. 159)

 

SEZÃO, /1937/ - encd. couro vermelho, 447 p.

(1-444)

SEZÃO
CONVERSA DE BOIS
A VOLTA DO MARIDO PRÓDIGO
DUELLO
MINHA GENTE
BICHO MÁU
CORPO FECHADO
ENVULTAMENTO
QUESTÕES DE FAMILIA
UMA HISTORIA DE AMOR
O BURRINHO PEDRÊS
A OPPORTUNIDADE DE AUGUSTO MATRAGA
PORTEIRA DE FIM DE ESTRADA
*

* Posfácio

 

SEZÃO, /1937/ - encd. couro preto, 446 p.

(1-443)


SEZÃO
<<3º>> CONVERSA DE BOIS
<<4º>> A VOLTA DO MARIDO PRÓDIGO
DUELLO
MINHA GENTE
BICHO MÁU
<<5º>> CORPO FECHADO
ENVULTAMENTO
QUESTÕES DE FAMILIA
UMA HISTORIA DE AMOR
<<2º>> O BURRINHO PEDRÊS
A OPPORTUNIDADE DE AUGUSTO MATRAGA

[PORTEIRA DE FIM DE ESTRADA]

<< >> = ocorrência marginal

 

Rio de Janeiro: Universal, 1946 (Bib. Sônia van Dijck)

Capa: Geraldo de Castro

Sagarana, 1946

O BURRINHO PEDRÊS
A VOLTA DO MARIDO PRÓDIGO
SARAPALHA
DUELO
MINHA GENTE
SÃO MARCOS
CORPO FECHADO
CONVERSA DE BOIS
A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA

Sagarana: coisa que parece saga... Filei um sufixo do nheengatu... (JGR)

SAGARANA foi escrito em 1937, na seguinte ordem: O Burrinho Pedrês; Sarapalha (Sezão); Minha Gente; A Volta do Marido Pródigo; Duelo; Conversa de Bois; Corpo Fechado; São Marcos (Envultamento); A Hora e Vez de Augusto Matraga (A Oportunidade de Augusto Matraga).

JGR, Ressalvas, Sagarana, 1ª e 2ª edições

 

O Globo, Rio de Janeiro, 29 abr. 1946

Arq. JGR-IEB/USP-R2

A 1ª edição foi esgotada em poucos dias

 

*-*-*-*-*

A Editora Universal acaba de lançar Sagarana, livro de contos brasileiros, de autoria do Sr. J. Guimarães Rosa, em segunda edição, já posta à venda em todas as livrarias da cidade. Lançado recentemente, o livro veio revelar um autor estreante da melhor qualidade, merecendo elogios da crítica e consagrando-se com a procura que o livro teve em todos os núcleos de gente de bom gosto. A segunda edição de Sagarana está destinada a atender aos inúmeros amigos dos bons livros que não haviam conseguido adquirir a obra no lançamento inicial.

A Noite,Rio de Janeiro, 30 jul. 1946. Livros. Arq. JGR-IEB/USP-R2

2ª travesssia do livro: de 1946 a 1958, o autor continuou trabalhando os contos até a edição de 1958, retocada, na forma definitiva.

A biblioteca de Guita e José E. Mindlin guarda a documentação relativa à continuação do trabalho em demanda do texto

 

2ª ed. Rio de Janeiro: Universal, 1946 (Bib. José Aderaldo Castello)

Capa: Geraldo de Castro

Não vem!... Foi e não volta mais... Foi, rio...

"Sarapalha", 1ª edição

 

 

Não vem!... Foi, rio...

"Sarapalha", 2ª edição

Como não são conhecidos os documentos preparatórios da 2ª e da 3a. edições, apenas a colação com as edições anteriores poderá auxiliar no reconhecimento das transformações operadas pelo autor.

 

3ª ed., revista, Rio de Janeiro: José Olympio, 1951 (Bib. Guita e José E. Mindlin)

Capa: Santa Rosa

Em 3a. edição, revista, Sagarana apresenta-se aos leitores brasileiros, já consagrado pelo mais fulminante êxito literário de que se tem memória em nossa literatura moderna. (...) Apenas, como o autor desejasse rever pessoalmente todas as provas, que tinham de ir e voltar da Europa, várias vezes, era inevitável a demora.

