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A escolhida-- A vez e a espera - -Banho turco- Canção para lembrar de mim-Da Cartilha para os livros de gente grande Fotografias-O álbum -O tempo perdido -- Poderia ter acontecido em Dublin -

Quasímodo perdeu a ternura - Shopping dos Milagres - Uma mesa perto da arrebentação

T R A V E S S I A

Sônia van Dijck

Através do vidro, o desfile da paisagem, na manhã iluminada por um veranico inesperado àquela época. Bom não ter companhia na poltrona; podia estirar-se, tentar relaxar. Pouca gente ia para aquele fim de mundo, dito estação turística para amantes da natureza... Fora da temporada, deserto de gentes. Já vira cartazes em agências de viagem. Nunca tivera vontade de ir tão longe. Mas, ele havia dito que o hotel era confortável e que a paisagem convidava a caminhadas. Poderiam conversar cercados pelo verde... talvez...
- Pra que tão longe?... – esse pensamento ajudou a corrigir o romantismo em que começava a mergulhar desde que o ônibus ganhara a estrada. Tentar dormir um pouco. Ainda falta muito pra chegar. Pensar... Não pensar. “Tudo por uma boa causa...” e sorriu diante de seus pensamentos.
Conheciam-se há muito. Coisa de amigos comuns, ainda que nunca tivessem sido muito chegados. Uma ocasião aqui, outra meses depois; opiniões sobre a banalidade do cotidiano, trocadas em alguma festinha de aniversário de amiga. Olhando bem, ele sempre estivera por perto, sempre aparecia; nem se lembrava, e eis que também fora convidado.
- Oi, tudo bem? E como está aquela história do livro que você disse que ia começar a escrever?
- Ah! Você se lembra?... Pois estou quase terminando... Mando convite para o lançamento.
Foi mesmo muita atenção, ou ele tem boa memória para essas gentilezas. Fora um papo num grupinho, no apartamento de Heloísa. Lembrava-se. Heloísa também trabalhava com Literatura. Casada com um advogado, era natural que o colega de seu marido estivesse entre os convidados para o jantar. Aliás, isso era coisa de que Carlos gostava: encher a casa de gente e deixar Heloísa descabelada com os preparativos de cada jantar, explicando tudo outra vez à cozinheira, ensinando mais uma vez à copeira...
Quase escreveu a conclusão da pesquisa ali mesmo, tantas foram as perguntas que lhe fizera; tamanho foi o interesse demonstrado. Só então ficou sabendo que lera muito do que já publicara – provavelmente, não tudo, mas quase tudo – ficou com vergonha de conferir, mas que teve vontade... isso teve... E sorriu novamente ao olhar seus pensamentos...
Meses de telefonemas, e, principalmente... e-mails – a Internet fazia aquele papo, que lhe parecia gostoso e inteligente, ficar mais perto. Descobriram-se leitores do mesmo poeta... Ele também publicara poemas – droga! como não sabia disso? deixara escapar algum comentário... mas quando? Nem fazia muito tempo que o livro tinha sido publicado: ano passado. Talvez estivesse viajando...
- Mande-me um exemplar. Vou gostar de ler.
- Posso levar pra você.
- Tudo bem. Se tiver saído, deixe na portaria. Lembre-se de escrever o número do apartamento. Aceita meus comentários?
As primeiras rosas apareceram na manhã do lançamento do livro. Claro! tinha recebido o convite. Foi gentil com as rosas. À noite, agradeceu, e falou que estava comovida: adoro rosas. E foram muitas as rosas; depois, CDs, mais reuniões em casas de amigos.
- Você também vai? Passo pelo seu prédio. É praticamente no caminho.
Rodinha de mulheres, fofocas, risos. Ele se aproximara e ouviu que se falava de lingerie... Na caixa postal, encontrou uma pergunta: “Qual seu manequim?” Desde quando haviam começado a falar sobre coisas pessoais, gostos preferências? Havia intimidade, sim. Mas... desde quando?... Pergunta boba... era bom ter com quem falar de certas preferências... Lembrou-se que não apagara os e-mails. Conferiu: lua, caminhadas, livros e o poeta tão mencionado...
