CANTO E PLUMAGEM DE SAGARANA

 

 

Sônia Maria van Dijck Lima

 

“As palavras têm canto e plumagem”
João Guimarães Rosa

Antes de conhecer o que as páginas impressas e encadernadas oferecem, o leitor está acostumado a atravessar alguns elementos ou portais: verbais, visuais, físicos, que lhe parecem atraentes ou não, sobre os quais ele se detém ou não, que marcam a entrada do livro. Em algumas publicações, esses elementos também se apresentam na saída do livro. São eles: capa, nome do autor, título da obra, formato do volume, tipo de papel, prefácio, ilustrações, notícia biográfica, textos das orelhas, inserção em coleção, posfácio, texto da última capa, etc., etc., cuja variedade e quantidade dependem do projeto editorial e do interesse da publicação. Apesar de não integrarem propriamente a obra, participam do volume que oferece o texto.
Há também outros textos que tratam do texto, ainda que se encontrem distantes, espacial e materialmente, do volume da publicação, como cartas acerca da obra, entrevistas e depoimentos do autor, comentários críticos, anúncios do lançamento e de novas edições, por exemplo. Suas formas de apresentação podem ser as mais diversas, desde a verbal, a visual ou imagística e até mesmo a fílmica. Podem ser anteriores e/ou posteriores ao aparecimento do livro.
Uns e outros, esses textos tratam do texto; foram gerados a partir do texto e em função dele. Sua fatura pode ser do autor ou do editor ou do ilustrador ou do crítico, entre outros casos possíveis. Podem ter motivações de caráter privado (uma carta particular, por exemplo), ou razões de interesse público (uma carta ao editor, orientando a distribuição das ilustrações, seria um caso, ou uma conferência explicativa de algum aspecto que possa parecer polêmico aos leitores).
Para Genette (2002), esses textos em torno e a partir do texto são paratextos. Os primeiros, por sua proximidade espacial com o texto, são peritextos. Aqueles que não se encontram materialmente junto ao texto são classificados por Genette como epitextos, ainda que nada os impeça de serem ligados espacial e materialmente ao texto em alguma edição posterior, de interesse cultural ou histórico.
Cada um desses paratextos guarda seus objetivos particulares. Por exemplo: um prefácio pode estar voltado para esclarecer a poética do autor ou a importância científica do texto apresentado. Mas, de modo geral, os paratextos têm como função apresentar o texto, preparar ou informar o leitor acerca do que será ou foi lido, particularizar a obra, salientar seu valor, apresentar informação documental (cópia de originais, por exemplo) ou testemunhal (cópia de diário pessoal, de carta, etc.), identificar, destacar, explicar a obra ou o processo de sua construção.
Desses paratextos, fiquemos com o título, pois figura na capa (e na folha de guarda e na de título ou folha de rosto) e antecede prefácio, nota biográfica, orelhas, etc. Genette (2002: 80) aponta a função de seduzir o leitor (1), como característica do título, pois é isso que o autor e o editor desejam: atrair o leitor. Para certo grupo de leitores brasileiros, basta mencionar no título, por exemplo, o nome Carandiru, para que se confirme a possibilidade de sedução de um título, independentemente do nome de um dos muitos autores que trataram da vida nesse presídio. Todavia, se o título é capaz de seduzir (ou até mesmo de afastar) o leitor, esse fenômeno não ocorre fora de um contexto e, muitas vezes, decorre do cânone que a obra integra. Lembremos o exemplo de Brasil: nunca mais (1985), cuja citação basta para que leitores, não-leitores ou possíveis leitores tomem posições favoráveis ou desfavoráveis em relação ao livro. No século XXI, apenas para um restrito grupo de estudiosos, Senhora de engenho (1921), de Mário Sette, tem algum significado. (2)
O título é a identidade do livro. Assegura seu destaque na biblioteca e na livraria, e, graças a ele, pode-se estabelecer o conjunto da produção de um autor. O título confere individualidade à obra, quer anuncie ou não seu gênero; quer antecipe ou não seu conteúdo. É a partir dele que a obra será selecionada pelo leitor, salvo em se tratando de publicação de “obra completa de...”, quando a escolha se faz pelo autor.
Assim, nosso interesse é verificar a gênese do título do livro inaugural de João Guimarães Rosa: Sagarana (3), e os rumos seguidos pela palavra que lhe serve de paratexto.

