Artigos
Contos
Entrevistas
Opiniões
Pesquisa
Poemas
Mapa do site

Sônia Maria van Dijck Lima - Universidade Estadual de Feira de Santana (Bahia - Brasil) - 2011

Em demanda de nova expressão

do Modernismo ao século XXI

Resumo

Se não falo com ninguém, deixo marcas, porque me qualifico como alguém que não
quer abrir a boca; se falo, deixo-as também, porque toda palavra pronunciada permanece e pode reaparecer a qualquer momento, com ou sem aspas.

(Italo Calvino. Se um viajante numa noite de inverno)

 

Trad. Nilson Moulin

A Natureza é um templo em que vivas pilastras
deixam sair às vezes obscuras palavras;
o homem a percorre através de florestas de símbolos
que o observam com olhares familiares.

Como longos ecos que de longe se confundem
numa tenebrosa e profunda unidade,
vasta como a noite e como a claridade,
os perfumes, as cores e os sons se correspondem.

(…)

(Baudelaire. “Correspondências”)

Trad. Gilberto Mendonça Teles

As seis propostas de Calvino

Nas conferências que teria proferido na Universidade de Harvard (ano letivo 1985-86), publicadas postumamente como Seis propostas para o próximo milênio. Lições americanas (1990), Italo Calvino, na abertura, diz:

“Quero pois dedicar estas conferências a alguns valores ou qualidades ou especificidades da literatura que me são particularmente caros, buscando situá-los na perspectiva do novo milênio.” (p. 11).

leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade; a sexta proposta ficou sem ser desenvolvida: consistency

Calvino visitou a literatura desde Ovídio, Boccaccio, Shakespeare, Leopardi, passando por seus contemporâneos como Jorge Luis Borges, sem deixar de lado a mitologia e as narrativas medievais, e buscando situações em sua própria obra.

Releituras à luz de Calvino

Retomo alguns nomes da Literatura brasileira, do Modernismo* ao século XXI, procurando verificar a presença dos valores citados por Calvino.

Verifico, em outras manifestações artísticas, essa mesma demanda de uma nova linguagem na obra de arte.

As qualidades conceituadas por Calvino passam a ser valores estéticos e não apenas literários.

*Tomo como marco histórico do modernismo brasileiro a realização da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, em fevereiro de 1922. (Bosi, 1995)

Hipótese: os criadores buscam nova linguagem, marcada pela liberdade de expressão, pela abordagem de novas temáticas, pelo retorno a velhos materiais renovados na expressão da contemporaneidade, e por uma nova atitude estética diante da modernidade, da globalização.

Modernistas brasileiros da primeira hora e em sintonia com as vanguardas históricas do início do século XX:

- atitude estética que rompesse com o penumbrismo fin de siècle,

- busca de novas formas de expressão, capazes de refletir ou de estar em sintonia com o tempo da máquina, da velocidade, da fábrica, da eletricidade, do desenvolvimento da vida urbana, marcas da modernidade chegada às terras brasílicas.

Criadores do século XXI:

- aprofundamento das conquistas estéticas das vanguardas históricas, para falar das angústias humanas, em tempos de rede mundial de conflitos e de informação imediata.

A criação artística precisa usar uma linguagem provocadora de estranhamento em sua opacidade, recorrendo a expressões, temáticas, suportes, materiais, capazes de provocar prazer estético, mantendo a densidade na economia do texto.

Leveza – Rapidez – Exatidão – Visibilidade – Multiplicidade - Concisão

Mário de Andrade, em 1922:

- atitude internacionalista -- espírito cosmopolita

Mário de Andrade escolhe como objeto lírico a cidade de São Paulo e diz:

São Paulo! comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América.

(Mário de Andrade. “Inspiração”)

Síntese realista realizada por Tarsila do Amaral em

Tarsila do Amaral. São Paulo (1924)

Composição da paisagem urbana interiorizada no traço esquemático que lembra o infantil das casinhas e igrejinhas e árvores de um exercício escolar.

- tradição (igreja) - presença da máquina, da fábrica, do arranha-céu, da eletricidade - paisagem nada bucólica - espaço urbano - cena brasileira (graças à palmeira, um dos ícones postais das terras de Pindorama)

Leveza – Rapidez – Exatidão – Visibilidade – Multiplicidade

 

São Paulo! comoção de minha vida...

