Artigos
Contos
Entrevistas
Opiniões
Pesquisa
Poemas
HOME
 
 

Os caminhos e as veredas multimídias

da escritura de

Sônia van Dijck

 

 

Maria Vilani de Sousa*

Sagarana e eu nascemos no mesmo ano. Em sertões diferentes, mas ambos sem mar, cheios de veredas de se achar e se perder. O mundo da infância e da adolescência de Guimarães Rosa tinha muito a ver com o meu. Li Sagarana ainda no colégio, como obrigação escolar, e só lembro de ter sentido espanto.
Esqueci Sagarana, enveredei por outras literaturas e eis que vou me encontrar novamente com Guimarães Rosa, via Rede Globo, através do amor de perdição de Riobaldo e Diadorim na minissérie, Grande Sertão: Veredas, em 1985. Logo depois, voltaria a Sagarana através de Vau da Sarapalha, na montagem do grupo Piolin. Aí veio de novo o espanto. E voltei a ler Guimarães Rosa. Mas só reli “Sarapalha”. A vida me puxou outra vez para outros autores e outros textos. Entretanto, a sensação de espanto se manteve.

 
Então foi a vez de “A terceira margem do rio”. Primeiro, o filme. Depois, o conto lido num contexto afetivo que anulou completamente meu Guimarães Rosa anterior. E tudo que havia naquele conto me pareceu puro espanto novamente. A pessoa que leu para mim deslizava sobre as palavras, possuía o texto. E aí o que era espanto virou encantamento. E o texto se apossou de mim por muito tempo até que a correnteza me levou de novo para outras margens e não li mais Guimarães Rosa. Mas o encantamento permaneceu.

Nunca tinha pensado em ler Guimarães Rosa criticamente. Até que me chega pelo correio um cd rom demo, de Sônia van Dijck, com seu estudo da escritura de Sagarana. E assim Guimarães Rosa vinha a mim mais uma vez pelo viés afetivo. Abri o cd e lá estava o “sezão” do que acompanha o livro recentemente lançado. O projeto, de novembro de 2002, já era interessante e logo me encantei com as palavras e as imagens dançando na tela do meu computador, ao som da trilha da Bachiana n. 5, de Villa Lobos. Só depois me detive no texto. Que era cheio de informações, minucioso, e com o selo de qualidade de tudo que Sonia van Dijck faz. Mandei e-mail para ela dizendo o quanto tinha gostado e, daí por diante, passamos a trocar figurinhas sobre o projeto e a torcer para vê-lo editado.
Mesmo de longe, acompanhei a feitura do cd, as modificações, o prazer com que ela trabalhava nele.

Depois, vieram as notícias sobre as negociações com o editor e, um belo dia, ela me diz que o livro está pronto e o lançamento marcado lá, em São Paulo. E antes que eu tivesse tempo de dar-lhe os parabéns, o livro me chega pelo correio, em forma de presente. Só então conheci o texto escrito.
Mas fui novamente direto para o cd rom, desta vez, definitivo. E lá estava o “sezão” de Sônia transformado em “sagarana”: um trabalho feito com cuidado de artista e a seriedade da pesquisadora competente que ela é. O cd abre com a folha de rosto de Sezão, o embrião de Sagarana, escrito em 1937 mas nunca publicado pois, quando acontece a publicação, o título já é Sagarana. Em seguida vêm o sumário da 1ª edição e as capas de outras edições de Sagarana. Começando pelas de Geraldo de Castro, da 1ª e 2ª edições, publicadas em 1946, pela Editora Universal (a 1ª saiu em abril - a 2ª estava nas livrarias em julho de 1946) passando pela capa de Santa Rosa, até as capas de Poty, que assina a capa da 5ª edição, retocada, forma definitiva. Tudo recebeu um tratamento de multimídia.
Está lá a explicação da origem do nome Sagarana, que segundo Sônia van Dijck, citando Guimarães Rosa, em entrevista a Ascendino Leite, foi “filado” de um sufixo da língua geral que se originou de uma língua do tronco tupi, o nheengatu, e quer dizer “coisa que parece saga”. O autor na mesma entrevista usou a palavra para significar “grande, longo(a), profundo(a), complexo(a)...” Há também trechos de “Sarapalha” e de “O burrinho pedrês”, a geografia desses dois contos, pois os demais, e que não estão estudados, têm outra geografia, os movimentos da escritura, a bibliografia, a dedicatória. E através da ficha técnica se pode observar que Sônia van Dijck trabalha tão bem com a palavra multimídia como com a palavra escrita, pois todo o projeto é dela.
A trilha agora é Ladaíndia, de Paulo Ró, interpretada por Fernando Pintassilgo, cedida especialmente para o projeto e que faz par perfeito com o texto de Guimarães.
O livro é elegante e sofisticado, da capa ao texto. O belo projeto gráfico de Rubenal Hermano Santos torna a leitura ainda mais atraente porque livro, além de ler, a gente também gosta de olhar e tocar. Este nasceu de uma conferência que a autora fez em Minas Gerais, em 2002. Desde Sezão, passando pelas folhas soltas, Sônia van Dijck mostra como Guimarães Rosa foi expurgando uma coisa aqui outra acolá até chegar ao que “passou a ser Sagarana”.
A escritura do livro está toda lá. E nas citações, onde ela transcreve Guimarães Rosa falando sobre seu processo de escrever, a gente não pode deixar de observar o contraste com o trabalho multimídia de Sônia:

“O livro foi escrito – quase todo na cama, a lápis, em cadernos de 100 folhas – em sete meses; sete meses de exaltação, de deslumbramento. (Depois, repousou durante sete anos; e em 1945 foi ‘retrabalhado’, em cinco meses, cinco meses de reflexão e de lucidez)” (NOTA)

Lendo seu texto dá para se voltar no tempo e imaginar Guimarães Rosa com lápis e papel na mão a trocar o “Sezão” por “Sarapalha”, a “oportunidade” pela “hora” de Augusto Matraga, corrigindo o que lhe parecia supérfluo, na “angústia de evitar a chapa, o chavão, a frase-feita”, na busca da “palavra exata”, como ele dizia. Minúcias são descritas, causos são contados e lá vamos nós galopando com ela no dorso de Sagarana.
A crítica é rigorosa, séria, bem documentada. A escrita tem um toque todo pessoal: Sônia van Dijck cita amigos que contribuíram para a sua pesquisa, agradece até em notas de rodapé. E conta curiosidades como o fato de Sagarana ter se tornado nome de restaurantes, livrarias e sebos em todo o país.
Gostoso de ler como um prato da cozinha mineira, esta Escritura de Sagarana, de Sônia van Dijck, “dá matéria para uma sagarana de meditação”, como disse Guimarães Rosa, falando sobre a poesia de Drummond, na citada entrevista a Ascendino Leite e transcrito por Sônia.
Texto e cd se complementam na escritura de Sônia, como ela mesma diz na apresentação do livro. Mas são materiais independentes e propiciam duas viagens distintas ao universo de Guimarães Rosa. E é uma viagem prazerosa, como ela queria.
Ao final da leitura, a gente lembra do poema de Carlos Drummond de Andrade, "Um chamado João", e se pergunta:
"João era fabulista?
fabuloso?
fábula?
Sertão místico disparando
no exílio da linguagem comum?"
E o espanto e o encantamento iniciais permanecem em mim.
Como disse Guimarães, citado por Sônia: “as palavras têm canto e plumagem”. Então deixemos que elas falem por si.

__________________________

NOTA
1. Publicado no Correio da Manhã, de 22.11.1967, e reproduzido em: Em Memória de João Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: José Olympio, 1968.

* Mestra em Letras (UFPR), Professora da Universidade Federal da Paraíba

VOLTAR OPINIÕES

Lido no Restaurante Sagarana,

em João Pessoa (PB-Brasil), 22 ago. 2003

Publicado em

D. O. leitura, São Paulo, IMESP, ano 21, n. 10, out. 2003, p. 7-9.

Correio das artes, João Pessoa, 15-16 nov. 2003, p. 7.

© Copyright by Maria Vilani de Sousa, 2003

Foto: Geraldo Profeta Lima

Midi: O bolero (Ravel)

Artigos
Contos
Entrevistas
Opiniões
Pesquisa
Poemas
HOME