Não era Sagarana

Para tentar compreender a construção do título publicado em 1946, recorreremos aos documentos existentes no Instituto de Estudos Brasileiros, da Universidade de São Paulo – Fundos João Guimarães Rosa -, antecedentes do livro, que passaremos a chamar de originais (4) da obra. Também serão de grande valia declarações de Guimarães Rosa, em carta a seu pai, em entrevistas e depoimento a Condé, publicados em jornais, em nota nas primeiras edições; ou seja: outros paratextos (epitextos, peritexto) serão convocados para iluminar a compreensão da fortuna do título.
Guimarães Rosa não deixou anotações, lista de possíveis títulos ou de nomes de personagens relativos a Sagarana, conforme foi constatado por Leonel (1985: 250).
Vejamos, então, os originais da obra. O IEB guarda dois volumes encadernados desses originais. O primeiro documento, encadernado em vermelho, cópia carbono de datilografia em papel relatório, tem 447 páginas numeradas de 1 a 444, a nanquim, no canto superior direito, de modo a organizar o conjunto; uma segunda numeração, escrita a lápis no canto inferior direito, ordena os fólios de cada narrativa. Compõe-se das seguintes narrativas: SEZÃO, CONVERSA DE BOIS, A VOLTA DO MARIDO PRÓDIGO, DUELLO, MINHA GENTE, BICHO MÁU, CORPO FECHADO, ENVULTAMENTO, QUESTÕES DE FAMILIA, UMA HISTORIA DE AMOR, O BURRINHO PEDRÊS e A OPPORTUNIDADE DE AUGUSTO MATRAGA (5). Às narrativas, Guimarães Rosa acrescentou um posfácio: PORTEIRA DE FIM DE ESTRADA. Nesse último texto, explica o autor: “‘Sezão’ e as outras historias companheiras foram começadas e acabadas no formoso anno de 1937, precisamente entre 20 de Maio e 4 de Dezembro, e mais ou menos na ordem em que estão seriadas aquí.” As páginas desse volume não têm rasuras, correções, substituições, supressões, acréscimos.
O autor, em algum momento, tomou a primeira via da obra, encadernada em preto, com 446 páginas de papel relatório, numeradas de 1 a 443, seguindo a mesma sistemática de numeração do volume anteriormente descrito, como exemplar de trabalho. Mesmo não tendo tocado no conto inicial, que dava título ao conjunto – “Sezão” -, promoveu alterações em outras histórias, expurgou “Porteira de fim de estrada” e estabeleceu nova organização das narrativas assinalando no índice a ordem desejada, mediante registros marginais (6): SEZÃO, <<3º>> CONVERSA DE BOIS, <<4º>> A VOLTA DO MARIDO PRÓDIGO, DUELLO, MINHA GENTE, BICHO MÁU, <<5º>> CORPO FECHADO, ENVULTAMENTO, QUESTÕES DE FAMILIA, UMA HISTORIA DE AMOR, <<2º>> O BURRINHO PEDRÊS, A OPPORTUNIDADE DE AUGUSTO MATRAGA. Retomava, assim, o trabalho de escritura de seu primeiro livro.
Nesses dois documentos, o título da obra é Sezão, conforme figura nas lombadas das encadernações e na folha de guarda de cada uma delas. Ambos os documentos têm a data apenas gravada na lombada: 1937.

O título escolhido e o título provisório

A escolha do título original e a data de composição das narrativas confirmam-se em depoimento prestado a Condé (Confissões, 1946):

O livro foi escrito – quase todo na cama, a lápis, em cadernos de 100 folhas (7) – em sete meses; sete meses de exaltação, de deslumbramento. (Depois, repousou durante sete anos; e, em 1945 foi “retrabalhado”, em cinco meses de reflexão e de lucidez).
Lá por novembro, contratei com uma datilógrafa a passagem a limpo. E, a 31 de dezembro de 1937, entreguei o original, às 5 e meia da tarde, na Livraria José Olympio (8). O título escolhido era “Sezão”; mas, para melhor resguardar o anonimato, pespeguei no cartapácio, à última hora, este rótulo simples: “Contos” (título provisório, a ser substituído) por Viator. Porque eu ia ter de começar longas viagens, logo após. (9)

A obra, a princípio, teve um “título escolhido” e um “título provisório”. Vejamos, então, um e outro títulos, levando em conta o procedimento do autor.
No Sezão encadernado em vermelho e em preto, a primeira narrativa tem o título “Sezão”. Trata-se da história de Primo Ribeiro e Primo Argemiro, assolados pela maleita, isolados numa fazenda decadente, em uma remota região de Minas Gerais, indicada geograficamente graças ao rio Pará que banha aquelas terras. Enquanto padecem com os ataques de febre e esperam a morte, as personagens falam do passado, dando corpo a uma história de amor perdido, de amor proibido, de traição e fuga da mulher amada, de explosão de ciúme e rivalidade extemporânea. Os primos, tragados pelo abismo da malária, aproximam-se da agonia final. Unidos pela doença, separam-se irremediavelmente pela confissão de Primo Argemiro, provocadora do ciúme tardio e inútil de Primo Ribeiro. Na solidão, cada um caminha para a morte inevitável.
Genette (2002: 82 e seguintes) classifica os títulos em temáticos e remáticos (tema e rema), sendo possível a combinação desses caracteres na composição do título.
O título atribuído à história informa a temática da aventura dos primos. É a sezão que determina o despovoamento da região, o isolamento e o padecimento das personagens. A história é fortemente marcada por uma atmosfera do grotesco, assinalada tanto na desolação da paisagem como na proximidade da morte indicada pela depauperação das personagens.
Como, na primeira organização, o autor concedeu a essa história o lugar de abertura do volume, podemos entender que tal posição conduziu à escolha do título da coletânea: Sezão. Assim, a obra teria um título temático, sugerindo que as 12 narrativas trariam, de algum modo, essa doença e ou suas consequências como elemento estrutural. Mas, não é essa a verdade das narrativas de ambos os volumes encadernados.
No depoimento citado, um segundo título aparece, ainda que como provisório: Contos. O autor preferiu, para inscrever-se no concurso de contos da José Olympio, uma informação genérica (remática), para identificar a obra candidata.
Lembra Genette (2002: 77) que “como toda instância de comunicação, a instância titular se compõe ao menos de uma mensagem (o título ele mesmo), de um emissor e de um destinatário.” Genette salienta que o destinatário do título é, evidentemente, o público. (2002: 78). No caso do título rosiano Contos, o destinatário era, na verdade, um grupo de especialistas: a comissão julgadora do Prêmio Humberto de Campos (10). Como se tratava de uma competição entre livros de contos, o título remático parece soar redundante, todavia inviabilizando qualquer hipótese sobre particularidades temáticas ou características do conteúdo e de seu autor, assegurando o anonimato pretendido e, ao mesmo tempo, o cumprimento da exigência do concurso quanto ao gênero: contos.
Porém, no exemplar encadernado em vermelho, há um posfácio de Guimarães Rosa:
PORTEIRA DE FIM DE ESTRADA. Nesse último texto, explicava o autor: “‘Sezão’ e as outras historias companheiras foram começadas e acabadas no formoso anno de 1937, precisamente entre 20 de Maio e 4 de Dezembro, e mais ou menos na ordem em que estão seriadas aquí.”
Como as histórias foram escritas de maio a dezembro e como o exemplar de Contos foi entregue à Editora José Olympio no dia 31 de dezembro de 1937, o posfácio pode indicar que o volume em questão corresponde a uma nova fase de elaboração, pois, mais adiante, disse o autor: “Bom tempo depois, o autor reviu o original do livro, e nelle mexeu, na fórma, mínimas modificações: nenhum accréscimo, quasi que supressões sòmente.” No momento testemunhado pelo exemplar em vermelho, para Guimarães Rosa, o livro estava pronto, pois, apesar de haver “muita moita má” ainda “para ser foiçada, melhor rende deixar quieto o matto velho, e ir plantar roça noutra grota.” E anunciava o próximo livro: “chamar-se-á ‘
TUTAMÉIA’, e virá logo depois deste. Benza-os Deus!” Esse é o primeiro documento em que aparece o título Sezão, que o autor disse, em 1946, ter sido escolhido em 1937.
O segundo volume dos originais, encadernado em preto, descrito anteriormente, mostra que Guimarães Rosa não deixou “quieto o mato velho” e voltou ao trabalho de escritura, por exemplo, reordenando as histórias, através das anotações marginais, além de modificar algumas narrativas, mantendo o título geral: Sezão.