 

Pequena história de um grande livro. Texto da “orelha” da 3ª ed. de Sagarana, Ed. José Olympio, 1951, da responsabilidade do Editor.

Em 1955, tomou um volume da 3ª ed. como exemplar de trabalho, para preparar a 4ª ed.; realizou novas transformações que resultaram na denominada edição definitiva, em 1956, que passa a ser assinada por João Guimarães Rosa.

 

4ª ed., versão definitiva. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956 (Bib. Guita e José E. Mindlin)

Capa: Poty

Em verdade, movido pela insatisfação permanente para com a obra acabada, o autor, embora ocupadíssimo na revisão das provas de um novo livro de novelas - Corpo de Baile - e na conclusão de seu primeiro romance - Grande Sertão: Veredas - não permitiu que Sagarana fosse ao prelo sem antes retocá-lo de modo drástico. E isto, observe-se dez anos depois de sua primeira edição, o que bem revela certos aspectos da criação literária em Guimarães Rosa.

 

Guimarães Rosa versus Sagarana. Texto da "orelha" da 4ª ed., sem assinatura, de responsabilidade do Editor.

 

Alterosas, Belo Horizonte, n. 75, jul. 1946

Arq. JGR-IEB/USP-R1

Lançamentos de JGR - Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 29 fev. 1956

Arq. JGR-IEB/USP-R3

Grande sertão: veredas (Rio de Janeiro: José Olympio) foi lançado no dia 17 de julho de 1956

 

5ª ed., retocada, forma definitiva. Rio de Janeiro: José Olympio, 1958 (Bib. Guita e José E. Mindlin)

Capa: Poty

Em 1957, JGR tomou um volume da 4ª ed. como exemplar de trabalho, para preparar a 5ª ed.; realizou novas modificações e publicou, em 1958, a 5ª ed., dita retocada e na forma definitiva.

 

A 5ª ed., portanto, é o último testemunho da escritura do livro

DOSSIÊ DA GÊNESE DE SAGARANA

Contos (/1937/) – documento desconhecido
Sezão (/1937/) – encadernado em couro vermelho
Sezão (/1937/) – encadernado em couro preto
Originais em folhas soltas (sem data)
Originais da 1ª edição – documento desconhecido
Sagarana, 1ª edição (1946)
Originais da 2ª edição – documento desconhecido
Sagarana, 2ª edição (1946)
Originais da 3ª edição – documento desconhecido
Sagarana, 3ª edição, revista (1951)
Originais da 4ª edição (1955)
Sagarana, 4ª edição, versão definitiva (1956)
Originais da 5ª edição (1957)
Provas da 5ª edição (/1957-1958/)
Sagarana, 5ª edição, retocada, forma definitiva (1958)

Movimentos da escritura

análise de fragmentos - construção do Major Saulo

 

- Sem referência do periódico -

Arq. JGR-IEB/USP-R2

É aqui, perto do vau da [ponte velha:] <Sarapalha>: tem uma fazenda denegrida e desmantelada; (SA)

[... ] = rasura
<< ..>> = ocorrência marginal (no caso, margem superior)

SA = “Sarapalha”, originais folhas soltas

.Mello Cançado (1966), relatando conversa com Nelson de Faria, diz ter questionado, a certa altura: E onde teria Guimarães Rosa surpreendido esta beleza de vocábulo que é “Sarapalha”?; ao que o interlocutor respondeu:

“Sarapalha” tem gênese assim imaginosa (...) – ninguém como João Guimarães Rosa para escrever bem, com palavras poéticas, “parecendo” autênticas na boca do sertão. Sim, “parecendo...”, porque inúmeras delas constituem invenção rica de escritor milionário.

MELO CANÇADO. Sagarana. O Diário, Belo Horizonte, 15 jun. 1946. Arq. JGR-IEB/USP-R1.