Viúva há muito tempo, cultivara o esquecimento do compartilhar intimidades. No mundo acadêmico, disputara espaço e prestígio, muita polêmica, para chegar ao de igual para igual. Sem tempo para rosas. Poesia é um objeto de análise. A pergunta... Percebeu que falava de sua curtição por poesia e até por música popular deslavadamente romântica, com aquele amigo que já deixara de ser casual. E como havia esperado o e-mail depois do lançamento do livro... Valeu a pena esperar. Valeu a pena ter escrito o livro, mesmo que ele fosse o único leitor.
Foi do precisamos nos encontrar que a viagem começou. Vamos conversar com mais calma, queria muito saber o que está fazendo agora, Mas você já sabe, não conversamos sábado passado no apartamento de Jorge sobre isso?, Mas eu queria saber mais...
E agora... nesse ônibus, indo pr’o fim do mundo. Ele vai estar na rodoviária; garantiu. Chegou de véspera... sabe como é: esposa viajando... Parece que já conhece o lugar... sei lá... que me importa?... A distância afasta o risco com a mulher dele... Tudo bem. Não vamos magoar ninguém... Ou, pelo menos, não é isso que queremos. Já falamos sobre isso em alguma mensagem.
Depois de tanto tempo, vivida em um casamento que, finda a festa da descoberta da lua-de-mel, caíra no corre-corre do cotidiano, até o horrível acidente, acostumara-se a sua vida de compromissos (sempre urgentes). Sem mais trabalhos com o filho rapaz, a pesquisa ocupou todos os espaços. E as aulas... e os amigos... Tudo bem... até as rosas chegarem, os CDs, os papos sobre suas preferências... as mensagens... e muitos cartões virtuais... a vida para além do universo dos textos... E aí reencontrou seu imaginário...
Conferiu o relógio. - Devo estar chegando.
- Não vai subir comigo?
- Não. Espero você arrumar suas coisas. Estou no bar.
Nem trouxe essas coisas todas... pensou, no elevador, olhando a sacola com o empregado do hotel...
O laço de fita arrematando a caixa sobre a cama. Gentil ficar esperando no bar...
O tempo de ler o cartão... abrir... Imaginou-se travestida na camisola... bem... nem é camisola... mais pra baby-doll... as meias pretas... que liga!...
- Deve haver algum engano...
- Você não gostou? Só queria lhe fazer um carinho...
- Deve haver algum engano...
- Você disse que topava; tanto que veio.
- Tem que haver algum engano. A camisola não me serve.
- Quer dizer que não vai usar?...?...
- Você exagerou...
- Não!... só queria ver você vestida para mim... gosto que seja assim... você vai se acostumar e vai ver que não é nada demais...
- Você me conhece; como pode me dar uma coisa daquelas?
- Você é mulher. Vamos subir?...
Ah!... o universo masculino... E todos os papos foram buscados na memória, todas as rosas foram reencontradas, todos os e-mails foram acessados... e o poeta que era “nosso poeta”... bem... esse voltou a ser só um nome na Literatura...
Vidinha besta! Depois de tanto tempo, teria um fim de semana... ainda pode dar certo... não custa nada tentar... quem precisa de camisola, meias pretas, liga, na hora?... não custa nada tentar... ainda “nosso poeta”?...
Ele gozou na madrugada... sem fantasias... poesia é mesmo construção de palavras.
Dormia. Satisfeito.
- Bom dia. Chame um táxi, por favor.
A cara sonada do recepcionista reacendeu no espanto.
Sua sacola... o presente... ele vai entender...
Esta BR não acaba mais... e esta chuva fora de hora... fim do veranico. Preciso fazer meu resumo... o prazo termina esta semana...

© Copyright by Sônia van Dijck, 2002

Midi: Enya

Publicado in: Continente multicultural, Recife, ano 2, n. 14, fev. 2002, p. 40-43.

Republicado in: Continente documento. Todos os contos. Recife, ano 4, n. 38, 2005, p. 24-25.

Continente multicultural, Recife, ano 2, n. 14, fev. 2002

Capa: Antonio Carlos Nóbrega - foto: Leo Caldas

Continente documento. Todos os contos. Recife, ano 4, n. 38, 2005

Capa: CORBIS

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