O título ficou para depois

Um terceiro documento, também pertencente aos Fundos Guimarães Rosa (IEB-USP), constituído por folhas soltas, em datilografia original e outras em cópia carbono ou combinando trechos em 1ª via colados sobre a cópia carbono de datilografia, hoje acondicionadas em uma pasta, apresenta modificações que atestam nova campanha de escritura .
Nesse documento, o conto “Sezão” passou a “Sarapalha”. “Bicho mau” foi retirado da obra. Em datilografia original, “A oportunidade de Augusto Matraga” passou a ser “A hora e vez de Augusto Matraga” e “Envultamento” mudou para “São Marcos”, não restando lembrança dos títulos anteriores. Outros contos são cópia carbono, com vestígios de desencadernação, indicando que houve um terceiro volume encadernado, possivelmente também intitulado Sezão, desfeito nessa fase de retomada do conjunto; por isso, o conto publicado como “Sarapalha” guarda o título original,
SEZÃO, que está rasurado na cópia carbono.
Para entender a escolha do título do livro e a mudança do título do conto que dava nome ao conjunto, destacamos esses originais em folhas soltas como momento de fundamental importância.
Passando de “Sezão” a ”Sarapalha”, o conto, em algum momento não suficientemente provado por esse documento, deixou de ser a narrativa de abertura do volume, ficando com o terceiro lugar. Na nova ordem estabelecida, “O burrinho pedrês” passou a ser primeira história.
Lançado no início de abril de 1946, Sagarana não tem “Uma história de amor” e “Questões de família”(11) ; isso significa uma nova fase de decisão não testemunhada nos documentos citados. Embora não omitindo os títulos originais de três dos contos publicados, Guimarães Rosa, a respeito dessas duas narrativas, fez silêncio na nota “Ressalvas” (peritexto) que apresenta na 1ª e na 2ª edições da obra:

SAGARANA foi escrito em 1937, na seguinte ordem: O Burrinho Pedrês; Sarapalha (Sezão); Minha Gente; A Volta do Marido Pródigo; Duelo; Conversa de Bois; Corpo Fechado; São Marcos (Envultamento); A Hora e Vez de Augusto Matraga (A Oportunidade de Augusto Matraga).” (12)

No depoimento (epitexto) a Condé, disse Guimarães Rosa, em rápida enumeração e resumo da criação das histórias constituintes do livro lançado em 1946: SARAPALHA – Desta, da história desta história, pouco me lembro. No livro, será ela, talvez, a de que menos gosto.” (13)
Porém, considerando que “Sezão” /“Sarapalha” chegou a se impor a ponto de intitular o conjunto, acreditamos na validade de ainda fazermos alguns comentários acerca dessa narrativa.
Nessa fase de trabalho testemunhada pelas folhas soltas, o autor, para situar geograficamente a aventura de Primo Ribeiro e Primo Argemiro, estabeleceu: “É aqui, perto do vau da [ponte velha:] <Sarapalha>: tem uma fazenda denegrida e desmantelada;”.
A escolha, no início da narrativa, do vau da Sarapalha como região da fazenda de Primo Ribeiro também está registrada na rasura do título original, “Sezão”, substituído, na margem superior, por “Sarapalha”. Impossível determinar qual das rasuras aconteceu em primeiro lugar; o resultado é de mútua confirmação.
Façamos, então, breve análise do procedimento autoral na determinação do título desse conto, até para, em seguida, compreendermos a definição do título do livro.
Enquanto “Sezão”, o autor parecia privilegiar a doença como motivo desencadeador da história dos primos e determinante de seu destino. Todavia, como se lê na narrativa, o clímax do desespero das personagens resulta do desfecho de uma triste e desesperada história de amor, marcada pelas contingências humanas, sempre a caminho da morte. Os primos aguardariam a volta de Luíza até que a morte encerrasse a espera de cada um, fosse pela sezão ou por picada de cobra ou pela depressão resultante da perda da mulher amada. A sezão lhes acentua o abandono, o desespero, a impotência, a solidão e a estupidez dos gestos inúteis pela inoportunidade (a confissão e o ataque de ciúme). Ao modificar o título para “Sarapalha”, que é o nome da região fictícia, o autor concedeu definição de palco ao drama das misérias humanas, integrando de tal modo espaço e criaturas, que até podemos dizer que a paisagem é a outra personagem também vitimada pela sezão. Portanto, de certo modo, o título do conto mantém um caráter temático, na medida que informa uma região habitada pelas fraquezas humanas. E Sarapalha funciona como metonímia do espaço habitado pelo grotesco da condição humana, cujo destino é a morte, ainda que os gestos desesperados, como o arrependimento ou como a defesa da honra, pareçam ter serventia. Pouco importa a identidade das criaturas envolvidas na tragédia; elas são reflexos da miséria que as cerca. Como disse Rónai (1946):