 

Ali, na beira do <rio> Pará, (SA)

< > = ocorrência na entrelinha
SA = “Sarapalha”, originais folhas soltas

Usando-se a indicação do rio Pará, o vau da Sarapalha foi colocado pelo autor no povoado de Pará de Vilelas, pertencente ao município de Itaguara (MG).

Especial atenção foi dedicada à pontuação. Assim, o autor rasura, acrescenta sinais e transforma outros já grafados em novos sinais. Buscando, o mais fielmente possível, a expressão da subjetividade das personagens, o traçado de uma paisagem decadente, assim como um reflexo do clima psicológico do drama de Primo Ribeiro e de Primo Argemiro, Guimarães Rosa parece agora escrever através da pontuação: retira vírgulas, coloca vírgulas, muda ponto e vírgula em dois pontos, e assim por diante. Desde o primeiro momento de elaboração, havia combinado interrogações e exclamações com reticências; nessa nova etapa, rasura a exclamação, deixando apenas as reticências; outras vezes, rasura as reticências, transforma o primeiro ponto das reticências em ponto final, num artesanato que procura moldar um ritmo, um jeito de falar, tal como acontece no seguinte trecho de SA:

SA = "Sarapalha", originais folhas soltas

Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 10 jun. 1950

Arq. JGR-IEB/USP-R2

- Será que chove, Primo?[...]
- Capaz.[..]
- Ind’hoje? Será?[...]
- ‘Manhã.[..]
- Chuva brava, de panca?[...]
- Às vez...
- Da banda de riba?[...]
- De trás.[..]

(SA)

[ ..] = rasura

SA = "Sarapalha", originais folhas soltas

....................................................................................................
O narrador tem uma atitude culta e especializada, deixando-se trair enquanto projeção do médico que conhece bem a maleita. Embora lhe tenha sido permitido falar em “anofelino” e em “dáfnias”, é levado, em um movimento dialético, a superar-se e confirmar-se, a fim de melhor participar do universo das personagens. Assim, ao descrever os hábitos do mosquito transmissor da doença, prefere substituir o termo científico por um sintagma que traduz melhor a compreensão das vítimas:

de dia: está dormindo, com a tromba repleta [de esporozoítos;] <de maldades;> (SA)

[... ] = rasura
<... > = ocorrência na entrelinha
SA = “Sarapalha”, originais folhas soltas

O mesmo acontece quando explica os efeitos da contaminação no organismo:

Mas ele tem no baço duas colméias de [hematozoarios,] <de bichinhos maldosos,> que (SA)

Imagens sobre malária capturadas na web

[... ] = rasura
<... > = ocorrência na entrelinha
SA = “Sarapalha”, originais folhas soltas

VISITE: www.soniavandijck.com/rosa_sarapalha.htm

 

Foto: Guy Joseph

 

 

1SE = Sezão, encadernado em couro vermelho
{... } = modificação na linha
[... ] = rasura
<... > = ocorrência na entrelinha
BP = “O Burrinho pedrês", originais folhas solta
s

O burrinho pedrês

 

Fôra nascido, crescido, amansado, comprado, trocado, dado de presente, alugado, vendido e revendido, dúzias de vezes, por bons e por máus prêços. (“O burrinho pedrês” em 1SE)

 

 

Fora comprado,{dado,} trocado <e> revendido, [e dado,] vezes, por bons e maus preços. (BP)

Construção do caráter do Major Saulo


O Major (1) dera de taca no parapeito, (2) muitas vezes, alumiando raiva nos olhos verdes e enchendo o barrigão de riso. Depois,(3) voltou as costas ao camarada,(4) e, fazendo festas (5) à cachorrinha Sua-Cara, que pulara para cima do banco, começou a falar vagaroso e alto, mas sem destampatório, meio rindo e meio bravo, que era o pior:
- Tenho vaqueiros, que são bons violeiros... Tenho cavalos ladinos,(6) para furarem tapumes. Hô-hô... Devagar eu uso, depressa eu pago... Todo-o-mundo aqui(7) vale o feijão que come... (8) Hô-hô... E hoje, com um tempo(9) destes e a gente atrasada... (10)
Afinal, mandou Sua-Cara descer do banco, e(11) se desvirou, de repente, encarando Francolim:
-Quantos animais ficaram, mulato(12) mestre meu secretário?