Mário de Andrade. “Inspiração”

Leveza, rapidez da síntese, exatidão da crítica, na sucessão de aspectos da cidade de São Paulo, em outro instante do poema citado acima:

Arlequinal!... Trajes de losangos... Cinza e ouro...
Luz e bruma... Forno e inverno morno...
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de Paris... Arys!
Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!...

Mário de Andrade.“Inspiração”

Leveza Rapidez Multiplicidade
Cosmopolitismo Metalinguagem

R a p i d e z

As embarcações singravam rumo do abismal! Descaminho...
Arroubos... Lutas... Setas... Cantigas... Povoar!
Ritmos de Brecheret!... E a santificação da morte!
Foram-se os ouros!... E o hoje das turmalinas!...

(Mário de Andrade. “Tietê” )

M u l t i p l i c i d a d e

 

Minha Londres das neblinas finas...
Pleno verão. Os dez mil milhões de rosas paulistanas.
Há neves de perfumes no ar.
Faz frio, muito frio...
E a ironia das pernas das costureirinhas
Parecidas com bailarinas....

(Mário de Andrade, “Paisagem N. 1”)

MULTIPLICIDADE

“Galicismo a berrar nos desertos da América” e no carnaval do Rio de Janeiro flagrado por Tarsila do Amaral, na leveza e na rapidez da síntese de

Tarsila do Amaral. Carnaval em Madureira (1924)

M U L T I P L I C I D A D E

Negros festejam à sombra de uma Tour Eiffel de fantasia, em uma paisagem cuja perspectiva recorre à superposição de formas, e que é notadamente brasileira na presença da palmeira, mas sem menção a arranha-céus, de modo a sugerir a cidade do passado, até mesmo nos Arcos da Lapa, e cercada pela muralha da Serra do Mar.

Nas duas composições de Tarsila, vemos um forte acento lúdico (nas cores, nas formas esquemáticas), uma vez que os espaços representados estão interiorizados; esse ludismo de Tarsila contribui para a leveza das cenas e permite a síntese na livre reunião da multiplicidade de sugestões da realidade.

Calvino lembra o peso como valor oposto à leveza, salientando que tal característica não significa menor valor estético, mas que nos leva a apreciar a leveza.

Situação exemplar
Mário de Andrade: peso da paisagem urbana em

“Os homens passam encharcados...
Os reflexos dos vultos curtos
Mancham o petit-pavé...”

Contraste com a leveza de

“lírico plátano de rendas mar”
(...)
As rolas da Normal
Esvoaçam entre os dedos da garoa...”

 


Chove?
Sorri uma garoa cor de cinza,
Muito triste, como um tristemente longo...
A casa Kosmos não tem impermeáveis em liquidação...
Mas neste largo do Arouche
Posso abrir meu guarda-chuva paradoxal,
Este lírico plátano de rendas mar...

Ali em frente... – Mário, põe a máscara!
- Tens razão, minha Loucura, tens razão.
O rei de Tule jogou a taça ao mar...

Os homens passam encharcados...
Os reflexos dos vultos curtos
Mancham o petit-pavé...
As rolas da Normal
Esvoaçam entre os dedos da garoa...
(E si pusesse um verso de Crisfal
No De Profundis?...)
De repente
Um raio de Sol arisco
Risca o chuvisco ao meio.

(Mário de Andrade. “Paisagem N. 3”)

Os versos de Mário de Andrade oferecem traços da vida urbana de São Paulo, demonstrando visibilidade de aspectos múltiplos, em breves pinceladas. O toque de leveza está na lembrança do “verso de Crisfal”, cuja menção altera a paisagem do “De Profundis”, vista, então, como iluminada e leve - "Um raio de Sol arisco/Risca o chuvisco ao meio."- e já fragmentada em sua recente modernidade*.

Leveza – Rapidez – Exatidão – Visibilidade – Multiplicidade

*Sobre a fragmentação que caracteriza a modernidade, lembro Berman (2005).