“Sarapalha” representa, a meu ver, em todo o volume, a única vitória do regional sobre o humano: a descrição de uma região destruída pelas febres avulta sobre o conflito passional das duas personagens, que valem mais como componentes da paisagem que como verdadeiros atores.

A transformação do título do conto teve implicações no título geral do conjunto das 11 narrativas que permaneceram nessa fase de escritura. Como a sezão não é a temática predominante das narrativas da coletânea e como não servia mais de título para uma das histórias que nem sequer continuou a ser a primeira história do livro, deixou de haver motivo para manter o título originalmente escolhido para a obra.
Contudo, essas folhas soltas não têm anotação de título da obra, e sua identificação resulta da colação com os documentos encadernados em vermelho e em preto.

Divulgação do título

O fato é que Guimarães Rosa preferiu um neologismo para construir o título de seu primeiro livro, contendo 9 histórias: Sagarana.
A obra foi saudada por Álvaro Lins (1946) como de um estreante, imediatamente após seu aparecimento nas livrarias (14).

De repente, chega-nos o volume e é uma grande obra que amplia o território cultural de uma literatura, que lhe acrescenta alguma coisa de novo e insubstituível, ao mesmo tempo que um nome de escritor, até ontem ignorado do público, penetra ruidosamente na vida literária para ocupar desde logo um de seus primeiros lugares. O livro é Sagarana e o escritor é o Sr, J. Guimarães Rosa.

Lins não se deteve sobre o título; quase que podemos supor que o grande crítico tenha tomado “sagarana” como expressão corrente..., limitando-se a mencionar o vocábulo, várias vezes, em sua coluna.
O principal destinatário do título é o público (Genette, 2002: 78). Lins, na posição de crítico literário, divulgou o título, mesmo para aqueles não leitores da obra.
Coube a José César Borba realizar a primeira entrevista com o autor que acabava de ser consagrado pela crítica. Organizando dados biográficos e informações que iluminassem a leitura do livro recém lançado, colhidos na conversa com o autor, registrou Borba (1946) em sua matéria jornalística:

O livro foi escrito em 1937 e recebeu vários nomes até chegar a este nome com que se acha nas livrarias: Sagarana. As mudanças todas se fizeram, porém, depois da primeira letra, pois os outros títulos também começavam por S. Era uma superstição.
- Tenho todas as superstições públicas e ainda algumas particulares... confessa o autor de Sagarana, neste apartamento da praia do Russel.

“Vários nomes”? Até onde os documentos informam, Sezão foi o título escolhido. Contos foi o título provisório. A coincidência de letra existe entre Sezão e Sagarana. Se Guimarães Rosa contou a Borba sobre outros títulos experimentados, fica difícil de apurar agora. Se Borba ficou sabendo de outros títulos, por que não os registrou no
CORREIO DA MANHÃ?
Na verdade, Borba mencionou uma possível multiplicidade de títulos com S, considerando apenas a dualidade Sezão e Sagarana, porque ele mesmo pretendia, com sua matéria jornalística, divulgar a obra e atingir o público, e sugeriu uma diversidade não comprovada.
Segundo Genette (2002: 78),

o público de um livro, ele é, parece-me, uma entidade de direito mais vasta que a soma de seus leitores, porque ele engloba, às vezes muito ativamente, as pessoas que necessariamente não o leem, pelos menos não inteiramente, mas que participam de sua difusão, e portanto de sua “recepção”.

Desde o artigo consagrador de Lins, o colégio de críticos literários se mobilizou em torno do livro do momento (Lima, 2003). Todos pareciam compreender a palavra “sagarana”, e não houve preocupação em explicar seu significado. O título estava lançado ao público. Falou-se tanto do autor e do livro, que a impressão que se tem é a de que todos - escritores, críticos, jornalistas, intelectuais e periódicos - queriam marcar presença no debate. E o fenômeno ultrapassou os limites do eixo Rio - São Paulo (15). Falou-se de Sagarana, por exemplo, em Fortaleza, UNITÁRIO e O ESTADO; em Paraopeba, GAZETA DE PARAOPEBA; em Santos, O DIÁRIO e A TRIBUNA; em Belo Horizonte, FOLHA DE MINAS, Alterosas, O DIÁRIO e ESTADO DE MINAS; no Recife, JORNAL DO COMMERCIO; em Porto Alegre, Revista do Globo (16), ao longo de 1946. Ao levantar a fortuna crítica do livro no ano de 1946 (17), que constitui vasto epitexto, vemos que a intelectualidade da época falava em Sagarana como o assunto mais quente da temporada. Mesmo quem não o havia lido não queria ficar de fora. É o caso de Henrique Pongetti (1946) que declarou:

Não li ainda o livro porque ainda não escreveram sobre ele os vinte admiráveis espíritos que escreverão sobre ele nesses próximos sessenta dias, contagiados de um entusiasmo sem vacina, inevitável. Gosto de ler certos livros na segunda edição e de ver certos filmes na “reprise”. (18)

Antes de confessar não ter lido Sagarana, Pongetti havia dito na mesma coluna:

O último andaço das nossas letras é o Sr. Guimarães Rosa, autor de “Sagarana”. (...) Mas o andaço pró Guimarães Rosa (por escrito) está sendo acompanhado de um andaço contra Guimarães Rosa (falado). Murmuram-se perfídias. Que “Sagarana” perdera num concurso de contos de certa livraria para o livro do Sr. Luís Jardim, sem despertar em nenhum dos garimpeiros da comissão a desconfiança de se haver posto à margem uma legítima obra-prima. Que “Sagarana” foi promovido a obra-prima e o Sr. Luís Jardim a usurpador depois da nomeação do Sr. Guimarães Rosa para um cargo de muita influência no Itamarati.

Mostrava-se, assim, crítico bem informado sobre o sucesso do momento, ainda que só acompanhasse as críticas a partir do título da obra.
Mas, não só Pongetti falou do que não havia lido. Lins do Rego (26 abr. 1946), no calor da hora, apressou-se a falar do livro:

O crítico Álvaro Lins lançou um rodapé de absoluto elogio ao livro de um estreante.
E por isso tenho ouvido os comentários mais opostos. Para uns o artigo do crítico se excedera, a consagrar o que não merecia tanta vela de libra. Para outros, e entre estes o poeta Augusto Frederico Schmidt, o elogio ainda assim não corresponde à realidade do livro.
Estamos, portanto, diante de um caso literário. É de espantar, porém, que haja quem não dê fé na opinião do mestre Álvaro. O que me faz crer na nossa fraca capacidade para admirar.

Para, logo em seguida, confessar:

Eu ainda não li o tal livro de contos (19), mas pelo que dele me falam homens como Pedro Dantas e Graciliano Ramos, homens que não são de fácil elogio, trata-se de coisa muito séria. (...) vou eu à procura do livro de contos, com disposição para pisar em terra nova!

Tendo lido Sagarana, Lins do Rego (10 maio 1946), aludindo às críticas em circulação, revelou a sua opinião:

Li todos os contos do novo escritor mineiro e cheguei ao fim de sua última página com a impressão de que há qualquer coisa de realmente grande na sua ficção. O que não me convence é a afirmação de que a forma literária do Sr. Rosa seja uma terra nova, um mundo à vista, como nunca existira. O que menos vale no conjunto de contos é a intervenção do autor, quando se propõe a brilhar e a tomar conta dos acontecimentos.

Depois de algumas restrições, o consagrado autor de Fogo morto admitiu que o livro do “estreante” “é um magnífico livro de contos”, remetendo aos confrades o ônus do elogio: “E que nos obriga a acreditar na sinceridade de seus críticos.”

As trilhas de sagarana

Com base na documentação conhecida, é impossível saber quando surgiu o título Sagarana. Por exemplo, em carta dirigida ao pai, em 6 de novembro de 1945, Guimarães Rosa falou da fase de retomada da escritura, sem qualquer menção ao título a ser publicado:

Em todo o caso, consegui – a custa de horas de sono, do descanso dos domingos e de muito esforço – preparar, ou melhor, reestruturar um livro de contos, para o qual achei imediatamente editor. Tenho muita esperança nesse livro, pois já provocou o mais exaltado entusiasmo (e sincero) da parte dos maiores escritores e intelectuais brasileiros, que lhe garantem tremendo sucesso. Vamos ver o que dá. (apud Rosa, 1983: 159)