(“O burrinho pedrês” em 5ED)

Versões anteriores e modificações

(aparato genético)

 

(1) - 1SE: Major explodiu. Metteu a taca
BP: Major [metera a] <dera de> taca

(2) - 1SE: parapeito, pontapeou a cachorrinha, e, possesso, abriu o destampatorio: que seus vaqueiros eram uma... “cambada de violeiros amaldiçoados, que não pagam o feijão que comem!... Não prestam nem para olhar tapume, nem... Ô raio!... E agora, com um tempo deste e

(3) - BP: Depois, [deu] <voltou> as

(4) - BP: camarada, <e,> fazendo

(5) - BP: festas [na] <à> cachorrinha

(6) - BP: ladinos p<a>ra furar tapume.{..} Hô-hô[hô-hô]... Devagar

(7) - BP: aqui [está no] <vale o> feijão

(8) - BP: come... Hô-hô[ho-ho]... E

(9) - BP: tempo dêste e

(10) - 1SE: atrasada!... De qualquer jeito!... De qualquer jeito!... Não quero saber, se arranjem!...” § Afinal, perguntou a Juca Bananeira, que chegara expedito e sorridente: § - Quantos
BP: atrasada... Quero vêr como é que o pessoal tem de ficar esperto, p<a>ra se arranjar...[Hi-hi-hi-hi..] § Afinal,
1ED a 2ED: atrasada... Quero ver como é que o pessoal tem de ficar esperto, para se arranjar... § Afinal,

(11) - BP: e [virou,] <se desvirou,> de repente, encarando
3ED: e se desviou de repente, encarando
4OR: e se [desviou] <moveu> [de rep]{rentem}ente, encarando
4ED a 5OR: e se moveu rentemente, encarando
2PR: e se [moveu rentemente,] <<desvirou, de repente,>> encarando

(12) - 1SE: mulato safado?... § - O cardão do senhor... Silvino,
BP: mulato [safado] <mestre> meu

[... ] = rasura
<... > = ocorrência na entrelinha
{... } = modificação na linha
<<... >> = ocorrência marginal
§ = parágrafo

1SE = Sezão, encadernado em couro vermelho
BP = "O burrinho pedrês", originais em folhas soltas
1ED, 2ED, 3ED, 4ED, 5ED = 1ª, 2ª ª, 3ª, 4ª, 5ª edições
4OR, 5OR = originais da 4ª e da 5ª edições
2PR = provas da 5ª edição

VISITE: www.soniavandijck.com/grosa_sagarana_chegada.htm

SAGARANA - repercussão crítica em 1946

 

Recorte colado na primeira contra-capa do álbum 2
- Sem referência do periódico -

Arq. JGR-IEB/USP-R2

Guimarães Rosa: um autor atento à crítica

Transcrição:

"SAGARANA" EM RECORTES
O Ministro Guimarães Rosas (sic), Chefe do Gabinete do Chanceler João Neves da Fontoura, estava ontem colando os recortes das críticas e comentários sobre seu livro "Sagarana"
O Secretário Afonso Palmeiro, pilheriando, perguntou se aquilo era o que se chamava de "Crazy-book"...
O Secretário Aloísio Bittencourt explicou que se trata de "Scrapp-book".
E o Secretário Jorge Carvalho e Silva, olhando para o monte de recortes, acrescentou:
- Em casa tem mais!

Conforme lição de H. R. Jauss,

a recepção de um texto pressupõe sempre o contexto de experiência anterior no qual se inscreve a percepção estética: o problema da subjetividade da interpretação e do gosto do leitor isolado ou em diferentes categorias de leitores não pode ser colocado de forma pertinente, se não se tem inicialmente reconstituído este horizonte de uma experiência estética intersubjetiva preliminar que funda toda compreensão individual de um texto e o efeito que ele produz. (p. 56)

Uma abordagem à luz da estética da recepção exige que cada obra seja colocada na "série literária" de que participa, a fim de que se possa determinar sua situação histórica, seu papel e sua importância no contexto geral da experiência literária. (p. 69)

JAUSS, H. R. Pour une esthétique de la réception. Trad. Claude Maillard. Paris: Gallimard, 1978. (tel, 169).