Tarsila do Amaral - peso da vida urbana na modernidade

Tarsila do Amaral. Operários (1924)

Paisagem urbana – Paisagem humana
- não há leveza -
(modernidade)

No lugar de cores primárias (que remetem à alegria, à festa, ao lúdico), a artista carregou no ocre das figuras humanas, que se tornam anônimas no compacto da composição geométrica, tendo ao fundo o cinzento da produção industrial (fumaça na chaminé). Progresso e despersonalização são substâncias da crítica de Tarsila do Amaral, que, graças à visibilidade e à multiplicidade, não precisa de um prolixo manifesto revolucionário. O peso da composição, múltipla de significados, assegura a permanência de sua significação na globalização do século XXI.

Exatidão – Visibilidade – Multiplicidade

Leveza no bonde de Oswald de Andrade

São Paulo – 1920

Rio de Janeiro - 1920

O transatlântico mesclado
Dlendlena e esguicha luz
Prostretutas e famias sacolejam

(Oswald de Andrade. “Bonde”)

“Dlendlena” >>> imagem sonora do sininho que era usado como advertência (partida, parada – e com função de buzina), mas que também remete ao deslizar da máquina sobre os trilhos. O neologismo oswaldiano imprime leveza ao quadro

Bonde - veículo urbano >>> barco deslizante sobre a água (“transatlântico”)

Transatlântico >>> lembrança cosmopolita - contato com a Europa

Multiplicidade da cidade grande ("transatlântico mesclado" - "Prostretutas e famias") - invenção de uma palavra (“Prostretutas”) – cidade que se sabe afastada dos centros mais civilizados, graças ao registro popular brasileiro “famias”.

E lá vai o bonde, oferecendo a leveza da luz (“esguicha luz”), enquanto continua seu trajeto, graças à ausência de pontuação.

Tarsila do Amaral. A Gare. 1924

E lá vai chegando ou partindo o trem de Tarsila do Amaral em A Gare (1924), colorida para dar lugar à fantasia que alimenta a composição de um trenzinho de brinquedo em uma estação que remete às estações de Paris , desde o título da obra: A Gare.

Galicismo marcado por elementos marcantes da vida urbana a chaminé, a fábrica, a eletricidade.

 

LEVEZA no trenzinho de Tarsila do Amaral.

MULTIPLICIDADE de elementos da paisagem urbana.

VISIBILIDADE de elementos da modernidade.

A cidade, a máquina, o homem comum e anônimo, as criaturas da vida urbana, sem tinturas de nobreza ou de heroicidade >>> Modernismo - Século XX

Contemplação poética das experiências humanas >>> com leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade.

Arte da síntese

As embarcações singravam rumo do abismal! Descaminho...
Arroubos... Lutas... Setas... Cantigas... Povoar!
Ritmos de Brecheret!... E a santificação da morte!
Foram-se os ouros!... E o hoje das turmalinas!...

(Mário de Andrade. “Tietê”)

Mário de Andrade retoma a História, desde a chegada dos portugueses - “As embarcações singravam rumo do abismal! Descaminho...” - à expansão do domínio da metrópole portuguesa ("" Povoar!") até o desencanto com a contemporaneidade - “o hoje das turmalinas!...”

Toda a aventura bandeirante: “Arroubos... Lutas... Setas... Cantigas... Povoar!”

A entrada na modernidade é trazida do ponto de vista estético - “Ritmos de Brecheret!..." - marcada com “sacrifício”, diante da História e da mudança de atitude estética, nem tão bem vista pela crítica da época, que recebeu tão mal os trabalhos de Anita Malfatti *, em 1917 - "E a santificação da morte!”

* Sobre a exposição de Anita Malfatti, em 1917, ver Brito. O estopim do modernismo. 1971, p. 40-72.

RAPIDEZ E CONCISÃO

Italo Calvino traduziu em valores os objetivos e as metas da literatura para este milênio, e como parte da natureza do texto literário.

É impossível saber o que Calvino diria sobre a Consistency.

Se algum teórico tentar estabelecer esse conceito, será uma nova formulação, que jamais poderá traduzir o pensamento de Calvino, ainda que pretenda preencher uma falta.*

Portanto, interessa-me uma nova proposição.

* Lima, 2008.

“Arroubos... Lutas... Setas... Cantigas... Povoar!”