Para Genette (2002: 70), “O momento de aparecimento do título a princípio não constitui nenhuma dificuldade: é a data de aparecimento da edição original, ou, eventualmente, pré-original.” Assim, a resolução do título do livro de estreia de Guimarães Rosa pode estar na data da primeira edição, pois não sabemos quando foi escolhido.
Em entrevista concedida a Ascendino Leite, logo depois daquela colhida por Borba, perguntado acerca do significado de “sagarana”, o autor respondeu: “Sagarana: coisa que parece saga... Filei um sufixo do nheengatu...” (Lima, org., 2000: 66)
Guimarães Rosa construiu o título definitivo de seu primeiro livro a partir da retomada daquele título provisório da coletânea inscrita no concurso da José Olympio: contos – sagarana (narrativa que parece saga, conto), revelando uma leitura crítica de suas próprias estórias (20), que parecem histórias. Na ambivalência do neologismo, vindo de sua paixão pelo estudo de línguas (saga – da língua dos escandinavos; rana – do tupi), o autor ofereceu ao público um título que remete ao gênero acondicionado em suas páginas: título remático e, ao mesmo tempo, instigante: sagarana = histórias inventadas; estórias.
Ou seja: Contos, título criado em 1937, ficou aguardando, até 1946, tradução em um neologismo: Sagarana.
O objetivo do neologismo peritextual era, a princípio, identificar o livro, ao mesmo tempo gerando um estranhamento da parte do público e até mesmo dos críticos, que passaram ao largo de seu significado ou se deram por satisfeitos com a explicação do autor a Leite.
Mas, na mesma entrevista, sagarana começou a ganhar novos significados, incorporando-se à fala de Guimarães Rosa, sem perder o significado original, superando ou confirmando, até certo ponto, sua ambivalência. Continuando a entrevista, e estimulado por Leite, Guimarães Rosa usou sua nova palavra como exemplo de livro grande, contando muitas histórias: “Com coisas dos bichos de lá, para ficarem bem contadas, podia encher livro grande como o Sagarana.” Pouco depois, sagarana passou a significar grande, longo (a), profundo (a), complexo (a); para argumentar que “uma palavra é coisa sagrada”, Guimarães Rosa aludiu a um poema de Carlos de Drummond de Andrade e concluiu: “Dá matéria para uma sagarana de meditação...” (Lima, org., 2000: 58 e 68)
Apesar de a palavra não ter sido incorporada à fala dos mortais comuns, sagarana fez seu próprio caminho, guardando o livro rosiano como seu referente.
Antes que a quarta edição de Sagarana (1956) estivesse nas livrarias, o neologismo disparava na raia do jóquei, em São Paulo. Em dezembro de 1955, José Olympio telegrafou a Guimarães Rosa, noticiando a vitória de uma potranca de corrida, de nome “Sagarana”. Companheira dos bichos pensantes e falantes do universo rosiano, a égua, de certo modo, integra-se à ficção, quando, através do editor, manda abraços “ao grande escritor e criador seu belo e simpático nome.” (21)
Leitores aficcionados abrem restaurantes, livrarias e sebos, e anunciam na entrada “Sagarana ...” (22)
Mas antes de livrarias, sebos e restaurantes, José Olympio encontrou novo uso para sagarana. Retomando a tradição editorial, marcada pela Coleção Brasiliana e pela Coleção Documentos Brasileiros (23), o editor criou a Coleção Sagarana, cujo número 1 é exatamente a coletânea das histórias rosianas de 1946, agora em sua 6ª edição (1964) (24). Essa coleção tornou-se rica com a participação da obra de Adalgisa Nery, Amando Fontes, José Américo de Almeida, José Lins do Rego, Luís Jardim (com Maria Perigosa), Lygia Fagundes Telles, entre outros, passando a atestar “Grandes sucessos literários e populares”, conforme seu anúncio. (25)

Só para fazer uma pausa nesta sagarana de conversa...

Tendo sido concebido para uma função paratextual, o neologismo que identifica a obra que levou Guimarães Rosa a integrar o cânone da Literatura Brasileira assumiu o papel de recomendar ao leitor obras merecedoras de leitura, ao tempo em que integrou seus autores a um novo cânone: Coleção Sagarana.
E, assim, sagarana ganhou nova função paratextual na História da Literatura Brasileira: significando excelência dos textos reunidos na série batizada com esse nome.
E isso pode dar uma sagarana de outras histórias e considerações críticas...

Publicado in Plural Pluriel. Guimarães Rosa du sertão et du monde, ns. 4-5, automne-hiver 2009 - http://www.pluralpluriel.org/index.php?option=com_content&view=article&id=208:canto-e-plumagem-de-sagarana-&catid=72:numero-4-5-guimaraes-rosa-du-sertao-et-du-monde&Itemid=55

Plural Pluriel - ISSN 1760 - 5504 - http://www.pluralpluriel.org/

Referências

AZEVÊDO, Neroaldo Pontes de. Modernismo e regionalismo. Os anos 20 em Pernambuco. João Pessoa: Secretaria de Educação e Cultura da Paraíba, 1984.
BORBA, José César. Histórias de Itaguara e Cordisburgo. CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, 19 maio 1946. Entrevista de GR. Fnds. JGR-IEB/USP-R2.
CONFISSÕES. A MANHÃ, Rio de Janeiro, 21 jul. 1946. Letras e artes. Depoimento de GR a João CONDÉ. Fnds. JGR-IEB/USP-R2.
COVIZZI, Lenira Marques e VERLANGIERI, Iná Valéria Rodrigues. Pequena bibliografia de Guimarães Rosa. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, Instituto de Estudos Brasileiros, Universidade de São Paulo, n. 41, 1996, p. 213-232.
GENETTE, Gérard. Seuils. Paris: Seuil, 2002. (Coll. Essais, 473).
LEONEL, Maria Célia de Moraes. Guimarães Rosa alquimista: processos de criação do texto, São Paulo. Tese (Doutorado em Letras) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 1985.
LIMA, Sônia Maria van Dijck. João Guimarães Rosa: cronologia de vida e obra. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, Instituto de Estudos Brasileiros, Universidade de São Paulo, n. 41, 1996, p. 249-254.
_____________ Introdução à história de Sagarana. D O leitura, São Paulo, IMESP, ano 17, n. 3, jul. 1999, p. 32-43.
_____________ (org.). Ascendino Leite entrevista Guimarães Rosa, 2ª ed. rev. João Pessoa: Ed. Universitária/UFPB, 2000.
_____________ e FIGUEIREDO JÚNIOR, Nestor de. De Gilberto Freyre para José Lins do Rego. In GALVÃO, Walnice Nogueira e GOTLIB, Nádia Battella (org.). Prezado senhor, prezada senhora. Estudos sobre cartas. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 241-250.
LIMA, Sônia Maria van Dijck. Sagarana causou polêmica. In MATOS, Edilene et al. (org.). A presença de Castello. São Paulo: Humanitas / FFLCH/ USP; Instituto de Estudos Brasileiros, 2003, p. 869-885.
LINS, Álvaro. Uma grande estreia. CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, 12 abr. 1946. Jornal de crítica. Fnds. JGR-IEB/USP-R1.
PONGETTI, Henrique. Saúva nos loureiros. O GLOBO, Rio de Janeiro, 8 maio 1946. Cara ou Coroa. Fnds. JGR-IEB/USP-R2.
REGO, José Lins do. Sagarana. CORREIO PAULISTANO, São Paulo, 26 abr. 1946. Vida do Rio. Fnds. JGR-IEB/USP-R1.
_____________ Sagarana. O GLOBO, Rio de Janeiro, 10 maio 1946. Fnds. JGR-IEB/USP-R1.
RÓNAI, Paulo. A arte de contar em Sagarana. DIÁRIO DE NOTÍCIAS, Rio de Janeiro, 14 jul. 1946. Fnds. JGR-IEB/USP-R1.
ROSA, Vilma Guimarães. Relembramentos: João Guimarães Rosa, meu pai. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.
SYNTHESE dos 100 primeiros volumes da Collecção “Brasiliana”. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938.