Cada época e cada grupo social têm seu repertório de formas de discurso na comunicação sócio-ideológica. (BAKHTIN)

BAKHTIN, Mikhail (V. N. Volochínov). Marxismo e filosofia da linguagem. Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem, 4ª ed. Trad. Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Hucitec, 1988, p. 43.

VISITE: http://www.soniavandijck.com/estetica_da_recepcao.htm

Cânone regionalista em 1946: José de Alencar e Franklin Távora, desde o século XIX, - José Américo de Almeida, a partir de 1928, por exemplo...

Horizonte de expectativa: interesse pelo regionalismo - leitores voltados para busca de um reconhecimento de uma identidade nacional

Sobre a literatura regional, disse Brito Broca:

Ora, esse gênero sempre se caracterizou, entre nós, pela tendência romanesca e sensacionalista, que a influência do realismo não conseguiu abolir. Tendência justificável no que se refere às zonas de sertão bravio, às regiões castigadas do Norte e do Nordeste, onde a aventura, o perigo, a incerteza andam por toda parte, mas pouco aceitável em setores rurais de vida agrícola e pastoril estabilizada, como os do centro sul. Aqui os assassinatos, as tragédias, as tocaias heróicos e fascinorosos constituem uma nota excepcional, inclinada a soar falso. Os ficcionistas rústicos do centro sul, que tomaram Afonso Arinos por mestre, parecem não haver percebido que o autor de Histórias e paisagens focaliza o sertão mineiro numa fase ainda heróica de sua evolução histórica, embora não precisamente identificada, já que os contornos dos quadros se esfumam em certa indeterminação idealista. E assim continuaram a ver por aí descendentes de Pedro Barqueiro, como se os povoados da Mantiqueira andassem infestados de bandoleiros românticos e cavalheiros, do tipo Mauprat, de George Sand.

BRITO BROCA. Bucolismo anti-romanesco. A Manhã, Rio de Janeiro, 11 ago. 1946. Arq. JGR-R2.

Recepção crítica e o debate em torno de regionalismo

Álvaro Lins - primeiro crítico a falar de Sagarana, logo após o lançamento de abril de 1946.

Comparação de Sagarana com o monumento Os sertões (de Euclides da Cunha).

A propósito de “São Marcos”, sublinhou:

... com uma descrição da natureza, tão monumental nas proporções e tão orquestral no jogo dos vocábulos, que logo faz lembrar, involuntariamente, a maneira euclidiana.

Traçava-se, portanto, com o texto de Lins, a direção da crítica.

Lins viu o retrato físico, psicológico e sociológico de uma região do interior de Minas Gerais, passando a tratar de seu caráter regionalista - inaugurou a polêmica em torno de regionalismo:

Mas o valor dessa obra provém principalmente da circunstância de não ter o seu autor ficado prisioneiro do regionalismo, o que o teria conduzido ao convencional regionalismo literário, à estreita literatura das reproduções fotográficas, ao elementar caipirismo do pitoresco exterior e do simplesmente descritivo. (...) Em Sagarana temos assim um regionalismo com o processo da estilização, e que se coloca portanto na linha do que, a meu ver, deveria ser o ideal da literatura brasileira na feição regionalista: a temática nacional numa expressão universal, o mundo ainda bárbaro e informe do interior valorizado por uma arte civilizada e por uma técnica aristocrática de representação estética.

LINS, Álvaro. Uma grande estréia. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 12 abr. 1946. Jornal de crítica. Arq. JGR-IEB/USP-R1.

Francisco de Assis Barbosa

Regionalista, no bom sentido da palavra, (...) O interior de Minas está inteirinho nas suas novelas, escritas com uma técnica verdadeiramente notável, onde encontramos sempre a palavra exata, a composição perfeita, até com requintes que chocam em meio à maneira desmazelada e muitas vezes antiliterária de certos escritores, nomes consagrados. (...) Mas não estaremos nós narcotizados por tanto desleixo, por tanta incorreção gramatical?

