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SÔNIA van DIJCK

Este é um espaço dedicado à Literatura

O FEMININO e o MASCULINO na Literatura

ANAYDE BEIRIZ – “A PANTERA DOS OLHOS DORMENTES”

Maria das Vitórias de Lima Rocha*

Era assim que os amigos a chamavam e foi assim que o escritor Marcos Aranha (2005) intitulou o livro que escreveu sobre a poetisa paraibana,

Para ela, o poeta Vanildo Brito escreveu a “Pavana para Anayde Beiriz”, em 1983:

“Anayde Beiriz, a mão do tempo
Refez a tua face peregrina
Não dormes mais no esquecimento
Vives no sempre, fábula menina.”

Anayde nasceu no dia 18 de fevereiro de 1905, na Parahyba, a cidade que viria a se chamar João Pessoa, e faleceu no dia 22 de outubro de 1930, no Recife, onde foi sepultada, no cemitério de Santo Amaro.

Anayde conheceu os ardores de uma paixão amorosa que a conduziram à morte. Por amor, viu-se envolvida na tragédia política que causou a morte do governador da Parahyba, João Pessoa, e também a do seu amado, João Dantas. Seu nome, sua reputação, sua vida privada foram arrastados pela violenta maré de ódio e sangue que abalou a Paraíba naquele ano. Segundo Lau Siqueira, poeta gaúcho adotado pela Paraíba, “Anayde foi “assassinada” naquele 22 de setembro ...pela hipocrisia, pela decadência e pelas mentiras do nosso tempo” (ARANHA, p. 40).

Além de amante, amada, namorada de João Dantas, com quem vivenciou um tórrido romance ao longo de dois anos, Anayde exerceu o magistério numa vila de pescadores de Cabedelo, escreveu poemas, colaborou com jornais da Parahyba, e acompanhou ativamente o movimento cultural da cidade. Seu comportamento ousado muitas vezes lhe valeu a censura dos seus contemporâneos na provinciana Parahyba do início do século XX, mas também conquistou inúmeros admiradores. Seu nome é muitas vezes associado ao de Patrícia Galvão, a Pagu, escritora ligada ao grupo de vanguarda que atuou na Semana de Arte Moderna de 22, o que nos faz perguntar: tivesse Anayde vivido em outro contexto, num centro mais avançado, teria sofrido as agruras que sofreu? Até a sua forma de vestir, o penteado que passou a adotar (um corte de cabelo à la garçonne), eram motivo de censura e chacota. Outro nome associado ao seu é o da poetisa carioca Gilka Machado (1893-1980), igualmente afeita a desafiar as tradições do seu tempo.

Também nascida sob o signo de Aquário, (no dia 12 de fevereiro) o signo dos iconoclastas, dos que vivem muito à frente do seu tempo, foi a escritora alemã nascida na Rússia, Lou Andréas-Salomé, (1861-1937) cujas ações e palavras destemidas adequam-se perfeitamente à situação vivenciada pela paraibana Anayde Beiriz:

“Ouse, ouse...tudo!
Não tenha necessidade de nada!
Não tente adequar sua vida a modelos,
Nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém e
Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.
Se você quer uma vida, aprenda...a roubá-la!
Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer.”

Mas a importância de Anayde não se reduz a sua associação com João Dantas nem foi ele o único homem que amou. Em seu livro, Marcos Aranha reproduz a copiosa correspondência amorosa trocada entre Anayde e Heriberto Paiva, um estudante de medicina e depois oficial da Marinha do Brasil, nos anos de 1925 e 1926. Essas cartas revelam seus sonhos românticos que precederam a avalanche que a levou ao seu trágico fim. Tinha luz própria, uma luz que irradia até os nossos dias, tendo inspirado poetas, cineastas e historiadores. Ela atuava nos círculos culturais da cidade, publicava poemas e artigos nos jornais da época e mantinha opiniões avançadas sobre vários assuntos palpitantes, como o voto feminino, o voto secreto e opinava sobre as melhores formas de governar.

Conforme vaticinou o poeta Vanildo Brito, “Não dormes mais no esquecimento”, pois, tendo abraçado causas políticas que nos são caras até hoje, Anayde é constantemente trazida de volta ao palco como fonte de inspiração para poetas e artistas contemporâneos, pois sua história não envelheceu. As trágicas histórias de amor são eternas, Shakespeare e Edgar Allan Poe que o digam.