(Mário de Andrade)


“Ritmos de Brecheret!... E a santificação da morte!”

(Mário de Andrade)


História e crítica em 2 versos.

A aventura bandeirante em um monumento.

Victor Brecheret. Monumento às Bandeiras. 1954 *

* O projeto foi apresentado em 1920.

Retomando as formulações de Calvino, vejo a possibilidade de uma sétima proposta e sobre a qual ele não se deteve em anotações específicas.

Discorrendo sobre a rapidez, Calvino cita Leopardi:

A rapidez e a concisão do estilo agradam porque apresentam à alma uma turba de idéias simultâneas, ou cuja sucessão é tão rápida que parecem simultâneas, e fazem a alma ondular numa tal abundância de pensamento, imagens ou sensações espirituais, que ela ou não consegue abraçá-las todas de uma vez nem inteiramente a cada uma, ou não tem tempo de permanecer ociosa e desprovida de sensações.”

(Apud Calvino, p. 55)

Mais adiante, ainda falando da rapidez, diz Calvino:

A concisão é apenas um dos aspectos do tema que eu queria tratar, e me limitarei a dizer-lhes que imagino imensas cosmologias, sagas e epopéias encerradas nas dimensões de um epigrama. Nos tempos cada vez mais congestionados que nos esperam, a necessidade de literatura deverá focalizar-se na máxima concentração da poesia e do pensamento. (grifo meu)
Borges e Bioy Casares organizaram uma antologia de Histórias breves e extraordinárias. De minha parte, gostaria de organizar uma coleção de histórias de uma só frase, ou de uma linha apenas, se possível. Mas até agora não encontrei nenhuma que supere a do escritor guatemalteco Augusto Monterroso: “Cuando despertó, El dinosauro todavia estaba allí” [Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá].

(Calvino, p. 63-64)

Interessado em falar de rapidez, Calvino não destacou a concisão como um valor a ser preservado na e pela literatura.

O exemplo por ele citado leva-me a crer que entendia concisão como brevidade do texto (“uma só frase, ou de uma linha apenas, se possível”).

Ou seja: compreendia a concisão como um dos constituintes da rapidez, e não como um valor a ser especial e particularmente cultivado e preservado no e pelo texto literário. *

* Lima, 2008

Texto artístico >>> unidade de significação >>> seus elementos entrelaçam-se, confundem-se, afirmam-se mutuamente, e só didaticamente podem ser analisados, de modo isolado, seus valores ou qualidades ou especificidades.*

* Lima, 2008

Os valores conceituados por Calvino aproximam-se, confundem-se, reafirmam-se, ainda que nem todos possam ser verificados em todos os textos.

Cada texto pode sempre guardar seus procedimentos preferidos para a abordagem do leitor, escolhendo uma estratégia ou combinando diversas estratégias – ou os valores conceituados por Calvino. *

* Lima, 2008

"Arroubos... Lutas... Setas... Cantigas... Povoar!"

Sobre este verso disse o poeta-teórico do Modernismo brasileiro, em seu “Prefácio interessantíssimo” :

Estas palavras não se ligam. Não formam/ enumeração. Cada uma é frase, período elíptico,/ reduzido ao mínimo telegráfico./Si pronuncio “Arroubos”, como não faz parte/ de frase (melodia), a palavra chama a atenção/para seu insulamento e fica vibrando, à espera/duma frase que lhe faça adquirir significado e/ QUE NÃO VEM. “Lutas” não dá conclusão/ alguma a “Arroubos”; e, nas mesmas condições,/não fazendo esquecer a primeira palavra, fica/vibrando com ela. As outras vozes fazem o/ mesmo. Assim: em vez de melodia (frase/gramatical) temos acorde arpejado, harmonia,/ - o verso harmônico.

(ANDRADE, 1987, p. 68-69)

Mário de Andrade, interessado em aspectos técnicos vindos do futurismo, explica seu verso substantivo, que prima pela rapidez das informações que se sucedem, como acumulação de significados, a partir de palavras aparentemente soltas.

Como cada palavra não esquece a anterior, o conjunto ganha a densidade na lembrança da aventura bandeirante.