BARBOSA, Francisco de Assis. Sagarana. Diretrizes, Rio de Janeiro, 29 abr. 1946. Arq. JGR-IEB/USP-R1.

José Lins do Rego

erudição botânica - conhecimentos de zoologia - uma quase pedante exibição de detalhes que nos enfada *

se não chega a ser a obra-prima da exaltação do poeta Augusto Frederico Schmidt**, é um magnífico livro de contos, como já nos deram o Sr. Monteiro Lobato ou o Sr. Luiz Jardim.*

*REGO, José Lins do. Sagarana. O Globo, Rio de Janeiro, 10 maio 1946. Arq. JGR-IEB/USP-R1.

** JLR refere-se ao artigo de Augusto Frederico Schmidt, que diz, por exemplo:

O que mais considero no livro Sagarana do sr. J. Guimarães Rosa é o estilo, a vitória do escritor sobre a matéria em que trabalhou. A alguns críticos e entendidos, segundo li e ouvi, parece que há um apuro exagerado, uma atenção excessiva, uma espécie de parnasianismo a esfriar e amortecer as histórias que o sr. J. Guimarães Rosa nos conta. Registro essas opiniões, para dizer o quanto não me parecem justas e fundadas. Esse modo do autor de Sagarana a fixar personagens e paisagens, esse apuro, que revela um mestre no estreante ainda mal conhecido do público, a forma, enfim, que ele alcançou, é o que lhe dá principalmente uma tão alta distinção em nossas letras, é o que o destaca entre os muitos escritores que falaram da gente e da terra do Brasil.
(...)
Poesia, conhecimento da matéria em que modelou e configurou o seu mundo, experiência de tudo o que nos fala ou conta; modéstia diante das coisas, participação nas humildes vidas que nos revela, força literária e força criadora, essas são as impressões gerais, as grandes virtudes de Guimarães Rosa, estreante e clássico da literatura brasileira.

SCHMIDT, Augusto Frederico. Sagarana. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 4 maio 1946. Arq. JGR-R1.

 

Genolino Amado

Notam-se, aliás, entre as obras de ficção e os ficcionistas citados certos pontos de contato que vale a pena acentuar. Como Guimarães Rosa, Lobato era um nome quase totalmente desconhecido nos círculos intelectuais antes da vitória repentina e decisiva. Como Urupês, tem Sagarana um frescor de terra virgem, um cheiro de mato, uma graça cabocla de tipos e uma independência de linguagem que não se descobrem noutras criações de índole regional, constituindo esplêndido elemento de renovação para a prosa brasileira.

AMADO, Genolino. Em torno de um livro singular. Correio Paulistano, São Paulo, 5 maio 1946. Arq. JGR-R1.

Críticos de Guimarães Rosa - horizonte de expectativa >>> Afonso Arinos, Alcântara Machado, Euclides da Cunha, Graça Aranha, Machado de Assis, Marques Rebelo, Monteiro Lobato, Simões Lopes Neto, entre outros, mestres do conto e/ou expressões da literatura regional.

regionalismo com o processo da estilização

contrário a um chamado convencional regionalismo literário

regionalismo no bom sentido da palavra

Renato Almeida (1946), (representando ares pós-Estado Novo)

O êxito do livro de contos do sr. J. Guimarães Rosa, Sagarana, vem sobretudo do motivo. O interesse pelo Brasil, através da sensibilidade ou da interpretação dos que dele se aproximam, emotiva ou analiticamente, ainda é dominante e essencial. Aqueles que acreditaram possível fixarmo-nos na orla da civilização litorânea e nos mantermos em contato permanente com a Europa, cuja cultura transplantamos para este lado do Atlântico, mas resguardando-a da contaminação da barbaria nativa, equivocaram-se e permaneceram marginais. (...) A vida dramática da gente do interior, nos países latino-americanos, é uma sugestão imensa e trazê-la à luz é ao mesmo tempo fazer obra de arte e pesquisa sociológica.

tom político

O drama das populações do interior e o equívoco da civilização brasileira mais uma vez se patenteia. Ao invés de orientarmos a marcha do progresso para o interior, de uma forma racional, quer dizer preparando o material humano, deixamo-nos ficar nos contornos urbanos, seja nas zonas favoráveis, onde aumentamos o padrão de vida, e abandonamos o mais até que, pela ordem das coisas, porque Deus é brasileiro, as circunstâncias favoreçam melhores dias.