NOTAS

1. Genette (2002: 80) cita as funções do título estabelecidas por Charles Grivel: 1) identificar a obra; 2) designar seu conteúdo; 3) destacar o livro. Em seguida, apresenta a definição de Leo Hoek: “Conjunto de signos lingüísticos [...] que podem figurar no alto de um texto para designá-lo, para indicar seu conteúdo global e para aliciar o público visado.”
2. Senhora de engenho, romance de Mário Sette, publicado em 1921, no Recife, pela Imprensa Industrial de Recife, foi sucesso de crítica, por seu caráter regionalista e tradicionalista, e de leitores, pois, em 1923, estava na 4ª ed.; a 5ª ed. saiu em 1937, em São Paulo, por J. Fagundes. Remetemos a AZEVÊDO (1984: 26 e seguintes).
3.
Rio de Janeiro: Universal, 1946.
4. O uso de “originais”, aqui, não tem o sentido que lhe atribui a Filologia. Trata-se de primeiros documentos (originais), anteriores à publicação.
5. Nas citações de originais, não alteramos a ortografia e o registro gráfico escolhido pelo autor.
6. Na transcrição de documentos originais, é usada a seguinte convenção: [ ] = rasura; < > = ocorrência nas entrelinhas; << >> = ocorrência marginal. Usamos as seguintes abreviaturas (nas notas e referências): Fnds. JGR = Fundos João Guimarães Rosa – seguida de R e número, indica a pasta de recortes na organização do arquivo; GR = Guimarães Rosa; IEB = Instituto de Estudos Brasileiros; USP = Universidade de São Paulo.
7. Esses documentos continuam desconhecidos.
8. GR referia-se à inscrição para o Prêmio Humberto de Campos, promovido pela José Olympio.
9. GR estava designado para um posto na embaixada na Alemanha. Ver Lima (1996).
10. Integrantes da Comissão do Prêmio Humberto de Campos, 1937 – concedido, em 1938, a Luís Jardim, por Maria Perigosa: Dias da Costa, Graciliano Ramos, Marques Rebelo, Peregrino Júnior, Prudente de Moraes Neto.
11. Tanto o volume Contos entregue para o concurso da José Olympio como o exemplar entregue ao editor para a 1ª edição continuam desconhecidos; também os originais da 2ª edição.
12. Ver páginas 341 e 334, da 1ª e da 2ª eds. de Sagarana, respectivamente, publicadas pela Ed. Universal, em 1946.
13. Disse GR acerca das histórias afastadas do livro: “V) QUESTÕES DE FAMÍLIA – História fraca, sincera demais, meio autobiográfica, mal realizada. Foi expelida do livro e definitivamente destruída. VI) (UMA HISTÓRIA DE AMOR – Um belo tema, que não consegui desenvolver razoavelmente. Teve o mesmo destino da novela anterior). [...] IX) BICHO MAU – Deixou de figurar no “Sagarana”, porque não tem parentesco profundo com as histórias deste, com as quais se amadrinhava, apenas, por pertencer à mesma época e à mesma zona. Seu sentido é outro. Ficou guardada para outro livro. Mais do que isso, serviu de semente para outro livro de novelas, já concebido, e que, daqui a alguns anos, talvez esteja escrito.” (Confissões, 1946). “Bicho mau” integra Estas estórias (1969).
14. Colofão da 1ª edição de Sagarana: “Este livro foi composto e impresso nas oficinas da Empresa Gráfica da ‘Revista dos Tribunais’ Ltda., à (sic) rua Conde de Sarzedos, 38, S. Paulo, em abril de 1946.”
15. Em São Paulo, citamos: O ESTADO DE S. PAULO, JORNAL DE NOTÍCIAS, DIÁRIO POPULAR. No Rio de Janeiro: CORREIO DA MANHÃ, O GLOBO, Diretrizes. Apenas alguns títulos, como exemplos.
16. Os Fnds. JGR guardam também vários recortes cujos locais de publicação não estão anotados, por isso não podemos precisar ou porque sabemos da coincidência de títulos (p. ex.: DIÁRIO DE NOTÍCIAS – Rio de Janeiro e Salvador) ou porque não conhecemos o periódico (p. ex.: RESISTÊNCIA). Investigação futura trará essas informações.
17. GR colecionou as críticas favoráveis e as desfavoráveis, recortadas dos periódicos e coladas em álbuns. Esse material faz parte dos Fnds. JGR (IEB – USP) e constitui nossa fonte de informações.
18. Pongetti não precisou esperar muito pela 2ª edição de Sagarana (nas livrarias em jun. 1946), e logo havia muito mais do que “vinte” nomes (“admiráveis espíritos” ou não... tudo depende de quem julga...) assinando matérias sobre Sagarana, como J. G de Araújo Jorge (RESISTÊNCIA, 11 maio 1946), Luiz Magalhães (CARIOCA, 1 jun.1946), por exemplo. Só não sabemos se Pongetti leu Sagarana na 2ª edição.