Portanto, não basta verificar a rapidez da expressão poética.
É preciso apreender, além do plano sintagmático, a verticalidade da significação (paradigma), realizada na síntese da expressão.

Sendo assim, o valor da concisão não se esgota na brevidade do texto.

geração 60

a carta branca do montilla
não era de alforria.

o papagaio era calado.
o cuba-libre nos prendia.

e em barris de carvalho
o tempo envilecia.

(Sérgio de Castro Pinto)

Os versos de Castro Pinto, que desde o início remetem à colonização do Novo Continente, lembram Espanha e Portugal nas Américas, aludindo ao paraíso buscado, contido na lembrança do papagaio (Robinson Crusoe???) do rótulo da bebida (rum Montilla), que também lembra o Caribe da ilha da utopia (“o papagaio era calado./o cuba-libre nos prendia”) e os piratas da rota das Américas na exploração de matérias primas (“montilla”, “barris de carvalho”).

Traduzem a história de uma geração: “o cuba-libre” remete à bebida que se tornou emblemática das noitadas em que se reformava o mundo..., rumo ao socialismo..., e que custava pouco para o bolso dos universitários militantes contra a ditadura militar, em busca de um admirável mundo novo.

Falam da perda da utopia, cultivada por uma geração como compromisso político (“o cuba-libre nos prendia.”), no jogo com a “carta branca” - garantia da qualidade do rum, que, no poema, remete à liberdade de idéias e de ação, ao desejo de liberdade e à falação nas mesas dos bares, regados pelos goles de rum com Coca-cola -, e com a carta de alforria dos escravos (concedida pelo senhor ou comprada pelo cativo), como sonho de liberdade, que culmina na alusão ao padrão de garantia de qualidade da promessa de futuro (“e em barris de carvalho”), que não tem esperança, que se perdeu na perda do sonho, na marcha da História, na desilusão de uma geração (“geração 60”) anunciada no título e que “e em barris de carvalho/ o tempo envilecia.”

Muitos textos cruzam-se em “geração 60”, conferindo densidade ao poema. *

História, travessia de uma juventude, comentário crítico, são significados a serem vistos no poema de Sérgio Castro Pinto, interpretados no bico de pena de Flávio Tavares:

Flávio Tavares. S. título. (1996)

* Trechos de Lima, 2008.

Concisão: sétima proposta

Quando Calvino se refere ao que ele nomeia como “hiper-romance” (usando Georges Perec como exemplo), diz que se trata do “romance extremamente longo mas construído com muitas histórias que se cruzam” e louva os grandes ciclos à la Balzac. (Calvino, 1990, p. 135).

A poesia não precisa, necessariamente, alongar-se para ser construída com muitos textos que se cruzem, para ser hipertexto (Genette, 1982), como se pode verificar no texto de Castro Pinto.

E como pode ser encontrado em Oswald de Andrade:

Escapulário

No Pão de Açúcar
De Cada Dia
Dai-nos Senhor
A Poesia
De Cada Dia

(Oswald de Andrade)

Versos livres e brancos - acento lúdico - lirismo irreverente - metalinguagem.

Pão de Açúcar (Rio de Janeiro)

Formas pão-de-açúcar

Forma e pão-de-açúcar

Pães de açúcar

Brasilidade (Pão de Açúcar >> “cartão postal” do Rio de Janeiro >> Brasil)

HIPERTEXTO – construído com outros textos;
estabelece relações com outros textos:

- História (colonização, engenhos de açúcar)
- Tradição (escapulário, oração)
- Culinária (pão, pão doce)
- Geografia (paisagem, monte do Rio de Janeiro)

C O N C I S Ã O >>>

Escapulário

No Pão de Açúcar
De Cada Dia
Dai-nos Senhor
A Poesia
De Cada Dia

(Oswald de Andrade)

Inspirada "oração": "Dai-nos Senhor/A Poesia/De Cada Dia" >>> Poesia = Paz

(inspiração para o século XXI)

CONCISÃO: capacidade de o texto falar sobre vários assuntos e remeter a outros textos ou a diversos elementos culturais, em um exercício realizado no espaço hipertextual, cultivando ou não a rapidez da expressão, com o objetivo de nova significação.*

* Lima, 2008

Helena Parente Cunha >>> trânsito no espaço hipertextual -- retoma a poesia da Idade Média