Dentre as inúmeras obras inspiradas na vida e obra de Anayde, podemos citar os relatos históricos de José Joffily (Anayde: paixão e morte na revolução de 30. São Paulo: Record, 1983) e o de Marcos Aranha, (Anayde Beiriz: Panthera dos olhos dormentes. João Pessoa: Manufatura, 2005) já citado anteriormente; o filme de Tizuka Yamasaki, Parahyba Mulher Macho (1983), com um poderoso elenco que incluía os veteranos Claudio Marzo, como João Dantas e Walmor Chagas como João Pessoa e ainda a cantora e atriz Tânia Alves fazendo o papel de Anayde. Dentre os menos famosos (na época) figuravam o ator paraibano Fernando Teixeira, e os jovens atores Chico Dias e José Dumont, que atingiriam o estrelato alguns anos depois. O compositor Bráulio Tavares tem uma participação pequena mas bem significativa no filme, fazendo o papel de um repentista, que funciona como coro/narrador. O filme resultou num processo por parte dos familiares de Anayde, que não aceitaram seu forte teor erótico, exigindo uma retratação pública por parte da diretora. A sociedade paraibana, mais uma vez se dividiu entre os que aplaudiam a obra de Yamasaki e os que a execravam. Até depois de morta, mais de meio século depois, Anayde ainda conseguia abalar a “moral e os bons costumes” da vitoriana Paraíba....

Outras obras foram produzidas, como, por exemplo, Anaydes, um filme super-8 rodado pelo multi-artista, dublê de professor, Jomard Muniz de Brito, no início da década de 80, com atores amadores oriundos do curso de Educação Artística da UFPB. Anos depois, um discípulo de Jomard, o dramaturgo Paulo Vieira, estrearia a peça intitulada Anayde, em 1992. Sem compromisso com a verdade histórica (qual é mesmo essa verdade? Ainda hoje se debate o assunto acaloradamente), Paulo criou um drama poético centrado no par romântico Anayde + João Dantas. Protagonizado pela jovem atriz Ana Luiza Camino e dirigida pelo experiente Fernando Teixeira, a peça teve uma temporada de sucesso no Teatro Santa Rosa.

Também ligado à UFPB, o professor Dinarte Varela Bezerra defendeu uma tese de doutoramento na UFRN, em 2008, cujo tema “1930, a Paraíba e o inconsciente político da revolução: a narrativa como ato socialmente simbólico”, que também contém relevantes informações sobre a personagem histórica e ficcional Anayde Beiriz e está acessível na internet. Além desta tese, consta também que a professora da UFPB Ana Maria Coutinho Bernardo defendeu tese na UFPE, enfocando os fatos conturbados de 30, tratando Anayde como escritora e professora.

Além dessas contribuições, gostaríamos de registrar também o cordel de Marco di Aurélio, uma produção independente, publicado por ocasião do centenário de Anayde Beiriz, em 2005.

Assim, professores, escritores, políticos, o movimento de mulheres todos rendem homenagens a Anayde Beiriz, incompreendida, demonizada, perseguida, caluniada, amada e odiada pelos seus contemporâneos e depois de meio século, reconhecida como fonte de inspiração. Só nos resta repetir as palavras do filósofo/poeta norte-americano Ralph Waldo Emerson: “Ser grande é ser incompreendido”, mas não necessariamente esquecido, como prova o escritor Marcos Aranha na sua crônica publicada no jornal CORREIO DA PARAÍBA, em 21 de fevereiro passado. O aniversário de Anayde pode ter passado em branco, mas não para todos. Enquanto houver pessoas preocupadas, como Marcos, em preservar sua memória, Anayde viverá, e estará indelevelmente inscrita na nossa lembrança seja como nome de praça, de biblioteca, de escola pública e até sob a forma de um diploma agora concedido pela Assembléia Legislativa da Paraíba às mulheres que prestaram serviços relevantes em favor da mulher paraibana.

Quem passa pela movimentada rua Santo Elias, no centro de João Pessoa, ainda pode ver a casinha onde morou Anayde Beiriz, tombada pelo Patrimônio Histórico da cidade. Ela também saiu da vida para entrar para a história...

Fevereiro de 2010

Leia também PANTHERA FERIDA DE MORTE

* Poeta. Professora da Universidade Estadual da Paraíba.

In: CONTRAPONTO, João Pessoa, 5 a 18 mar. 2010. Especial. B, p. 7.

© Copyright by Maria das Vitórias de Lima Rocha, 2010

Imagens capturadas na internet

Midi: Concerto de Aranjuez - trecho (Joaquín Rodrigo)

LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998

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