Interesse do livro: a vida dramática da gente do interior, nos países latino-americanos

ALMEIDA, Renato. Sagarana. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 30 jun. 1946. Arq. JGR-IEB/USP-R1.

Oscar Mendes sistematizou duas noções de regionalismo (como, em 1946, poderiam ser entendidas as formulações de Álvaro Lins e de Francisco de Assis Barbosa)

Criou-se um conceito de regionalismo na verdade muito estreito. Para muitos, escritor regional é apenas aquele que escreve usando termos de linguajar caipira ou matuto para contar casos de muito pouca importância e de interesse muito restrito. (...) Mas o verdadeiro escritor regional a nosso ver, é aquele que, num cenário característico especial, único por vezes, sabe fazer viver o drama universal da condição humana. Poderá usar termos regionais para maior pitoresco e cor local, mas apenas como um recurso estilístico e maior força de caracterização. (...) Da leitura do livro do sr. Guimarães Rosa não me veio a impressão dum regionalismo daquela espécie limitada.

MENDES, Oscar. Recomeçando. O Diário, Belo Horizonte, 14 jul. 1946. Alma dos livros. Arq. JGR-IEB/USP-R1.

Antonio Candido: regionalismo e nacionalismo literário.

Relembrando a formação de uma consciência federalista, a crise de 1929, o Estado Novo, a fase nacionalista, cujo expoente, segundo ele, foi Bilac, via na década de 40 uma tendência para ser bairrista, e citou Gilberto Freyre como porta-voz da corrente. E é nesse contexto de sabor da terra (expressão usada por Candido) que se apresentou Sagarana.

O crítico foi o primeiro a sublinhar que, em Guimarães Rosa, Minas é menos uma região do Brasil do que uma região da arte, com detalhes e locuções e vocabulário e geografia cosidos de maneira por vezes quase irreal, tamanha é a concentração com que trabalha o autor.

Para Antonio Candido - regionalismo "entre aspas"(antes de Sagarana):

os escritores trouxeram a região até o leitor, conservando, eles próprios, atitude de sujeito e objeto (...) Guimarães Rosa construiu um regionalismo muito mais autêntico e duradouro, porque criou uma experiência total em que o pitoresco e o exótico são animados pela graça de um movimento interior em que se desfazem as relações de sujeito e objeto para ficar a obra de arte como integração total de experiência. Sagarana nasceu universal pelo alcance e pela coesão da fatura.

ANTONIO CANDIDO. Sagarana. O Jornal, Rio de Janeiro, 21 jul. 1946. Notas de crítica literária. Arq. JGR-IEB/USP-R1.

Sérgio Milliet, em 19 de maio:

Sagarana é, entretanto, uma grande estréia. Mais pela promessa do que pela realização. Estamos diante de um escritor capaz, de uma grande obra. Se conseguir libertar-se de sua propensão para a anedota, o caso curioso, se puder livrar-se da tendência para o efeito e o rebuscamento, se se depurar enfim e tentar uma penetração mais vertical do mundo, há de dar-nos dentro em pouco uma grande obra.

MILLIET, Sérgio. Sagarana. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 19 maio 1946. Diário crítico. Arq. JGR-IEB/USP-R1.

Sérgio Milliet, em 21 de julho (por causa do artigo de Antonio Candido):

O jovem crítico paulista considera que o sr. Guimarães Rosa transcende o regional em seus contos, que “Sagarana nasceu universal pelo alcance e a coesão da fatura” e, ainda, que a língua usada “parece ter atingido o ideal da expressão literária regionalista”. Desejaria que o sr. Antonio Candido esclarecesse melhor a sua concepção do universal e nos dissesse também em que essa língua erudita e admiravelmente artística de Guimarães Rosa se prende ainda ao regional.