BLOQUEIO

onde sopra agora o vento
que levava o que eu dizia?

onde se perderam os nomes
que tantas coisas tiveram?

onde ficaram as coisas
chamadas em minha voz?

e minha voz
como assim subtraída?

gosto de pedra
na saliva em minha língua

as palavras me emparedam
onde houvera minha boca

(Helena Parente Cunha)

O texto fala do passado – do tempo perdido – reflexão sobre a morte – presença da morte (pedras – emparedam) - multiplicidade de elementos (vento – nomes – coisas) – leveza e peso (vento X pedras)

HIPERTEXTO

ubi sunt...?

François Villon: "Ballade des dames du temps jadis"

C O N C I S Ã O

Concisão >>> decorre da reunião de textos diversos ou de uma variedade de elementos culturais, que não são reescritos e nem discutidos, em obediência à economia do texto.

O significado do texto (hipertexto) é novo, e ao mesmo tempo guarda todos os significados de que se alimenta, o que lhe confere densidade. *

Esse cruzamento de textos pode ser construido, propositalmente, com materiais radicalmente diferentes

poema <–> pedras, por exemplo

* Lima, 2008

TEXTO A

Por isto me fiz pedra:
para que Deus se afie.

(Carmen Vasconcelos)

TEXTO B

Valéria Françolin. Colar em ouro e turmalina bruta (2010)

Foto: Bruno Póvoa

 

LEVEZA - DESPOJAMENTO - SIMPLICIDADE de LINHAS - LUXO - REQUINTE

JOIA: poder, riqueza, expressão do feminino (colar)

“Ouvi muitas vezes essa pergunta: Como surge a inspiração? Já a respondi de muitas formas. Hoje, depois de meses de vazio, tenho outra resposta: ela não surge, ataca. Saía de um encontro de escritores com o novo livro de Carmen Vasconcelos nas mãos. Abri-o premonitoriamente e li: 'nada (sic) dentro de mim me anima a desafiar o acabar das coisas'. Assim, simples e naturalmente, imagino a primeira peça da minha nova coleção, que não poderia ter outro nome senão Poesia.”

(Françolin. Catálogo da exposição “Joias contemporâneas”, Natal, nov. 2010.)


 

TEXTO A

Nem a delicadeza das harpas,
nem a fúria dos arpões.
Ninguém dentro de mim me anima
a desafiar o acabar das coisas.

(Carmen Vasconcelos)

 

TEXTO B

Valéria Françolin. Brinco em ouro fosco (2010)

Foto: Bruno Póvoa

DESPOJAMENTO - SIMPLICIDADE de LINHAS - LUXO - REQUINTE


TEXTO A


improvis
ar
até o
que se
respi
ra

(Adriano de Sousa)

TEXTO B

Valéria Françolin – Colar em prata e couro (2010)

Foto: Bruno Póvoa

RAPIDEZ - DESPOJAMENTO - LIBERDADE DE EXPRESSÃO (couro) - SIMPLICIDADE DE LINHAS
LUXO - REQUINTE

A comparação não resulta em concisão. *

A concisão identifica-se com a metáfora. *

 

* Lima, 2008.

Desde antes da tradição do hai kai, passando pelos Calligrammes de Apollinaire, por Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Ascenso Ferreira, Haroldo de Campos, Paulo Leminsk, Sérgio de Castro Pinto, Carmen Vasconcelos, Tarsila do Amaral, Valéria Françolin e tantos outros, a concisão tem sido buscada pelos artistas.

Do mesmo modo, as relações transtextuais fazem parte da tradição da arte em várias eras; basta lembrar Boccaccio ou Picasso, para termos essa certeza.

Temos visto, até aqui, a transtextualidade em sua realização hipertextual, em situações como:
- Poemas e obras de artes plásticas (t B) , que trazem textos do contexto histórico, social, político, tecnológico da modernidade (t A)
- Poema (t B) que remete a outros textos literários (t A)
- Arte (t B) criada a partir do texto literário (t A)
- Joias (t B) criadas a partir de poemas (t A)

Além da leveza ou da rapidez ou da multiplicidade ou da exatidão ou da visibilidade que caracterizam essas criações,

a concisão marca os vários hipertextos que foram vistos.