19. Temos que admitir que os críticos profissionais de periódicos tendiam (ou tendem?) a falar do livro que tivesse uma avaliação assinada por alguém consagrado como autoridade crítica, independentemente de ter ou não lido. Independentemente do ponto vista favorável ou desfavorável. O que, de qualquer modo, atesta a recepção de uma obra, no caso em pauta: Sagarana. Anos depois, o mesmo Lins do Rego, na coluna “Homens, coisas e letras”, do DIÁRIO DE S. PAULO, no dia 5 jan. 1952 (Fnds. JGR-IEB/USP-R2), escreveu: “Ainda não li o último romance de Érico Veríssimo, mas pelo que me falam não teria a mesma força do primeiro livro que nos deu um Érico quase épico e cheio de admirável poder narrativo.” E como GR ainda não havia publicado Corpo de baile (1956), seu segundo livro, disse Lins do Rego: “Feliz o meu caro amigo Guimarães Rosa, com o seu Sagarana. O autor de um único livro bom não sofrerá os elogios que lhe sangram, e pode cuidar do filho único e fazer-lhe todas as vontades.” O romance de Veríssimo em questão era o segundo livro da trilogia O tempo e o vento: O retrato, publicado em 1951- acreditamos que Lins do Rego o tenha lido depois...
20. “Estórias” – forma preferida por GR.
21. Telegrama assinado por José Olympio e conservado em Fnds. JGR-IEB/USP-R3.
22. “Sagarana”, anos e anos depois, tornou-se nome de um gostoso e fino restaurante (cozinha criativa) em João Pessoa (Paraíba-Brasil), cujo chef de cuisine e proprietário, Walter Aguiar, está inscrito entre os aficcionados pela literatura rosiana. Nos anos 90, conheci, em Mariana (Minas Gerais – Brasil), a professora da Universidade Federal de Ouro Preto Magdalena Lana Gastelois Driss Laftimi Xênia Almada que também criou seu restaurante “Sagarana”, fiel à cozinha mineira.
23. Fundou-se, em 1931, a Coleção Brasiliana, dirigida por Fernando de Azevedo, sob o selo da Companhia Editora Nacional (São Paulo). Procurando reunir conhecimentos sobre a formação histórica e social do Brasil, sobre os grandes vultos históricos e sobre aspectos geográficos, etnológicos, políticos, econômicos e militares, a Coleção foi inaugurada por Batista Pereira, com Figuras do Império e outros ensaios, em 1931. Consagrado, desde 1933, com Casa-grande e senzala, Gilberto Freyre figura na Brasiliana com Sobrados e mucambos: decadência do patriarcado rural no Brasil, em 1935 (Synthese, 1938). No Rio de Janeiro, em 1936, José Olympio criou a Coleção Documentos Brasileiros, inicialmente dirigida por Gilberto Freyre e, depois, por Octávio Tarquínio. Sérgio Buarque de Holanda, com Raízes do Brasil, por escolha de Gilberto Freyre, abriu a Coleção, na qual, entre outros grandes nomes da cultura brasileira, figuram o próprio Gilberto Freyre, com Nordeste, de 1937, e Olívio Montenegro, com o seu O romance brasileiro, publicado em 1938. (Lima e Figueiredo Júnior, 2000: 247).
24. Em 1964, saiu a 6ª edição de Sagarana, e a 7ª, em 1965, segundo a bibliografia rosiana (Covizzi, e Verlangieri, 1996: 214.). Na biblioteca Guita e José E. Mindlin, na biblioteca do IEB e em nossa biblioteca, há exemplares, em cuja folha de rosto consta 6ª edição, com data de 1964, além de a mesma indicação de ordem de publicação figurar no verso da folha de guarda; fato confirmado pelo colofão: “Esta 6ª edição de SAGARANA foi composta e impressa nas oficinas da Gráfica Urupês S. A., na rua Pires do Rio, 338, São Paulo, para a Livraria José Olympio Editora S. A., Rio de Janeiro, em janeiro de 1964.” Vale salientar que não consta na folha de rosto ou na folha de guarda qualquer indicação de edição revista, modificada ou atualizada. Todavia, um fato curioso marca os exemplares mencionados: a lombada traz a indicação de 7ª edição. O mais interessante é que o exemplar da biblioteca Guita e José E. Mindlin pertenceu a Edoardo Bizzarri, conforme se verifica na dedicatória autografada pelo autor e também datada de 1964 - Cópia da dedicatória, registrada na folha de guarda: “Ao meu Amigo EDOARDO BIZARRI – admirável homem e espírito, imenso ‘Miguilim’, o Tradutor maior, - com o grande, grato, perene abraço do Guimarães Rosa. Rio, 1964.” – do ponto de vista da história do livro, isso significa, praticamente, um aval do autor para uma tiragem da 6ª edição com uma capa que antecipava a próxima publicação. Não foram localizados exemplares que pudessem testemunhar a 6ª edição “pura” e a 7ª edição “pura”; a investigação deverá continuar, considerando, principalmente, que a bibliografia de GR distingue, objetivamente, as duas edições e informa que a 7ª veio à luz em 1965. Rogamos a quem tenha um exemplar da 7ª edição “pura” (1965) que nos passe a informação.
25. É obrigatório informar que, na proposta da Coleção Sagarana, autores como, por exemplo, Albert Camus (com A peste) estão incluídos.

 

 

 

 

 

MAIS SOBRE GUIMARÃES ROSA

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.LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998

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