Sagarana: amor ao efeito, um rebuscamento, uma profusão barroca que atordoam por vezes mas não penetram além da inteligência da gente.

E concluiu:

Releio Sagarana depois do rodapé de Antonio Candido. Lerei sem dúvida outras vezes o livro. Para discuti-lo ainda, o que não deixa de ser ótimo sinal.

MILLIET, Sérgio. Leituras avulsas. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 21 jul. 1946. Diário crítico. Arq. JGR-IEB/USP-R1.

Jauss:

a resistência que a obra nova opõe à expectativa de seu primeiro público pode ser tão grande, que um longo processo de recepção será necessário antes que seja assimilado aquilo que era originalmente inesperado, inassimilável. Por outro lado, pode acontecer que uma significação virtual permaneça ignorada até que a evolução literária, colocando na ordem do dia uma nova poética, modifique o horizonte literário no qual a poética até então desconhecida torne-se finalmente acessível à inteligência, (p. 73)

JAUSS, H. R. Pour une esthétique de la réception. Trad. Claude Maillard. Paris: Gallimard, 1978. (tel, 169).

Agrippino Grieco:

o livro [Sagarana] parece-me opulento. Muitos episódios bons e, naturalmente, episódios maus. Há onde se lhe pegue. Existe. Mesmo nas ruins passagens (e que bom trabalho não as tem?), aí está, implícito, um grande livro futuro.

GRIECO, Agripino. Sagarana. O Jornal, Rio de Janeiro, 26 abr. 1946. Arq. JGR-IEB/USP-R1.

SAGARANA: entre os mais vendidos em 1946

Almeida Fischer: é verdade que certos críticos e cronistas exageraram um pouco os méritos do livro e se esqueceram de apontar-lhe as deficiências, o que explica, em parte, o sucesso obtido.

ALMEIDA FISCHER. O conto na literatura. A Manhã, Rio de Janeiro, p. 14, 23 jun.1946, p. 14. Letras e Artes. Arq. JGR-IEB/USP-R2.

 

Alcântara Silveira: (talvez mais realista e com uma certa neutralidade): .. bobagem afirmar — como estão fazendo a propósito de ‘Sagarana’ e seus críticos - que a crítica entre nós é responsável pelo êxito do livro. O que houve no caso de J. Guimarães Rosa, foi apenas coincidência entre a opinião do povo e a do crítico (coisa que raramente acontece) e por isso Sagarana tem sido lido.

ALCÂNTARA SILVEIRA. Garimpos e vaqueiros. O Estado de S. Paulo, 14 out. 1946. Arq. JGR-IEB/USP-R1.

Sagarana: nova seiva para a corrente regionalista

- espírito nacionalista

- voltado para as populações distantes dos centros de poder

A polêmica crítica: orientada por uma atitude comparativa (grandes contistas - reconhecidos nomes do regionalismo).

Debate crítico: travado à luz do cânone de até 1946.

Sagarana: entra no cânone >>>> exemplo de verdadeiro regionalismo; regionalismo de "técnica aristocrática de representação estética"; regionalismo "no bom sentido da palavra", como procurou explicar a crítica.

... ou simplesmente Sagarana, para fortuna da

Literatura Brasileira.

FRANCÊS

Bibliografia

Midi: Peixe-vivo (Popular)

Página para uso didático. Reprodução proibida.

LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998

Criação da página: Sônia van Dijck

Tradução de trechos de H. R. Jauss:Sônia van Dijck

Université Paris X - Nanterre - 2007

Agradecimentos a
Dr. José E. Mindlin, Prof. José Aderaldo Castello, Profa. Aglaé Fernandes, meus amigos Adylla, Cristina, Elisa, Idelette, Leiradella, Rosana, Ruffato, Sueli, Vilani, Yêdda, e ao Instituto de Estudos Brasileiros-USP

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