Convenção: t A = primeiro texto; t B = hipertexto (segundo texto)

Um exemplo de literatura criada a partir de obra de arte:

TEXTO A

Paul van Dijck. Bronze. S. título, 19...

Foto: Sônia van Dijck

TEXTO B


TEATRO

ritos de encontro,
na cena tão breve,
elenco e plateia,
do único ato.

(Sônia van Dijck)

Assim publicado in DIJCK, Sônia van. (Re)Versos, 2008

HIPERTEXTO - CONCISÃO

t A / t B >>> leveza - rapidez - exatidão - visibilidade - CONCISÃO

t B = guarda valores de t A e amplia sua significação

Nesses tempos de tecnologia em busca da comunicação eficiente e eficaz, com o máximo de informação – e já estamos no século XXI –, a concisão é um dos valores da arte, que se afirma como desafio para os criadores, nas trilhas da hipertextualidade, e que deve ser preservado.

Afinal, o texto artístico é estimado como metafórico.

Concisão:
sétima proposta para a arte deste milênio.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Mário de (1987). Poesias completas. Ed. Crítica de Diléa Zanotto Manfio. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo.

ANDRADE, Oswald de (1982). Cadernos de poesia do aluno Oswald. Poesias reunidas. São Paulo: Círculo do Livro.

BERMAN, Marshall (2005). Tudo que é sólido desmancha no ar. Trad. Carlos Felipe Moisés e Ana Maria L. Ioratti. São Paulo: Companhia das Letras.

BOSI, Alfredo (1995). História concisa da literatura brasileira, 3ª ed. São Paulo: Cultrix.

BRITO, Mário da Silva (1971). Antecedentes da Semana de Arte Moderna, 3ª ed., rev. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

CALVINO, Italo (1990). Seis propostas para o próximo milênio. Lições americanas. Trad. Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras.

________________ (2003). Se um viajante numa noite de inverno. Trad. Nilson Moulin. São Paulo: Planeta De Agostini.

DIJCK, Sônia van (2008). (Re)Versos. São Paulo: Navegar.

FRANÇOLIN, Valéria (2010). Joias contemporâneas. Natal, nov. Catálogo de exposição.

GENETTE, Gérard (1982). Palimpsestes: la littérature au second degré. Paris : Seuil (Coll. Poétique).

LIMA, Sônia Maria van (2008). Concisão. Sétima proposta para este milênio. São Paulo: Navegar.

PINTO, Sérgio de Castro (1983). Domicílio em trânsito. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

------------------------ e TAVARES, Flávio (1996). A quatro mãos. João Pessoa: ANPOLL; Ed. Universitária.

Na web

http://www.oulipo.net/oulipiens/document2565.html - acesso ago. 2008

http://www.soniavandijck.com

http://www.joiabr.com.br/artigos/acont.html - acesso jan. 2011

http://www.katesjewelry.com.br/ - acesso fev. 2011

http://www.suapesquisa.com/biografias/mariodeandrade/ - acesso ago. 2008

http://pt.wikipedia.org/wiki/Oswald_de_Andrade - acesso ago. 2008

http://www.sobresites.com/poesia/poeta/sergio-castro-pinto.html - acesso nov. 2010

http://www.valeriafrancolin.com.br/colar.php - acesso fev. 2011

Junho 2011

Imagens:

1) Capturadas na internet.

2) Fotos: Bruno Póvoa; Sônia van Dijck

3) Bico de pena Flávio Tavares. In: A quatro mãos. 1996. Original Col. Sérgio de Castro Pinto

Página para uso didático. Reprodução proibida.*

Criação da página: Sônia van Dijck

* Esta página não tem finalidade comercial. Se algum autor aqui citado ou seu herdeiro se sentir prejudicado, basta fazer contato com a RESPONSÁVEL , e o texto ou a imagem sairá imediatamente da página.

 

Artigos
Contos
Entrevistas
Opiniões
Pesquisa
Poemas
Mapa do site

Disciplina ministrada no curso de pós-graduação

Literatura e Diversidade Cultural

Universidade Estadual de Feira de Santana (Bahia - Brasil)

- junho 2011 -